{"id":52040,"date":"2011-07-01T13:15:45","date_gmt":"2011-07-01T13:15:45","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/07\/01\/felicidade-em-tempos-de-crise\/"},"modified":"2011-07-01T13:15:45","modified_gmt":"2011-07-01T13:15:45","slug":"felicidade-em-tempos-de-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/felicidade-em-tempos-de-crise\/","title":{"rendered":"Felicidade em tempos de crise"},"content":{"rendered":"<p>A felicidade pode ser uma op\u00e7\u00e3o e uma pedagogia, mesmo em tempo de crise. Quem o explica \u00e9 Helena Marujo, psic\u00f3loga e especialista em psicologia positiva. <!--more--> <\/p>\n<p>A felicidade pode ser uma op&ccedil;&atilde;o e uma pedagogia, mesmo em tempo de crise. Quem o explica &eacute; Helena Marujo, psic&oacute;loga e especialista em psicologia positiva, que sugere formas de caminhar para a felicidade e deixa dicas para tornar os dias mais positivos.<\/p>\n<p><em>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA (AE) &#8211; Os portugueses s&atilde;o um povo triste?<\/em><\/p>\n<p><em>Helena Marujo (HM) &#8211;<\/em> Na &aacute;rea do bem-estar e otimismo t&ecirc;m surgido estudos e investiga&ccedil;&otilde;es, desenvolvidos nomeadamente por estrangeiros, que indicam que os portugueses, quando questionados, por exemplo, no final de cada ano sobre as suas expectativas para o ano seguinte, tendem, de uma maneira geral, a mostrar que se sentem pouco otimistas em rela&ccedil;&atilde;o ao futuro.<\/p>\n<p>Por outro lado, estudos de bem-estar, feitos pela New Economic Foundation, em Inglaterra, ou resultados do World Database of Happiness, apontam que os n&iacute;veis de bem-estar autoavaliados pelos portugueses est&atilde;o mais baixos que as m&eacute;dias e tendem at&eacute; a estar mais baixos que pa&iacute;ses em que as condi&ccedil;&otilde;es materiais, de vida, at&eacute; de paz ou de guerra, s&atilde;o piores que as nossas. H&aacute; qualquer coisa na nossa cultura que espera o pior, algo que n&atilde;o permite ter vis&otilde;es entusiasmadas e esperan&ccedil;adas no futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Esta vis&atilde;o impede o encontro com um caminho de felicidade?<\/em><\/p>\n<p><em>HM &#8211; <\/em>Claro que n&atilde;o. Um estudo da New Economic Foundation mostra que nos indicadores de bem-estar subjetivo e individual, os portugueses se avaliam dizendo que est&atilde;o pouco satisfeitos com a vida; quando questionados acerca da qualidade das suas rela&ccedil;&otilde;es sociais, os valores disparam e saltamos para um honroso lugar nos pa&iacute;ses da Europa. H&aacute; sinais que mostram uma satisfa&ccedil;&atilde;o com as rela&ccedil;&otilde;es, com a forma como somos e vivemos. Atrav&eacute;s das rela&ccedil;&otilde;es sociais podemos potenciar algumas tend&ecirc;ncias nossas.<\/p>\n<p>H&aacute; um estudo feito em Portugal, pelo professor Miguel Pereira Lopes, no contexto empresarial, sobre o otimismo e o pessimismo, que revela um dado interessante &ndash; somos um pouco paradoxais, simultaneamente otimistas e pessimistas. Ainda que a ci&ecirc;ncia diga que &eacute; poss&iacute;vel ser as duas coisas &#8211; n&atilde;o &eacute; um cont&iacute;nuo, os portugueses t&ecirc;m mais paradoxos. Isto pode ser positivo se agarrarmos o que nos faz ser otimistas, quais s&atilde;o as nossas &aacute;reas de bem-estar.<\/p>\n<p>Penso, por exemplo, na capacidade de criar partindo da consci&ecirc;ncia do que fazemos melhor, do que funciona na nossa sociedade. Somos &oacute;timos nas rela&ccedil;&otilde;es familiares, continuamos a dar uma grande import&acirc;ncia &agrave;s amizades, &agrave; presen&ccedil;a da fam&iacute;lia &ndash; e podemos ir buscar, a essas for&ccedil;as coletivas, algo que nos fa&ccedil;a compensar o lado menos confiante no futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Fala em diversas entrevistas e nas confer&ecirc;ncias em que participa que a sociedade se encontra num ponto de viragem. Que circunst&acirc;ncias vivemos para indicar este ponto de viragem? <\/em><\/p>\n<p><em>HM &#8211; <\/em>Estamos num momento fant&aacute;stico e, ainda que tantas vozes digam constantemente que estamos em crise profunda, seja econ&oacute;mica, social ou pol&iacute;tica, considero que estamos a caminhar para uma sociedade que busca mais o sentido da vida, que quer refletir nas suas escolhas e est&aacute; a perceber que as vis&otilde;es de competitividade, consumo e individualismo que marcaram as &uacute;ltimas d&eacute;cadas, deixaram de fazer sentido e n&atilde;o nos levaram para um caminho que nos orgulhe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Est&aacute; a aparecer nas ci&ecirc;ncias sociais e humanas a preocupa&ccedil;&atilde;o em investigar o que leva as pessoas a estar na sua excel&ecirc;ncia, que procuram outras formas de ser sociedade, investir no voluntariado, criar mais espa&ccedil;os de coopera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H&aacute; sinais muito interessantes e, noto isso n&atilde;o apenas no trabalho na Universidade (Faculdade de Psicologia e de Ci&ecirc;ncias da Educa&ccedil;&atilde;o, da Universidade de Lisboa, ndr.) com os alunos que s&atilde;o para mim um bar&oacute;metro importante, h&aacute; uma sede imensa de parar para pensar, reavivar os valores que de facto fazem sentido, deixar uma vis&atilde;o passiva, de consumidor de coisas com efeitos transit&oacute;rios nos n&iacute;veis de bem-estar, para voltar ao essencial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E as rela&ccedil;&otilde;es humanas s&atilde;o essenciais. Viver uma vida com prop&oacute;sito, comprometida, virada para o bem comum, &eacute; o caminho que estamos a descobrir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Portanto, &eacute; poss&iacute;vel falar de felicidade num momento social e econ&oacute;mico que Portugal est&aacute; a atravessar? Este &eacute; um tempo de oportunidades?<\/em><\/p>\n<p><em>HM &#8211; <\/em>Eu penso que sim, precisamente por estarmos num momento dif&iacute;cil, temos que nos reencontrar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&Eacute; nos momentos menos bons, no confronto com alguns becos resultantes de escolhas que enquanto humanidade fomos fazendo, em quest&otilde;es t&atilde;o profundas e fortes como as injusti&ccedil;as sociais que, quando paramos para definir o que queremos, percebemos que n&atilde;o estamos mais felizes, apesar de muito mais ricos e estamos mais sozinhos. Precisamos voltar a apostar no valor coletivo, no que nos une, no amor, na criatividade, na generosidade, na gratid&atilde;o. Penso que isto est&aacute; a surgir e &eacute; precisamente pelo confronto com as crises que vamos mais longe.<\/p>\n<p>H&aacute; uma &aacute;rea de estudo que me apaixona na psicologia positiva, que &eacute; o crescimento p&oacute;s traum&aacute;tico, que se revela na sa&uacute;de, na &aacute;rea econ&oacute;mica ou perante cat&aacute;strofes naturais e &eacute; espantoso perceber que as pessoas que passaram por situa&ccedil;&otilde;es dif&iacute;ceis conseguiram crescer, ou consideraram estar melhor enquanto seres humanos. O que encontramos &eacute; uma resposta muito positiva. Pedimos por vezes aos alunos na Universidade que escrevam sobre a altura em que melhor estiveram na sua vida, em que sentiram mais orgulho em ser quem s&atilde;o, e frequentemente, as respostas que temos ligam-se a alturas dif&iacute;ceis da vida. Isto &eacute; generaliz&aacute;vel.<\/p>\n<p>Nos momentos mais dif&iacute;ceis descobrimos que temos for&ccedil;as extraordin&aacute;rias, virtudes de car&aacute;ter que nem sonh&aacute;vamos, capacidade para pensar e fazer de outra maneira. Penso que este &eacute; o ponto de viragem em que nos encontramos e, por isso, est&aacute; tudo em aberto.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; O caminho de felicidade treina-se, h&aacute; uma pedagogia? <\/em><\/p>\n<p><em>HM &#8211; <\/em>Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas os cientistas come&ccedil;aram a interessar-se por isto e t&ecirc;m estudado algumas pr&aacute;ticas de vida.<\/p>\n<p>Perceber o efeito que tem viver emo&ccedil;&otilde;es positivas, a dieta emocional, ou seja, escolher diariamente a alegria, o aprender coisas novas, a express&atilde;o do amor e gratid&atilde;o, do sentido de humor.<\/p>\n<p>Existe uma linha de investiga&ccedil;&atilde;o, com impacto mundial, conduzido por Barbara Fredrickson que, em contexto laboratorial, tem mostrado claramente que, quando nos sentimos bem e a viver emo&ccedil;&otilde;es positivas, vivemos em m&eacute;dia mais 10 anos do que as pessoas que se abatem e se frustram pela mais pequena coisa ou deixam a raiva crescer perante o des&acirc;nimo. Ao mesmo tempo que se valida o sofrimento &#8211; n&atilde;o se faz de conta que ele n&atilde;o existe &#8211; precisamos de sobre compensar para sermos capazes de avan&ccedil;ar como pessoas.<\/p>\n<p>A dieta emocional, o cuidar de coisas que nos fazem sentir bem, particularmente em momentos dif&iacute;ceis, ser capaz de acreditar em alternativas, procur&aacute;-las, cuidar do que o faz sentir bem no dia a dia, ser capaz de desenvolver e apostar nas emo&ccedil;&otilde;es positivas di&aacute;rias, s&atilde;o pedagogias.<\/p>\n<p>Outra &eacute; investir na nossa capacidade de focar o que funciona na nossa vida e na nossa sociedade. Fomos ensinados, at&eacute; pela sobreviv&ecirc;ncia da esp&eacute;cie, a estar mais sens&iacute;vel ao mal do que ao bem. Tem, obviamente, uma fun&ccedil;&atilde;o adaptativa importante mas se, ao mesmo tempo, n&atilde;o notarmos no que h&aacute; de funcional, saud&aacute;vel, de belo e bom &agrave; nossa volta, &eacute; prov&aacute;vel que nos deprimamos, deixemos de acreditar na vida, sem vontade de levantar de manh&atilde;.<\/p>\n<p>Precisamos de treinar a nossa capacidade de ver que nas circunst&acirc;ncias dif&iacute;ceis, h&aacute; coisas boas. H&aacute; seres humanos que conseguem, perante vidas dific&iacute;limas ser constantemente inspiradores de confian&ccedil;a no futuro, de entusiasmo e desdramatiza&ccedil;&atilde;o. O ser humano inspira-se mutuamente, por isso precisa de mais modelos e holofotes sobre modelos e pessoas nas nossas comunidades que fazem diferen&ccedil;a, porque guiam o nosso olhar e a nossa vontade de sermos melhores pessoas. Sublinhar hist&oacute;rias de pessoas boas e de bem, de produtos e servi&ccedil;os positivos que nos rodeiam, ajuda-nos a continuar a acreditar, a confiar e a ter esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; A positividade &eacute; uma op&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n<p><em>HM &#8211; <\/em>Creio que sim. Alguns estudos em Inglaterra e nos Estados Unidos da Am&eacute;rica v&atilde;o nessa linha e querem perceber se a felicidade ou o otimismo s&atilde;o coisas gen&eacute;ticas, das quais &eacute; dif&iacute;cil fugir, ou se s&atilde;o os acontecimentos de vida que determinam a forma como nos sentimos. Alguns indicadores apontam resultados surpreendentes.<\/p>\n<p>Por exemplo: alguns dados indicam que cerca de 50% da nossa felicidade &eacute; influenciada por tend&ecirc;ncias gen&eacute;ticas. Mas apenas 10% do que nos acontece parece interferir com a satisfa&ccedil;&atilde;o global da nossa vida. Quer dizer que temos 40% de escolha, de op&ccedil;&atilde;o sobre que limonada fazer com os lim&otilde;es azedos que a vida me d&aacute;. H&aacute; muitas pessoas que fazem limonadas extraordin&aacute;rias e conseguem encontrar formas de supera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Existem no mundo tantos exemplos, &agrave;s vezes dentro das nossas casas e n&atilde;o reparamos neles. Portanto, precisamos conhecer-nos melhor no nosso melhor, na nossa excel&ecirc;ncia. O fant&aacute;stico do meu trabalho &eacute; perceber isso. Quando perguntamos a uma crian&ccedil;a pobre que tem o pai preso por tr&aacute;fico de droga, ela consegue dizer o que a orgulha mais na sua fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>Encontramos um potencial de trabalho bastante grande. &Eacute; necess&aacute;rio tomar consci&ecirc;ncia das virtudes delas e faz&ecirc;-las render. Isso &eacute; outra pedagogia da felicidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Os crist&atilde;os s&atilde;o pessoas tristes?<\/em><\/p>\n<p><em>HM &#8211; <\/em>Obviamente que temos um modelo do sofrimento e da morte de Cristo. A cruz est&aacute; em todas as nossas igrejas e em muitas das nossas casas para nos lembrar e fazer acordar para a ideia de que o sofrimento faz parte da experi&ecirc;ncia humana. Mas temos a leitura de ressurrei&ccedil;&atilde;o e a possibilidade de perspetivar a vida humana numa vis&atilde;o constante de renova&ccedil;&atilde;o e restaura&ccedil;&atilde;o a cada momento.<\/p>\n<p>Vivi nos EUA e numa igreja cat&oacute;lica que conheci e frequentei, uma coisa que me impressionou, contrariamente &agrave; minha experi&ecirc;ncia num pa&iacute;s latino, n&atilde;o havia imagens da morte e da crucifica&ccedil;&atilde;o, apenas da ressurrei&ccedil;&atilde;o. Os espa&ccedil;os da celebra&ccedil;&atilde;o eucar&iacute;stica eram de grande alegria. H&aacute; muitas formas de viver o cristianismo e eu conhe&ccedil;o muitos crist&atilde;os que s&atilde;o fonte de alegria permanente e, por ser crist&atilde;os, se agarram e usam a sua cren&ccedil;a religiosa como um permanente motor para dar, por onde passam, um sinal de vida e n&atilde;o de morte.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; O sofrimento pode ser uma pedagogia para a felicidade?<\/em><\/p>\n<p><em>HM &#8211; <\/em>Para algumas pessoas, as experi&ecirc;ncias de sofrimento podem ter sido momentos de viragem, mas n&atilde;o precisamos passar pelo sofrimento para ser felizes. N&atilde;o precisamos que algo terr&iacute;vel aconte&ccedil;a para finalmente pensarmos na nossa exist&ecirc;ncia, decidir o que &eacute; essencial ou refazer o dia a dia e as escolhas.<\/p>\n<p>No cruzamento que fa&ccedil;o entre a ci&ecirc;ncia e a psicologia positiva, que partilho nas confer&ecirc;ncias e palestras, &eacute; que n&atilde;o precisamos do sofrimento para ser felizes. Muitos que j&aacute; sofreram mostram que o sofrimento serve de alavanca, mas uma outra maneira de avan&ccedil;ar como humanidade &eacute; fazer crescer o bom, n&atilde;o necessariamente esperar que aconte&ccedil;a o mal para nos transfigurarmos.<\/p>\n<p>O sofrimento &eacute; parte da nossa exist&ecirc;ncia, felizmente ou infelizmente. A dor tem de fazer parte do nosso olhar, temos de estar preparados para lidar com ela da melhor forma. Mas fazer crescer uma rosa n&atilde;o &eacute; o mesmo que limpar as ervas daninhas. Tirar as ervas daninhas n&atilde;o me d&aacute; um jardim, eu tenho de plantar coisas belas.<\/p>\n<p>Precisamos de pensar no que queremos cultivar, os valores e pr&aacute;ticas de vida que nos fazem sentido, que mensagem dou na fila do supermercado, ou numa fila de tr&acirc;nsito? Dou uma mensagem de querer estar &agrave; frente ou de amor? At&eacute; isto est&aacute; a ser estudado pela psicologia positiva.<\/p>\n<p>H&aacute; um tipo de medita&ccedil;&atilde;o &ndash; a Loving-kindness Meditation &ndash; que implica convidar as pessoas a meditar nos atos de amor que fizeram ou receberam. Os estudos mostram um aumento das emo&ccedil;&otilde;es positivas, do comportamento social, da aproxima&ccedil;&atilde;o ao outro e uma transforma&ccedil;&atilde;o pessoal. Coisas simples podem tornar-se grandes solu&ccedil;&otilde;es se ensinarmos as crian&ccedil;as a introduzir pr&aacute;ticas como esta nas suas vidas e pode estar aqui uma nova janela sobre o futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Destacou que ultimamente se procura o sentido da vida. A espiritualidade pode ser um caminho para a felicidade?<\/em><\/p>\n<p><em>HM &#8211; <\/em>Sem d&uacute;vida. &Eacute; um dos caminhos. A espiritualidade que pode ser ou n&atilde;o religiosidade. H&aacute; muitas pessoas agn&oacute;sticas que s&atilde;o profundamente espirituais. A experi&ecirc;ncia da busca de sentido, de perguntar o que quero fazer da minha vida, onde quero estar daqui a uns anos, coisas aparentemente simples mas dif&iacute;ceis &#8211; o que gostava de escrever numa carta antes de morrer, o que gostava de ter na minha l&aacute;pide &#8211; ajuda-nos a refletir melhor sobre a exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Quando paramos para pensar, em vez de passivos consumidores, percebemos que de facto &eacute; pela espiritualidade, pela busca de sentido e pela compreens&atilde;o que n&atilde;o h&aacute; felicidade virados para os umbigos individuais, mas apenas voltados para o bem comum, pode ser cuidando do planeta, ou de crian&ccedil;as, ou fazendo algo onde me sinto a participar na constru&ccedil;&atilde;o coletiva, sentir que sou ativo na constru&ccedil;&atilde;o da sociedade e o que eu fa&ccedil;o entra num bolo maior, onde a minha contribui&ccedil;&atilde;o conta, isto &eacute; tamb&eacute;m uma cultura espiritual. H&aacute; livros sobre o cultivo da espiritualidade no contexto das organiza&ccedil;&otilde;es. Isto &eacute; novo e at&eacute; assustador para espa&ccedil;os conservadores que consideravam que a espiritualidade se ligava apenas &agrave; religi&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; E com a esfera privada&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>HM &#8211; <\/em>Precisamente. E est&atilde;o a entrar na ci&ecirc;ncia e no coletivo. Tenho a sorte de poder falar sobre isto em empresas onde me convidam e &eacute; fant&aacute;stico porque faz muito sentido &agrave;s pessoas. Toca um ponto nevr&aacute;lgico, como se durante anos tiv&eacute;ssemos escondido recursos que envergonhavam, porque conotados com posicionamento filos&oacute;fico, moral ou religioso e vai muito para al&eacute;m disso. Todas as pessoas, muito al&eacute;m do que acreditem ou n&atilde;o, desde que tenham um percurso de vida que pode ser transformador, j&aacute; est&aacute;, a meu ver, &eacute; ser profundamente espiritual e faz a diferen&ccedil;a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; O dar-se e o sentimento de perten&ccedil;a fomentam o caminho de felicidade?<\/em><\/p>\n<p><em>HM &#8211; <\/em>Sim e nesse sentido uma vis&atilde;o de felicidade s&oacute; com emo&ccedil;&otilde;es positivas &eacute; muito redutor. &Eacute; importante, mas o lado hed&oacute;nico da exist&ecirc;ncia n&atilde;o chega. Da&iacute; que os atuais modelos de felicidade apontem para uma vida com compromisso, em algum projeto &ndash; seja a fam&iacute;lia, o emprego, um hobby, um projeto de voluntariado &ndash; onde se possa colocar em a&ccedil;&atilde;o o que se faz de melhor.<\/p>\n<p>Para al&eacute;m disso precisamos de rela&ccedil;&otilde;es positivas. N&atilde;o h&aacute; felicidade na solid&atilde;o. Somos seres que precisam de afeto e reconhecimento do outro, do contacto f&iacute;sico e do olhar &ndash; coisas das quais nos temos vindo a afastar.<\/p>\n<p>Precisamos de atingir metas, estabelecendo objetivos e caminhando para eles e a&iacute;, de novo, estamos a transformar-nos porque n&atilde;o s&atilde;o os objetivos materiais que est&atilde;o na linha da frente. &Eacute; nesta conjun&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios elementos que a ci&ecirc;ncia diz que a felicidade &eacute; pass&iacute;vel de ser compreendida, ser medida e hoje temos bases de dados que avaliam a felicidade das pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Pedia-lhe tr&ecirc;s dicas para que os leitores possam viver melhor o dia de hoje&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>HM &#8211; <\/em>A primeira &eacute; reparar e escutar com aten&ccedil;&atilde;o as not&iacute;cias boas das pessoas &agrave; vossa volta. Liguem uma antena especial &agrave; procura de boas not&iacute;cias e quando as ouvirem, respondam ativamente, de forma construtiva. Parem, entusiasmem-se e pe&ccedil;am detalhes sobre essa boa not&iacute;cia. Aproveitem qualquer boa not&iacute;cia, de qualquer pessoa &agrave; vossa volta e ponham fermento, fa&ccedil;am-na crescer.<\/p>\n<p>A segunda &eacute; registar diariamente, pelo menos, tr&ecirc;s b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os do dia. Identificar e fazer um di&aacute;rio positivo dos acontecimentos do dia que fizeram sentir bem. S&atilde;o estrat&eacute;gias que a ci&ecirc;ncia estuda e indica que podem aumentar a felicidade.<\/p>\n<p>Para terceira sugeria um investimento na gratid&atilde;o que &eacute; uma &aacute;rea de grande potencial e com grandes efeitos cardiovasculares. Escolham uma pessoa a quem tenham algo a agradecer, escrevam uma carta e fa&ccedil;am uma visita de gratid&atilde;o para ler a carta. &Eacute; estranhamento dif&iacute;cil. &Eacute; muito f&aacute;cil olhar nos olhos e criticar mas t&atilde;o dif&iacute;cil olhar nos olhos e dizer tudo o que temos para agradecer. Est&aacute; na altura de mudar esta cultura e tornar mais f&aacute;cil dizer o bom e menos o mal.<\/p>\n<p>Eu acrescentava uma quarta &ndash; arranjem ped&oacute;metros, contadores de passos, e passem a fazer 10 mil passos di&aacute;rios se quiserem ter sa&uacute;de f&iacute;sica, pois n&atilde;o h&aacute; felicidade sem um corpo cuidado, 13 mil passos di&aacute;rios se quiserem perder peso, mas assegurem-se que diariamente fazem, no m&iacute;nimo acima de cinco mil passos. Muita investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica mostra que abaixo dos cinco mil passos, o risco cardiovascular &eacute; elevad&iacute;ssimo e uma boa forma de saber se estamos em risco &eacute; atrav&eacute;s de um contador de passos.<\/p>\n<p>Ter como meta cuidar da nossa sa&uacute;de e mudar de uma sociedade inativa para formas de a&ccedil;&atilde;o generosas, de rela&ccedil;&otilde;es positivas, e de comunica&ccedil;&atilde;o s&atilde;o tamb&eacute;m formas de felicidade.<\/p>\n<p><em>LS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A felicidade pode ser uma op\u00e7\u00e3o e uma pedagogia, mesmo em tempo de crise. 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