{"id":52834,"date":"2011-09-06T14:34:00","date_gmt":"2011-09-06T14:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/09\/06\/a-doutrina-social-da-igreja-e-a-crise\/"},"modified":"2011-09-06T14:34:00","modified_gmt":"2011-09-06T14:34:00","slug":"a-doutrina-social-da-igreja-e-a-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-doutrina-social-da-igreja-e-a-crise\/","title":{"rendered":"A Doutrina Social da Igreja e a crise"},"content":{"rendered":"<p>Crise! Que &eacute; a crise?<br \/>O conceito n&atilde;o &eacute; un&iacute;voco. Pode ter mais que um significado. Tanto pode referir-se a oportunidades e a passagem para est&aacute;dios superiores (crise de crescimento, de adolesc&ecirc;ncia) como dizer respeito a aspetos negativos. &Eacute; neste sentido que habitualmente se fala da atual situa&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica e social portuguesa.<br \/>De forma grosseira, pode ser simbolizada na balan&ccedil;a de bra&ccedil;os: por qualquer motivo, os pratos que estavam em equil&iacute;brio deixam de o estar e um afunda-se enquanto o outro sobe. Porqu&ecirc;? Ou porque a estabilidade era mantida artificialmente ou porque um novo fator veio desestabilizar tudo.<br \/>De seguida, deixo uma reflex&atilde;o incipiente sobre isso. Fixo-me em umas poucas notas com o &uacute;nico objetivo de favorecer a reflex&atilde;o. Obviamente, situar-me-ei numa dimens&atilde;o humanista, j&aacute; que esta, na mente da Igreja constitui a solu&ccedil;&atilde;o do problema.<\/p>\n<p>1. Voltemos &agrave; imagem da balan&ccedil;a. Da mesma forma que se um prato sobe o outro desce, tamb&eacute;m se milh&otilde;es e milh&otilde;es de pessoas perdem, algu&eacute;m ganha. E de facto, essa perda &eacute; canalizada para uns poucos, que lucram imenso. Dotados de mecanismos eficient&iacute;ssimos (sobre-posi&ccedil;&atilde;o dos instrumentos financeiros &agrave;s economias reais, ag&ecirc;ncias de rating manipuladoras, transfer&ecirc;ncias de capitais, especula&ccedil;&atilde;o bolsista, etc.), uma reduzida minoria imp&otilde;e regras a que nem sequer os governos conseguem subtrair-se. E regras&hellip; desumanas. A ro&ccedil;ar a extors&atilde;o&hellip; &laquo;legalizada&raquo;.<br \/>&Eacute; o pecado estrutural, essa soma de pecados pessoais que interagem uns com os outros e se potenciam enormemente. E sobre os quais &eacute; dif&iacute;cil intervir. &Eacute; como no caso do maquinista do comboio: orientar nesta ou naquela dire&ccedil;&atilde;o n&atilde;o depende dele, mas da disposi&ccedil;&atilde;o exterior das agulhas.<\/p>\n<p>2. Por isso, tem raz&atilde;o a Igreja quando refere: a sa&iacute;da da crise n&atilde;o depende apenas de solu&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas, mas de um enquadramento global ou de uma nova s&iacute;ntese humanista. Depende da convers&atilde;o pessoal e coletiva. O problema &eacute;, de facto, moral. S&atilde;o os valores que est&atilde;o em jogo. &Eacute; preciso saber se o nosso mundo ainda d&aacute; cr&eacute;dito a no&ccedil;&otilde;es tais como justi&ccedil;a, responsabilidade social, bem comum, lealdade, transpar&ecirc;ncia, dignidade, fraternidade, etc. Sem mudan&ccedil;a de conceitos, sem mudan&ccedil;a cultural, n&atilde;o sairemos da crise. E sem moral n&atilde;o existe verdadeira mudan&ccedil;a cultural.<\/p>\n<p>3. A modernidade fracionou os saberes. Atomizou-os. Desintegrou a realidade em part&iacute;culas infinitamente pequenas. E muitos aspetos sectoriais das ci&ecirc;ncias, inegavelmente, progrediram. Mas conhecer as part&iacute;culas n&atilde;o &eacute; a mesma coisa que abarcar a realidade. At&eacute; pode ser desfaz&ecirc;-la. Por isso, hoje exige-se &ldquo;uma interdisciplinaridade harm&oacute;nica, feita de unidade e distin&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Enc&iacute;clica Caridade na verdade, 31). Ci&ecirc;ncia, metaf&iacute;sica, &eacute;tica, teologia e f&eacute;, no respeito da especificidade de cada uma, devem conjugar-se para encontrar aquela unidade que constitui o humano integral. Mas alguns recusam-na. Porque ser&aacute;? E a crise alastra&hellip;<\/p>\n<p>4. Na conhecida express&atilde;o de Ortega, a pessoa &eacute; ela e as suas circunst&acirc;ncias. Eu diria: &eacute; ela e as suas institui&ccedil;&otilde;es. Pois bem, algumas delas n&atilde;o est&atilde;o a cumprir o que deviam. A que mais falha parece ser a ONU. Como referia, h&aacute; tempos, o Card. Maradiaga, a ONU parece ter desistido da sua fun&ccedil;&atilde;o de motor de humaniza&ccedil;&atilde;o do nosso mundo para se ocupar com a difus&atilde;o do preservativo e do aborto, dos direitos dos gays e da ideologia do g&eacute;nero. A ONU est&aacute;, de facto, em crise profunda. Ou se reformula ou&hellip; n&atilde;o sei. Mas algo de semelhante tamb&eacute;m se pode dizer da Uni&atilde;o Europeia. Parece que os Estados mais fortes est&atilde;o a impor as suas vis&otilde;es (e os seus interesses?) aos mais d&eacute;beis. Certos &laquo;eixos&raquo; apontam para a&iacute;. A EU n&atilde;o poderia ter feito mais pela Gr&eacute;cia, Irlanda e Portugal do que aplicar as eufem&iacute;sticamente designadas &laquo;regras do mercado&raquo;? A Europa n&atilde;o necessitar&aacute; de um &laquo;suplemento de alma&raquo; que a torne diferente, porque humanista? O cristianismo n&atilde;o poder&aacute; contribuir para isso?<\/p>\n<p>5. Quase sempre, as institui&ccedil;&otilde;es fundamentam-se numa dada ideologia. Parece que a ideologia que sustenta grande parte delas &eacute; o neoliberalismo econ&oacute;mico. Assim, faz-se do capitalista o &laquo;sacerdote do progresso&raquo;, como se dizia no s&eacute;culo XIX, e o benfeitor da humanidade. Mas essa ideologia, enquanto materialismo intramundano, que desconhece outra dimens&atilde;o de vida que n&atilde;o seja o lucro, a adora&ccedil;&atilde;o do velho deus Mammon, n&atilde;o pode ser aceite pelos crist&atilde;os: &eacute; contr&aacute;ria &agrave; verdade integral da pessoa humana e ao des&iacute;gnio de Deus na hist&oacute;ria. Por isso, economia absolutamente liberal, n&atilde;o, n&atilde;o e n&atilde;o!<\/p>\n<p>6. Entre n&oacute;s, esse liberalismo imposto pela troika e, pelos vistos, bem aceite pela maioria das pessoas que frequentaram as Faculdades de Economia, tem, no m&iacute;nimo, de ser mitigado pelo bom senso. &Eacute; l&oacute;gico e urgente que se racionalizem as despesas e os desperd&iacute;cios. Mas que jamais falte a algu&eacute;m os bens de quatro setores fundamental&iacute;ssimos: sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o, justi&ccedil;a e seguran&ccedil;a. Bens que, em muitos casos, segundo o princ&iacute;pio de subsidiariedade, podem ter origem na iniciativa privada, apoiada pelo Estado. E, especialmente, que ningu&eacute;m passe fome ou deixe de poder comprar os medicamentos indispens&aacute;veis. Isso n&atilde;o constituiria somente a vergonha da Seguran&ccedil;a Social: seria a vergonha&hellip; nacional.<\/p>\n<p>7. Mas tamb&eacute;m n&atilde;o fiquemos no pessimismo e no fatalismo. &Eacute; poss&iacute;vel a mudan&ccedil;a! &Eacute; poss&iacute;vel uma outra cultura e uma outra mentalidade. A crise pode ser uma oportunidade. Para isso, &eacute; indispens&aacute;vel o contributo dos crist&atilde;os. Como? Difundindo um novo humanismo. Um humanismo integral, para o qual a economia &eacute; apenas um setor, embora importante. Mas n&atilde;o &eacute; tudo. Como escreve Bento XVI, &ldquo;somente se pensarmos que somos chamados, enquanto indiv&iacute;duos e comunidade, a fazer parte da fam&iacute;lia de Deus como seus filhos, &eacute; que seremos capazes de produzir um novo pensamento e desenvolver novas energias ao servi&ccedil;o de um verdadeiro humanismo integral. Por isso, a maior for&ccedil;a ao servi&ccedil;o do desenvolvimento &eacute; um humanismo crist&atilde;o&rdquo; (CV 78).<br \/>Eu tamb&eacute;m assim penso. Piamente.<\/p>\n<p><em>D. Manuel Linda<br \/>Bispo auxiliar de Braga<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Crise! Que &eacute; a crise?O conceito n&atilde;o &eacute; un&iacute;voco. Pode ter mais que um significado. Tanto pode referir-se a oportunidades e a passagem para est&aacute;dios superiores (crise de crescimento, de adolesc&ecirc;ncia) como dizer respeito a aspetos negativos. &Eacute; neste sentido que habitualmente se fala da atual situa&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica e social portuguesa.De forma grosseira, pode ser [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[93,120,172,191,203],"class_list":["post-52834","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-aborto","tag-bento-xvi","tag-diocese-de-braga","tag-economia","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52834","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52834"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52834\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52834"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52834"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52834"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}