{"id":51534,"date":"2011-05-24T11:30:34","date_gmt":"2011-05-24T11:30:34","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/05\/24\/ser-pessoa-com-a-internet\/"},"modified":"2011-05-24T11:30:34","modified_gmt":"2011-05-24T11:30:34","slug":"ser-pessoa-com-a-internet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ser-pessoa-com-a-internet\/","title":{"rendered":"Ser pessoa com a internet"},"content":{"rendered":"<p>No mundo da comunica&ccedil;&atilde;o social a Internet veio &ndash; tudo parece indic&aacute;-lo &ndash; para ficar.<\/p>\n<p>A tecnologia da rede digital est&aacute; a gerar um novo paradigma de comunica&ccedil;&atilde;o. Em tempos e modelos anteriores, tinha-se uma conce&ccedil;&atilde;o mais linear do ato de comunica&ccedil;&atilde;o e dos seus elementos: emissor, canal de comunica&ccedil;&atilde;o, mensagem, contexto, recetor e efeitos nele causa-<\/p>\n<p>dos. Na Internet, em particular nas redes sociais, a linearidade d&aacute; lugar &agrave; circu- laridade e &agrave; interatividade em v&aacute;rios n&iacute;veis. O emissor e o recetor partilham o mesmo espa&ccedil;o que &eacute; o pr&oacute;prio canal de comunica&ccedil;&atilde;o e as diferen&ccedil;as esbatem-se. Ambos t&ecirc;m de entrar nessa rede e fazerem-se representar atrav&eacute;s de uma imagem, perfil virtual ou morada que pode n&atilde;o corresponder, em absoluto, &agrave; realidade. O ato de emitir informa&ccedil;&atilde;o na Internet repercute n&atilde;o s&oacute; sobre o recetor mas, desde o in&iacute;cio, sobre o emissor. Surge assim nova horizontalidade na comunica&ccedil;&atilde;o social: todos est&atilde;o ao mesmo n&iacute;vel (comunica&ccedil;&atilde;o e de afeta&ccedil;&atilde;o pelos seus efeitos), todos afetam (consciente ou inconscientemente) todos. A informa&ccedil;&atilde;o dispon&iacute;vel circula e causa efeitos que ultrapassam a rede e atingem a sociedade e a sua din&acirc;mica: a rede digital torna-se uma matriz social que altera o modo de lidar com o tempo, o modo de pensar, ler, de relacionar-se com a informa&ccedil;&atilde;o e de consumir. Um tal efeito comunicador afeta-nos como pessoas porque nascemos da comunica&ccedil;&atilde;o\/ comunh&atilde;o inter-pessoal, atrav&eacute;s dela realizamo-nos e expressamos capacidade de transcen- d&ecirc;ncia, de supera&ccedil;&atilde;o pessoal e de busca de sentido que nos habita.<\/p>\n<p>A Internet traz consigo consequ&ecirc;ncia psicol&oacute;gicas. Menciono apenas algumas que me parecem relevantes. Antes de tudo uma experi&ecirc;ncia de poder, dada pela quase inesgotabilidade de recursos, pela amplitude da influ&ecirc;ncia, pelo elevado n&uacute;mero de pessoas com que entramos em contacto. Como toda a experi&ecirc;ncia de poder tamb&eacute;m a Internet tem o potencial para se tornar viciante: pode gerar a cont&iacute;nua necessidade de consultar ou receber informa&ccedil;&atilde;o ou correio eletr&oacute;nico, de saber quem visitou certas minhas p&aacute;ginas ou v&iacute;deos, etc.<\/p>\n<p>Por outro lado a Internet veio provocar uma altera&ccedil;&atilde;o da forma de ler, pensar, de aprender, de chegar a conclus&otilde;es. A enorme interatividade da rede, fonte de enormes benef&iacute;cios e vantagens educa-tivas, traz tamb&eacute;m limita&ccedil;&otilde;es de quem nem todos est&atilde;o conscientes: excessiva liga&ccedil;&atilde;o &agrave; imagem, &agrave; imediatez da localiza&ccedil;&atilde;o dos recursos (com tend&ecirc;ncia a privilegiar e\/ou reduzir a busca ao que est&aacute; dispon&iacute;vel na rede esquecendo outros meios de informa&ccedil;&atilde;o), um estilo de leitura demasiado superficial e descompro- metido que salta rapidamente de uns s&iacute;tios para outros, paci&ecirc;ncia para uma leitura ponderada e cr&iacute;tica dos documentos (1).<\/p>\n<p>Ainda em rela&ccedil;&atilde;o com o as- peto educacional enquadra-se a quest&atilde;o do respeito pelos autores dos materiais dispon&iacute;veis e o pl&aacute;gio.<\/p>\n<p>Um terceiro aspeto prende-se com a no&ccedil;&atilde;o de amizade que as redes sociais desenvolvem: amizade corre o risco de ser confundida com o n&uacute;mero de pessoas que querer aceder a uma p&aacute;gina social, a quantidade de informa&ccedil;&atilde;o pessoal partilhada ou a press&atilde;o de grupo virtual. Junta-se a esta a falsa sensa&ccedil;&atilde;o de privacidade e seguran&ccedil;a: a realidade &eacute; diametralmente oposta. Na rede nada &eacute; privado ou rigorosamente seguro. Toda a informa&ccedil;&atilde;o dispo- nibilizada ser&aacute; (mais cedo ou mais tarde) vista por outros e &eacute; dif&iacute;cil retir&aacute;-la da rede. Este facto deveria servir para desenvolver a prud&ecirc;ncia sobretudo na comunica&ccedil;&atilde;o de dados e acontecimentos privados e relevantes na hist&oacute;ria pessoal de cada um, evitando que este recurso digital passe de rede (net) a teia (web) onde facilmente nos enredamos e podemos<\/p>\n<p>vir a ser v&iacute;timas de predadores de todo<\/p>\n<p>o tipo.<\/p>\n<p>A Internet remete assim, necessariamente, para a quest&atilde;o &eacute;tica (de um bom ou mau uso de toda a cria&ccedil;&atilde;o cultural, de uma utiliza&ccedil;&atilde;o que humaniza e realiza o ser humano ou que o degrada e destr&oacute;i) e para os perigos da sua utiliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Para a experi&ecirc;ncia religiosa e para a f&eacute; crist&atilde; em particular, a Internet apresenta-se igualmente fascinante e desafian-<\/p>\n<p>te. A potencialidade de transmitir con- te&uacute;dos crist&atilde;os de modo interativo, ape- lativo e universal &eacute; hoje um facto. O leque de oferta &eacute; variado: propostas de ora-<\/p>\n<p>&ccedil;&atilde;o, acad&eacute;mico-formativas, da partilha pessoal. Saliento sobretudo a oferta pela Internet de experi&ecirc;ncias de acompanhamento espiritual (Exerc&iacute;cios Espirituais, por exemplo) com tudo o que isso implica de partilha pessoal.<\/p>\n<p>Sem diminuir nada ao valor e enorme import&acirc;ncia e alcance da presen&ccedil;a e da mensagem crist&atilde; na Internet lembro contudo que a comunica&ccedil;&atilde;o entre pessoas n&atilde;o &eacute; s&oacute; digital mas tamb&eacute;m anal&oacute;gica, como teorizou P. Watzlawick. Na comunica&ccedil;&atilde;o entre pessoas entra tamb&eacute;m o elemento fundamental da corporalidade: a presen&ccedil;a f&iacute;sica m&uacute;tua, os gestos corporais e os sil&ecirc;ncios que a expressam e acompanham, dando-lhe profundidade e densidade. A experi&ecirc;ncia crist&atilde; radica neste acontecimento de presen&ccedil;a interna de Cristo, da sua corporalidade a cada um de n&oacute;s e faz-se presente em cada encontro interpessoal. No centro da experi&ecirc;ncia crist&atilde; est&aacute; um homem oferecido na sua corporalidade na qual o Esp&iacute;rito &eacute; dado: corpo e sangue entregues que na nossa corporalidade devem ser recebidos. A sacramentalidade do amor de Cristo requer esta presen&ccedil;a corporal direta para a qual o espa&ccedil;o digital da Internet constitui, apesar de toda a sua extraordin&aacute;ria riqueza, uma dist&acirc;ncia e pobreza.<\/p>\n<p>O grande desafio religioso que a Internet coloca aos crist&atilde;os talvez seja, afinal, o de, pelo modo como est&atilde;o presentes aos outros, pela verdade, no respeito, pelo genu&iacute;no interesse pela vida e realiza&ccedil;&atilde;o daqueles com quem comunicam, da sua pr&oacute;pria e do mundo, gerarem rela&ccedil;&otilde;es de confian&ccedil;a e generosidade que se concretizam depois tamb&eacute;m no acolhimento presencial direto e profundo das suas condi&ccedil;&otilde;es de vida, no compromisso efetivo para fazer do mundo um espa&ccedil;o de realiza&ccedil;&atilde;o humana integral.<\/p>\n<p>Teresa Messias<br \/>Professora Faculdade de Teologia &#8211; UCP<\/p>\n<p>______<\/p>\n<p>(1) Cf. Beyt&iacute;a, Juan Crist&oacute;bal, &ldquo;La cultura juvenil y sus desaf&iacute;os&rdquo;, Revista de Espiritualidad Ignaciana (CIS) 117 (2008), 13.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No mundo da comunica&ccedil;&atilde;o social a Internet veio &ndash; tudo parece indic&aacute;-lo &ndash; para ficar. A tecnologia da rede digital est&aacute; a gerar um novo paradigma de comunica&ccedil;&atilde;o. 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