{"id":5274,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-paixao-do-messias\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-paixao-do-messias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-paixao-do-messias\/","title":{"rendered":"A Paix\u00e3o do Messias"},"content":{"rendered":"<p>Pe. Joaquim Carreira das Neves, Professor de Teologia <!--more--> O filme, A PAIX\u00c3O DO MESSIAS, de Mel Gibson, em perspectiva b\u00edblica &#8211; a \u00fanica sobre a qual emito parecer \u2013 oferece-me duas atitudes de ju\u00edzo: uma mais positiva e outra menos positiva.  A mais positiva consiste na apresenta\u00e7\u00e3o da realidade duma crucifix\u00e3o. Que saiba, nunca at\u00e9 hoje algu\u00e9m apresentou de modo t\u00e3o realista uma crucifix\u00e3o. Todos sabemos que se tratava duma institui\u00e7\u00e3o com origem no imp\u00e9rio persa, usada, depois, pelo imp\u00e9rio hel\u00e9nico e romano. Os judeus conheciam bem os horrores de semelhante institui\u00e7\u00e3o, de tal modo que na pr\u00f3pria B\u00edblia quem assim morria era tido por amaldi\u00e7oado de Deus, e \u201cn\u00e3o podia permanecer de noite na cruz para n\u00e3o manchar a terra que o Senhor Deus deu em heran\u00e7a a Israel\u201d (Deuteron\u00f3mio 21, 23). A crueza das cenas da crucifix\u00e3o de Jesus, neste filme, corresponde \u00e0 crueza da realidade. Assim foi com Jesus como foi com milhares de crucificados no tempo dos persas, gregos e romanos, embora Mel Gibson acentue, de maneira desmesurada, a realidade cruenta de tal Paix\u00e3o.  Desde h\u00e1 s\u00e9culos que se discute sobre a responsabilidade de quem mandou crucificar Jesus. Os evangelhos s\u00e3o claros em afirmar que a \u00faltima palavra coube a Pilatos, mas que a pen\u00faltima se deveu ao Sin\u00e9drio judaico. Jesus era um judeu, e foi julgado, ao longo da sua vida, pelas autoridades judaicas como blasfemo. Segundo as leis judaicas, os \u201cblasfemos\u201d deviam ser erradicados de entre o povo, mortos por lapida\u00e7\u00e3o (Lev\u00edtico 24, 13-16: \u201cO Senhor falou assim a Mois\u00e9s: \u2018Faz sair o blasfemo para fora do acampamento: todos os que o ouviram imponham as m\u00e3os sobre a sua cabe\u00e7a, e que toda a comunidade o apedreje. (&#8230;) Aquele que proferir blasf\u00e9mias contra o nome do Senhor, ser\u00e1 punido com a morte e toda a comunidade o apedrejar\u00e1. Quer seja estrangeiro quer seja natural do pa\u00eds, se proferir blasf\u00e9mias contra o nome do Senhor, ser\u00e1 morto\u201d). Na realidade, havia mais que raz\u00f5es para as autoridades judaicas julgarem Jesus como blasfemo, se confrontado com a ortodoxia da lei judaica. As afirma\u00e7\u00f5es de Jesus sobre o s\u00e1bado, Templo, Mois\u00e9s, Abra\u00e3o, perd\u00e3o dos pecados, comensalidade com pecadores, autoconsci\u00eancia de Messias e Filho do Alt\u00edssimo (Marcos 14, 61-62), eram a prova comprovada duma atitude de blasfemo segundo os crit\u00e9rios da ortodoxia judaica. O mesmo aconteceu com Est\u00eav\u00e3o (Actos dos Ap\u00f3stolos 7, 54-58).  H\u00e1, pois, dois dados hist\u00f3ricos, de historiografia factual, que emolduram a paix\u00e3o-crucifix\u00e3o de Jesus: 1) Jesus condenado pelos judeus como blasfemo, e 2) Jesus crucificado por Pilatos. Segundo os dados bibliogr\u00e1ficos e hist\u00f3ricos (Talmude, Fl\u00e1vio Josefo), o Sin\u00e9drio n\u00e3o podia julgar \u00e0 morte nenhum judeu no dia de s\u00e1bado, nas v\u00e9speras das festas judaicas, nem depois do sol se p\u00f4r. Neste particular, a atitude dos sumos sacerdotes An\u00e1s e Caif\u00e1s, de acordo com o quarto evangelho, corresponde com a verdade \u201chist\u00f3rica\u201d, ao contr\u00e1rio dos evangelhos sin\u00f3pticos, j\u00e1 que o Sumo Sacerdote \u201cinterrogou Jesus acerca dos seus disc\u00edpulos e da sua doutrina\u201d (Jo 18, 19). E nada mais se diz, a n\u00e3o ser que An\u00e1s \u201cmandou-o manietado ao Sumo Sacerdote Caif\u00e1s [de quem An\u00e1s era sogro] que, por sua vez, o entregou ao governador romano\u201d (18, 28). N\u00e3o se trata dum julgamento em tribunal \u201coficial\u201d, porque esse julgamento j\u00e1 estava h\u00e1 muito decidido. Neste sentido, cada evangelista apresenta a paix\u00e3o do Messias \u00e0 sua maneira, mas tendo sempre em conta as duas realidades hist\u00f3ricas: Jesus como blasfemo perigoso, pela parte dos judeus, e Jesus como poss\u00edvel perigo para a pax romana, pela parte de Pilatos. A partir destes dados, as personagens que aparecem na paix\u00e3o do Messias \u2013 sumos sacerdotes, Pilatos, soldados romanos, Pedro, mulheres junto \u00e0 Cruz, mulheres que acompanham Jesus (s\u00f3 em Lucas 23, 27-31), Barrab\u00e1s, cireneu, os dois malfeitores \u2013 s\u00e3o ao mesmo tempo hist\u00f3ricas e funcionais. Os evangelhos, quando foram escritos, s\u00e3o, ao mesmo tempo, hist\u00f3ria e catequese crist\u00e3. Assim se explica que os enunciados, no tribunal romano com Pilatos, divirjam tanto entre os sin\u00f3pticos e o quarto evangelho. Assim se explica que as palavras de Jesus na Cruz divirjam, igualmente, nos quatro evangelistas. Finalmente, tamb\u00e9m se explica, desta forma, que os evangelhos apresentem a figura de Pilatos a tentar livrar-se desta condena\u00e7\u00e3o e o centuri\u00e3o \u201cromano\u201d a confessar Jesus como Filho de Deus (Lucas 23, 47 e paralelos).  A atitude menos positiva consiste no facto do filme apresentar uma crucifix\u00e3o de tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas evang\u00e9lica, mas tamb\u00e9m da Igreja Cat\u00f3lica. A presen\u00e7a cont\u00ednua da m\u00e3e de Jesus \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica. N\u00e3o aparece nos evangelhos sin\u00f3pticos, ao contr\u00e1rio de outras mulheres (Marcos 15, 40-41 e paralelos). A cena da m\u00e3e de Jesus junto \u00e0 cruz, apenas no quarto evangelho (Jo 19, 25-27) \u00e9 uma cena teol\u00f3gica e eclesiol\u00f3gica e n\u00e3o de hist\u00f3ria factual. O desempenho da mulher de Pilatos, t\u00e3o acentuado no filme, pertence apenas a uma breve pincelada do evangelho de Mateus (27, 19) com fim apolog\u00e9tico. E a grandiosidade das cenas \u2013 \u00e9, realmente, um filme grandioso \u2013 \u00e0 volta da crueza de tanto sofrimento, sangue e mart\u00edrio, pode conduzir a uma teologia martirial em que a objectividade exterior oculte a verdadeira realidade daquela crucifix\u00e3o como met\u00e1fora viva da obedi\u00eancia, livremente aceite, do Messias, que se entrega \u2013 ele mesmo \u2013 ao mist\u00e9rio da salva\u00e7\u00e3o segundo o modelo prof\u00e9tico do Servo de Deus de Isa\u00edas 53. Mel Gibson \u00e9 um cat\u00f3lico romano e tem todo o direito de apresentar a sua \u201cPaix\u00e3o do Messias\u201d. Para montar, em cinema, a sua Paix\u00e3o do Messias, escolhe sobretudo o evangelho de Jo\u00e3o, mas mistura-o tamb\u00e9m com a tradi\u00e7\u00e3o, muito variada na apresenta\u00e7\u00e3o das personagens, dos sin\u00f3pticos.  Os cat\u00f3licos t\u00eam a tradi\u00e7\u00e3o religiosa da chamada \u201cVia Sacra\u201d com 14 esta\u00e7\u00f5es e, dentre elas, as tr\u00eas quedas de Cristo, a presen\u00e7a materna da M\u00e3e de Jesus e a presen\u00e7a amiga da Ver\u00f3nica. Os evangelhos n\u00e3o apresentam nem as tr\u00eas quedas, nem a m\u00e3e de Jesus, nem a Ver\u00f3nica. Mas os mesmos evangelhos n\u00e3o podem ser vistos como uma cr\u00f3nica dos acontecimentos. A piedade crist\u00e3 \u2013 uma vez que se trata da Paix\u00e3o do Messias, Filho de Deus e Deus com Deus \u2013 tem todo o direito a \u201cemoldurar\u201d esta Paix\u00e3o com personagens \u201cadvent\u00edcias\u201d \u00e0 mesma Paix\u00e3o, mas significativas e ic\u00f3nicas. Mel Gibson vai muito al\u00e9m da tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica da \u201cVia Sacra\u201d da tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica. Em conclus\u00e3o, A Paix\u00e3o do Messias de Mel Gibson est\u00e1 de acordo com os tra\u00e7os fundamentais dos quatro evangelhos, com as declara\u00e7\u00f5es do Antigo Testamento sobre os judeus \u201cblasfemos\u201d e sobre a \u201cmaldi\u00e7\u00e3o\u201d dos crucificados, mas tamb\u00e9m de acordo com as posi\u00e7\u00f5es religiosas do autor, como cat\u00f3lico, que ultrapassam os dados b\u00edblicos e se enquadram na tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da religiosidade da Igreja Cat\u00f3lica.  Pe. Joaquim Carreira das Neves, OFM. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. 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