{"id":5272,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/o-homem-das-dores-segundo-mel-gibson\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"o-homem-das-dores-segundo-mel-gibson","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-homem-das-dores-segundo-mel-gibson\/","title":{"rendered":"O Homem das Dores segundo Mel Gibson"},"content":{"rendered":"<p>Maria Armanda Saint-Maurice, Te\u00f3loga <!--more--> Jesus ter\u00e1 morrido a 7 de Abril do ano 30. Mel Gibson faz-nos assistir \u00e0s \u00faltimas 12 horas da sua vida, com base nos Evangelhos e nas vis\u00f5es m\u00edsticas de Catarina Emmerich. Os Evangelhos, todos o sabem, s\u00e3o teologia e n\u00e3o reportagem. Pode p\u00f4r-se em imagens o que \u00e9 teol\u00f3gico e n\u00e3o propriamente hist\u00f3rico no sentido do que hoje entendemos por hist\u00f3ria? Pasolini fez um filme sobre o Evangelho segundo s\u00e3o Mateus, e, com uma intui\u00e7\u00e3o po\u00e9tica admir\u00e1vel, p\u00f5e-nos em frente do mist\u00e9rio da figura de Jesus Cristo. Mas a nota discordante deste filme \u00e9 que n\u00e3o compreendeu a Paix\u00e3o, que \u00e9 minimizada. Mel Gibson enfrenta agora exclusivamente a Paix\u00e3o, como se continuasse a obra encetada por Pasolini, embora demonstre, por seu lado, n\u00e3o ter apreendido todo o esplendor da Ressurrei\u00e7\u00e3o, vit\u00f3ria indissoci\u00e1vel do sofrimento de Cristo. N\u00e3o se pode pedir tudo a um criador. Fez o seu filme indubitavelmente com rigor, embora sem conseguir transmitir a soberana santidade de Jesus nem o seu insond\u00e1vel mist\u00e9rio que, por exemplo, emergem no enigm\u00e1tico sud\u00e1rio de Turim.  No mundo violento do cinema contempor\u00e2neo, uma desabalada viol\u00eancia abate-se sobre a figura do Inocente por excel\u00eancia. A legenda inicial anuncia o programa teol\u00f3gico do filme: \u201cEle tomou sobre si as nossas enfermidades, carregou as nossas dores\u201d (Is 53,4). Esse programa centra-se na antiqu\u00edssima profecia do Deutero-Isa\u00edas e nos seus 4 C\u00e2nticos do Servo, \u00e0 luz dos quais, ali\u00e1s, tal como dos Sl 22 e 69, os pr\u00f3prios escritores do NT leram a Paix\u00e3o de Cristo. Pela comunica\u00e7\u00e3o social sabemos que s\u00e3o as m\u00e3os do realizador que enterram os cravos nas m\u00e3os do crucificado. Mel Gibson e todos n\u00f3s, com as nossas grandes e pequenas faltas, contribu\u00edmos para esse \u201cpecado do mundo\u201d que cravou Cristo na cruz. O alarme levantado nos media sobre se o filme \u00e9 anti-semita nada tem a ver com a mensagem deste, embora n\u00e3o seja de excluir que os anti-semitas o possam utilizar como utilizam outros pretextos, pois tudo serve prop\u00f3sitos racistas. Mas o filme n\u00e3o \u00e9 um produto racista, tal como n\u00e3o \u00e9 um produto pol\u00edtico ou ideol\u00f3gico. \u00c9 um filme religioso, que evolui como uma medita\u00e7\u00e3o da Via Sacra.  As figuras principais, al\u00e9m desse \u201caflit\u00edssimo Jesus\u201d das nossas antigas ora\u00e7\u00f5es, s\u00e3o sem d\u00favida Maria, que \u00e9 como o fio humano condutor do argumento \u2013 aquela que Mel Gibson p\u00f5e a compreender que chegou a \u201chora\u201d jo\u00e2nica de Jesus, acompanhada sempre pela Mada-lena e pelo disc\u00edpulo amado \u2013, e a figura da \u201cserpente antiga\u201d (cf. Ap 12,9; 20,2), que o pr\u00f3prio NT rel\u00ea, \u00e0 luz da serpente de Gn 2-3, como uma figura sat\u00e2nica. De acordo com Lc 4,13, o diabo, que tenta Jesus nos seus 40 dias de deserto, \u201c &#8230; retirou-se de junto d\u2019Ele, at\u00e9 um certo tempo\u201d. Esse tempo \u00e9 o tempo da agonia no Horto, no qual os Padres da Igreja viram o auge do sofrimento de Jesus, perlado de um suor de sangue, pois a\u00ed come\u00e7a a \u201chora e o poder das trevas\u201d (Lc 22,44.53). Os verdadeiros inimigos de Jesus n\u00e3o s\u00e3o os pr\u00edncipes dos sacerdotes, n\u00e3o s\u00e3o Pilatos e os brutais soldados romanos, nem mesmo a popula\u00e7a que prefere Barrab\u00e1s a Jesus: o verdadeiro inimigo \u00e9 essa \u201cserpente antiga\u201d que perpassa por entre a multid\u00e3o ululante e que tenta demover Jesus, no Horto, de arcar com o pecado do mundo (e esta inimizade b\u00e1sica \u00e9 perfeitamente conforme com a teologia dos Padres da Igreja); essa serpente, que nunca se aproxima de Maria, e que Jesus esmaga com o p\u00e9 decididamente, ao escolher a morte para que seja feita a vontade do Pai e n\u00e3o a Sua \u2013 apresentando-se assim como essa descend\u00eancia da mulher que Gn 3,15 anuncia. \u00c9 a mesma serpente antiga que conduz Judas ao desespero definitivo, mesmo depois de haver como que uma \u00faltima tentativa por parte do c\u00e9u de lhe enviar duas crian\u00e7as que tentam traz\u00ea-lo ao amor e ao arrependimento, e que a recusa de Judas transforma, na \u00fanica cena em que se manifesta no filme a tens\u00e3o escatol\u00f3-gica das \u00faltimas horas de Jesus (e que Mel Gibson n\u00e3o consegue no resto do filme transmitir), em pequenos diabinhos que o empurram para o local deserto e apodrecido do seu suic\u00eddio. Que esta \u201cserpente antiga\u201d \u00e9 o principal inimigo de Jesus di-lo o filme quando, ap\u00f3s um longo per\u00edodo de obscuridade (Mt 27,45; Mc 15,33; Lc 23,44), Jesus expira e de muito alto, do mais alto do firmamento, cai uma l\u00e1grima de Deus. Quando esta l\u00e1grima cai d\u00e1-se a como\u00e7\u00e3o c\u00f3smica que s\u00f3 Mt refere (27,51): o tremor de terra que abala o templo, o partir das pernas dos dois outros condenados, o trespassar do lado de Jesus, de onde jorra o sangue e a \u00e1gua, isto \u00e9, de onde nasce a ordem sacramental da Igreja, e tamb\u00e9m o grande grito da \u201cserpente antiga\u201d e o seu desaparecimento. Realmente, com a morte de Jesus, \u201ctudo est\u00e1 consumado\u201d (Jo 19,30). A antiga cria\u00e7\u00e3o e as suas maldi\u00e7\u00f5es est\u00e3o superadas, tudo \u00e9 recriado em Jesus, novo Ad\u00e3o, que d\u00e1 origem ao novo ser humano espiritual e vivificado (1 Co 15,21-22.45-49).  \u00c9 Maria, ali\u00e1s, quem tem a mais perfeita consci\u00eancia da luta tit\u00e2nica que Jesus, Homem-Deus, est\u00e1 a travar contra a opress\u00e3o humana. N\u00e3o s\u00f3 no seu \u201cAmen\u201d \u00e0 \u201chora\u201d dolorosa de Jesus mas tamb\u00e9m ao saudar Jesus crucificado \u2013 qual nova Eva, como lhe chamou santo Irineu de Li\u00e3o \u2013, como \u201ccarne da minha carne&#8230;\u201d, o que corresponde ao inverter da sauda\u00e7\u00e3o que Ad\u00e3o faz a Eva: \u201cEsta sim, \u00e9 carne da minha carne\u201d (Gn 2,23). E Maria continua \u201c&#8230; cora\u00e7\u00e3o do meu cora\u00e7\u00e3o\u201d, o que remete para as devo\u00e7\u00f5es do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus e do Cora\u00e7\u00e3o Imaculado de Maria. E pede a seu Filho que a deixe morrer com ele, realizando nesse momento de m\u00e1ximo sofrimento o que a profecia de Sime\u00e3o lhe vaticinara: \u201cuma espada te trespassar\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o, para que se revelem os pensamentos de muitos cora\u00e7\u00f5es\u201d (Lc 2,35). Maria, pois, medianeira da\u00ed em diante e mesmo, manchada com o sangue da cruz, co-redentora. Este filme, que tem galvanizado multid\u00f5es de crist\u00e3os protestantes, n\u00e3o pode deixar de ter efeitos ben\u00e9ficos do ponto de vista ecum\u00e9nico no que diz respeito \u00e0 pessoa de Maria. Tem-se tamb\u00e9m chamado a aten\u00e7\u00e3o para a soteriologia que preside ao filme, acusando-o de optar por uma teologia da satisfa\u00e7\u00e3o vic\u00e1ria que teve curso em s\u00e9culos passados e que foi formalmente rejeitada pela Comiss\u00e3o teol\u00f3gica internacional: \u201cN\u00e3o se trata de pensar que Deus castigou ou condenou Cristo em vez de n\u00f3s. Essa \u00e9 uma teologia erradamente avan\u00e7ada por v\u00e1rios autores, nomeadamente na teologia reformada\u201d (Documentation Catholique 1803, 1981, 229). N\u00e3o se trata tamb\u00e9m da teologia do \u201cresgate ao diabo\u201d que prov\u00e9m de uma interpreta\u00e7\u00e3o deficiente de santo Agostinho e mesmo, antes dele, de Or\u00edgenes, nem da teologia da satisfa\u00e7\u00e3o \u00e0 ofendida honra de Deus de santo Anselmo, que punha o acento numa satisfa\u00e7\u00e3o de algum modo judici\u00e1ria. \u00c9 bem claro, atrav\u00e9s desse momento essencial do filme que \u00e9 a l\u00e1grima divina \u2013 sobre o fim da maravilha das maravilhas de Deus que \u00e9 a Incarna\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, o envio do Filho (cf. Mt 21,33-40) \u2013, quanto Deus n\u00e3o \u00e9 c\u00famplice seja de que forma for do mart\u00edrio de Jesus. \u201cDeus amou de tal forma o mundo que lhe deu o Seu Filho \u00fanico\u201d (Jo 3,16). O pr\u00f3prio Jesus apresenta o Seu sofrimento iminente e a consequente tristeza dos disc\u00edpulos como as dores do parto com vista a um novo nascimento (Jo 16,21) e falou da necessidade de o gr\u00e3o de trigo morrer (Jo 12,24). Os anjos no sepulcro vazio lembram \u00e0s mulheres como Jesus lhes ensinava que \u201chavia de ser entregue \u00e0s m\u00e3os dos pecadores\u201d (Lc 24,7). A teologia que preside \u00e0 obra de Mel Gibson \u00e9 certamente uma teologia do sacrif\u00edcio, mas essa teologia \u00e9 a do pr\u00f3prio NT, tanto nas suas refer\u00eancias aos salmos j\u00e1 citados e aos C\u00e2nticos do Servo, como na ep\u00edstola aos Hebreus e nos pr\u00f3prios escritos de Paulo (Rm 12,1; 1 Co 10,14-22; 11,24-25; Ef 5,2). Isto para n\u00e3o falarmos do paralelismo feito por Jo\u00e3o entre Jesus e o cordeiro pascal, omnipre-sente tamb\u00e9m no Cordeiro Imolado do Apocalipse. Mas este sacrif\u00edcio, que em Jesus n\u00e3o \u00e9 ritual mas existencial, n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o uma manifesta\u00e7\u00e3o da miseric\u00f3rdia divina em favor dos homens. \u00c9 uma manifesta\u00e7\u00e3o de uma cristologia descendente, desde os Padres da Igreja, de um Deus que se d\u00e1 aos homens sem medida, at\u00e9 ao fim (Jo 13,1) e que destr\u00f3i os pesados port\u00f5es da morte, para abrir a vida do Esp\u00edrito sem medida aos homens, a diviniza\u00e7\u00e3o que \u00e9 o seu fim \u00faltimo e a sua alegria definitiva.  Maria Armanda Saint-Maurice, Te\u00f3loga <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Armanda Saint-Maurice, Te\u00f3loga<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[154],"class_list":["post-5272","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-crianca"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5272","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5272"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5272\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5272"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5272"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5272"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}