{"id":5184,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/mensagem-pastoral-dos-bispos-catolicos-de-angola\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"mensagem-pastoral-dos-bispos-catolicos-de-angola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mensagem-pastoral-dos-bispos-catolicos-de-angola\/","title":{"rendered":"Mensagem Pastoral dos Bispos Cat\u00f3licos de Angola"},"content":{"rendered":"<p>\u00abOusamos pedir a quem de direito e de dever uma total transpar\u00eancia administrativa, mormente na explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo, bem como doutras riquezas minerais, informando correctamente os cidad\u00e3os sobre os lucros da\u00ed advindos e sobre a sua aplica\u00e7\u00e3o\u00bb <!--more--> ANGOLA NO CAMINHO DA ESPERAN\u00c7A  I &#8211; A NOSSA ESPERAN\u00c7A. 1. O dia 4 de Abril de 2002 foi para os Angolanos uma explos\u00e3o de esperan\u00e7a numa vida melhor, com paz, p\u00e3o, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a e dignidade. Esta esperan\u00e7a significa um kairos, isto \u00e9, uma oportunidade \u00fanica que n\u00e3o pode ser desperdi\u00e7ada.  Seria pena ver esta esperan\u00e7a convertida em desilus\u00e3o. Da\u00ed, a urg\u00eancia imperiosa de corresponder a ela.  2. H\u00e1 sinais positivos que t\u00eam alimentado esta esperan\u00e7a. Al\u00e9m do mesmo 4 de Abril, registamos com agrado:  &#8211; o Congresso da UNITA com a sua reunifica\u00e7\u00e3o, num testemunho corajoso de reconcilia\u00e7\u00e3o e democracia; o Congresso do MPLA, com o lema \u00abPaz, Reconcilia\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento\u00bb, a dizer-nos que os interesses da Na\u00e7\u00e3o devem estar acima dos interesses de qualquer Partido; o reassentamento dos deslocados e dos militares num clima de fraterno acolhimento; a n\u00edvel religioso, as igrejas repletas de fi\u00e9is, muitos dos quais regressam \u00e0 viv\u00eancia normal da sua f\u00e9; e, enfim, um sem-n\u00famero de projectos anunciados para a reconstru\u00e7\u00e3o nacional, cuja realiza\u00e7\u00e3o todos esperamos com ansiedade.   3. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 sinais negativos que n\u00e3o podemos camuflar:  &#8211; a falta de paz em Cabinda, onde irm\u00e3os nossos t\u00eam morrido ingloriamente; a situa\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel das nossas popula\u00e7\u00f5es, a viverem em pobreza extrema; o aumento preocupante de certas doen\u00e7as, tais como a sida, a doen\u00e7a do sono e o paludismo; a deteriora\u00e7\u00e3o crescente de tantas estradas e doutros servi\u00e7os p\u00fablicos; a desorienta\u00e7\u00e3o cultural e as desordens p\u00fablicas causadas por certas seitas e crendeiros feiticistas; o direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o ainda limitado por certas restri\u00e7\u00f5es que se n\u00e3o podem coonestar com uma saud\u00e1vel democracia; a quest\u00e3o da transpar\u00eancia administrativa em especial quanto aos petr\u00f3leos; e assim por diante. Tudo isto nos impele a um exame de consci\u00eancia nacional, que nos cumpre fazer em voz alta.  II \u2013 A NOSSA ESPERAN\u00c7A DE PAZ E CABINDA. 4. Para consolidar a paz da Na\u00e7\u00e3o, importa sanar cuidadosamente as feridas da guerra: primeiro, as feridas mentais, bem patentes na crise das consci\u00eancias que perderam a no\u00e7\u00e3o dos valores, acabando por n\u00e3o distinguir o bem do mal; depois, as feridas sentimentais, que deixaram sofrimento e revolta cravados na alma, impelindo esta para o ajuste de contas vindicativo; por fim, as feridas morais, abertas por direitos humanos violados, a pedirem repara\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a.  Todas estas feridas reclamam de n\u00f3s tratamento adequado para cicatrizarem saudavelmente.   5. Depois de olhar para o passado na consolida\u00e7\u00e3o da paz, cumpre-nos olhar para o futuro, numa perspectiva profil\u00e1tica da guerra. A paz \u00e9 uma conquista de todos os dias (GS 78). E \u00e9 na paz que se vacina a paz, conforme a s\u00e1bia senten\u00e7a de Santo Agostinho que nos ensina a obter a paz com a paz, n\u00e3o com a guerra &#8211; \u00abobtinere pacem pace, non  bello\u00bb.  A vacina da paz tem um nome bem conhecido, que se chama justi\u00e7a: justi\u00e7a no acesso aos cargos p\u00fablicos, que devem ser providos tendo em conta a idoneidade dos candidatos, e n\u00e3o o favoritismo familiar, partid\u00e1rio ou amiguista; justi\u00e7a no candente problema da distribui\u00e7\u00e3o de terras, que deve ser feita segundo a equidade regulada pela lei, e n\u00e3o segundo a ambi\u00e7\u00e3o de ambiciosos oportunistas; justi\u00e7a na aplica\u00e7\u00e3o dos recursos naturais do Pa\u00eds, mormente nos lucros provindos dos petr\u00f3leos, diamantes, e outros min\u00e9rios. O seu verdadeiro propriet\u00e1rio \u00e9 o Povo, que n\u00e3o deve ser impunemente despojado dos seus direitos.  Subestimar estas exig\u00eancias fundamentais da justi\u00e7a poderia ser mortal para o futuro da nossa paz.   6. Mas a nossa esperan\u00e7a de paz ainda continua ensombrada pela guerra de Cabinda, onde irm\u00e3os nossos t\u00eam sido dizimados por uma luta armada, cujas principais v\u00edtimas s\u00e3o sempre os mais inocentes: velhos, mulheres e crian\u00e7as.  N\u00e3o \u00e9 nossa compet\u00eancia dizer que solu\u00e7\u00e3o dar ao caso de Cabinda. Mas \u00e9 compet\u00eancia nossa dizer que a guerra n\u00e3o deve ser solu\u00e7\u00e3o nem caminho para chegar a ela.  A guerra tem um pre\u00e7o que por nada pode ser pago: \u00e9 o dinheiro gasto em armas, que jamais poder\u00e1 ser gasto em enxadas; s\u00e3o as vidas perdidas, que ningu\u00e9m jamais poder\u00e1 ressuscitar; s\u00e3o os mutilados, que jamais poder\u00e3o recuperar os seus membros;  s\u00e3o as crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s, que jamais poder\u00e3o ver seus pais. Enfim, \u00e9 um n\u00e3o-acabar das mais desumanas desumanidades. Importa defender e respeitar o \u00abprimado do direito sobre a for\u00e7a\u00bb. E \u00e9 pela for\u00e7a do direito, reconhecido atrav\u00e9s do di\u00e1logo, que o caso de Cabinda deve ser resolvido.  Tal \u00e9 o veemente apelo que aos beligerantes aqui dirigimos, para conduzir aqueles nossos irm\u00e3os tamb\u00e9m \u00e0 paz.   III &#8211; A NOSSA ESPERAN\u00c7A DE VIDA. 7. A vida constitui um valor primordial da nossa cultura, bem como a for\u00e7a motriz acaso mais poderosa da nossa exist\u00eancia social. \u00c9 por isso que um africano dificilmente aceita uma fam\u00edlia sem filhos. A falta deles constitui uma tenta\u00e7\u00e3o contra a estabilidade conjugal.   Pela mesma raz\u00e3o, a morte duma crian\u00e7a representa uma desgra\u00e7a cultural, que s\u00f3 a f\u00e9 crist\u00e3 pode iluminar e a esperan\u00e7a crist\u00e3 pode consolar. Por sua vez, a idade avan\u00e7ada dum africano \u00e9 vista como uma b\u00ean\u00e7\u00e3o e uma express\u00e3o de for\u00e7a vital.  Mas contrariamente a esta cultura de vida, cri\u00e1mos uma cultura de morte com tr\u00eas d\u00e9cadas de guerra e consequentes condi\u00e7\u00f5es sociais, que d\u00e3o \u00e0 mortalidade infantil em Angola um dos mais impressionantes recordes mundiais, e \u00e0 nossa esperan\u00e7a de vida pouco mais de 40 anos.   8. A causa imediata desta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 simplesmente a fome, na sua mais ampla acep\u00e7\u00e3o. De facto, segundo estat\u00edsticas fi\u00e1veis, 68% da nossa popula\u00e7\u00e3o vive abaixo dos limites aceit\u00e1veis da pobreza, o que significa mis\u00e9ria.  \u00c9 para n\u00f3s doloroso recordar que ainda h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas, mesmo em clima de guerra, \u00e9ramos um Pa\u00eds exportador n\u00e3o s\u00f3 de caf\u00e9 mas tamb\u00e9m duma grande gama de produtos alimentares, e agora vivemos de alimentos importados ou doados do exterior. Torn\u00e1mo-nos, porventura, incapazes de nos alimentarmos a n\u00f3s mesmos?  N\u00e3o pode ser alheia \u00e0 fome a vaga de prostitui\u00e7\u00e3o e criminalidade que envergonham as nossas capitais. Uma jovem m\u00e3e sem emprego, mas com filhos a chorar de fome, n\u00e3o admira se for tentada a vender o seu corpo para dar p\u00e3o aos filhos. E um homem com o est\u00f4mago vazio, mas com arma em casa, tamb\u00e9m n\u00e3o admira se for tentado a fazer da mesma o instrumento do seu ganha-p\u00e3o.  Na verdade, a fome foi sempre m\u00e1 conselheira, e como tal \u00e9 capaz de transtornar as consci\u00eancias levando-as a considerar bem at\u00e9 o que \u00e9 mal.    9. Por conseguinte, no contexto da reconstru\u00e7\u00e3o nacional, o imperativo dos imperativos \u00e9 a prioridade de matar a fome ao Povo.  A Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, em 1996, declarou que \u00aberradicar a pobreza \u00e9 um imperativo \u00e9tico, social, pol\u00edtico e econ\u00f3mico de toda a humanidade\u00bb.  E entre as orienta\u00e7\u00f5es dadas para isso, destaca-se a redu\u00e7\u00e3o das despesas militares. Ora, estaremos n\u00f3s nessa linha, com o or\u00e7amento militar que ainda temos?  Uma coisa podemos afirmar: ou n\u00f3s matamos a fome ou a fome nos mata a n\u00f3s. Por isso, imp\u00f5e-se com priorit\u00e1ria urg\u00eancia uma pol\u00edtica agr\u00e1ria que leve os Angolanos a uma auto-sufici\u00eancia alimentar.  Mas este projecto n\u00e3o passar\u00e1 das gavetas, se certas infra-estruturas do Pa\u00eds, mormente as estradas, inclusive as que d\u00e3o acesso \u00e0s Povoa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o forem quanto antes reparadas e, eventualmente, desminadas onde for o caso.   IV &#8211; A NOSSA ESPERAN\u00c7A DE SA\u00daDE 10. Sentimo-nos incondicionalmente solid\u00e1rios com o Governo, e em especial com o Presidente da Rep\u00fablica, quanto \u00e0 sua preocupa\u00e7\u00e3o com a doen\u00e7a do s\u00e9culo \u2013 a SIDA. \u00c9 um flagelo que n\u00e3o pode deixar indiferente pessoa alguma. Condena pacientes \u00e0 exclus\u00e3o e \u00e0 morte; condena crian\u00e7as \u00e0 orfandade e \u00e0 fome; condena fam\u00edlias \u00e0 perda dos recursos humanos e condena na\u00e7\u00f5es \u00e0 perda das for\u00e7as produtivas. O Estado, a Igreja, a Fam\u00edlia, a Escola, a Comunica\u00e7\u00e3o Social devem empenhar-se em educar a sociedade para a compreens\u00e3o e n\u00e3o exclus\u00e3o destes pacientes. E, sobretudo, devem procurar at\u00e9 ao imposs\u00edvel prevenir o cont\u00e1gio de t\u00e3o mortal doen\u00e7a, mormente entre jovens e adolescentes.  Aqui devemos louvar a iniciativa das campanhas publicit\u00e1rias contra a sida, mas n\u00e3o podemos aprovar o seu m\u00e9todo, quando se limita a aconselhar o uso do preservativo, sem terem a coragem de apelar \u00e0 responsabilidade e \u00e0 contin\u00eancia.  Al\u00e9m de o preservativo n\u00e3o ser absolutamente eficaz, a sua propaganda indiscriminada, at\u00e9 ao ponto de o distribu\u00edrem tamb\u00e9m a crian\u00e7as, conduz ao culto do prazer sexual. E este, para ser mais plenamente experimentado, conduz seus possuidores \u00e0 recusa do preservativo e \u00e0 difus\u00e3o da sida.  O m\u00e9todo mais eficaz que at\u00e9 hoje se conhece, para prevenir a sida sexualmente transmiss\u00edvel, \u00e9 aquele que a Igreja tem ensinado e continua a ensinar: antes do casamento, abstin\u00eancia total; depois do casamento, fidelidade total.  N\u00e3o reconhecer isto e n\u00e3o se atrever a ensin\u00e1-lo seria uma deplor\u00e1vel atitude. Recusar aos jovens a ajuda que precisam para serem voluntariamente castos quando s\u00e3o saud\u00e1veis, significa conden\u00e1-los a serem for\u00e7adamente castos depois de serem doentes.  Se a nossa sociedade quer, de facto, prevenir a sida nos jovens e nos adolescentes, tenha tamb\u00e9m a coragem de os proteger e vacinar contra os filmes pornogr\u00e1ficos que os corrompem, mesmo atrav\u00e9s da televis\u00e3o p\u00fablica, e colabore mais com a Igreja na educa\u00e7\u00e3o para o autodom\u00ednio e para a autodefesa verdadeira da sua sa\u00fade n\u00e3o s\u00f3 f\u00edsica mas tamb\u00e9m moral.   Recordamos aqui aos comerciantes do sexo que n\u00e3o se pode identificar liberdade com libertinagem nem democracia com imoralidade. Seria a corrup\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria democracia.  11. Entre outras endemias que nos preocupam, importa destacar a doen\u00e7a do sono, outrora j\u00e1 erradicada no meio de n\u00f3s, mas agora de novo disseminada, sobretudo no norte do Pa\u00eds. E com gravidade nada inferior \u00e0 da sida, pois pode matar em menos tempo, se n\u00e3o for oportunamente curada.   Louvamos o esfor\u00e7o do Minist\u00e9rio de Sa\u00fade neste sector e, de modo particular, o Protocolo assinado com a CARITAS sobre o projecto ANGOTRIP para combater a referida doen\u00e7a, o que tem dado excelentes frutos.  Esperamos que este protocolo se possa estender a todas as unidades de sa\u00fade dirigidas pela Igreja. Ser\u00e1 motivo de grandes benef\u00edcios para os doentes, e at\u00e9 para o mesmo Estado, que vai poupar n\u00e3o pequena verba nos im\u00f3veis dedicados \u00e0 sa\u00fade.  Esta colabora\u00e7\u00e3o \u00e9 tanto mais necess\u00e1ria quanto mais urgente se torna proporcionar a todos os doentes os necess\u00e1rios cuidados de sa\u00fade de forma gratuita ou, seja como for, de forma acess\u00edvel tamb\u00e9m aos pobres.   12. O velho princ\u00edpio que defende a mens sana in corpore sano (alma s\u00e3 num corpo s\u00e3o) tem uma r\u00e9plica complementar que defende o corpus sanum in mente sana (o corpo s\u00e3o em alma s\u00e3). Vem isto dizer que o estado de esp\u00edrito tem uma influ\u00eancia poderosa na sa\u00fade e na cura das doen\u00e7as corporais.  Consequentemente, a assist\u00eancia religiosa, al\u00e9m de ser um direito que n\u00e3o pode ser negado aos doentes, constitui um aux\u00edlio poderoso na cura de quaisquer pacientes.  Por isso, o citado Protocolo sobre a sa\u00fade n\u00e3o deixar\u00e1 de contemplar a exist\u00eancia de Capel\u00e3es, ao menos nos Hospitais centrais da Na\u00e7\u00e3o e das Prov\u00edncias.   V &#8211; A NOSSA ESPERAN\u00c7A DE EDUCA\u00c7\u00c3O. 13. Como ainda h\u00e1 pouco reconhecia Sua Excel\u00eancia o Presidente da Rep\u00fablica, a maior riqueza do Pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 o petr\u00f3leo nem os diamantes, que um dia ir\u00e3o acabar. S\u00e3o as cabe\u00e7as e os bra\u00e7os. \u00c9 para estes que se devem erguer, pelo Pa\u00eds al\u00e9m, as mais engenhosas plataformas de educa\u00e7\u00e3o.   Infelizmente, nesta esfera, os investimentos est\u00e3o muito longe de corresponder \u00e0s necessidades da hora presente. N\u00e3o admira, por isso, que milhares de alunos venham a ficar este ano sem escola. E no ano pr\u00f3ximo, vamos ver.  A esta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser alheia a estreiteza da fatia que o OGE atribui \u00e0 mesma Educa\u00e7\u00e3o, fatia esta que todos gostar\u00edamos de ver agora bem mais generosa.   14. H\u00e1 uma tenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a que muito dificilmente resistem os governantes: consiste em n\u00e3o fazer investimentos a longo prazo, tais como exige a educa\u00e7\u00e3o, cujos resultados s\u00f3 15 ou 20 anos mais tarde se podem observar. Semear aquilo que outros depois h\u00e3o-de colher requer uma abnega\u00e7\u00e3o nada sedutora para quem pretende agradar ao povo.  Mas \u00e9 preciso ter a coragem de investir tamb\u00e9m a longo prazo. Ser\u00e3o assim beneficiadas gera\u00e7\u00f5es futuras as quais, com certeza, h\u00e3o-de reconhecer e agradecer aos seus benfeitores, nem que seja a t\u00edtulo p\u00f3stumo.  Ante a amea\u00e7a da corrup\u00e7\u00e3o escolar, \u00e9 preciso que as autoridades acad\u00e9micas e todos os docentes tomem as adequadas medidas para jamais permitirem a entrada dos envelopes secretos na sua nobre profiss\u00e3o. Uma escola corrompida seria a sepultura da ci\u00eancia, do progresso, da civiliza\u00e7\u00e3o, e a ru\u00edna da pr\u00f3pria P\u00e1tria.   15. A educa\u00e7\u00e3o deve atingir o homem todo, na sua dimens\u00e3o corporal, intelectual, \u00e9tica e religiosa. Sim, tamb\u00e9m na dimens\u00e3o religiosa porque, no s\u00e1bio dizer de Tertuliano, \u00abanima humana est naturaliter christiana\u00bb &#8211; a alma humana \u00e9 naturalmente crist\u00e3. E, por conseguinte, religiosa. Por isso, educar uma pessoa sem religi\u00e3o \u00e9 mutilar a faceta mais nobre da sua personalidade   O Vidente de Patmos viu a Nova Jerusal\u00e9m descer do C\u00e9u (Ap 21,2). Esta vis\u00e3o reveste para n\u00f3s um alto significado. Diz-nos que se queremos uma Angola nova, devemos faz\u00ea-la descer do C\u00e9u, das alturas divinas, donde todo o homem vem e para onde deve ir, segundo o plano de Deus. Daqui, a necessidade de possibilitar tamb\u00e9m a entrada da religi\u00e3o, e n\u00e3o s\u00f3 da moral, em todas as escolas mesmo estatais.  16. Estado laico \u00e9 aquele que n\u00e3o adopta oficialmente uma religi\u00e3o como sua. N\u00e3o obriga os seus funcion\u00e1rios a seguirem uma determinada religi\u00e3o nem os pro\u00edbe de a seguirem. Por isso \u00e9 pr\u00f3prio dum Estado laico n\u00e3o excluir mas admitir tamb\u00e9m o ensino da religi\u00e3o nas suas escolas.  Isto considerado, entendemos que o Governo n\u00e3o deveria ter medo de ver Cristo entrar nas suas escolas. Ele vem a ser, sem d\u00favida alguma, o melhor dos Educadores.  Nem medo de Cristo nem medo da Igreja. Esta \u00e9 educadora por voca\u00e7\u00e3o. Tal foi o mandato que recebeu de Cristo, a saber: ide por todo o mundo, e ensinai todas as gentes (Mt 29,19).  Para desempenhar esta miss\u00e3o confiada por Cristo, a Igreja deve utilizar n\u00e3o s\u00f3 os templos e as escolas, mas tamb\u00e9m os meios de comunica\u00e7\u00e3o social. Por isto, n\u00e3o podemos deixar de recordar aqui que os Fi\u00e9is das nossas Dioceses reclamam o direito de ouvirem, tamb\u00e9m eles, a voz da R\u00e1dio Ecclesia. E por isso esperamos que as Autoridades competentes lhes permitam, quanto antes, o usufruto desse direito.    A Igreja est\u00e1 empenhada em ser uma isenta parceira do Estado na educa\u00e7\u00e3o massiva do povo, actualmente amea\u00e7ado por detest\u00e1veis cren\u00e7as sect\u00e1rias e feiticistas que d\u00e3o origem \u00e0 inseguran\u00e7a pessoal e \u00e0 pr\u00e1tica de hediondas injusti\u00e7as, como est\u00e1 acontecer.  Em especial, est\u00e1 empenhada em colaborar com o Estado na educa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os para uma pac\u00edfica e s\u00e3 conviv\u00eancia, que venha a respeitar a ordem p\u00fablica bem como quaisquer direitos humanos.   VI &#8211; O PETR\u00d3LEO CONTRA AS NOSSAS ESPERAN\u00c7AS? 17. J\u00e1 vimos como andam as nossas esperan\u00e7as. Ser\u00e1 por causa do nosso petr\u00f3leo? Desde 1970 a 1993, os pa\u00edses ricos em petr\u00f3leo cresceram quatro vezes menos do que os pa\u00edses pobres em recursos naturais.  E nesta linha, o nosso Pa\u00eds, sendo o segundo produtor africano de petr\u00f3leo depois da Nig\u00e9ria, ocupa o 161\u00ba lugar entre os 173 pa\u00edses com mais baixo \u00edndice de desenvolvimento humano.   Este paradoxo n\u00e3o significa uma fatalidade anexa ao petr\u00f3leo que o torne culpado da pobreza. A prov\u00e1-lo temos a\u00ed a Noruega, pa\u00eds exportador de petr\u00f3leo, que ocupa o patamar de vanguarda entre os pa\u00edses com mais elevado \u00edndice de desenvolvimento humano.   18. Se a culpa do paradoxo n\u00e3o est\u00e1 no petr\u00f3leo, algures h\u00e1-de estar. Segundo afirmam economistas do BM e do FMI, na pr\u00e1tica, quanto maior \u00e9 a depend\u00eancia econ\u00f3mica do petr\u00f3leo e doutros recursos naturais num pa\u00eds, tanto menor \u00e9 a realidade do seu crescimento humano.    H\u00e1 uma raz\u00e3o compreens\u00edvel. O estado rico, que tem as receitas do seu or\u00e7amento asseguradas por uma simples assinatura, n\u00e3o precisa de se mirrar a desenvolver uma pol\u00edtica de produ\u00e7\u00e3o e de impostos; basta-lhe a c\u00f3moda e proveitosa pol\u00edtica de consumo, que Deus bem sabe como \u00e9. Mas o paradoxo tem outras raz\u00f5es, ligadas ao secretismo que geralmente envolve o total das receitas oriundas dos petr\u00f3leos e a sua aplica\u00e7\u00e3o.  No nosso caso, felizmente, come\u00e7am a aparecer ind\u00edcios duma certa transpar\u00eancia, que esperamos venha a ser completa. Desta forma, n\u00e3o se vir\u00e1 a repetir a triste not\u00edcia segundo a qual um estudo sobre a transpar\u00eancia administrativa de 102 pa\u00edses, feito em 2002, deixou o nosso no terceiro pior lugar.  Os petr\u00f3leos e os diamantes alimentaram, quase sozinhos, a nossa terr\u00edvel guerra durante cinco lustros. E no fim de esta guerra acabar, muita gente se admirou de os mesmos recursos n\u00e3o serem capazes de alimentar os deslocados, dois milh\u00f5es dos quais, pelo menos, tiveram que ser socorridos com a ajuda humanit\u00e1ria vinda do exterior.  19. Neste p\u00fablico exame de consci\u00eancia, ousamos pedir a quem de direito e de dever uma total transpar\u00eancia administrativa, mormente na explora\u00e7\u00e3o dos petr\u00f3leos bem como doutras riquezas minerais, informando correctamente os cidad\u00e3os sobre os lucros da\u00ed advindos e sobre a sua aplica\u00e7\u00e3o.  \u00c9 isto que n\u00f3s entendemos por rigor na gest\u00e3o, recentemente exigido ao Governo pelo Presidente da Rep\u00fablica.  S\u00f3 desta forma os cidad\u00e3os podem ficar devidamente esclarecidos para responderem a eventuais malsina\u00e7\u00f5es, que porventura cheguem ao seu conhecimento, sobre a transpar\u00eancia ou intranspar\u00eancia da  nossa administra\u00e7\u00e3o.  Por sua vez, as pr\u00f3prias companhias petrol\u00edferas tenham a coragem de dizer quanto pagam, colaborando com o Povo no combate \u00e0 pobreza, mediante uma justa e produtiva aplica\u00e7\u00e3o desses recursos.   20. Na aplica\u00e7\u00e3o desses recursos \u00e9 que reside o fundo da quest\u00e3o. \u00c9 imperioso que a explora\u00e7\u00e3o dos petr\u00f3leos e doutras riquezas minerais tenha a sua justa contrapartida em investimentos produtores de riqueza. Se assim n\u00e3o for, o Pa\u00eds vai empobrecer mais, ficando sem petr\u00f3leos, sem diamantes e sem investimentos que os possam compensar.  \u00c9 imperioso acautelar tamb\u00e9m os interesses das gera\u00e7\u00f5es vindouras, as quais dificilmente perdoariam o ego\u00edsmo da presente gera\u00e7\u00e3o se esta as espoliasse das riquezas que Deus criou na sua terra para todos os seus filhos, e n\u00e3o s\u00f3 para alguns.    A justa solu\u00e7\u00e3o do problema passa por uma s\u00e1bia pol\u00edtica de investimentos, que respeite as prioridades da hora presente, bem patentes na situa\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds.  VII &#8211; O RENOVAR DA ESPERAN\u00c7A. 21. Ao elaborar estas considera\u00e7\u00f5es, move-nos a exclusiva inten\u00e7\u00e3o de colaborar com todos os Angolanos, governantes e governados, para uma tomada de consci\u00eancia mais eficaz na reconstru\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds, a fim de combater eficaz e urgentemente a pobreza e a fome que atormentam tantos irm\u00e3os nossos.   Quais fi\u00e9is disc\u00edpulos de Abra\u00e3o, como ele queremos esperar contra toda a esperan\u00e7a (Ro 4.18). E esta esperan\u00e7a desejamos transmiti-la a todos os Angolanos. Temos que ser realistas e compreender que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil reconstruir em dois ou tr\u00eas anos o que a guerra levou perto de trinta anos a destruir.   Contudo, a nossa esperan\u00e7a tamb\u00e9m tem quer ser realista, se n\u00e3o queremos que ela venha a ser v\u00e3 presun\u00e7\u00e3o. E para ser realista, a nossa esperan\u00e7a h\u00e1-de ter a sustent\u00e1-la empreendimentos audazes, de forma vis\u00edvel na sa\u00fade, na educa\u00e7\u00e3o e na agricultura, a ponto de convencerem at\u00e9 os mais c\u00e9pticos.     Para isto, gostar\u00edamos de ver posto ao servi\u00e7o da paz e da reconstru\u00e7\u00e3o nacional mais interesse e mais empenho do que estamos a ver, mormente em certas \u00e1reas da mesma reconstru\u00e7\u00e3o nacional.  O desafio \u00e9 irrevers\u00edvel. Vamos todos aceit\u00e1-lo construindo uma Angola digna dos Angolanos. Mas Angola s\u00f3 ser\u00e1 digna dos Angolanos, quando n\u00f3s, Angolanos, formos dignos de Angola. E s\u00f3 o seremos, pela fidelidade transparente \u00e0s exig\u00eancias do exame de consci\u00eancia que acabamos de fazer.  Roguemos ao Imaculado Cora\u00e7\u00e3o de Maria que interceda por n\u00f3s junto d\u2019 Aquele que, dentro de poucos dias, na sua Ressurrei\u00e7\u00e3o, vai mostrar ao mundo que a esperan\u00e7a n\u00e3o confunde (Ro 5,5).  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