{"id":52901,"date":"2011-09-13T11:18:17","date_gmt":"2011-09-13T11:18:17","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/09\/13\/homilia-do-cardeal-dionigi-tettamanzi-na-peregrinacao-internacional-de-setembro-ao-santuario-de-fatima\/"},"modified":"2011-09-13T11:18:17","modified_gmt":"2011-09-13T11:18:17","slug":"homilia-do-cardeal-dionigi-tettamanzi-na-peregrinacao-internacional-de-setembro-ao-santuario-de-fatima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-dionigi-tettamanzi-na-peregrinacao-internacional-de-setembro-ao-santuario-de-fatima\/","title":{"rendered":"Homilia do cardeal Dionigi Tettamanzi na peregrina\u00e7\u00e3o internacional de setembro ao Santu\u00e1rio de F\u00e1tima"},"content":{"rendered":"<p><strong>O Senhor est&aacute; contigo. Sim, sou a tua morada<\/strong><\/p>\n<p>Car&iacute;ssimos,<\/p>\n<p>Uma das heran&ccedil;as&nbsp; espirituais mais preciosas que as apari&ccedil;&otilde;es marianas em F&aacute;tima nos deixaram &eacute; a <em>devo&ccedil;&atilde;o ao Imaculado Cora&ccedil;&atilde;o de Maria<\/em>.<\/p>\n<p>Aparecendo aos tr&ecirc;s Pastorinhos pela terceira vez, no dia 13 de julho de 1917, revela-lhes um &ldquo;segredo&rdquo; que se desenvolve em tr&ecirc;s partes. Ap&oacute;s ter mostrado o &ldquo;lugar&rdquo; da poss&iacute;vel condena&ccedil;&atilde;o eterna dos homens, Nossa Senhora disse que Deus &ndash; precisamente para os salvar dessa tr&aacute;gica sorte &ndash; quer estabelecer no mundo a devo&ccedil;&atilde;o ao Imaculado Cora&ccedil;&atilde;o da M&atilde;e de Jesus. Alguns anos depois, as outras vis&otilde;es que a Virgem oferece &agrave; Irm&atilde; L&uacute;cia explicitam o conte&uacute;do desta devo&ccedil;&atilde;o em torno de dois elementos fundamentais: o primeiro &eacute; a pr&aacute;tica da ora&ccedil;&atilde;o durante cinco meses, nos primeiros s&aacute;bados de cada m&ecirc;s; o segundo &eacute; a consagra&ccedil;&atilde;o da R&uacute;ssia ao Imaculado Cora&ccedil;&atilde;o de Maria realizada pelo Santo Padre em comunh&atilde;o com todos os bispos do mundo.<\/p>\n<p>&Eacute; precisamente&nbsp; &agrave; luz da espiritualidade do Cora&ccedil;&atilde;o de Maria que hoje queremos reler a Palavra de Deus proclamada nesta missa votiva da Virgem como &ldquo;templo do Senhor&rdquo;.&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<strong>O seio virginal de Maria, &ldquo;templo do Senhor&rdquo;<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade, tanto o evangelho da anuncia&ccedil;&atilde;o como a eucologia&nbsp; desta Missa dizem-nos que o &ldquo;templo do Senhor&rdquo; &eacute; o &ldquo;seio virginal&rdquo; de Maria: &ldquo;h&aacute;s de conceber no teu seio e dar &agrave; luz um filho, ao qual por&aacute;s o nome de Jesus&rdquo; (<em>Lc<\/em> 1,31). O mist&eacute;rio deste an&uacute;ncio &agrave; jovem mulher de Nazar&eacute; &eacute;-nos mostrado na ora&ccedil;&atilde;o inicial desta assembleia eucar&iacute;stica que invoca o Pai como aquele que &laquo;no seio virginal de Maria preparou com arte inef&aacute;vel o santu&aacute;rio de Cristo seu Filho&raquo;.<\/p>\n<p>Mas &eacute; no pref&aacute;cio que a liturgia nos ajuda a perceber a liga&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima entre o acontecimento singular de Maria e a comum experi&ecirc;ncia de f&eacute; a que todos n&oacute;s somos chamados. O texto lit&uacute;rgico de facto lembra-nos que antes de tudo est&aacute; &ldquo;a a&ccedil;&atilde;o misteriosa do Esp&iacute;rito&rdquo;, pela qual Deus prepara por si uma morada &ldquo;no cora&ccedil;&atilde;o dos fi&eacute;is&rdquo;. Sim, esta &eacute; a maravilhosa promessa feita a cada um de n&oacute;s, este &eacute; o dom oferecido a cada crente: <em>Deus vem habitar em n&oacute;s, <\/em>Deus n&atilde;o tem medo de &ldquo;habitar&rdquo; em cora&ccedil;&otilde;es tantas vezes distra&iacute;dos, in&oacute;spitos, fechados na pr&oacute;pria autossufici&ecirc;ncia e prisioneiros do medo. S&oacute; a presen&ccedil;a de Deus &ldquo;purifica, ilumina, consagra&rdquo; estas moradas assim refract&aacute;rias&nbsp; e imperme&aacute;veis que n&oacute;s somos.<\/p>\n<p>Ora, &eacute; desta <em>inhabita&ccedil;&atilde;o<\/em> de Deus &ndash; de que falaram tantos te&oacute;logos e sobretudo muitos crist&atilde;os simples bem como numerosos m&iacute;sticos &ndash; que <em>Maria<\/em> se p&otilde;e, diante da humanidade inteira, como <em>a testemunha mais elevada e mais surpreendente<\/em>. Como canta a liturgia, &laquo;pela obedi&ecirc;ncia da sua f&eacute; e pelo mist&eacute;rio da encarna&ccedil;&atilde;o, a Virgem Maria tornou-se o templo singular da vossa gl&oacute;ria&raquo; (<em>pref&aacute;cio<\/em> da Missa em honra de Maria &ldquo;Templo do Senhor&rdquo;). A Ela coube a gra&ccedil;a, inteiramente &uacute;nica, de ser&nbsp; a &laquo;casa de ouro adornada pelo Esp&iacute;rito&hellip;, a arca da nova alian&ccedil;a que cont&eacute;m Jesus Salvador do mundo&raquo; <em>(ibid.).<\/em><\/p>\n<p>Mas no eterno plano do amor de Deus, este privil&eacute;gio n&atilde;o faz de Maria uma criatura inalcan&ccedil;&aacute;vel, afastada de n&oacute;s e da nossa quotidiana peregrina&ccedil;&atilde;o na f&eacute;. O contr&aacute;rio &eacute; que &eacute; verdade! Este privil&eacute;gio &eacute; uma responsabilidade imensa que o Senhor confia a Maria, tornando-a para n&oacute;s o <em>sinal de uma voca&ccedil;&atilde;o que<\/em> <em>diz respeito a todos<\/em>, sem exce&ccedil;&atilde;o. A M&atilde;e de Jesus &eacute; &laquo;a atua&ccedil;&atilde;o exemplar&raquo;, &uacute;nica, do mist&eacute;rio de Deus que &ndash; assim podemos de certa maneira exprimir-nos &#8211;&nbsp; <em>quer continuar a &ldquo;encarnar-se&rdquo; <\/em>em cada um de n&oacute;s, para que nos tornemos o &laquo;templo vivo da sua gl&oacute;ria&raquo; no mundo (<em>Ora&ccedil;&atilde;o<\/em> coleta da Missa em honra de Maria &ldquo;Templo do Senhor&rdquo;).<\/p>\n<p>Digamos de novo: a M&atilde;e de Deus n&atilde;o est&aacute; longe de n&oacute;s! N&atilde;o nos &eacute; estranha! Se &eacute; inalcan&ccedil;&aacute;vel, pois somente ela foi chamada a levar Jesus no seu seio virginal, todavia esta realidade extraordin&aacute;ria manifestou-se &laquo;pela obedi&ecirc;ncia da sua f&eacute;&raquo;.<\/p>\n<p>Eis por que, car&iacute;ssimos peregrinos, a devo&ccedil;&atilde;o ao Imaculado Cora&ccedil;&atilde;o de Maria&nbsp; pode indicar o caminho para que, tamb&eacute;m n&oacute;s, nos tornemos &ldquo;templo do Senhor&rdquo;, sua morada, sua casa, lugar onde ele vem &ndash; cheio de alegria &ndash;&nbsp; <em>habitar e descansar<\/em> , como diz Santo Ambr&oacute;sio: terminado o sexto dia da cria&ccedil;&atilde;o &ldquo;daquela obra-prima que &eacute; o homem&rdquo;, &ldquo;o Senhor descansou de toda a sua obra no mondo. Descansou, pois, no &iacute;ntimo do homem, descansou na sua mente e no seu pensamento&hellip;&rdquo;. E acrescenta: o Criador &ldquo;repousou, tendo um ser&nbsp; a quem perdoar os pecados&rdquo;, anunciando assim &ldquo;o mist&eacute;rio da futura paix&atilde;o do Senhor&rdquo; (<em>I sei giorni della creazione<\/em>, VI, 75,76). O mesmo Santo Ambr&oacute;sio nos remete explicitamente para o mist&eacute;rio da maternidade de Maria,&nbsp; escrevendo: &ldquo;Cada alma que cr&ecirc;, concebe e gera o Verbo de Deus &hellip; Se, segundo a carne, uma s&oacute;&nbsp; &egrave; a m&atilde;e de Cristo, segundo a f&eacute;, todas as almas geram Cristo&rdquo; (<em>In Lc.<\/em> II, 26).<\/p>\n<p>Como era o cora&ccedil;&atilde;o de Maria? Antes de tudo, podemos pensar no que nos conta o evangelista S&atilde;o Lucas, quando duas vezes observa que Maria &ldquo;conservava ponderando-as no seu cora&ccedil;&atilde;o&rdquo; as coisas que tinha visto e escutado a respeito de seu Filho Jesus (cfr <em>Lc<\/em> 2,19.51). <em>No cora&ccedil;&atilde;o de Maria habita sobretudo a palavra de Deus, <\/em>que a Virgem escuta e, de certa maneira, &ldquo;v&ecirc;&rdquo;, pois ela contempla o que acontece ao pr&oacute;prio filho, o que dele se diz e o que ele mesmo faz e diz, de modo totalmente inesperado e surpreendente. O cora&ccedil;&atilde;o de Maria &eacute; rico dos ecos das palavras e dos gestos de Jesus. Interessante &eacute; o verbo usado pelo evangelista: este indica n&atilde;o apenas &ldquo;meditar&rdquo;, mas ainda melhor &ldquo;interpretar&rdquo;. Assim Maria rev&ecirc; os acontecimentos ligados a Jesus e &ldquo;junta&rdquo;, confronta, liga palavras e factos, descobrindo os nexos profundos e interpretando-os de maneira espiritual, ou seja, segundo o Esp&iacute;rito de Deus.&nbsp;<\/p>\n<p>Tudo isto vale tamb&eacute;m para n&oacute;s, car&iacute;ssimos irm&atilde;os e irm&atilde;s no Senhor, porque tamb&eacute;m a n&oacute;s foi dado o Esp&iacute;rito Santo que, como nos recorda o profeta Ezequiel, cria dentro de n&oacute;s um &ldquo;cora&ccedil;&atilde;o novo&rdquo;, um &ldquo;cora&ccedil;&atilde;o de carne&rdquo; (<em>Ez<\/em> 36,26), um cora&ccedil;&atilde;o capaz de compreender e praticar a Lei de Deus, a sua palavra, os seus mandamentos (<em>Ez<\/em> 36,27). Poder&iacute;amos dizer que o Esp&iacute;rito Santo cria em n&oacute;s, como em Maria, um &ldquo;<em>cora&ccedil;&atilde;o sapiente&rdquo;<\/em>: isto &eacute;, um cora&ccedil;&atilde;o que sabe ler a realidade encontrando nela os sinais da presen&ccedil;a e da a&ccedil;&atilde;o de Deus, um cora&ccedil;&atilde;o capaz de ultrapassar a perturba&ccedil;&atilde;o do &lsquo;sem sentido&rsquo; dos acontecimentos que muitas vezes experimentamos, para nos abrirmos ao sentido das coisas que &eacute; &ldquo;segundo Deus&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>Maria junto da cruz de Jesus<\/strong><\/p>\n<p>Uma outra p&aacute;gina evang&eacute;lica que nos abre ao conhecimento do cora&ccedil;&atilde;o de Maria &eacute; a cena da M&atilde;e de Jesus junto &agrave; cruz do Filho (cfr <em>Jo<\/em> 19,25-27).<\/p>\n<p>O cora&ccedil;&atilde;o de Maria, que as apari&ccedil;&otilde;es de F&aacute;tima nos revelam como doloroso e ofendido por causa dos pecados cometidos contra Jesus e contra Nossa Senhora, &eacute; portanto tamb&eacute;m <em>o cora&ccedil;&atilde;o que tomou parte na dor do Filho<\/em> que morre pelos pecadores. Podemos ent&atilde;o pensar no cora&ccedil;&atilde;o de Maria como um <em>cora&ccedil;&atilde;o misericordioso<\/em>, pois conheceu com intensidade materna o cora&ccedil;&atilde;o do Filho que morre sem qualquer ressentimento, na ora&ccedil;&atilde;o dirigida ao Pai para que perdoe aos seus assassinos (cfr <em>Lc<\/em> 23,34).<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m nisto somos chamados a imitar o cora&ccedil;&atilde;o de Maria. Como nos recorda o ap&oacute;stolo Paulo, o Esp&iacute;rito Santo que nos foi dado sustenta a nossa ora&ccedil;&atilde;o, &ldquo;vem em aux&iacute;lio da nossa fraqueza&rdquo; (<em>Rm<\/em> 8,26), que tantas vezes n&atilde;o &eacute; capaz de pronunciar palavras de perd&atilde;o. O pr&oacute;prio Esp&iacute;rito em n&oacute;s intercede junto do Pai segundo os des&iacute;gnios&nbsp; de Deus, que s&atilde;o des&iacute;gnios de reconcilia&ccedil;&atilde;o e de paz, leva ao Pai aquele desejo de fraternidade muitas vezes frustrado por causa da nossa vontade d&eacute;bil, infunde&nbsp; no nosso cora&ccedil;&atilde;o aquela consola&ccedil;&atilde;o e aquela paz que s&oacute; o Senhor pode dar (cfr <em>Jo<\/em>14,27).<\/p>\n<p>Car&iacute;ssimos peregrinos, s&atilde;o estes os frutos santos do Imaculado Cora&ccedil;&atilde;o de Maria visitado pelo Esp&iacute;rito Santo e tornado &ldquo;templo do Senhor&rdquo;. Mas o fruto mais belo, verdadeira s&iacute;ntese e coroamento da espiritualidade do disc&iacute;pulo de Jesus, &eacute; o &ldquo;<em>fiat<\/em>&rdquo; pronunciado por Maria ao Anjo, melhor, ao pr&oacute;prio Deus: &laquo;Eis a serva do Senhor, fa&ccedil;a-se em mim segundo a tua palavra&raquo; (<em>Lc<\/em> 1,38). Podemos compreender ent&atilde;o quanto afirmava o Cardeal Ratzinger comentando a publica&ccedil;&atilde;o da terceira parte do segredo de F&aacute;tima: &laquo;&ldquo;Devo&ccedil;&atilde;o&rdquo; ao Imaculado Cora&ccedil;&atilde;o de Maria &eacute; aproximar-se desta atitude do cora&ccedil;&atilde;o, na qual o <em>fiat<\/em> &ndash; &ldquo;Seja feita a vossa vontade&rdquo; &ndash; se torna o centro que d&aacute; forma a toda a exist&ecirc;ncia&raquo;.<\/p>\n<p>Sim, o Cora&ccedil;&atilde;o Imaculado de Maria &eacute; o &ldquo;cora&ccedil;&atilde;o puro&rdquo; do Evangelho das bem-aventuran&ccedil;as: &ldquo;Felizes os puros de cora&ccedil;&atilde;o&rdquo; (<em>Mt<\/em> 5,8); &eacute; o cora&ccedil;&atilde;o unificado&nbsp; na obedi&ecirc;ncia da f&eacute; &agrave; vontade de Deus: &eacute; por isso um cora&ccedil;&atilde;o capaz de&nbsp; &ldquo;ver&rdquo; Deus.<\/p>\n<p>Aparecendo aos tr&ecirc;s pastorinhos no dia 13 de julho&nbsp; de 1917, Nossa Senhora proclamava solenemente esta verdade: &laquo;Por fim, o meu Imaculado Cora&ccedil;&atilde;o triunfar&aacute; [&hellip;] e ser&aacute; concedido ao mundo algum tempo de paz&raquo;. Sim, ser&aacute; um triunfo &ndash; comenta ainda o futuro papa Bento XVI &ndash; no sentido de que, desde que o pr&oacute;prio Deus passou a ter&nbsp; um cora&ccedil;&atilde;o humano pelo <em>fiat<\/em> de Maria, &laquo;a liberdade para o mal deixou de ter a &uacute;ltima palavra&raquo;.<\/p>\n<p>Com grande for&ccedil;a e humildade, pedimos ao Pai nesta Eucaristia que o seu Santo Esp&iacute;rito des&ccedil;a sobre n&oacute;s para fazer do nosso cora&ccedil;&atilde;o, como fez do Cora&ccedil;&atilde;o puro de Maria, o templo da sua presen&ccedil;a, o &ldquo;lugar&rdquo; do nosso &ldquo;sim&rdquo; ao Senhor, para que&nbsp; &#8211; atrav&eacute;s da nossa liberdade que se decide por Ele &ndash; o Deus que tomou um cora&ccedil;&atilde;o de homem continue incansavelmente a amar, a curar e a renovar os cora&ccedil;&otilde;es de todos os homens.<\/p>\n<p>Amen!<\/p>\n<p>F&aacute;tima, 13 de setembro de 2011<\/p>\n<p><em>Cardeal Dionigi Tettamanzi, arcebispo em&eacute;rito de Mil&atilde;o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Senhor est&aacute; contigo. 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