{"id":53283,"date":"2011-10-11T11:03:39","date_gmt":"2011-10-11T11:03:39","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/10\/11\/ruy-cinatti-o-poeta-nomada-que-encontrou-deus\/"},"modified":"2011-10-11T11:03:39","modified_gmt":"2011-10-11T11:03:39","slug":"ruy-cinatti-o-poeta-nomada-que-encontrou-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ruy-cinatti-o-poeta-nomada-que-encontrou-deus\/","title":{"rendered":"Ruy Cinatti: O poeta n\u00f3mada que encontrou Deus"},"content":{"rendered":"<p><em>&laquo;A solid&atilde;o, e o que h&aacute; de mais aberto:<\/em><\/p>\n<p><em>Rosa por desfolhar,<\/em><\/p>\n<p><em>Quero-a eu agora &ndash; e ao largo vento<\/em><\/p>\n<p><em>A roda dos sonhos confiar&raquo;<\/em><\/p>\n<p><em>(In: &laquo;Livro do N&oacute;mada Meu Amigo&raquo;)<\/em>&nbsp;<\/p>\n<p>N&atilde;o tinha medo da solid&atilde;o e n&atilde;o se subordinava a ningu&eacute;m. Conviveu com poetas e pol&iacute;ticos mas n&atilde;o fez parte de qualquer escola ou movimento. N&atilde;o se casou e a descend&ecirc;ncia que deixou s&atilde;o poesias. Referimo-nos a Ruy Cinatti Vaz de Monteiro Gomes falecido na noite de 11 para 12 de outubro de 1986.<\/p>\n<p>Passados 25 anos da morte do poeta nascido num elegante bairro eduardiano de Londres, a 8 de mar&ccedil;o de 1915, conv&eacute;m recordar alguns passos e tra&ccedil;os biogr&aacute;ficos de Ruy Cinatti que legou o seu esp&oacute;lio &agrave; Casa do Gaiato.<\/p>\n<p>Com uma tese sobre &laquo;A Condi&ccedil;&atilde;o Humana em Ruy Cinatti&raquo;, o padre Peter Stilwell refere numa entrevista ao jornal &laquo;P&uacute;blico&raquo; (20 de abril de 1995) que o poeta &ldquo;n&atilde;o &eacute; o homem que est&aacute; preocupado em conhecer de cor os elementos de um catecismo para os traduzir depois numa poesia. &Eacute; algu&eacute;m que, desafiado pelo incompreens&iacute;vel da f&eacute;, vai &agrave; aventura, a tentar descobrir que mais vida h&aacute; por detr&aacute;s dessas formula&ccedil;&otilde;es&rdquo;.<\/p>\n<p>&laquo;N&oacute;s N&atilde;o Somos Deste Mundo&raquo; &eacute; o primeiro livro de poesia de Ruy Cinatti que sai a p&uacute;blico em 1941. Um ano depois publica &laquo;Anoitecendo a Vida recome&ccedil;a&raquo; e lan&ccedil;a a revista &laquo;Aventura&raquo;, da qual organizar&aacute; cinco n&uacute;meros at&eacute; 1944. Nos di&aacute;rios mais antigos, a f&eacute; n&atilde;o surge de &ldquo;forma expl&iacute;cita. Quanto muito podemos identific&aacute;-la com uma sensibilidade religiosa difusa, presente na admira&ccedil;&atilde;o que revela pela natureza e na devo&ccedil;&atilde;o a S. Francisco&rdquo;, l&ecirc;-se na tese de doutoramento de Peter Stilwell (Revista Didaskalia, Volume XXII, fasc&iacute;culo 2, 1992, Lisboa).<\/p>\n<p>Segundo o estudioso do poeta agr&oacute;nomo (terminou o curso de Agronomia em 1943) &agrave; medida, por&eacute;m, que se aproxima da d&eacute;cada de 40, o sentido religioso e a f&eacute; cat&oacute;lica &ldquo;tornam-se uma refer&ecirc;ncia central, primeiro dos seus escritos mais &iacute;ntimos; posteriormente, da sua obra publicada&rdquo;. E tudo indica que se manteve essa &ldquo;a sua atitude at&eacute; &agrave; morte&rdquo;. &ldquo;Ter&aacute; havido fases de maior fervor e pr&aacute;tica sacramental, como houve outras de claro esmorecimento; mas n&atilde;o h&aacute; ind&iacute;cios de ruturas significativas&rdquo;.<\/p>\n<p>Em termos duma forma&ccedil;&atilde;o religiosa sistem&aacute;tica &eacute; poss&iacute;vel que nos Pupilos do Ex&eacute;rcito ou no Col&eacute;gio Nun&acute;&Aacute;lvares tenha recebido alguma instru&ccedil;&atilde;o. No entanto, ele pr&oacute;prio caracteriza o seu estado, em 1935, como de &ldquo;ignor&acirc;ncia cat&oacute;lico-eclesial&rdquo;. F&aacute;-lo, para justificar a curiosidade religiosa que o levava, durante o cruzeiro &agrave;s col&oacute;nias, a embrenhar-se na leitura da enciclop&eacute;dia &laquo;Ecclesia&raquo; que pedira emprestada a Orlando Ribeiro. Ao regressar a Lisboa, surgem as &ldquo;primeiras indica&ccedil;&otilde;es de uma op&ccedil;&atilde;o de f&eacute; consciente&rdquo; &ndash; l&ecirc;-se na tese &laquo;A Condi&ccedil;&atilde;o Humana em Ruy Cinatti&raquo;.<\/p>\n<p>Nos tempos de estudante no curso de Agronomia torna-se membro das Confer&ecirc;ncias de S. Vicente de Paulo e da rec&eacute;m-criada Juventude Universit&aacute;ria Cat&oacute;lica (JUC). A sua atividade nestas associa&ccedil;&otilde;es revela, com o tempo, uma crescente cultura religiosa e, em simult&acirc;neo, precis&atilde;o teol&oacute;gica no que escreve. O envolvimento &eacute; tal que a determinado momento p&otilde;e em causa o seu futuro como agr&oacute;nomo, e chega a levantar a hip&oacute;tese de vir a ser padre: &ldquo;sacerd&oacute;cio&rdquo;, anota, &ldquo;&eacute; um caminho a seguir&rdquo;. Mas acrescenta logo de seguida: &ldquo;Duvido por&eacute;m que este me sirva&rdquo;.<\/p>\n<p>Timor &eacute; outra dimens&atilde;o fundamental na vida e na obra de Ruy Cinatti. Em 1946, partiu para Timor como secret&aacute;rio do governador &Oacute;scar Ruas e encantou-se com aquele territ&oacute;rio porque era uma ilha dos mares sul. Nas suas longas viagens pelo interior a fazer recolha de material bot&acirc;nico, &ldquo;deu-se conta da riqueza da cultura dos timorenses e da harmonia que essa cultura tinha gerado entre eles e o meio ambiente&rdquo;, revela Peter Stilwell na entrevista ao referido jornal.&nbsp;<\/p>\n<p>Timor ficou-lhe gravado no cora&ccedil;&atilde;o e escreveu v&aacute;rias obras sobre este territ&oacute;rio: &laquo;Um Cancioneiro para Timor&raquo; (S&oacute; publicada em 1997, mas recebeu o Pr&eacute;mio Camilo Pessanha, em 1968 por esta obra); &laquo;Uma sequ&ecirc;ncia Timorense&raquo; (1971) e &laquo;Paisagens Timorenses com vultos&raquo; (1974). Em novembro de 1975 avisa, em entrevista, dos &ldquo;riscos que se correm em Timor&rdquo; e &ldquo;fica profundamente abalado pela invas&atilde;o de Timor pela Indon&eacute;sia, em dezembro&rdquo;, (Cf. Revista &laquo;Ler&raquo;, ver&atilde;o\/outono 1997, N&ordm; 39)<\/p>\n<p>Em 1950 apresenta, no Instituto Superior de Agronomia, a tese &laquo;Reconhecimento em Timor&raquo; que &eacute; aprovada com a classifica&ccedil;&atilde;o de 19 valores. No ano seguinte chega a D&iacute;li (Timor) para o ocupar o cargo de chefe dos Servi&ccedil;os de Agricultura do Governo daquele territ&oacute;rio. Nessa d&eacute;cada visita muitos pa&iacute;ses (Filipinas, Hong Kong, Macau, Jap&atilde;o, Bali, &Iacute;ndia) e publica, em 1958, &laquo;O Livro do N&oacute;mada Meu Amigo&raquo; que lhe d&aacute; o Pr&eacute;mio Antero de Quental no ano posterior.<\/p>\n<p>A experi&ecirc;ncia pessoal, a forma&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica e a tradi&ccedil;&atilde;o da A&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica n&atilde;o permitiam que Cinatti se ficasse pela vis&atilde;o simplista de uma aplica&ccedil;&atilde;o imediata do desejo &agrave; realidade; da tradu&ccedil;&atilde;o espont&acirc;nea das intui&ccedil;&otilde;es da f&eacute; em realiza&ccedil;&otilde;es sociais e pol&iacute;ticas. Sabe que uma coisa s&atilde;o os princ&iacute;pios, as teorias, as propostas doutrinais, outra &ldquo;os problemas que o nosso estudo levanta (&hellip;) de uma realidade imediata, concreta, viva, que a todo o instante pede uma solu&ccedil;&atilde;o, por transit&oacute;ria que ela seja&rdquo; (Cf. &laquo;A Condi&ccedil;&atilde;o Humana em Ruy Cinatti&raquo;).<\/p>\n<p>Fundamenta-se em Tom&aacute;s de Aquino para justificar esta exig&ecirc;ncia duma articula&ccedil;&atilde;o da f&eacute; com a raz&atilde;o. &ldquo;Encontra no te&oacute;logo medieval o respeito pela raz&atilde;o e pela pesquisa cient&iacute;fica, ao mesmo tempo que a afirma&ccedil;&atilde;o clara da centralidade de Deus no ordenamento harm&oacute;nico da cria&ccedil;&atilde;o&rdquo;, l&ecirc;-se na tese de Peter Stilwell.<\/p>\n<p><em>Luis Filipe Santos<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&laquo;A solid&atilde;o, e o que h&aacute; de mais aberto: Rosa por desfolhar, Quero-a eu agora &ndash; e ao largo vento A roda dos sonhos confiar&raquo; (In: &laquo;Livro do N&oacute;mada Meu Amigo&raquo;)&nbsp; N&atilde;o tinha medo da solid&atilde;o e n&atilde;o se subordinava a ningu&eacute;m. 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