{"id":51609,"date":"2011-05-31T11:59:11","date_gmt":"2011-05-31T11:59:11","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/05\/31\/a-verdade-na-politica\/"},"modified":"2011-05-31T11:59:11","modified_gmt":"2011-05-31T11:59:11","slug":"a-verdade-na-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-verdade-na-politica\/","title":{"rendered":"A verdade na pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p>Se as sondagens de opini&atilde;o determinassem &ldquo;o que &eacute; verdade&rdquo; ter&iacute;amos de concluir que, de facto, n&atilde;o h&aacute; verdade na pol&iacute;tica: esta seria o reino do embuste, da mentira, do oportunismo, da palavra e da promessa n&atilde;o cumpridas, da luta do poder pelo poder&#8230; Ju&iacute;zo sombrio e conclus&atilde;o fatalista retirada no viso da cr&iacute;tica e no lamento de n&atilde;o haver verdade na pol&iacute;tica, quando deveria existir! &Eacute; que &laquo;todos os homens desejam a verdade [compreender]; n&atilde;o existe ningu&eacute;m que n&atilde;o o queira. Mas nem todos querem acreditar.&raquo; Ora, &laquo;se se retira a confian&ccedil;a das coisas humanas, quem n&atilde;o v&ecirc; a grande perturba&ccedil;&atilde;o, a horrenda confus&atilde;o que se seguir&aacute;?&raquo; (Sto. Agostinho, Serm&atilde;o 43, 4; De fide rerum quae non videntur, 2, 4)<\/p>\n<p>De acordo com este diagn&oacute;stico de Sto. Agostinho sobre o div&oacute;rcio entre a Intelig&ecirc;ncia e a Vontade, e apesar do desejo de verdade inscrito no mais fundo do homem (&laquo;&Oacute; Verdade, Verdade, qu&atilde;o intimamente a medula da minha alma suspirava por ti&raquo;, Conf. III, 6, 10), o que constitui a primeira grandeza pol&iacute;tica &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o fiduci&aacute;ria, a rela&ccedil;&atilde;o de confian&ccedil;a na palavra e na a&ccedil;&atilde;o justa, pois &laquo;sem justi&ccedil;a, o que s&atilde;o os imp&eacute;rios sen&atilde;o quadrilhas de ladr&otilde;es?&raquo; (De Civitate Dei, IV, 4; XIX, 4)<\/p>\n<p>O que destr&oacute;i a rela&ccedil;&atilde;o de confian&ccedil;a pol&iacute;tica n&atilde;o s&atilde;o as diferentes respostas acerca de &lsquo;o que &eacute; a verdade?&rsquo; em geral (quest&atilde;o que est&aacute; para al&eacute;m da pol&iacute;tica), mas em primeiro lugar a mentira, a perf&iacute;dia, a hipocrisia, a injusti&ccedil;a e o cinismo de quem nem sequer escuta o que outro tem para dizer. &Eacute; c&eacute;lebre o desinteresse c&eacute;tico de Pilatos, o h&aacute;bil pol&iacute;tico romano, pela resposta &agrave; pergunta que ele pr&oacute;prio coloca a Jesus: &laquo;Quid est veritas?&raquo; Um pol&iacute;tico tem sempre coisas mais importantes a fazer &#8211; mesmo que seja lavar as m&atilde;os &#8211; do que pensar&#8230; Perigosamente, Plat&atilde;o, que pensava seriamente e v&aacute;rias vezes foi tentado pela pol&iacute;tica ativa, apesar n&atilde;o p&ocirc;r em causa a primazia da Verdade (al&ecirc;theia) no plano teor&eacute;tico, parece ter aceitado sem grandes pruridos (Rep&uacute;blica, 414 c) a c&eacute;lebre lenda fen&iacute;cia &#8211; o mito dos metais que narra o nascimento das diferentes ra&ccedil;as de homens: ouro, prata, bronze e ferro &#8211; como uma &ldquo;nobre mentira&rdquo; (genaion pseudos) &uacute;til para persuadir e gerar a aceita&ccedil;&atilde;o e a confian&ccedil;a dos concidad&atilde;os acerca do lugar que cada um ocupa na p&oacute;lis. Volens nolens, Plat&atilde;o acabou abrir uma caixa de Pandora, e por essa nesga trouxe para o debate pol&iacute;tico a quest&atilde;o de se a todos os homens, em todas as circunst&acirc;ncias, &eacute; devida a verdade (ou pior: se eles s&atilde;o dignos dela), colocando-se a hip&oacute;tese de, em certas situa&ccedil;&otilde;es, a mentira poder ser &ldquo;a mais piedosa&rdquo; das sa&iacute;das. Sabemos que este princ&iacute;pio da &lsquo;noble lie&rsquo;, taxativamente rejeitado por Agostinho e por Kant, acabou aceite nas teorias de grandes pensadores pol&iacute;ticos (Maquiavel, Espinosa, &#8230;), ou, pior ainda, por informar a pr&aacute;tica de regimes totalit&aacute;rios (Estaline, Hitler, &#8230;) no sentido de uma verdadeira pol&iacute;tica de mentira sistem&aacute;tica.<\/p>\n<p>Nestes casos extremos mentira e pol&iacute;tica s&atilde;o equivalentes. Mas para quem quer pensar a rela&ccedil;&atilde;o da verdade com a pol&iacute;tica em contexto de pluralidade democr&aacute;tica, o problema reside nas imbrica&ccedil;&atilde;o das situa&ccedil;&otilde;es concretas, aquelas em que, por exemplo, os pol&iacute;ticos mentem por omiss&atilde;o, aparentam sinceridade, mas enganam com meias-verdades, prometem com reserva mental, n&atilde;o t&ecirc;m escr&uacute;pulos, refinam o cinismo com a ret&oacute;rica, dissimulam a gan&acirc;ncia do poder pelo poder com mui nobres des&iacute;gnios de servi&ccedil;o p&uacute;blico, etc..<\/p>\n<p>Por outro lado, importa referir que a Palavra est&aacute; no centro da atividade pol&iacute;tica; ela cria a pr&oacute;pria realidade pol&iacute;tica. Assim, v.g., para superar uma situa&ccedil;&atilde;o de crise, um pol&iacute;tico pode convencer-se (com maior ou menor grau de m&aacute;-f&eacute;) que o melhor &eacute; n&atilde;o falar dela e sublinhar antes as capacidades do povo. Pode apaziguar a consci&ecirc;ncia, se a tem, dizendo que nas atuais sociedades complexas e globalizadas, &eacute; quase imposs&iacute;vel explicar os complexos processos pol&iacute;ticos, econ&oacute;micos e sociais a cidad&atilde;os impreparados. Temos de criticar severamente o paternalismo oportunista e irrespons&aacute;vel que se legitima &agrave; sombra do argumento terrorista da ignor&acirc;ncia povo, mesmo reconhecendo o alcance pol&iacute;tico do efeito de Pigmale&atilde;o: apresentar o melhor cen&aacute;rio ajuda a que ele se cumpra. Pretensamente, a mentirinha, a omiss&atilde;o de factos, a parcialidade, etc., justificar-se-ia em benef&iacute;cio dos governados. Mas os fins nunca justificam os meios. Uma situa&ccedil;&atilde;o de grave crise, como a que estamos a viver, legitimar&aacute; alguma vez que se branqueiem op&ccedil;&otilde;es erradas, ilegalidades, clientelismo, corrup&ccedil;&atilde;o, manipula&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o, falta de transpar&ecirc;ncia da justi&ccedil;a? A resposta s&oacute; pode ser liminarmente negativa. Um s&eacute;rio problema das atuais democracias, mesmo das mais maduras, &eacute; o modo como a comunica&ccedil;&atilde;o e o marketing pol&iacute;ticos incorporaram a pura mentira de modo a justificar decis&otilde;es perante as suas opini&otilde;es p&uacute;blicas internas, como aconteceu, por exemplo, com a invas&atilde;o do Iraque a coberto da suposta exist&ecirc;ncia de armas de destrui&ccedil;&atilde;o maci&ccedil;a.<\/p>\n<p>&Eacute; certo n&atilde;o h&aacute;, nem pode haver, em democracia, apenas uma verdade pol&iacute;tica, no sentido daquilo que pode ser feito. A exist&ecirc;ncia de uma pluralidade de opini&otilde;es &eacute; a ess&ecirc;ncia da pol&iacute;tica em democracia. Mas &eacute; decisivo assegurar nesta &oacute;rg&atilde;os de informa&ccedil;&atilde;o independente, veraz, rigorosa e plural que permita a correta forma&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o e da consci&ecirc;ncia dos cidad&atilde;os. &Eacute; uma perversidade que destr&oacute;i a pol&iacute;tica pensar algu&eacute;m que, se for eleito, pode anular a leg&iacute;tima condena&ccedil;&atilde;o de um tribunal. A democracia &eacute; o regime da responsabilidade de todos perante todos, por isso deve fomentar o crescimento de todos como cidad&atilde;os respons&aacute;veis e pessoas livres. Mas se n&atilde;o pode haver uma &uacute;nica verdade em pol&iacute;tica, isso n&atilde;o exime os agentes pol&iacute;ticos de serem verdadeiros naquilo que dizem. A mentira (pensar uma coisa, dizer outra e planear talvez fazer uma terceira), a omiss&atilde;o intencional, a corrup&ccedil;&atilde;o, a falsidade, a propaganda de ilus&otilde;es, a manig&acirc;ncia s&atilde;o sempre intoler&aacute;veis! A mentira corr&oacute;i a nossa capacidade de acreditar e assim destr&oacute;i a vontade viver juntos, que &eacute; o cerne da vida pol&iacute;tica.<\/p>\n<p><em>Jos&eacute; Maria Silva Rosa<br \/>Professor da Universidade da Beira Interior<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se as sondagens de opini&atilde;o determinassem &ldquo;o que &eacute; verdade&rdquo; ter&iacute;amos de concluir que, de facto, n&atilde;o h&aacute; verdade na pol&iacute;tica: esta seria o reino do embuste, da mentira, do oportunismo, da palavra e da promessa n&atilde;o cumpridas, da luta do poder pelo poder&#8230; Ju&iacute;zo sombrio e conclus&atilde;o fatalista retirada no viso da cr&iacute;tica e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-51609","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51609","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=51609"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51609\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=51609"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=51609"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=51609"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}