{"id":52277,"date":"2011-07-19T13:31:11","date_gmt":"2011-07-19T13:31:11","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/07\/19\/dignidade-migrante\/"},"modified":"2011-07-19T13:31:11","modified_gmt":"2011-07-19T13:31:11","slug":"dignidade-migrante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/dignidade-migrante\/","title":{"rendered":"Dignidade migrante"},"content":{"rendered":"<p>Padre Rui Pedro <!--more--> <\/p>\n<p>1. A maioria das pessoas que continua a decidir emigrar, incluindo mesmo aquelas que o fazem de modo for&ccedil;ado por raz&otilde;es de sobreviv&ecirc;ncia, de ex&iacute;lio ou fuga, t&ecirc;m no horizonte do seu projeto a meta de uma vida melhor, mais digna e segura.<\/p>\n<p>A nossa condi&ccedil;&atilde;o migrante de povo que, no seu DNA, tem a mobilidade como uma das mais vis&iacute;veis caracter&iacute;sticas estruturais da identidade explica quanta heroicidade, aventura e for&ccedil;a de &acirc;nimo tem havido na alma de tantos portugueses. Hoje como ontem, eles continuam a n&atilde;o encontrar no nosso pa&iacute;s e suas pol&iacute;ticas, as condi&ccedil;&otilde;es desejadas para uma vida feliz, desafogada, um trabalho suficientemente remunerado e uma estabilidade econ&oacute;mica mais aderente aos projetos familiares e &agrave; forma&ccedil;&atilde;o profissional adquirida.&nbsp;<\/p>\n<p>Nesta procura de uma vida melhor, todos n&oacute;s conhecemos emigrantes portugueses, alguns das nossas pr&oacute;prias fam&iacute;lias e, nas &uacute;ltimas duas d&eacute;cadas, tamb&eacute;m j&aacute; alguns imigrantes a viver em Portugal, que conseguiram ter uma trajet&oacute;ria de sucesso no pr&oacute;prio emigrar apresentando sinais de plena integra&ccedil;&atilde;o. Neste caso, a migra&ccedil;&atilde;o foi, sem d&uacute;vida, uma b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o para si pr&oacute;prios, suas fam&iacute;lias e projetos de vida.<\/p>\n<p>Contudo, muito desse sucesso de hoje, para quem n&atilde;o sabe, e na maioria dos casos, &eacute; fruto de grandes dificuldades pessoais, discrimina&ccedil;&otilde;es sociais, incertezas familiares, injusti&ccedil;as laborais, riscos culturais e fracassos a v&aacute;rios n&iacute;veis. Estes eventos constituem o &ldquo;segredo&rdquo; que encerra a aventura da emigra&ccedil;&atilde;o real. Tal como o imigrante brasileiro em Portugal nunca ir&aacute; dizer aos seus familiares l&aacute; longe que as coisas n&atilde;o v&atilde;o bem por c&aacute;, tamb&eacute;m de muitos dos nossos emigrantes portugueses desconhecemos em absoluto os tra&ccedil;os de exclus&atilde;o e situa&ccedil;&otilde;es de sofrimento vividas l&aacute; por fora. Na verdade, nas f&eacute;rias nunca h&aacute; tempo para falar disso pois h&aacute; que ser positivos e mostrar que a experi&ecirc;ncia migrat&oacute;ria valeu e vale a pena e todo o processo atingiu seu objetivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. A verdade &eacute; que, cada vez que entramos mais neste universo complexo da mobilidade humana &#8211; portuguesa, lus&oacute;fona, europeia e mundial &#8211; vemos que a migra&ccedil;&atilde;o, em geral, n&atilde;o obstante os tantos progressos a n&iacute;vel de filosofias e pol&iacute;ticas migrat&oacute;rias, continua associada a situa&ccedil;&otilde;es de grande vulnerabilidade de vida e exclus&atilde;o social e econ&oacute;mica. Por esse facto, faz todo o sentido que a Igreja e as religi&otilde;es em geral, se interessem pelo bem-estar das pessoas em movimento e continuem a criar estruturas, itiner&aacute;rios e modelos de acompanhamento para defesa dos direitos humanos, culturais e religiosos.<\/p>\n<p>Seguem alguns casos e situa&ccedil;&otilde;es vividas por tantos volunt&aacute;rios crist&atilde;os que, pelo mundo, nas v&aacute;rias organiza&ccedil;&otilde;es c&iacute;vicas, congrega&ccedil;&otilde;es mission&aacute;rias e associa&ccedil;&otilde;es de imigrantes trabalham em prol da unidade da &ldquo;Fam&iacute;lia humana&rdquo;, como recomenda Bento XVI na sua Mensagem para o Dia do Migrante e Refugiado.<\/p>\n<p>Uma vulnerabilidade que assume tantos rostos, consoante o pa&iacute;s, o g&eacute;nero, a cultura e as hist&oacute;rias de vida e de viagens.<\/p>\n<p>Uma pessoa, pelo facto de n&atilde;o viver na pr&oacute;pria terra, e ser considerada estrangeira, &egrave; habitualmente alvo de discrimina&ccedil;&otilde;es mais ou menos consentidas pela comunidade local, que mesmo n&atilde;o se reconhecendo xen&oacute;foba, nem racista, dificulta atrav&eacute;s de preconceitos e &ldquo;nacionalismos exacerbados&rdquo; a integra&ccedil;&atilde;o social, a habita&ccedil;&atilde;o condigna, o acesso &agrave; sa&uacute;de e a igualdade de tratamento. Que o digam alguns emigrantes africanos na Europa e portugueses na Fran&ccedil;a e Reino Unido.<\/p>\n<p>Uma pessoa, pelo facto de n&atilde;o ter os documentos em ordem, por variadas raz&otilde;es administrativas, e ter necessidade, como toda a gente, de um trabalho para viver de forma aut&oacute;noma e digna, n&atilde;o lhe resta que recorrer ao trabalho informal da economia submersa, sujeitando-se a condi&ccedil;&otilde;es prec&aacute;rias e incertezas salariais, mas alimentando assim a produtividade do pa&iacute;s que lhe nega a resid&ecirc;ncia. Pensemos nos emigrantes romenos e marroquinos em It&aacute;lia e Espanha.<\/p>\n<p>Uma pessoa que vivendo num pa&iacute;s empobrecido, em transi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica violenta, ou nas m&atilde;os da corrup&ccedil;&atilde;o, encadeada pela riqueza da Europa Ocidental, se entrega a &ldquo;passadores&rdquo;, &ldquo;traficantes&rdquo; e &ldquo;ag&ecirc;ncias&rdquo; para que, a troco de avultados pagamentos, a transportem at&eacute; a terra prometida. Pelo caminho, ela e seus companheiros de viagem, s&atilde;o despojados dos seus parcos haveres, contraem outras d&iacute;vidas e empr&eacute;stimos, sofrem humilha&ccedil;&otilde;es e muitos adoecem durante as longas e arriscadas travessias. Recordemos as travessias dos nossos portugueses dos anos sessenta rumo &aacute; Fran&ccedil;a, as recentes viagens atribuladas dos imigrantes ucranianos e moldavos at&eacute; Lisboa, e aquelas dos tunisinos e outros norte-africanos de hoje que morrem de esperan&ccedil;a no mar mediterr&acirc;neo ou, mesmo sobrevivendo, s&atilde;o encarcerados de forma indigna na ilha de Malta.<\/p>\n<p>Enfim, pensemos nas consequ&ecirc;ncias da maior patologia da emigra&ccedil;&atilde;o que, ao longo da hist&oacute;ria da mobilidade sempre deu sinais da sua horrenda presen&ccedil;a: o tr&aacute;fico de pessoas para a explora&ccedil;&atilde;o sexual e laboral. Quantas pessoas, homens e mulheres, menores, enganados por amigos e familiares &#8211; influenciados por redes criminosas! &ndash; s&atilde;o aliciados a deixar seu pa&iacute;s para conseguir trabalhos melhor remunerados, mas perdem a pr&oacute;pria dignidade humana em terras estrangeiras porque condenados a lugares de indignidade. Pensemos &agrave;s mulheres oriundas da Nig&eacute;ria e Brasil comercializadas na Europa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. A mobilidade humana, n&atilde;o obstante tudo, &eacute; normalmente ve&iacute;culo de progresso, oportunidades, emancipa&ccedil;&atilde;o e sucesso para muita gente. Por&eacute;m, como o atestam os casos apresentados anteriormente, pode tornar-se, quando espont&acirc;nea, n&atilde;o acompanhada, mal gerida e vivida na desinforma&ccedil;&atilde;o, um lugar de indignidade, de desumaniza&ccedil;&atilde;o, de perda da identidade e da pr&oacute;pria vida.<\/p>\n<p>Diante das mudan&ccedil;as r&aacute;pidas e complexas que caracterizam os movimentos migrat&oacute;rios hodiernos e as crescentes &ldquo;resist&ecirc;ncias&rdquo; pol&iacute;ticas e ideol&oacute;gicas, sobretudo, na Europa onde assistimos a um retrocesso a n&iacute;vel das pol&iacute;ticas migrat&oacute;rias, a Igreja deve continuar a dar o contributo que se prop&ocirc;s dar &agrave; sociedade por ocasi&atilde;o do I Encontro Mundial das Comunidades Portuguesas. Encontro realizado em 2005 e organizado pela Comiss&atilde;o Episcopal da Mobilidade humana, com o apoio da Obra Cat&oacute;lica Portuguesa de Migra&ccedil;&otilde;es. Nos Atos do Encontro foram apontadas duas prioridades para a&ccedil;&atilde;o: a &ldquo;reconceptualiza&ccedil;&atilde;o&rdquo; da mobilidade que atravessa o pa&iacute;s, a n&iacute;vel da emigra&ccedil;&atilde;o e imigra&ccedil;&atilde;o, e a reestrutura&ccedil;&atilde;o dos modelos pastorais, com vista a acompanhar de forma mais adequada as &ldquo;novas mobilidades&rdquo; em curso, a mitigar o sofrimento dos migrantes mais isolados e a prever situa&ccedil;&otilde;es de futura vulnerabilidade que possam vir a desvirtuar as migra&ccedil;&otilde;es como caminho para a felicidade, seguran&ccedil;a, liberdade e procura de dignidade de vida.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Padre Rui Pedro, mission&aacute;rio scalabriniano<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Rui Pedro<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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