{"id":51200,"date":"2011-05-03T13:07:31","date_gmt":"2011-05-03T13:07:31","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/05\/03\/eurico-carrapatoso-e-o-insondavel\/"},"modified":"2011-05-03T13:07:31","modified_gmt":"2011-05-03T13:07:31","slug":"eurico-carrapatoso-e-o-insondavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/eurico-carrapatoso-e-o-insondavel\/","title":{"rendered":"Eurico Carrapatoso e o insond\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>O J\u00fari do Pr\u00e9mio \u00c1rvore da Vida \u2013 Padre Manuel Antunes deliberou, por unanimidade, atribui-lo na sua s\u00e9tima edi\u00e7\u00e3o, ao compositor Eurico Carrapatoso, entrevistado pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. <!--more--> <\/p>\n<p>Eurico Carrapatoso nasceu em 1962. Iniciou os seus estudos musicais na d&eacute;cada de oitenta, tendo sido aluno de Jos&eacute; Lu&iacute;s Borges Coelho, Fernando Lapa, C&acirc;ndido Lima, Constan&ccedil;a Capdeville e, finalmente, de Jorge Peixinho, com quem concluiu, em 1993, o Curso Superior de Composi&ccedil;&atilde;o no Conservat&oacute;rio Nacional de Lisboa. Tem, desde ent&atilde;o, desenvolvido ampla atividade no ensino e constru&iacute;do uma extraordin&aacute;ria obra no &acirc;mbito da cria&ccedil;&atilde;o musical, com trabalhos que v&atilde;o da m&uacute;sica orquestral, &agrave; m&uacute;sica de c&acirc;mara e coral, e que t&ecirc;m suscitado um justo reconhecimento, dentro e fora do pa&iacute;s.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>Como reagiu quando lhe foi anunciado que a Igreja Cat&oacute;lica em Portugal, atrav&eacute;s do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, o distinguiu com o pr&eacute;mio &#8220;&Aacute;rvore da Vida &#8211; Padre Manuel Antunes&#8221;?<\/em><\/p>\n<p>Senti-me emocionado. O P. Jos&eacute; Tolentino de Mendon&ccedil;a, poeta e pensador que tanto admiro, usou o telefone do meu querido amigo e mestre compositor Jo&atilde;o Madureira para me comunicar a distin&ccedil;&atilde;o. Quando atendi a chamada, reconhecendo o n&uacute;mero do Jo&atilde;o no visor do meu telem&oacute;vel, e depois de o saudar no &iacute;mpeto da nossa amizade&nbsp;<em>secular<\/em>, longe estava eu de que o motivo daquela chamada era, afinal, outro. Disse-me o Jo&atilde;o:&nbsp;<em>tenho aqui ao p&eacute; de mim uma pessoa que te quer transmitir uma boa nova.<\/em>&nbsp;Foi ent&atilde;o que passou o telefone ao P. Jos&eacute;. Nunca t&iacute;nhamos falado pessoalmente. E a primeira conversa que teve comigo foi para me dizer que o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, em conjunto com outras distintas personalidades, me tinham considerado digno de receber o pr&eacute;mio &#8220;&Aacute;rvore da Vida &#8211; Padre Manuel Antunes&#8221;. Apanhou-me desprevenido. Primeiro, corei de espanto. Depois, a emo&ccedil;&atilde;o sincera.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Que import&acirc;ncia atribui a esta distin&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n<p>&Eacute; uma distin&ccedil;&atilde;o que prezo especialmente, pois consagra, de qualquer forma, a dimens&atilde;o do&nbsp;<em>insond&aacute;vel<\/em>&nbsp;que eu sempre desejei, certamente, e seguramente, tentei, inocular naquilo que penso, que invento, que fa&ccedil;o e que escrevo. O simples facto de sentir que aqueles que atravessam o s&eacute;culo comigo t&ecirc;m recebido e descodificado esta mensagem, tantas vezes plasmada na minha obra de forma subliminar, &eacute;, s&oacute; por si, uma manifesta&ccedil;&atilde;o de resson&acirc;ncia e de cumplicidade. &Eacute; um doce ciclo de experi&ecirc;ncia humana que se consuma. Mas tamb&eacute;m tem o peso das coisas terr&iacute;veis, no que esta palavra conserva etimologicamente: &eacute; grande e pesada a minha miss&atilde;o, responsabilizada agora e mais do que nunca pela volumetria dos mestres que receberam o pr&eacute;mio em anteriores edi&ccedil;&otilde;es: Adriano Moreira, Manoel de Oliveira, Maria Helena da Rocha Pereira, P. Lu&iacute;s Archer, Fernando Echevarria. Todos eles emitem o som cavo e inaud&iacute;vel que s&oacute; as personalidades que navegam as &aacute;guas profundas da subtileza parecem emitir. Sim: esse som cavo e&nbsp;<em>appena sentito<\/em>, que sempre adivinhei como um som semelhante ao do plasma el&eacute;ctrico da espada do Darth Vader.<\/p>\n<p>Bem sei que tenho barba branca e o cabelo, pouco que &eacute;, vai para mais que nevado. Mas tenho&nbsp;<em>apenas<\/em><em>&nbsp;<\/em>49 anos. Penso em Manoel de Oliveira. E coro de novo, perguntando-me que fa&ccedil;o nesta galeria, e se n&atilde;o ter&aacute; havido, por parte de quem me achou digno de receber o pr&eacute;mio, alguma precipita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Uma palavra para o P. Manuel Antunes, insigne pensador e pedagogo com tamanho legado, meu patrono espont&acirc;neo, a par de P. Lu&iacute;s Archer, ambos grandes jesu&iacute;tas. Fa&ccedil;o com eles uma viagem el&iacute;ptica na minha vida, regressando ao Minho, ao Instituto Nun&rsquo;Alvres,&nbsp;<em>Caldinhas<\/em>&nbsp;para os amigos, onde aprendi muito e bem. Respiro bem por aqui, por entre estes altos pinheiros do norte. Estou em &oacute;ptima companhia, que &eacute; a Companhia de Jesus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Que obras da sua autoria mais reflectem e manifestam o patrim&oacute;nio crist&atilde;o a n&iacute;vel cultural, art&iacute;stico, b&iacute;blico e devocional?<\/em><\/p>\n<p>Para n&atilde;o ser exaustivo, referiria tr&ecirc;s obras importantes na minha carreira. Aquele que considero ser o meu opus 1:<em>Ciclo de Natal<\/em>, de 1991. Este &eacute; um tema, ali&aacute;s, que recorre na minha escrita, seja atrav&eacute;s de composi&ccedil;&otilde;es originais, como no caso referido, onde fa&ccedil;o o tratamento dos c&eacute;lebres textos natal&iacute;cios em latim, &agrave; guisa de motete, na depurada forma&nbsp;<em>a-cappella<\/em>:&nbsp;<em>O magnum mysterium<\/em>,<em>&nbsp;<\/em><em>Puer natus est<\/em>,&nbsp;<em>Verbum carum factus est<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>Quem vidistis pastores?<\/em>. J&aacute; vinha compondo desde 1987. J&aacute; escrevera, at&eacute;, m&uacute;sica mais fa&ccedil;anhuda. Mas aqui, olhando para o pres&eacute;pio, ter-me-ei encontrado como compositor, no registo enxuto da sinceridade. O mestre, a inspira&ccedil;&atilde;o, &eacute; o Mozart do&nbsp;<em>Ave verum<\/em>, onde o enigma que separa a simplicidade do meio da transcend&ecirc;ncia do fim &eacute; tamanha, que a coisa mais parece ser do foro de um saber alqu&iacute;mico. Mozart opera ali magia. Comove-nos, sejamos crentes ou ateus. Lembro-me com emo&ccedil;&atilde;o, a este prop&oacute;sito, do &ecirc;xtase de Fernando Lopes-Gra&ccedil;a a escutar o meu Coral de Letras da Universidade do Porto num concerto realizado na igreja do Foco, na Cidade Invicta. Faz&iacute;amos, nesse concerto, report&oacute;rio essencialmente seu. Mas quando come&ccedil;&aacute;mos a cantar aquele licor mozartiano, Lopes-Gra&ccedil;a elevou a cabe&ccedil;a para o alto e, enquanto as suas sobrancelhas obl&iacute;quas pareciam desenhar uma ogiva, os &oacute;culos embaciavam-se-lhe de emo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Em 1994 compus a minha primeira obra maior, com meios sinf&oacute;nicos:&nbsp;<em>In paradisum<\/em>, para coro, quarteto vocal masculino e cordas, dedicada &agrave; doce mem&oacute;ria de minha tia, Irm&atilde; Maria de Lourdes, que falecera em total ataraxia na Consoada de 1993. Data providencial, com algo de c&iacute;clico: morreu para renascer. A obra, para minha grande alegria, foi na altura, e tem vindo a ser desde ent&atilde;o, interpretada em conjunto e na sequ&ecirc;ncia do impalp&aacute;vel<em>Requiem<\/em><em>&nbsp;<\/em>de Faur&eacute;. Um pouco na linha desta obra, e citando o mestre franc&ecirc;s, esta pe&ccedil;a&nbsp;<em>est d&#8217;un caract&egrave;re doux comme moi-m&ecirc;me<\/em>. Faur&eacute;, outra das minhas grandes refer&ecirc;ncias, tem uma vis&atilde;o mais introspectiva do que teatral. A minha leitura &eacute; tamb&eacute;m assim: &iacute;ntima e serena.<\/p>\n<p>Como j&aacute; referi noutra ocasi&atilde;o, quando era crian&ccedil;a, na fase de aprender as cores, minha m&atilde;e confrontou-me com a cor-de-rosa, cuja designa&ccedil;&atilde;o desconhecia. Depois de hesitar um pouco, disparei: isso &eacute; vermelho devagar. Seguindo este mote, este&nbsp;<em>In paradisum<\/em>&nbsp;&eacute; azul devagar. Tal como&nbsp;<em>In paradisum<\/em>, o&nbsp;<em>Requiem &agrave; mem&oacute;ria de Passos Manuel<\/em>, composto dez anos depois, em 2004, que &eacute; uma extens&atilde;o natural daquela obra, tendo com ela grandes afinidades, tem um tempo harm&oacute;nico tendencialmente lento, que paira e produz uma sensa&ccedil;&atilde;o de textura lisa e fluente. Com excep&ccedil;&atilde;o do&nbsp;<em>Sanctus<\/em>, que tem a energia din&acirc;mica de um foguet&atilde;o, com as tompas de capelo al&ccedil;ado, em registo&nbsp;<em>&eacute;clatant<\/em>, prevalece a sonoridade vaporosa da orquestra&ccedil;&atilde;o, criando um ambiente ass&eacute;ptico, andr&oacute;gino e levemente enigm&aacute;tico. No &uacute;ltimo andamento, o<em>In paradisum<\/em>&nbsp;propriamente dito, a m&uacute;sica faz lembrar a inquietante imagem de S&atilde;o Jo&atilde;o Baptista no quadro&nbsp;<em>A Virgem dos Rochedos<\/em>, de Leonardo, assim indefinida, cheia de mist&eacute;rio, encoberta como est&aacute; no&nbsp;<em>sfumato<\/em>&nbsp;dos harm&oacute;nicos das cordas e no&nbsp;<em>chiaroscuro<\/em>&nbsp;das trompas mais a harpa. Esta atmosfera vaporosa como que paira na estratosfera. Cheira a ozono.<\/p>\n<p>Poder-se-ia dizer que a m&uacute;sica parte de ideias simples, de processos t&eacute;cnicos claros. A gram&aacute;tica &eacute; transparente. A concep&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pretende ser alta como o Everest. Nem sequer como a Serra da Estrela. Chega-lhe bem ter a altitude da minha amada Serra de Bornes: mais pequena, mas minha. Mais do que no tempo-curto das paix&otilde;es humanas, tentei lan&ccedil;ar estas minhas obras no tempo-longo, naquele tempo que emana do abismo dantesco sobre o Douro no Penedo Dur&atilde;o, perto de Freixo de Espada &agrave; Cinta, ou que ressalta dos magalitos do Cromeleque dos Almendres, ali ao p&eacute; de &Eacute;vora, que est&atilde;o no mesmo s&iacute;tio h&aacute; quatro mil&eacute;nios e l&aacute; permanecer&atilde;o outros tantos, ap&oacute;s todos n&oacute;s &ndash; eu, que escrevo, e v&oacute;s, que ledes &#8211; sermos varridos da face da terra, na voragem da morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Qual a composi&ccedil;&atilde;o da sua autoria que lhe &eacute; mais querida? Porqu&ecirc;?<\/em><\/p>\n<p>Antes de individualizar uma obra, gostaria de referir que tenho tr&ecirc;s campos de ac&ccedil;&atilde;o composicional principais: a m&uacute;sica para ou com crian&ccedil;as (a &oacute;pera&nbsp;<em>A Floresta<\/em>, sobre a hist&oacute;ria de Sophia de Mello Breyner Andresen, a cantata c&eacute;nica&nbsp;<em>O lobo Diogo e o mosquito Valentim<\/em>, sobre a f&aacute;bula de Ant&oacute;nio Pires Cabral,&nbsp;<em>O meu poem&aacute;rio infantil<\/em>&nbsp;sobre texto de Violeta Figueiredo, e&nbsp;<em>A arca do tesouro<\/em>, sobre texto de Alice Vieira, minha &uacute;ltima obra). Outro campo de ac&ccedil;&atilde;o importante &eacute; a harmoniza&ccedil;&atilde;o da melodia popular portuguesa. Por quest&otilde;es matriciais de identidade, prezo especialmente este conjunto de pe&ccedil;as que se constitui como uma esp&eacute;cie de projecto de vida. S&atilde;o j&aacute; v&aacute;rias s&eacute;ries de harmoniza&ccedil;&otilde;es para coro&nbsp;<em>a-cappella<\/em>, que designo com o t&iacute;tulo gen&eacute;rico&nbsp;<em>O que me diz o vento de<\/em>&hellip; (at&eacute; agora de Miranda, de Serpa, de Arganil, de &Oacute;bidos, da<em>Calma que vai caindo<\/em>, dos Tr&oacute;picos e de Timor). &Eacute; um projecto a que regresso sempre que estou desassossegado. Faz-me bem, agu&ccedil;ando-me o estilo, calibrando-me o l&aacute;pis, oxigenando-me a alma. Vivemos numa &eacute;poca de agressiva globaliza&ccedil;&atilde;o cultural segundo o execr&aacute;vel modelo&nbsp;<em>pop<\/em><em>&nbsp;<\/em>anglo-sax&oacute;nico. Portugal tem uma imensa e antiqu&iacute;ssima tradi&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica, desde tempos trovadorescos, numa altura em que outras l&iacute;nguas se libertavam paulatinamente da guturalidade. Hoje a nossa identidade est&aacute; em risco. Vivemos uma &eacute;poca de massifica&ccedil;&atilde;o. Ainda recentemente assistimos a um facto que comprova &agrave; saciedade esta subservi&ecirc;ncia cultural massificada e grotesca, com a RTP, o canal p&uacute;blico televisivo, pago pelo dinheiro de todos n&oacute;s, a dar um tempo de antena obsceno a uma cerim&oacute;nia matrimonial anglicana que n&atilde;o nos diz minimamente respeito. A BBC e a casa real agradecem o pagamento dos direitos chorudos da transmiss&atilde;o televisiva, com certeza. E ainda levamos com esta&nbsp;<em>merde*<\/em>&nbsp;na abertura de todos os telejornais (*passando a gosseria, apenas estou citando Napole&atilde;o Bonaparte, que dizia que os ingleses, comerciantes ind&oacute;mitos, eram um povo com um jeito nato para o neg&oacute;cio, at&eacute; da&nbsp;<em>merde<\/em>&nbsp;fazendo fortunas). N&atilde;o h&aacute; crit&eacute;rio, t&atilde;o pouco ju&iacute;zo cr&iacute;tico. Triunfou a pr&eacute;-filosofia. A harmoniza&ccedil;&atilde;o &eacute; um ant&iacute;doto identit&aacute;rio. Nestas harmoniza&ccedil;&otilde;es de m&uacute;sica popular de v&aacute;rias origens e de v&aacute;rios mundos, da Estrela ao Ramelau, do Douro ao Zambeze, cada som &eacute; essencial e tamb&eacute;m testemunha dessa portugalidade filtrada pela minha pr&oacute;pria linfa transmontana. Eis, na minha exist&ecirc;ncia, dos poucos valores matriciais que n&atilde;o discuto.<\/p>\n<p>Por fim (os &uacute;ltimos s&atilde;o os primeiros), sublinho o campo sacro, seja atrav&eacute;s do tratamento de textos can&oacute;nicos (muitas vezes a par com textos profanos, tais como textos populares, oriundos da antiqu&iacute;ssima tradi&ccedil;&atilde;o devocional portuguesa, por exemplo), seja atrav&eacute;s de uma inspira&ccedil;&atilde;o: um quadro, uma escultura.&nbsp;<em>Stigmata,<\/em><em>&nbsp;<\/em>para violeta e arcos, &eacute; uma obra concebida literalmente&nbsp;<em>apr&egrave;s une lecture de El Greco<\/em>: inspirada no seu maravilhoso quadro&nbsp;<em>O &ecirc;xtase de S. Francisco<\/em><em>&nbsp;<\/em>(1580).<\/p>\n<p>Respondendo directamente &agrave; sua pergunta, de entre todas as minhas obras, escolho como obra dilecta o&nbsp;<em>Tr&iacute;ptico Mariano<\/em>, a minha grande obra sacra, escrito em momentos diversos da minha vida. O primeiro quadro,<em>Horto seren&iacute;ssimo<\/em>, composto em 2000, trata a Anuncia&ccedil;&atilde;o, inspirado nas serenas representa&ccedil;&otilde;es quatrocentistas de Fra&rsquo;Angelico.<\/p>\n<p>O segundo quadro deste tr&iacute;ptico,&nbsp;<em>Magnificat em talha dourada<\/em>, escrito anteriormente (em 1998), trata de Exulta&ccedil;&atilde;o da Virgem, inspirado na&nbsp;<em>Madonna do pesco&ccedil;o comprido<\/em>, obra-prima quinhentista de Parmigianino, um colo de inquietante despropor&ccedil;&atilde;o que s&oacute; Lhe eleva a santidade.<\/p>\n<p>O terceiro quadro,&nbsp;<em>Stabat Mater<\/em>, composto em 2008, tratando da Dor da M&atilde;e, &eacute; fortemente inspirado em duas obras:&nbsp;<em>La Piet&agrave; Rondanini<\/em>, a escultura pungente de Michelangelo Buonarroti (ca. 1564), e o dram&aacute;tico escor&ccedil;o de Andrea Mantegna,&nbsp;<em>Cristo morto<\/em>&nbsp;(ca. 1500).<\/p>\n<p>Relativamente ao primeiro dos tr&ecirc;s quadros, o&nbsp;<em>Horto seren&iacute;ssimo,<\/em><em>&nbsp;<\/em>foi estreado na igreja de Nossa Senhora do P&oacute;pulo, nas Caldas da Rainha. Conheci o espa&ccedil;o num dia quent&iacute;ssimo de Junho de 2000. Tive por aquela igreja uma esp&eacute;cie de paix&atilde;o &agrave; primeira vista. Sendo s&oacute;bria, pequena e de uma ornamenta&ccedil;&atilde;o contida, ela tinha contudo aquela inef&aacute;vel harmonia de propor&ccedil;&otilde;es que d&atilde;o &agrave;s formas um car&aacute;cter universal no espa&ccedil;o e eterno no tempo. Visitei-a ao meio dia, no pino do calor. Havia no ar o odor inici&aacute;tico das &aacute;guas sulfurosas. Logo que entrei na igreja, a temperatura desceu subitamente, tornando-se bals&acirc;mica naquela frescura. Havia um ambiente de sil&ecirc;ncio absoluto, aquele ambiente ser&aacute;fico das&nbsp;<em>Anuncia&ccedil;&otilde;es<\/em>&nbsp;de Fra&rsquo;Angelico, suscitando-me instintivamente o t&iacute;tulo da pe&ccedil;a:&nbsp;<em>Horto seren&iacute;ssimo<\/em>. A m&uacute;sica seria de uma calma imperturb&aacute;vel como calmo era aquele s&iacute;tio. Veio depois a grande prova&ccedil;&atilde;o da escrita da obra. Mais do que nunca, precisei eu que um anjo me fizesse uma visita e que me guiasse numa serena harmonia.<\/p>\n<p>Quanto ao&nbsp;<em>Magnificat em talha<\/em><em>&nbsp;<\/em>dourada, a obra foi concebida e escrita na minha aldeia em Tr&aacute;s-os-Montes, durante o m&ecirc;s de Julho de 1998, na companhia da can&iacute;cula e da mar&eacute; vaza do tempo. Foi estreada no espa&ccedil;o inef&aacute;vel da Igreja de S&atilde;o Roque, em Lisboa, no dia 24 de Outubro de 1998, por ocasi&atilde;o da celebra&ccedil;&atilde;o dos 500 anos da Santa Casa da Miseric&oacute;rdia. O&nbsp;<em>Magnificat<\/em>&nbsp;&eacute; uma obra tonal em Sol Maior, que &eacute; a tonalidade que sinto nas talhas douradas e nos espa&ccedil;os reverberantes de Deus. &Eacute; uma homenagem ao Barroco, o estilo onde triunfa o movimento, as espirais inebriantes, o puro concerto dos sentidos. Como &eacute; natural, o esp&iacute;rito de Bach ecoa, pairando sobre a obra tal como, no princ&iacute;pio,&nbsp;<em>o esp&iacute;rito pairava sobre as &aacute;guas<\/em>. Foi acrescentado ao texto can&oacute;nico em latim, um conjunto de trechos em portugu&ecirc;s que lhe &eacute; estranho, uma pr&aacute;tica de<em>tropiza&ccedil;&atilde;o<\/em><em>&nbsp;<\/em>e de&nbsp;<em>contrafacta<\/em><em>&nbsp;<\/em>que foram muito comuns em tempos medievais. Esses trechos ou&nbsp;<em>tropos<\/em>&nbsp;profanos, acrescentados ao texto sacro, t&ecirc;m uma tem&aacute;tica afim, provindos do culto mariano popular sob a forma de cantos de romaria e de cantos populares natal&iacute;cios. Devido a este cruzamento de refer&ecirc;ncias e a esta miscigena&ccedil;&atilde;o de gestos, a obra est&aacute; cheia de folia estil&iacute;stica, qual tape&ccedil;aria de Arraiolos de m&uacute;ltiplas cores e padr&otilde;es. Para dar um pouco de unidade a tudo isto, o&nbsp;<em>Magnificat em talha dourada<\/em>&nbsp;sustenta a sua arquitectura em tr&ecirc;s grandes pilares firmados no princ&iacute;pio, no meio e no fim da obra, onde se pode escutar a cita&ccedil;&atilde;o da inef&aacute;vel melodia popular alentejana de Natal,&nbsp;<em>&Oacute; meu Menino<\/em>, que confere &agrave; m&uacute;sica n&atilde;o apenas um grande arco discursivo, assim como uma calma de&nbsp;<em>todo o Alentejo deste mundo<\/em>. Este aspecto trinit&aacute;rio, altamente simb&oacute;lico e onde se cruzam o sacro e o profano, colheu-me desde o princ&iacute;pio.<\/p>\n<p>Sobre o&nbsp;<em>Stabat Mater<\/em>, devo referir que, a prop&oacute;sito do tratamento que fiz do texto, e tomando como exemplos comparativos o tratamento que Luigi Nono faz do texto na sua obra&nbsp;<em>Il canto sospeso<\/em>&nbsp;(1956), com tend&ecirc;ncia a fragment&aacute;-lo num gesto pontilhista, ou, para n&atilde;o ir t&atilde;o longe, o tratamento que Emmanuel Nunes faz do poema<em>Vislumbre<\/em>&nbsp;(1986), de M&aacute;rio de S&aacute; Carneiro, decompondo-o serialmente nas suas v&aacute;rias dimens&otilde;es, da gramatical &agrave; fon&eacute;tica, devo dizer que, tendo destas abordagens suficiente curiosidade e at&eacute; bastante interesse, na qualidade de professor de an&aacute;lise, n&atilde;o me interessam minimamente, contudo, na qualidade de compositor. As v&aacute;rias obras de minha autoria que tratam textos, principalmente as que cont&ecirc;m textos sagrados, ancoram-se em dois grandes esteios: primado do texto e primado da melodia. Por isso, o meu tratamento do texto&nbsp;<em>Stabat Mater<\/em>&eacute; fundamentalmente sil&aacute;bico e homof&oacute;nico, para que n&atilde;o se perca uma &uacute;nica gota que seja da sua ess&ecirc;ncia, e para que a sua mensagem n&atilde;o sofra qualquer dist&uacute;rbio no seu percurso entre o int&eacute;rprete e o ouvinte.<\/p>\n<p>Referiria, para terminar, um momento no&nbsp;<em>Stabat Mater<\/em>&nbsp;com um significado especial: o tratamento do soneto de Cam&otilde;es,&nbsp;<em>Deus benino<\/em>. Mais uma vez um&nbsp;<em>tropo<\/em>, qual corpo extr&iacute;nseco &agrave; sequ&ecirc;ncia&nbsp;<em>Stabat Mater<\/em>. &Eacute; um poema natal&iacute;cio de uma beleza solar, que faz fa&iacute;sca no eixo nevr&aacute;lgico da obra. Ei-lo:<\/p>\n<p><em>&ndash; Dece do Ceo imenso Deus benino<\/em><br \/> <em>Para encarnar na Virgem soberana.<\/em><br \/> <em>&ndash; Por que dece Divino em cousa humana?<\/em><br \/> <em>&ndash; Para subir o humano a ser divino.<\/em><\/p>\n<p><em>&ndash; Poos como vem t&atilde;o pobre e t&atilde;o minino,<\/em><br \/> <em>Rendendo-se ao poder de m&atilde;o tirana?<\/em><br \/> <em>&ndash; Porque vem receber morte inumana,<\/em><br \/> <em>Para pagar de Ad&atilde;o o desatino.<\/em><\/p>\n<p><em>&ndash; Pois como? Ad&atilde;o e Eva o fruto comem,<\/em><br \/> <em>Que por seu pr&oacute;prio Deus lhe foi vedado?<\/em><br \/> <em>&ndash; Si, porque o pr&oacute;prio ser de Deoses tomem.<\/em><\/p>\n<p><em>&ndash; E por essa raz&atilde;o foi humanado?<\/em><br \/> <em>&ndash; Si, porque foi com causa decretado:<\/em><br \/> <em>Se o homem quis ser Deus, que Deus seja homem.<\/em><\/p>\n<p>Descida do divino em coisa humana e a ascens&atilde;o do humano a divino! Esta coisa imaterial que &eacute; a ascens&atilde;o, depois da dor, &eacute; a transcend&ecirc;ncia das transcend&ecirc;ncias. Se acreditamos, ressoamos na primeira pessoa. Se n&atilde;o acreditamos, ressoamos na terceira pessoa. Mas ressoamos.<\/p>\n<p><em>SNPC<\/em><\/p>\n<p align=\"right\"><em>Entrevista concedida por escrito, de acordo com a antiga ortografia<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O J\u00fari do Pr\u00e9mio \u00c1rvore da Vida \u2013 Padre Manuel Antunes deliberou, por unanimidade, atribui-lo na sua s\u00e9tima edi\u00e7\u00e3o, ao compositor Eurico Carrapatoso, entrevistado pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[187,267,276],"class_list":["post-51200","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-diocese-do-porto","tag-natal","tag-pastoral-da-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51200","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=51200"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51200\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=51200"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=51200"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=51200"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}