{"id":51533,"date":"2011-05-24T11:27:21","date_gmt":"2011-05-24T11:27:21","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/05\/24\/atualidade-da-communio-et-progressio\/"},"modified":"2011-05-24T11:27:21","modified_gmt":"2011-05-24T11:27:21","slug":"atualidade-da-communio-et-progressio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/atualidade-da-communio-et-progressio\/","title":{"rendered":"Atualidade da Communio et Progressio"},"content":{"rendered":"<p>A Instru&ccedil;&atilde;o Pastoral &ldquo;Communio et Progres-sio&rdquo; foi uma promessa do Concilio Vaticano II, plasmada no decreto &ldquo;Inter Mirifica&rdquo;, sobre os meios de comunica&ccedil;&atilde;o social. Quarenta anos depois da sua publica&ccedil;&atilde;o, continua a ajudar a ler criticamente o modo como tem evolu&iacute;do a &lsquo;ecologia da comunica&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica&rsquo; e a inspirar a a&ccedil;&atilde;o pastoral da Igreja neste &acirc;mbito.<\/p>\n<p>Num momento em que as &ldquo;redes sociais&rdquo; e as plataformas e servi&ccedil;os de comunica&ccedil;&atilde;o digital se encontram no centro das aten&ccedil;&otilde;es, abrindo horizontes a pr&aacute;ticas comunica-cionais inimagin&aacute;veis ainda h&aacute; poucos anos, &eacute; extraordin&aacute;rio como um documento de h&aacute; 40 anos continua a colocar-se n&atilde;o s&oacute; como mem&oacute;ria, mas como horizonte do muito que h&aacute; a fazer. Isso tornou-se poss&iacute;vel porque, no essencial, n&atilde;o se ficou pela espuma dos fen&oacute;menos e, nomeadamente, pelo discurso euf&oacute;rico acerca das promessas tecnol&oacute;- gicas nem t&atilde;o-pouco por uma perspetiva instrumentalista dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, t&atilde;o t&iacute;pica das grandes estruturas de poder, sejam elas econ&oacute;micas, pol&iacute;ticas ou cultu- rais, a Igreja Cat&oacute;lica inclu&iacute;da.<\/p>\n<p>De entre os pontos suscet&iacute;veis de serem destacados nesta breve leitura feita a partir de uma perce&ccedil;&atilde;o dos tempos que correm, salientam-se tr&ecirc;s: a) o modelo e a conce&ccedil;&atilde;o de comunica&ccedil;&atilde;o subjacente; b) a forma&ccedil;&atilde;o dos p&uacute;blicos; c) a valoriza&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica, nomeadamente no interior da Igreja.<\/p>\n<p>a. A comunica&ccedil;&atilde;o: an&uacute;ncio e di&aacute;logo<\/p>\n<p>Dois grandes modelos de comunica&ccedil;&atilde;o se poderiam recortar, na multifacetada hist&oacute;ria da comunica&ccedil;&atilde;o humana: o informativo e o dial&oacute;gico. O primeiro, culturalmente dominante ao longo dos s&eacute;culos, &eacute; predominantemente unidirecional, voltado para a difus&atilde;o de uma dada mensagem de um ponto a outro (ou a muitos pontos). O segundo &eacute; con- versacional, interativo, horizontal, feito de trocas, experi&ecirc;ncias, reconhecimento.<\/p>\n<p>Digamos que, neste quadro, necessariamente sum&aacute;rio e simplista, a vida e testemunho de Jesus Cristo &eacute;, de facto, original, como a &ldquo;Communio et Progressio&rdquo; enfatiza, no seu ponto 11. Primeiro, Ele &ldquo;n&atilde;o falava como que &lsquo;de fora&rsquo;, mas &lsquo;de dentro&rsquo;, a partir do seu povo&rdquo;; depois, n&atilde;o se limitava a &ldquo;exprimir ideias ou manifestar sentimentos&rdquo;, mas doou-se a si mesmo, fazendo-se semelhante aos seus interlocutores. Dificilmente se pode colocar um cen&aacute;rio mais exigente e largo de comunica&ccedil;&atilde;o. Da&iacute; o documento dizer que Cristo se manifestou como &ldquo;perfeito Comuni-cador&rdquo;. Disse o que fez e fez o que disse.<\/p>\n<p>Olhando &agrave; atualidade desta perspetiva: comunicar continua a significar frequen-temente&lsquo;falar para os outros&rsquo;. E quando ensaia o registo da conversa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o raro se converte em &ldquo;conversa mole&rdquo;, quando n&atilde;o em desconversa. Por outro lado, comunica&ccedil;&atilde;o equivale tantas vezes a &lsquo;performa-tividade&rsquo; das tecnologias (as tais &ldquo;maravilhas&rdquo; da t&eacute;cnica), reduzida que &eacute; ao uso e consumo de ferramentas e de m&aacute;quinas.<\/p>\n<p>Uma outra pista de reflex&atilde;o &eacute; aqui pertinente: nada pode substituir (mas apenas complementar, enriquecer, alargar) a comunica&ccedil;&atilde;o olhos-nos-olhos.<\/p>\n<p>b. A forma&ccedil;&atilde;o dos p&uacute;blicos para um uso cr&iacute;tico dos media<\/p>\n<p>Os discursos da comunica&ccedil;&atilde;o costumam olhar sobretudo para os comunicadores, esquecendo os p&uacute;blicos e o seu papel. A Instru&ccedil;&atilde;o Pastoral tamb&eacute;m n&atilde;o os esquece, mas, sintomaticamente, coloca &ldquo;os que recebem as mensagens&rdquo; em primeiro lugar. E det&eacute;m-se a explicitar o que deve (e como deve) ser feito para que seja um parceiro ativo no processo.<\/p>\n<p>Com os p&uacute;blicos, &ldquo;&eacute; preciso, em primeiro lugar, estimular o conhecimento dos princ&iacute;pios que regem o uso dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o; (&hellip;) Se, com efeito, compreenderem bem a<\/p>\n<p>sua &iacute;ndole e fun&ccedil;&atilde;o, estes meios de comunica&ccedil;&atilde;o podem contribuir para um verdadeiro enriquecimento do esp&iacute;rito; (&hellip;) Por isso, a educa&ccedil;&atilde;o deve incluir princ&iacute;pios bem definidos para cada um dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e respetivo papel na comunidade local, bem como a melhor maneira de os utilizar&rdquo; (n. 64).<\/p>\n<p>Essa forma&ccedil;&atilde;o &ldquo;deve-se fazer metodicamente nas escolas&rdquo;, com lugar expl&iacute;cito nos programas de estudo e sob a orienta&ccedil;&atilde;o de mestres competentes&rdquo; (n.66). A forma&ccedil;&atilde;o tanto dos pais como dos educadores e professores &eacute;, por isso, crucial. (n.70)<\/p>\n<p>Mais de dez anos antes da primeira grande &ldquo;declara&ccedil;&atilde;o&rdquo; sobre uma forma&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica e cr&iacute;tica dos alunos sobre os media, feita pela UNESCO em 1983, j&aacute; a Igreja, de forma circunstanciada e clara, tinha tra&ccedil;ado o horizonte, o programa e o alcance desta forma&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Quando a Uni&atilde;o Europeia, a UNESCO e o Conselho da Europa se encontram empenhadas em aprofundar esta forma&ccedil;&atilde;o orientada para a literacia informativa e medi&aacute;tica, a Igreja, nas suas institui&ccedil;&otilde;es, e em di&aacute;logo com todos, pode dar um contributo culturalmente relevante nesta mat&eacute;ria.<\/p>\n<p>c. A opini&atilde;o p&uacute;blica, tamb&eacute;m no interior da igreja<\/p>\n<p>A &ldquo;Communio et Progressio&rdquo; preconiza &ldquo;um di&aacute;logo cont&iacute;nuo com o mundo contempor&acirc;neo, participando, assim, na resolu&ccedil;&atilde;o dos problemas do homem de hoje&rdquo; (n. 114). Esse &eacute; um caminho para exercitar a necess&aacute;ria leitura dos &ldquo;sinais dos tempos&rdquo;, que n&atilde;o pode prescindir dos media.<\/p>\n<p>Seria um contrassenso que a Igreja apostasse numa opini&atilde;o p&uacute;blica esclarecida e interveniente face &agrave; vida coletiva, incluindo a eclesial, e n&atilde;o cuidasse, ao mesmo tempo, e com igual desvelo, da promo&ccedil;&atilde;o de uma opini&atilde;o p&uacute;blica, igualmente esclarecida e cr&iacute;tica, na comunidade cat&oacute;lica. Sem ela, &ldquo;faltar-lhe-ia qualquer coisa de vital, e a culpa recairia tanto sobre os Pastores como sobre os leigos&rdquo;. Para isso, acrescenta o ponto 116, &ldquo;as autoridades respons&aacute;veis favore&ccedil;am e procurem que exista na Igreja, gra&ccedil;as &agrave; liberdade de express&atilde;o e de pensamento, uma troca leg&iacute;tima de opini&otilde;es (&hellip;)&rdquo;. Desde que salvaguardadas as &ldquo;verdades da f&eacute;&rdquo; que &ldquo;pertencem &agrave; pr&oacute;pria ess&ecirc;ncia da Igreja&rdquo;, &ldquo;este di&aacute;logo livre (&hellip;) n&atilde;o prejudica a unidade, a solidariedade entre os fi&eacute;is; pelo contr&aacute;rio, favorece a conc&oacute;rdia e o encontro das diversas correntes de pensamento, atrav&eacute;s do confronto de pa- receres dentro da opini&atilde;o p&uacute;blica&rdquo; (n. 117).<\/p>\n<p>Dir-se-ia que esta preocupa&ccedil;&atilde;o t&atilde;o cara ao p&oacute;s-conc&iacute;lio v&ecirc;-se pouco na agenda de preocupa&ccedil;&otilde;es da vida da Igreja de hoje, se &eacute; que existe. Quer do lado de quem tem as maiores responsabilidades pastorais quer na base, parece vingar, nos tempos que correm, sobretudo o desejo do unanimismo e o medo de assumir a diferen&ccedil;a de opini&otilde;es, comprometendo o amadurecimento de uma f&eacute; adulta e a credibilidade da comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m aqui parece residir uma not&oacute;ria atualidade da &ldquo;Communio et Progressio&rdquo; e um desafio para as celebra&ccedil;&otilde;es dos 50 anos do Conc&iacute;lio, que em breve ocorrer&atilde;o.<\/p>\n<p><em>Manuel Pinto<br \/>Professor de Jornalismo e de Educa&ccedil;&atilde;o para os Media na Universidade do Minho<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Instru&ccedil;&atilde;o Pastoral &ldquo;Communio et Progres-sio&rdquo; foi uma promessa do Concilio Vaticano II, plasmada no decreto &ldquo;Inter Mirifica&rdquo;, sobre os meios de comunica&ccedil;&atilde;o social. 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