{"id":51531,"date":"2011-05-24T11:24:24","date_gmt":"2011-05-24T11:24:24","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/05\/24\/somos-melhores-do-que-o-que-partilhamos\/"},"modified":"2011-05-24T11:24:24","modified_gmt":"2011-05-24T11:24:24","slug":"somos-melhores-do-que-o-que-partilhamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/somos-melhores-do-que-o-que-partilhamos\/","title":{"rendered":"Somos melhores do que o que partilhamos"},"content":{"rendered":"<p>1. Um casal jovem chega &agrave;s portas do c&eacute;u. S&atilde;o Pedro, consultando o computador, diz a ambos, de rostos apreensivos:<\/p>\n<p>&#8211; O vosso registo na rede social &eacute; terr&iacute;vel&hellip; Duas oportunidades falhadas de clicar &ldquo;gosto&rdquo; em &ldquo;Jesus, nosso Senhor e Salvador&rdquo; e recusa em mostrar a vossa f&eacute; com um simples &ldquo;reencaminhe para dez amigos&rdquo;.<\/p>\n<p>O cartoon do s&iacute;tio Reverendfun.com n&atilde;o diz apenas que &eacute; preciso p&ocirc;r na Internet as convic&ccedil;&otilde;es de f&eacute;, dar testemunho. Deixa entender tamb&eacute;m que tudo o que l&aacute; fazemos fica registado. Se na imagina&ccedil;&atilde;o S&atilde;o Pedro, por for&ccedil;a do of&iacute;cio, tem acesso &agrave; nossa vida &ldquo;on-line&rdquo;, a realidade &eacute; que, quando usamos, trabalhamos ou simplesmente passeamos pela Internet, deixamos um rasto que, na implaus&iacute;vel hip&oacute;tese de algu&eacute;m se interessar por isso, permitir&aacute; reconstruir a nossa exist&ecirc;ncia com pormenores impressionantes.<\/p>\n<p>O jornalista Riccardo Stagliano, especialista em novas tecnologias do &ldquo;La Repubblica&rdquo;, contou h&aacute; dias que pediu a uma empresa que pesquisasse os seus dados pessoais na rede. Em poucas horas, a empresa apresentou um relat&oacute;rio com dados biogr&aacute;ficos, n&uacute;meros de telefone, qualifica&ccedil;&atilde;o profis-<\/p>\n<p>sional, prefer&ecirc;ncia partid&aacute;ria&hellip; Por outro lado, como tem alguns conhecimentos inform&aacute;ticos, foi &agrave; &ldquo;caixa preta&rdquo; do Google e encontrou todas as suas rela&ccedil;&otilde;es com o motor de busca. &ldquo;E &eacute; como olhar a alma no espelho. Desde o momento em que eu ativei a cronologia, ou seja o registo hist&oacute;rico de cada pesquisa feita, eles sabem exatamente o que eu vi nos &uacute;ltimos anos&rdquo;, descreve. E encontrou a mensagem que enviou no dia 27 de maio de 1996 a um grupo de discuss&atilde;o sobre publicidade on-line, o que o leva a constatar: &ldquo;Pelo que eu sabia na &eacute;poca, era como anexar um an&uacute;ncio num mural da universidade. O que eu aprendi depois &eacute; que ningu&eacute;m jamais o removeria, ou melhor, seria embalsamado para a mem&oacute;ria futura. Se eu tivesse pedido instru&ccedil;&otilde;es para con- fecionar uma bomba, seria o mesmo&rdquo;.<\/p>\n<p>Claro que o perfil digital que anda pela rede ou que &eacute; poss&iacute;vel construir com os dados dispersos na rede &eacute; feito de elementos fornecidos por n&oacute;s pr&oacute;prios, &ldquo;&agrave;s vezes de maneira ativa, preenchendo question&aacute;rios, assinando abaixo-assinados e assim por diante&rdquo;, mas, &ldquo;mais frequentemente, de modo passivo, simplesmente navegando, comprando ou sendo marcados nas fotos de outras pessoas&rdquo;, atividade t&atilde;o comum no Facebook, como afirma Stagliano. A li&ccedil;&atilde;o? &ldquo;Deus perdoa, a Internet n&atilde;o. Sobretudo n&atilde;o se esquece de nada. Ela conhece-nos melhor do que uma m&atilde;e, do que um amigo, do que um psicanalista. E &eacute; capaz de reunir tantas pe&ccedil;as daquele mosaico ca&oacute;tico que &eacute; a vida, reconstruindo-o num n&iacute;vel de detalhe im- pens&aacute;vel na era pr&eacute;-web&rdquo;, afirma no texto do &ldquo;La Repubblica&rdquo;.<\/p>\n<p>Ao fim de alguns anos ligados &agrave; grande rede, pode entrar-nos em casa ou no computador um romeiro que em vez de nos dizer que &eacute; &ldquo;Ningu&eacute;m!&rdquo;, mostra-nos que somos o que pens&aacute;vamos que estava definitivamente enterrado no passado.<\/p>\n<p>2. &Eacute; relevante pensar no perfil digital cat&oacute;lico. Bento XVI afirma na mensagem para o pr&oacute;ximo Dia Mundial das Comunica&ccedil;&otilde;es Sociais que &ldquo;existe um estilo crist&atilde;o de presen&ccedil;a tamb&eacute;m no mundo digital: traduz-se numa forma de comunica&ccedil;&atilde;o honesta e aberta, respons&aacute;vel e respeitadora do outro&rdquo;. O modo de comunicar, as escolhas, as prefer&ecirc;ncias, os ju&iacute;zos &ldquo;devem ser profundamente coerentes com o Evangelho, mesmo quando n&atilde;o se fala explicitamente dele&rdquo;, afirma o Papa.<\/p>\n<p>Nos exerc&iacute;cios do jornalista italiano acima referidos, que imagem sobressairia do crist&atilde;o que passa v&aacute;rias horas on-line? E do comunicador que se afirma cat&oacute;lico?<\/p>\n<p>3. Desde h&aacute; dois anos colaboro no blogue &ldquo;Religionline&rdquo; e alimento o &ldquo;Tribo de Jacob&rdquo; (TdJ). Este &uacute;ltimo surgiu como resposta pessoal ao apelo do Papa em 2009 para &ldquo;levar para o mundo digital o testemunho da f&eacute;&rdquo;.<\/p>\n<p>Um dia, um leitor do TdJ, do lado de l&aacute; do Atl&acirc;ntico, perguntou-me se sou cat&oacute;lico. Um &ldquo;sim&rdquo; ou um &ldquo;n&atilde;o&rdquo; bastava. Respondi-lhe de imediato, mas na altura n&atilde;o me lembrei de contar o caso do corcunda que conta a toda a gente que &eacute; corcunda. Como se precisasse de o dizer. Eu sentia-me um corcunda consciente. Pensava que n&atilde;o era preciso dizer o que sentia como evidente. Escrevia e escrevo como cat&oacute;lico. Mas n&atilde;o sabia que isso nem sempre se notava em quem me l&ecirc;. O leitor brasileiro diz-me, na volta, que eu falo muito da &ldquo;banda podre&rdquo; do catolicismo. Talvez. E acrescento que tenho simpatias pela inseguran&ccedil;a antropol&oacute;gica luterana e pela seguran&ccedil;a ontol&oacute;gica judaica. Mas sou cat&oacute;lico. Pensava que isso se notava pelas efem&eacute;rides quase di&aacute;rias e quase sempre papais. Pelas not&iacute;cias recolhidas da imprensa escrita e da Ecclesia. Pelo apontamento do sinal crente, por vezes inesperado, na cultura pop. Rumores de anjos. Pelas frases de conte&uacute;do positivo. Pelos excertos de livros de espiritualidade. Pelas pontes que procuro entre culturas, ci&ecirc;ncias, artes e religi&otilde;es. O cat&oacute;lico sabe que h&aacute; muitas moradas na Casa do Pai. Que o Papa &eacute; pont&iacute;fice para lan&ccedil;ar pontes. E cada um de n&oacute;s, &agrave; sua maneira, tamb&eacute;m h&aacute; de lan&ccedil;&aacute;-las. Ou pelo menos atirar uma escada. Se for como a de Jacob, melhor. Ou permitir que subam pela corcunda.&nbsp;Talvez a minha corcunda seja pequena.<\/p>\n<p>4. Como &eacute; que se mostra a identidade cat&oacute;lica nas ferramentas digitais da comunica&ccedil;&atilde;o? Arriscaria um perfil baseado no Conc&iacute;lio Vaticano II. Os novos meios s&atilde;o maravilhosos. H&aacute; que us&aacute;-los (&ldquo;Inter mirifica&rdquo;). N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel faz&ecirc;-lo bem se n&atilde;o for em liberdade e com criatividade (&ldquo;Dignitatis humanae&rdquo;). Na rede, sabemos que somos o que partilhamos. Na vida, sabemos que a maior partilha &eacute; a que nos constitui em comunidade de comunh&atilde;o (&ldquo;Lumen gentium&rdquo;). Pelo dom, somos mais do que o que partilhamos. A vida cont&eacute;m a rede. N&atilde;o o contr&aacute;rio. Mas a rede &eacute; met&aacute;fora para a comunidade que interessa. A comu- nica&ccedil;&atilde;o, na qual tamb&eacute;m nos revelamos, &eacute; sempre um mero sinal de uma revela&ccedil;&atilde;o maior (&ldquo;Dei verbum&rdquo;). Nas redes, temos de olhar para os que est&atilde;o mais pr&oacute;ximos, com os quais temos muito a aprender (&ldquo;Unitatis redintegratio&rdquo;), e para os mais afastados, que podem ter muito a ensinar (&ldquo;Nostra aetate&rdquo;). Sempre com alegria e esperan&ccedil;a. Di&aacute;logo, nunca mon&oacute;logo, ditado ou an&aacute;te- ma (&ldquo;Gaudium et Spes&rdquo;).<\/p>\n<p>Nunca como nas &uacute;ltimas semanas se tem falado tanto do medo. &ldquo;N&atilde;o tenhais medo&rdquo;, diz o Ressuscitado. Disse-o o agora bem-aventurado polaco. Dizem os pol&iacute;ticos. Tamb&eacute;m foi essa uma das mensagens sa&iacute;das do recente encontro dos blogueiros com respons&aacute;veis do Vaticano: &ldquo;N&atilde;o devemos ter medo de entrar nos debates informativos eclesiais&rdquo;. Arrisco, nesta linha, um perfil trinit&aacute;rio. O comunicador crist&atilde;o sabe que a autoridade, que &eacute; t&iacute;pica do Pai, est&aacute; com o Papa e a Igreja. Mas comunica com a liberdade que a pr&oacute;pria comunica&ccedil;&atilde;o e os meios exigem e que &eacute; t&iacute;pica do Filho, o Libertador. Como aliar autoridade da paternidade\/maternidade com liberdade da filia&ccedil;&atilde;o? S&oacute; com a criatividade do Esp&iacute;rito. O Consolador que dissipa o medo.<\/p>\n<p><em>Jorge Pires Ferreira<br \/>Diretor-adjunto do &ldquo;Correio do Vouga&rdquo;, autor do blogue &ldquo;Tribo de Jacob&rdquo; e colaborador do &ldquo;Religionline&rdquo;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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[&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120,122,199],"class_list":["post-51531","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi","tag-brasil","tag-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51531","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=51531"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51531\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=51531"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=51531"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=51531"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}