{"id":51452,"date":"2011-05-19T11:32:47","date_gmt":"2011-05-19T11:32:47","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/05\/19\/homilia-de-d-carlos-azevedo-na-vigilia-de-preparacao-para-a-beatificacao-da-madre-maria-clara\/"},"modified":"2011-05-19T11:32:47","modified_gmt":"2011-05-19T11:32:47","slug":"homilia-de-d-carlos-azevedo-na-vigilia-de-preparacao-para-a-beatificacao-da-madre-maria-clara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-carlos-azevedo-na-vigilia-de-preparacao-para-a-beatificacao-da-madre-maria-clara\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Carlos Azevedo na vig\u00edlia de prepara\u00e7\u00e3o para a beatifica\u00e7\u00e3o da Madre Maria Clara"},"content":{"rendered":"<p>Sinto-me muito feliz por presidir a esta vig&iacute;lia, que abre a prepara&ccedil;&atilde;o pr&oacute;xima para a festa da beatifica&ccedil;&atilde;o de Maria Clara do Menino Jesus. Pessoalmente muito devo &agrave;s Irm&atilde;s Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Concei&ccedil;&atilde;o. Fomos companheiros em muitas a&ccedil;&otilde;es pastorais, ainda seminarista e no exerc&iacute;cio do minist&eacute;rio presbiteral na diocese do Porto e, no decorrer de muitas atividades, sempre acolhido com hospitalidade fraterna nas suas casas espalhadas pelo pa&iacute;s. Gra&ccedil;as &agrave; fecundidade do carisma da M&atilde;e Maria Clara muito beneficiei espiritualmente da amizade de irm&atilde;s franciscanas hospitaleiras. Car&iacute;ssimas irm&atilde;s: este reconhecimento sirva de perd&atilde;o se nem sempre pude corresponder ao que recebi.<\/p>\n<p>Preparamo-nos para reconhecer publicamente uma mulher, uma religiosa na qual transparece a ternura do Pai, onde se espelha a miseric&oacute;rdia revelada por Jesus, em quem o &iacute;mpeto do Esp&iacute;rito encontrou disponibilidade. A ternura de Deus encontra, na hist&oacute;ria, imagens vivas da sua miseric&oacute;rdia, da sua compaix&atilde;o. Saber ser pr&oacute;ximo &eacute; usar de miseric&oacute;rdia, n&atilde;o apenas falar de miseric&oacute;rdia mas fazer, usar, praticar, ligar feridas, deitar azeite e vinho, colocar na pr&oacute;pria montada, levar para a estalagem, cuidar, gastar e partilhar bens.<\/p>\n<p>Foi a cuidar dos atingidos pela epidemia que atingia Lisboa que o pai da futura Irm&atilde; Maria Clara sairia contagiado e viria a dar a vida. Com este exemplo paterno aliviar os sofrimentos dos pobres foi escola de vida.<\/p>\n<p>De facto, os discursos sobre a proximidade sem gestos de ternura, sem atos de miseric&oacute;rdia, afastam da verdade de Deus. S&oacute; vidas carregadas de atitudes concretas como a da M&atilde;e Maria Clara transpiram a santidade, s&atilde;o transpar&ecirc;ncia da Trindade sant&iacute;ssima.<\/p>\n<p>A procura da santidade corre o risco de cair em modos ilus&oacute;rios e evasivos, de descambar para a satisfa&ccedil;&atilde;o de demandas emocionais, de acumular conflitos interiores, mantendo uma superficialidade de letargia mole, incapaz de dar hoje raz&otilde;es da esperan&ccedil;a. A santidade patente em Maria Clara n&atilde;o se acomodou &agrave; situa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o se atrelou &agrave; Igreja de forma infantil, antes em atitude madura e ativa Clara n&atilde;o legitimou tomadas de posi&ccedil;&atilde;o anacr&oacute;nicas, fora do tempo, n&atilde;o se fechou em casta de privilegiados, mas atirou-se ao terreno dif&iacute;cil, ultrapassou barreiras, que a muitos pareciam intranspon&iacute;veis. Teve de sofrer persegui&ccedil;&otilde;es logo ao nascer da congrega&ccedil;&atilde;o, aguentou longos e injustos processos judiciais, campanhas caluniosas, julgamentos precipitados de superiores da Igreja, at&eacute; a tentativa de deposi&ccedil;&atilde;o de superiora. Reagia &agrave;s prova&ccedil;&otilde;es com confian&ccedil;a, humildade e serena alegria.<\/p>\n<p>A santidade n&atilde;o se confunde com a indiferen&ccedil;a perante a realidade, com a insensibilidade perante os dramas humanos, n&atilde;o passa ao lado dos problemas para andar de bem com todos. A santidade crist&atilde;, bem vis&iacute;vel no itiner&aacute;rio desta religiosa, &eacute; incompat&iacute;vel com comportamentos in&oacute;cuos e contraproducentes, com subterf&uacute;gios alienantes.<\/p>\n<p>Olhar para a vida da franciscana Irm&atilde; Maria Clara move-nos para acolher o amor do Pai, transformando efetivamente as rela&ccedil;&otilde;es sociais.<\/p>\n<p>Deus n&atilde;o precisa de reter consagrados para si. Se os retira &eacute; para os atirar. Se os chama &eacute; para os enviar. Os verdadeiros santos s&atilde;o sempre sens&iacute;veis &agrave; hist&oacute;ria, solid&aacute;rios a partir de uma experi&ecirc;ncia profunda de Deus. O dom recebido de Deus difunde-se na experi&ecirc;ncia quotidiana junto dos irm&atilde;os. O realismo dos santos &eacute; surpreendente. Vivem com entusiasmo e disponibilidade, vivem plenamente, unem liberdade e responsabilidade para atuar nos destinos da hist&oacute;ria, sem pactuarem com fatalismos.<\/p>\n<p>No mundo hodierno de gritantes injusti&ccedil;as, de ego&iacute;smos acumulados, de vis&otilde;es individualistas ou clubistas, sem largueza de horizontes; num tempo marcado pelo imediatismo, sem antevis&atilde;o de futuro, ser santo traduz-se em empenho na promo&ccedil;&atilde;o da vida dos mais d&eacute;beis, na supera&ccedil;&atilde;o das desigualdades, na procura de comunh&atilde;o sem exclus&atilde;o de ningu&eacute;m, na preocupa&ccedil;&atilde;o com o cosmos e a harmonia do universo.<\/p>\n<p>Todos somos, car&iacute;ssimos irm&atilde;os e irm&atilde;s, chamados &agrave; santidade no nosso lugar de vida. Os frutos da gra&ccedil;a que o Esp&iacute;rito Santo produz em n&oacute;s podem ser vividos de maneira muito diferente por cada um e cada uma. Importa estar atentos aos apelos de Deus, como Maria Clara, a Lib&acirc;nia da Quinta do Bosque, na Amadora. Ap&oacute;s inf&acirc;ncia feliz entre os seus pais e sete irm&atilde;os, no seio de uma fam&iacute;lia profundamente crist&atilde;, &eacute; atingida pela morte dos pais e entra em contacto com v&aacute;rias comunidades religiosas, nas quais cresce, seja na forma&ccedil;&atilde;o, seja na abertura ao mist&eacute;rio amoroso de Deus. Vibra, no seu cora&ccedil;&atilde;o sens&iacute;vel e despojado, o seguimento livre do Senhor Jesus ao jeito de S. Francisco, na pobreza e na dedica&ccedil;&atilde;o aos pobres. A situa&ccedil;&atilde;o de car&ecirc;ncia dos meados do s&eacute;culo XIX, em Portugal, impele o P. Raimundo Beir&atilde;o a sonhar uma congrega&ccedil;&atilde;o dedicada a curar as feridas da sociedade, como o samaritano do evangelho.<\/p>\n<p>Deixai-me citar a carta da Irm&atilde; Maria da Concei&ccedil;&atilde;o Galv&atilde;o Ribeiro superiora Geral das Irm&atilde;s Franciscanas Hospitaleiras: &ldquo;Convivendo com uma conjuntura pol&iacute;tico-social adversa, [a Irm&atilde; Maria Clara] n&atilde;o esquece as obras do benfazer, nascidas do seu cora&ccedil;&atilde;o, e prossegue lutando, para que a ternura e a miseric&oacute;rdia de Deus continuem a ser levadas a todos os necessitados. Por isso as irm&atilde;s v&atilde;o sendo enviadas a minorar car&ecirc;ncias, suavizar dores, consolar tristezas, povoar solid&otilde;es: s&atilde;o os pobres, os aflitos, as fam&iacute;lias em necessidade, os doentes, os desamparados, os idosos, as crian&ccedil;as, os &oacute;rf&atilde;os, todos&hellip; a quem chama a sua gente. De todos se faz m&atilde;e que abra&ccedil;a e aconchega, orienta e apoia&rdquo;.<\/p>\n<p>A Irm&atilde; Maria Clara fez sua a dor dos pobres, fez seu o abandono dos postos de lado, hospedou o desalento. &Eacute; um grande modelo para uma corajosa interven&ccedil;&atilde;o social dos crist&atilde;os.<\/p>\n<p>A sua ternura, bebida na fonte amorosa do Pai, nos contagie. A sua resistente e firme miseric&oacute;rdia, animada pelo viver em Cristo, nos mova para criarmos modos novos de servir os mais desvalidos. A sua decis&atilde;o por Deus, inspirada pelo Esp&iacute;rito Santo, nos fa&ccedil;a potenciadores de esperan&ccedil;a, nesta hora.<\/p>\n<p>Sejamos santos, aqui, onde o Senhor nos plantou. Sejamos santos levando a s&eacute;rio a forma de vida &agrave; qual fomos chamados, assumindo com liberdade e entusiasmo o que somos e aquilo que devemos realizar, operar na comunidade a que pertencemos. Seja efetivo o nosso compromisso, seja din&acirc;mico, concreto, como a samaritana Irm&atilde; Maria Clara do Menino Jesus.<\/p>\n<p><em>Queijas, 18 de maio de 2011<br \/><\/em><em>D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sinto-me muito feliz por presidir a esta vig&iacute;lia, que abre a prepara&ccedil;&atilde;o pr&oacute;xima para a festa da beatifica&ccedil;&atilde;o de Maria Clara do Menino Jesus. Pessoalmente muito devo &agrave;s Irm&atilde;s Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Concei&ccedil;&atilde;o. 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