{"id":52599,"date":"2011-08-13T11:10:00","date_gmt":"2011-08-13T11:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/08\/13\/homilia-da-missa-da-peregrinacao-internacional-dos-migrantes-a-fatima\/"},"modified":"2011-08-13T11:10:00","modified_gmt":"2011-08-13T11:10:00","slug":"homilia-da-missa-da-peregrinacao-internacional-dos-migrantes-a-fatima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-da-missa-da-peregrinacao-internacional-dos-migrantes-a-fatima\/","title":{"rendered":"Homilia da missa da Peregrina\u00e7\u00e3o Internacional dos Migrantes a F\u00e1tima"},"content":{"rendered":"<p>D. Arlindo Gomes Furtado <!--more--> <\/p>\n<p><em>Car&iacute;ssimos irm&atilde;os em Jesus Cristo,<\/em><\/p>\n<p>O Senhor do c&eacute;u e da terra, que cuida de todas os povos com carinho e os governa com justi&ccedil;a, nos convoca hoje, aqui, neste lugar sagrado, n&oacute;s que proviemos de tantos lugares diferentes, para, juntos, como uma s&oacute; fam&iacute;lia humana, elevarmos a Deus os louvores que Ele merece e deixarmos que Ele nos fale ao cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Neste dia singular, em que, no contexto da 39&ordf; Semana Nacional de Migra&ccedil;&otilde;es, celebramos com alegria a peregrina&ccedil;&atilde;o dos Imigrantes e Refugiados ao Santu&aacute;rio de F&aacute;tima, aproveito a oportunidade para saudar a Comiss&atilde;o Episcopal da mobilidade humana, na pessoa de seu Presidente, o Sr. D. Ant&oacute;nio Vitalino Dantas, Bispo de Beja, e agradecer-lhe a honra que me d&aacute;, convidando-me para participar nesta celebra&ccedil;&atilde;o. Sa&uacute;do fraternalmente a todos os que, t&atilde;o dedicadamente, estiveram empenhados na prepara&ccedil;&atilde;o desta peregrina&ccedil;&atilde;o, e, ainda de modo muito especial, a todos os peregrinos que ouviram o apelo e se disponibilizaram para vir participar nesta jornada de f&eacute;, que &eacute; ao mesmo tempo um impulso &agrave; esperan&ccedil;a e express&atilde;o do amor de Cristo, derramado em nossos cora&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p><em>Car&iacute;ssimos irm&atilde;os,<\/em><\/p>\n<p>A pessoa humana &eacute;, por natureza, um ser em muta&ccedil;&atilde;o, em cont&iacute;nuo processo de constru&ccedil;&atilde;o e, durante a sua vida na terra, nunca &eacute; um ser acabado. Tal mudan&ccedil;a, a partir do seu ser interior &eacute; igualmente acompanhada de uma din&acirc;mica de mobilidade no espa&ccedil;o e no tempo. A pessoa humana n&atilde;o precisa necessariamente nascer, crescer, viver e morrer no mesmo lugar.&nbsp;<\/p>\n<p>Deus criou o mundo para toda a humanidade e est&aacute; inscrito em cada um de n&oacute;s o desejo de nos transferirmos de um lugar para outro por m&uacute;ltiplas raz&otilde;es, quer de ordem pessoal, quer por v&aacute;rios outros motivos circunstanciais.<\/p>\n<p>A mobilidade humana &eacute; um direito e um dever que assistem a cada pessoa e &eacute; um fen&oacute;meno que acompanha o ser humano desde os prim&oacute;rdios da hist&oacute;ria humana. Sim, o homem &eacute; um ser peregrino e Deus, Criador e Pai de todos, nos deu este planeta como espa&ccedil;o vital, para dele cuidarmos e dele nos servirmos.<\/p>\n<p>Como nos diz o Papa Bento XVI na sua mensagem para o 97&ordm; dia Mundial de Migrantes e Refugiados, s&atilde;o v&aacute;rias as situa&ccedil;&otilde;es que provocam a mobilidade humana, nas suas diversas express&otilde;es internas ou internacionais, permanentes ou peri&oacute;dicas, econ&oacute;micas ou pol&iacute;ticas, volunt&aacute;rias ou for&ccedil;adas.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, o grande fen&oacute;meno da globaliza&ccedil;&atilde;o hoje em curso favorece essa mobilidade, gra&ccedil;as &agrave;s informa&ccedil;&otilde;es dispon&iacute;veis, &agrave; consci&ecirc;ncia dos pr&oacute;prios direitos a uma vida melhor, &agrave; facilidade dos meios de transporte, &agrave; perce&ccedil;&atilde;o do planeta como uma aldeia global, em que a interdepend&ecirc;ncia e a m&uacute;tua corresponsabilidade s&atilde;o tra&ccedil;os caracter&iacute;sticos.<\/p>\n<p>Todo esse conjunto de experi&ecirc;ncias e de perce&ccedil;&otilde;es dos homens do nosso tempo levam-nos a ver a humanidade no seu todo como &ldquo;uma s&oacute; fam&iacute;lia humana&rdquo;, que &eacute; o lema da mensagem do Santo Padre para este ano.<\/p>\n<p>Todavia, para al&eacute;m dessas experi&ecirc;ncias do homem do nosso tempo, n&oacute;s, os crist&atilde;os temos raz&otilde;es de outra ordem, n&atilde;o s&oacute; para entendermos a humanidade como uma s&oacute; fam&iacute;lia, mas ainda para nos empenharmos a fundo na constru&ccedil;&atilde;o dessa realidade, que somos chamados a viver no presente, no futuro, na eternidade.<\/p>\n<p>Na verdade, n&oacute;s sabemos pelas Sagradas Escrituras e acreditamos pela f&eacute; que Deus &eacute; o &uacute;nico Criador do g&eacute;nero humano, &eacute; Pai de todos e faz de todos os povos, sem distin&ccedil;&atilde;o de ra&ccedil;as, l&iacute;nguas e culturas, uma s&oacute; fam&iacute;lia em Cristo Jesus. A mesma Sagrada Escritura nos ensina que, em Cristo, n&oacute;s constitu&iacute;mos um s&oacute; corpo m&iacute;stico, sendo membros uns dos outros, cuja cabe&ccedil;a &eacute; o pr&oacute;prio Cristo.<\/p>\n<p>Assim, para al&eacute;m de uma solidariedade natural que caracteriza o n&iacute;vel de um ser humano em rela&ccedil;&atilde;o ao seu semelhante, n&oacute;s temos especiais motiva&ccedil;&otilde;es de ordem espiritual que nos fazem correspons&aacute;veis uns pelos outros e nos levam a amar-nos verdadeiramente uns aos outros como irm&atilde;os, como o pr&oacute;prio Jesus faz para connosco e nos manda fazer em rela&ccedil;&atilde;o ao nosso pr&oacute;ximo: &ldquo;Que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei&rdquo; (Jo 13, 34).<\/p>\n<p>Pela for&ccedil;a desta convic&ccedil;&atilde;o e pela solidez desse amor fraterno em Cristo Jesus, o emigrante por qualquer raz&atilde;o e em qualquer parte do mundo, apesar das dificuldades normais que o acompanham, especialmente nos per&iacute;odos iniciais, no que diz respeito &agrave; adapta&ccedil;&atilde;o &agrave; l&iacute;ngua, a usos e costumes diferentes, &agrave; nova cultura, enfim, a um novo espa&ccedil;o relacional, deve sentir-se confiante e decididamente positivo na constru&ccedil;&atilde;o do processo da sua integra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, aqueles que acolhem o emigrante na sua terra, devem ter a consci&ecirc;ncia do mundo global em que vivemos, do destino comum dos bens e de que, qualquer um, em qualquer momento, por um motivo qualquer, poder&aacute; igualmente ser emigrante em qualquer parte do mundo. E aqui, mais uma vez, se faz valer o exemplo e o ensinamento fundamental de Jesus Cristo, o Salvador do mundo: &ldquo;&hellip; o que quiserdes que vos fa&ccedil;am os homens, fazei-o tamb&eacute;m a eles; &hellip;&rdquo; (Mt 7, 12). E ainda: &ldquo;Sempre que fizestes isto a um destes meus irm&atilde;os mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes&rdquo; (Mt 25, 40b).<\/p>\n<p>Todos n&oacute;s sabemos pela hist&oacute;ria e pela experi&ecirc;ncia pr&oacute;pria que, no encontro de pessoas de diversas proveni&ecirc;ncias, pelo cruzamento de povos de l&iacute;nguas e culturas diferentes, cria-se habitualmente uma intera&ccedil;&atilde;o din&acirc;mica e enriquecedora, num dar e receber rec&iacute;procos, valorizando-se uns e outros. E aqui tamb&eacute;m se cumpre o ditado de que &ldquo;ningu&eacute;m &eacute; t&atilde;o pobre que n&atilde;o tenha nada para dar, nem ningu&eacute;m &eacute; t&atilde;o rico que n&atilde;o tenha nada a receber&rdquo;.<\/p>\n<p>E tal valoriza&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua &eacute; certamente um fator de globaliza&ccedil;&atilde;o positiva e de uma melhor compreens&atilde;o do mundo atual.<\/p>\n<p><em>Car&iacute;ssimos irm&atilde;os em Cristo,<\/em><\/p>\n<p>Neste dia especial da nossa peregrina&ccedil;&atilde;o ao Santu&aacute;rio de F&aacute;tima, enquanto emigrantes nesta terra, chamada de Santa Maria, temos a iluminar-nos os textos sagrados que acab&aacute;mos de ouvir proclamar.<\/p>\n<p>O primeiro livro das Cr&oacute;nicas, que ouvimos na primeira leitura, apresenta-nos o rei David a convocar todo o povo de Israel em Jerusal&eacute;m, sob a orienta&ccedil;&atilde;o dos filhos de Aar&atilde;o e dos levitas, para a translada&ccedil;&atilde;o da arca de Deus, tamb&eacute;m chamada arca da alian&ccedil;a, para um lugar nobre, especialmente preparado pelo rei.<\/p>\n<p>Na Arca de Alian&ccedil;a guardavam-se as pedras da lei de Deus, lei que exprime a vontade de Deus e ensina ao povo que caminhos seguir na orienta&ccedil;&atilde;o da sua vida.<\/p>\n<p>A arca da alian&ccedil;a, portadora das dez palavras de Deus e sinal da presen&ccedil;a mesma de Deus no meio do seu povo, simboliza bem a verdadeira Arca da Alian&ccedil;a, portadora do <em>Logos<\/em>, o Verbo de Deus feito carne, Jesus Cristo, que, no seio da Virgem Santa Maria, assumiu a nossa humanidade, para salvar o mundo.<\/p>\n<p>David, os sacerdotes, os levitas e todo o povo de Israel fazem a translada&ccedil;&atilde;o da arca de Deus para Jerusal&eacute;m para um lugar condigno e se alegram efusivamente.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m n&oacute;s, hoje, somos convidados a preparar no nosso cora&ccedil;&atilde;o um lugar apropriado para a Virgem Santa M&atilde;e de Deus, a verdadeira arca de Deus e da sua alian&ccedil;a, celebrando com uma alegria transbordante o Deus que, em Maria se tornou o Emanuel, pela sua proximidade, pela sua presen&ccedil;a, pelo seu amor.<\/p>\n<p>&Eacute; desse <em>Logos<\/em>, Deus humanado pela for&ccedil;a do Esp&iacute;rito Santo no seio da Virgem Santa Maria que nos fala S. Jo&atilde;o na 2&ordf; leitura, tirada da sua primeira carta, ensinando-nos que &ldquo;quem confessar que Jesus &eacute; o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus&rdquo;.<\/p>\n<p>Confessar a f&eacute; em Jesus, pelo an&uacute;ncio da palavra e pelo testemunho da nossa vida, constitui hoje, car&iacute;ssimos irm&atilde;os, um dos grandes desafios e uma das maiores tarefas de todo e qualquer crist&atilde;o, em qualquer parte onde se encontre e em todas as circunst&acirc;ncias.<\/p>\n<p>Para al&eacute;m do an&uacute;ncio da mensagem e da qualidade do nosso testemunho crist&atilde;o, devemos ainda assumir a consci&ecirc;ncia da necessidade de o fazermos com ardor e grande alegria, atrav&eacute;s de express&otilde;es novas e adequadas aos homens do nosso tempo. Ontem, como hoje, como sempre, Jesus &eacute; o &uacute;nico nome dado aos homens, no qual todos seremos salvos. Confess&aacute;-lo &eacute; uma urg&ecirc;ncia priorit&aacute;ria.<\/p>\n<p>No evangelho de hoje S. Lucas apresenta-nos Maria que se p&otilde;e a caminho e se dirige &agrave; pressa para a montanha, a fim de servir a prima Isabel, que dela precisava. Cheia do Esp&iacute;rito Santo, Isabel, em sintonia com o Anjo da anuncia&ccedil;&atilde;o, que havia proclamado Maria &ldquo;a cheia de gra&ccedil;a&rdquo;, tamb&eacute;m a reconhece como a &ldquo;Bendita entre as mulheres&rdquo; e &ldquo;a M&atilde;e do &hellip; Senhor&rdquo;.<\/p>\n<p>&Eacute; pela f&eacute; que tem in&iacute;cio uma nova rela&ccedil;&atilde;o da criatura com o seu criador, &eacute; atrav&eacute;s da f&eacute; que acolhemos a palavra de Deus e pomos em pr&aacute;tica, tornando-nos assim bem-aventurados, como dizia Jesus: &ldquo;Felizes antes os que ouvem a Palavra de Deus e a p&otilde;em em pr&aacute;tica&rdquo; (Lc 11, 27). &Eacute; pela f&eacute; que Maria &eacute; feliz e se tornou a m&atilde;e de Deus feito homem, porque antes de ter concebido Jesus no seio, por obra do Esp&iacute;rito Santo, j&aacute; trazia Deus no seu cora&ccedil;&atilde;o. &Eacute; a mesma din&acirc;mica da f&eacute; que faz de n&oacute;s hoje, irm&atilde;os, irm&atilde;s e m&atilde;es de Jesus Cristo (Mt 12,50) e, por isso seus mensageiros nesta sociedade sedenta do amor, da paz, da comunh&atilde;o, de Deus.<\/p>\n<p><em>Car&iacute;ssimos irm&atilde;os em Jesus,<\/em><\/p>\n<p>Neste dia singular da nossa peregrina&ccedil;&atilde;o, enquanto emigrantes ou refugiados neste pa&iacute;s que nos acolhe, a partir deste Santu&aacute;rio mariano, justamente chamado de &ldquo;altar do mundo&rdquo;, com o ardor e a alegria de David; com a intensidade do amor e o sentido da urg&ecirc;ncia do testemunho de Jesus Cristo, de S. Jo&atilde;o; com a exemplaridade da f&eacute; indefet&iacute;vel e esp&iacute;rito de consagra&ccedil;&atilde;o e de servi&ccedil;o de Nossa Senhora, elevemos o nosso olhar, o nosso cora&ccedil;&atilde;o e o nosso c&acirc;ntico ao Criador de todas as coisas e Pai de todos os homens,<\/p>\n<p>&#8211; agradecendo de cora&ccedil;&atilde;o ao Senhor por tudo o que Ele tem feito por n&oacute;s, por tudo o que nos tem ajudado a fazer, para que todo o ser humano, neste mundo, na terra de origem ou em qualquer pa&iacute;s de acolhimento, possa encontrar sempre melhores condi&ccedil;&otilde;es de educa&ccedil;&atilde;o, de trabalho e de vida, num ambiente est&aacute;vel de paz e de respeito de direitos humanos;<\/p>\n<p>&#8211; pedindo que a Igreja de Jesus Cristo, de que todos n&oacute;s fazemos parte, se transforme cada vez mais em &ldquo;&hellip; o sacramento, ou o sinal, e o instrumento de &iacute;ntima uni&atilde;o com Deus e da unidade de todo o g&eacute;nero humano&rdquo; (Lumen Gentium, 1), prefigurando desde j&aacute; a comunh&atilde;o dos Santos, na p&aacute;tria definitiva;<\/p>\n<p>&#8211; suplicando que os Pol&iacute;ticos, os Respons&aacute;veis pela coisa p&uacute;blica e os Agentes Econ&oacute;micos, Culturais, Sociais e de Comunica&ccedil;&atilde;o assumam cabalmente o seu papel na sociedade, para que ningu&eacute;m jamais se sinta for&ccedil;ado a emigrar por causa da persegui&ccedil;&atilde;o, da guerra e da pobreza extrema;<\/p>\n<p>&#8211; rogando para que os emigrantes se empenhem, com todas as for&ccedil;as, na preserva&ccedil;&atilde;o e melhoria da qualidade da sua f&eacute; em Cristo, testemunhando-a com esperan&ccedil;a e alegria.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Deste santu&aacute;rio, lan&ccedil;amos um apelo filial &agrave; Nossa Senhora, a M&atilde;e da esperan&ccedil;a, ela que, perante a persegui&ccedil;&atilde;o do rei Herodes, emigrou com Jesus rec&eacute;m-nascido para o Egito, para salvar a vida do Filho, Salvador do mundo, para que ela acompanhe, guie, fortale&ccedil;a e proteja cada um de v&oacute;s aqui presente e cada emigrante em qualquer parte do mundo.<\/p>\n<p>Assim, pela intercess&atilde;o da M&atilde;e do c&eacute;u, Jesus seja sempre, para todos e para cada um, o caminho, a verdade e a vida; a luz que ilumina intensamente todos os que s&atilde;o acolhidos noutras terras, bem como aqueles que acolhem os que chegam de outras proveni&ecirc;ncias, sempre no esp&iacute;rito de que somos todos uma s&oacute; fam&iacute;lia humana. Amen.<\/p>\n<p><em>D. Arlindo Gomes Furtado, bispo de Santiago, Cabo Verde<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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