{"id":51605,"date":"2011-05-31T11:51:18","date_gmt":"2011-05-31T11:51:18","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/05\/31\/a-oportunidade-da-austeridade\/"},"modified":"2011-05-31T11:51:18","modified_gmt":"2011-05-31T11:51:18","slug":"a-oportunidade-da-austeridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-oportunidade-da-austeridade\/","title":{"rendered":"A oportunidade da austeridade"},"content":{"rendered":"<p>As nossas aten&ccedil;&otilde;es est&atilde;o naturalmente centradas na crise financeira, a perda de confian&ccedil;a dos nossos credores na nossa capacidade de cumprir as nossas obriga&ccedil;&otilde;es, que nos obrigou a ir pedir ajuda a organiza&ccedil;&otilde;es amigas. Mas at&eacute; essas quest&otilde;es est&atilde;o ligadas a um problema mais profundo, a chamada &laquo;d&eacute;cada perdida&raquo;.<\/p>\n<p>Portugal, nos dez anos de 2000 a 2009, viu crescer o produto per capita em d&oacute;lares a pre&ccedil;os constantes em 0,27% ao ano, uma taxa pr&oacute;xima da estagna&ccedil;&atilde;o, que no &uacute;ltimo s&eacute;culo s&oacute; &eacute; superior &agrave; que tivemos na primeira d&eacute;cada da Rep&uacute;blica, 1910 a 1919. Dos pa&iacute;ses pr&oacute;ximos s&oacute; a It&aacute;lia cresceu menos. Como nos pr&oacute;ximos anos andaremos em recess&atilde;o devido aos custos de ajustamento, a situa&ccedil;&atilde;o vai manter-se.<\/p>\n<p>Isto n&atilde;o &eacute; uma fatalidade e n&atilde;o aconteceu por engano. Foi o resultado de estrat&eacute;gias erradas, ali&aacute;s ligadas ao mesmo fasc&iacute;nio pelo endividamento f&aacute;cil que gerou a crise financeira. O nosso pa&iacute;s, depois de ter batido recordes de crescimento de 1960 a 1990, deixou-se embalar, a partir de meados dos anos 1990s na ilus&atilde;o que agora nos destr&oacute;i.<\/p>\n<p>&Eacute; importante dizer tamb&eacute;m que a estrat&eacute;gia n&atilde;o foi gerada por m&aacute;s raz&otilde;es. Foram sempre com excelentes motivos, mas que pesavam sobre a economia produtiva. Construir est&aacute;dios de futebol, investir no TGV, autoestradas isoladas, acumular os regulamentos, fiscaliza&ccedil;&otilde;es, portarias e exig&ecirc;ncias, pareciam sempre coisas muito boas. Empresas municipais fict&iacute;cias, setores protegidos pelo Estado, subidas de sal&aacute;rios, pens&otilde;es, subs&iacute;dios tinham sempre os melhores motivos. O problema &eacute; que tudo isso ca&iacute;a sempre em cima do setor produtivo, que tem de pagar por todos, e que se via crescentemente espartilhado por mil e um bloqueios. N&atilde;o admira que n&atilde;o cres&ccedil;a.<\/p>\n<p>Mas &eacute; importante lembrar que Portugal tem hoje uma economia vasta e desenvolvida, e j&aacute; n&atilde;o &eacute; aquele pa&iacute;s pequeno e homog&eacute;neo que fez a revolu&ccedil;&atilde;o de abril. Isso significa que existe largos setores e m&uacute;ltiplas empresas em crescimento saud&aacute;vel e equilibrado, que fazem a sua vida no sil&ecirc;ncio da alma do neg&oacute;cio. Por outro lado h&aacute; ainda mais companhias em grandes dificuldades ou recentemente fechadas. O panorama &eacute; ainda muito complexo e variado, desafiando as ideias feitas e os chav&otilde;es de ocasi&atilde;o.<\/p>\n<p>No que toca &agrave; desigualdade, Portugal tem tido uma flutua&ccedil;&atilde;o nos &uacute;ltimos vinte anos, sem tend&ecirc;ncia clara de aumento ou diminui&ccedil;&atilde;o. Mant&eacute;m-se como um dos pa&iacute;ses mais desiguais da Europa ocidental, apesar de ter registado importantes redu&ccedil;&otilde;es na pobreza, sobretudo gra&ccedil;as &agrave;s transfer&ecirc;ncias sociais. Mas n&atilde;o tem sido poss&iacute;vel obter melhorias na disparidade, sobretudo por causa dos sal&aacute;rios, que se mant&eacute;m muito desiguais.<\/p>\n<p>Agora aguardam-nos anos de austeridade e aperto, devendo n&oacute;s ajustar as nossas despesas ao n&iacute;vel dos nossos proveitos, de forma a pagar as d&iacute;vidas acumuladas na &uacute;ltima d&eacute;cada e meia. Qual ser&aacute; o impacto desse ajustamento sobre o desenvolvimento e a desigualdade? Evidentemente que ser&atilde;o tempos dif&iacute;ceis. Apesar disso a evolu&ccedil;&atilde;o depender&aacute; muito da condu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>O &laquo;memorando de entendimento&raquo; acordado entre Portugal a Comiss&atilde;o Europeia, BCE e FMI define metas apertadas e prop&oacute;sitos severos. Mas deixa muita margem de manobra na forma como ser&atilde;o atingidos esses objetivos. O Governo portugu&ecirc;s ter&aacute; liberdade na partilha dos sacrif&iacute;cios e na defini&ccedil;&atilde;o dos apertos.<\/p>\n<p>Isso quer dizer que, embora sempre numa trajet&oacute;ria de dificuldade e redu&ccedil;&atilde;o de despesas, este per&iacute;odo pode representar uma oportunidade de abertura, desenvolvimento e converg&ecirc;ncia, preparando as condi&ccedil;&otilde;es para o futuro surto de progresso. Ali&aacute;s esta &eacute; uma circunst&acirc;ncia que j&aacute; nos aconteceu no passado, aproveitando momentos de dificuldade para lan&ccedil;ar novas din&acirc;micas e oportunidades.<\/p>\n<p>Para isso seria preciso que dois aspetos fossem acautelados na implanta&ccedil;&atilde;o das medidas: a defesa das empresas produtivas, que s&atilde;o quem sustenta o pa&iacute;s, e das classes mais pobres, que s&atilde;o quem o pa&iacute;s tem o dever de proteger. Infelizmente n&atilde;o s&atilde;o essas as for&ccedil;as que comandam o poder pol&iacute;tico desde o per&iacute;odo que conduziu &agrave; crise. Foi precisamente por causa dos interesses dos grupos instalados junto ao Or&ccedil;amento de Estado que a d&iacute;vida inchou e Portugal caiu na crise financeira atual.<\/p>\n<p>Os pr&oacute;ximos anos representam uma importante oportunidade de reestrutura&ccedil;&atilde;o. Se os portugueses retomarem uma atitude mais produtiva, austera e din&acirc;mica, se souberem preservar os equil&iacute;brios sociais, eliminar privil&eacute;gios injustificados e direitos exagerados, criaremos uma economia e sociedade mais flex&iacute;veis e en&eacute;rgicas, e Portugal deixar&aacute; de perder d&eacute;cadas.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o C&eacute;sar das Neves<\/p>\n<p>Economista<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As nossas aten&ccedil;&otilde;es est&atilde;o naturalmente centradas na crise financeira, a perda de confian&ccedil;a dos nossos credores na nossa capacidade de cumprir as nossas obriga&ccedil;&otilde;es, que nos obrigou a ir pedir ajuda a organiza&ccedil;&otilde;es amigas. Mas at&eacute; essas quest&otilde;es est&atilde;o ligadas a um problema mais profundo, a chamada &laquo;d&eacute;cada perdida&raquo;. 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