{"id":51046,"date":"2011-04-26T11:05:06","date_gmt":"2011-04-26T11:05:06","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/04\/26\/tornar-jesus-pertinente-e-uma-imensa-prioridade-para-a-igreja\/"},"modified":"2011-04-26T11:05:06","modified_gmt":"2011-04-26T11:05:06","slug":"tornar-jesus-pertinente-e-uma-imensa-prioridade-para-a-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/tornar-jesus-pertinente-e-uma-imensa-prioridade-para-a-igreja\/","title":{"rendered":"Tornar Jesus pertinente \u00e9 uma imensa prioridade para a Igreja"},"content":{"rendered":"<p>Segunda  parte da conversa entre o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, padre Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, e o jornalista Paulo Rocha, diretor da Ag\u00eancia ECCLESIA <!--more--> <\/p>\n<p>Seguimento de Jesus, sofrimento, di&aacute;logo com a cultura, espiritualidade, aten&ccedil;&atilde;o e sil&ecirc;ncio s&atilde;o alguns dos temas abordados pelo padre Jos&eacute; Tolentino Mendon&ccedil;a nesta &uacute;ltima parte da entrevista concedida &agrave; Ecclesia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; De que forma falaria hoje Jesus desta sociedade?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Claramente Jesus levar-nos-ia de novo para a beira do lago, ao deserto, ao rio Jord&atilde;o. Entraria nas nossas casas e falaria uma palavra que nos tocaria e comoveria o cora&ccedil;&atilde;o. A sua palavra &eacute; sempre alternativa. A voz de Jesus n&atilde;o &eacute; mais uma. N&atilde;o &eacute; uma voz que nos confirma, que diz &ldquo;est&aacute; tudo bem&rdquo;, mas &eacute; uma voz que n&atilde;o se conforma. Jesus &eacute; um inconformista e por isso leva-nos sempre para a margem. <br \/> A palavra e a experi&ecirc;ncia crist&atilde; deslocam-nos para fora do rebanho, para fora das nossas certezas e daquilo que est&aacute; estabelecido. Ou ent&atilde;o &eacute; uma palavra que nos leva para dentro, nos reaproxima, estabelece connosco de novo uma intimidade. E a&iacute; Jesus &eacute; capaz de tocar por dentro o nosso cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Jesus &eacute; a palavra do Pai na sua maior perfei&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> O evangelho de S&atilde;o Jo&atilde;o constitui um mapa da f&eacute; porque d&aacute;-nos a ver como Jesus corporiza e &eacute; &iacute;cone e Verbo do Pai, mostrando-o como rela&ccedil;&atilde;o. Jesus &eacute; o grande hermeneuta de Deus, que descobre o que nele est&aacute; escondido. Que torna Deus palp&aacute;vel e pr&oacute;ximo, avizinhando o divino da hist&oacute;ria humana, das suas contradi&ccedil;&otilde;es e da sua fragilidade. Jesus &eacute; o Deus connosco, como Mateus, que &eacute; o evangelho do Emanuel, nos ensina. Connosco em todas as etapas da nossa vida. Jesus revela o segredo de Deus.<br \/> Quando ele morre, o evangelho mostra a cortina do templo [de Jerusal&eacute;m] que se rasga e n&oacute;s podemos ver o oculto de Deus. Isto &eacute;, Jesus escancara Deus. <br \/> Aos p&eacute;s da cruz, o centuri&atilde;o diz esta palavra escandalosa: &ldquo;Este homem, verdadeiramente, &eacute; o filho de Deus&rdquo;. Isto &eacute;, na humanidade extrema de Jesus, na radicalidade do seu dom que o pendurou daquele mart&iacute;rio que a cruz significa, podemos contemplar o santo dos santos de Deus. Nesse sentido, Jesus d&aacute; a ver o Pai. Ele &eacute; a grande teofania, a grande manifesta&ccedil;&atilde;o de Deus na Hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Existe o perigo de substanciar a figura de Cristo, tirando-lhe essa fun&ccedil;&atilde;o de mostrar o Pai?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Essa &eacute; uma tenta&ccedil;&atilde;o permanente da Hist&oacute;ria. Podemos, de facto, reduzir Jesus &agrave; figura de um grande homem, de um mestre, de mais um profeta de Israel, e esquecermos que tudo isso &eacute; verdade, mas para n&oacute;s, crist&atilde;os, e esse &eacute; o n&uacute;cleo da nossa f&eacute;, Jesus d&aacute; a ver o Pai e s&oacute; se entende no mist&eacute;rio do pr&oacute;prio Deus, nessa rela&ccedil;&atilde;o divina de pessoas que &eacute; a Sant&iacute;ssima Trindade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; N&atilde;o se pode reduzir, portanto, &agrave; dimens&atilde;o hist&oacute;rica que a pessoa envolve&hellip;<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> A dimens&atilde;o hist&oacute;rica &eacute; sempre lida com os olhos da f&eacute;. Toda a Hist&oacute;ria d&aacute;-nos a revela&ccedil;&atilde;o de um outro plano de significado, que &eacute; o plano divino de Jesus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; H&aacute; o perigo de ler a pessoa de Jesus a partir de um quadro mental pessoal, no contexto da sociedade?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Esse &eacute; um grande risco permanente, que consiste em condicionar a vis&atilde;o de Jesus pelas expetativas da nossa &eacute;poca. E por isso cada tempo &eacute; chamado a uma redescoberta de Jesus. N&atilde;o limitarmos Jesus ao contexto atual, mas sentirmos, pelo contr&aacute;rio, o desafio apaixonante de o descobrir como ele &eacute; e como &eacute; contado pela f&eacute; das comunidades crist&atilde;s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Foi a tenta&ccedil;&atilde;o de humanizar ao extremo a pessoa de Jesus Cristo que fez surgir incurs&otilde;es no cinema e na literatura, com abordagens muito fechadas acerca dele?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Por um lado, entendemos esse regresso permanente a Jesus feito pela cultura contempor&acirc;nea como fruto do fasc&iacute;nio e sedu&ccedil;&atilde;o que ele continua a exercer, de forma intermin&aacute;vel, no cora&ccedil;&atilde;o humano. Mas h&aacute; que distinguir o trigo do joio porque muitas abordagens acabam por ser equ&iacute;vocos e estar ao servi&ccedil;o muito mais da promo&ccedil;&atilde;o ou absolutiza&ccedil;&atilde;o de uma ideia ou ideologia, tendo pouca disponibilidade para ir at&eacute; ao fim. <br \/> As coisas mais extraordin&aacute;rias, escritas mesmo por pessoas que n&atilde;o t&ecirc;m f&eacute; em Jesus, s&atilde;o aquelas que de cora&ccedil;&atilde;o muito livre aceitam levar at&eacute; ao fim a interroga&ccedil;&atilde;o que ele significa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; S&atilde;o fantasiosos, e mesmo falsos, os fundamentos arqueol&oacute;gicos e liter&aacute;rios para essas leituras de Jesus?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Muitas vezes manipulam-se as fontes. E n&oacute;s vivemos num tempo em que, de vez em quando, se anuncia a descoberta de um t&uacute;mulo, inscri&ccedil;&atilde;o ou verdade num evangelho ap&oacute;crifo. E percebemos que tudo isso parte deste preconceito em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; comunidade crist&atilde;: acham que a Igreja, com dois mil anos, forjou uma imagem falsa de Jesus e que o cristianismo &eacute; uma fraude. Nesse sentido tentam descobrir uma verdadeira imagem de Jesus, mas constituindo eles uma fraude porque, aludindo &agrave; Hist&oacute;ria, pouco ou nada t&ecirc;m a ver com ela.<\/p>\n<p>Hoje o cristianismo &eacute; assente na f&eacute;, como sempre foi, mas tamb&eacute;m em processos hist&oacute;ricos, verificados pela ci&ecirc;ncia. Os evangelhos t&ecirc;m uma base hist&oacute;rica. Foram reconstru&iacute;dos com uma min&uacute;cia que n&atilde;o partiu simplesmente de uma vis&atilde;o de f&eacute; mas da procura da verdade. E aquilo que o credo da f&eacute; hoje professa e apresenta tem um grande di&aacute;logo com o contexto hist&oacute;rico e liter&aacute;rio. Desde sempre que o cristianismo tem estudos cient&iacute;ficos, nos seus v&aacute;rios modos, em torno a Jesus. <br \/> Por isso &eacute; muito estranho que apare&ccedil;a de repente um autor ou cineasta a querer colocar em causa a seriedade destes dois mil anos de procura de Jesus, para, de uma forma normalmente muito ligeira e fr&iacute;vola, querer chegar &agrave; verdade do evangelho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Trata-se de indisponibilidade de ir at&eacute; ao fim diante do mist&eacute;rio e da f&eacute;?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Muitas vezes &eacute; uma coisa mais prim&aacute;ria, que s&atilde;o os objetivos comerciais. Hoje h&aacute; uma grande press&atilde;o para vender tudo o que tenha o nome de Jesus ou de segredos e c&oacute;digos. Tudo isso gera uma epid&eacute;rmica vivacidade, um entusiasmo superficial, e muitas vezes as leituras que se fazem servem para fabricar produtos em torno a Jesus. <br \/> No mercado atual &eacute; preciso distinguir entre as leituras mais s&eacute;rias, que v&atilde;o at&eacute; ao fundo, que representam uma viagem espiritual, daquelas leituras muito epid&eacute;rmicas que s&atilde;o apenas para ampliar o ru&iacute;do da cultura em que vivemos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Nos dois mil anos da sua hist&oacute;ria a Igreja cat&oacute;lica terminou a constru&ccedil;&atilde;o de Jesus?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> A Igreja continua a ser sua disc&iacute;pula. H&aacute; uma imagem de Jesus que nos aparece, e que n&atilde;o &eacute; un&iacute;voca, testemunhada por quatro evangelhos que fazem a f&eacute; da Igreja. Ela procurou uma plausibilidade para a sua f&eacute; nos evangelhos e a imagem que d&aacute; de Jesus n&atilde;o &eacute; imposta, mas tateada. &Eacute; uma imagem no interior do mist&eacute;rio. &Eacute; uma imagem que s&oacute; a m&iacute;stica, a ora&ccedil;&atilde;o e o ambiente lit&uacute;rgico da f&eacute; s&atilde;o capazes de tocar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Falemos das muitas perspetivas espirituais nas quais &eacute; poss&iacute;vel concretizar a mensagem do evangelho. Todas elas se regem por essa l&oacute;gica do primeiro momento, que &eacute; o discipulado?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> O discipulado &eacute; a base de toda a procura crist&atilde; e de toda a experi&ecirc;ncia comunit&aacute;ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; A palavra de ordem continua a ser, tamb&eacute;m hoje, &ldquo;Vem e segue-me&rdquo;&hellip;<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> &ldquo;Vem e segue-me&rdquo;: a todos, n&atilde;o s&oacute; aos religiosos e consagrados, mas a todos os batizados que ouvem o chamamento de Jesus. <br \/> Hoje a teologia est&aacute; a valorizar muito aquilo a que se chama biografia crente: a hist&oacute;ria de vida, o capital de experi&ecirc;ncia que cada crist&atilde;o constr&oacute;i com a sua pr&oacute;pria viv&ecirc;ncia. Cada um vive uma hist&oacute;ria &uacute;nica no seguimento de Jesus, aceitando o repto &ldquo;Vem e segue-me&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; &Eacute; poss&iacute;vel falarmos de uma espiritualidade crist&atilde;? Quais os seus contornos?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Sim, sabendo que ela &eacute; plural, que &eacute; uma possibilidade de endere&ccedil;os espirituais, caminhos e carismas, porque a Igreja tece-se na pluralidade. Mas podemos realmente falar de uma espiritualidade crist&atilde;, que tem de ser cristol&oacute;gica. H&aacute; linhas permanentes na diversidade do modo como o cristianismo &eacute; vivido, e isso, antes de tudo, &eacute; colocar Jesus no centro. Que seja Jesus a grande referencialidade. Que aprendamos dele e do seu evangelho as atitudes e o estilo que somos chamados a seguir. <br \/> Eu diria que o n&uacute;cleo de uma experi&ecirc;ncia crist&atilde; &eacute; a pr&oacute;pria refer&ecirc;ncia a Cristo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Essa refer&ecirc;ncia a Cristo ser&aacute; determinada por uma perspetiva euroc&ecirc;ntrica que necessariamente temos, mas que tamb&eacute;m determinou muito da constru&ccedil;&atilde;o e investiga&ccedil;&atilde;o de Jesus?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Jesus n&atilde;o &eacute; um europeu mas vem do Oriente. A verdade &eacute; que o cristianismo &eacute; sempre uma realidade aberta, mesmo tendo em conta o impacto da Europa crist&atilde;, se pensarmos no que representa toda a teologia que se escreveu nesse continente.<br \/> Hoje, por exemplo, olhamos para Santo Agostinho como um europeu mas ele era africano.<\/p>\n<p>Mesmo no s&eacute;culo XXI temos a abertura a novos mundos. Hoje precisamos muito de aprender com a vitalidade de algumas Igrejas na &Aacute;sia, ler os te&oacute;logos dos continentes africano e americano, porque a for&ccedil;a do cristianismo e a sua autenticidade passam muito por uma diversidade de abordagens e perspetivas que se complementam e s&atilde;o necess&aacute;rias umas &agrave;s outras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; E revelar-se-&atilde;o a&iacute; tra&ccedil;os da figura de Jesus que a perspetiva euroc&ecirc;ntrica ainda n&atilde;o conseguiu atingir?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> N&oacute;s vemos isso, por exemplo, no chamado regresso &agrave; beleza e &agrave; est&eacute;tica para falar de Deus. A teologia tradicional europeia &eacute; muito positivista e racional, esquecendo outras dimens&otilde;es. Quando um crist&atilde;o europeu vai a &Aacute;frica fica extasiado porque a liturgia n&atilde;o tem de caber no tempo de uma hora; e n&atilde;o &eacute; apenas uma celebra&ccedil;&atilde;o mental: o corpo dan&ccedil;a e automaticamente o gesto e a corporeidade s&atilde;o implicados na celebra&ccedil;&atilde;o. Isto quer dizer que h&aacute; outras formas e que o nosso discurso muito racional tamb&eacute;m &eacute; limitado. Precisamos de aprender com o mundo ortodoxo, com a &Aacute;sia e &Aacute;frica outras modalidades de abordagem do mist&eacute;rio crist&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; O discipulado &eacute; muito marcado pelo desprendimento. Como enquadrar esta necessidade para seguir Jesus?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> H&aacute; uma hist&oacute;ria que talvez ajude a responder. Um mestre vai ter a primeira li&ccedil;&atilde;o com o disc&iacute;pulo, chama-o e convida-o para tomar ch&aacute;. E diz ao disc&iacute;pulo que apresente a sua ch&aacute;vena para poder derramar ch&aacute;. O mestre come&ccedil;a a deit&aacute;-lo mas n&atilde;o para quando a ta&ccedil;a est&aacute; cheia. O ch&aacute; come&ccedil;a a derramar, e o disc&iacute;pulo, muito atrapalhado, grita: &ldquo;Mestre, mestre, est&aacute; a derramar&rdquo;. E o mestre diz-lhe, calmamente: &ldquo;&Eacute; a primeira li&ccedil;&atilde;o: se a tua ta&ccedil;a n&atilde;o estiver vazia, n&atilde;o poder&aacute;s acolher o que te vai ser ensinado&rdquo;. O desprendimento n&atilde;o &eacute; um absoluto. Mas &eacute; um meio necess&aacute;rio porque cria disponibilidade. E n&oacute;s s&oacute; somos disc&iacute;pulos quando temos real capacidade de acolher na nossa vida a palavra que Jesus nos dirige. Por isso o &ldquo;vem e segue-me&rdquo; e o &ldquo;deixa tudo&rdquo; s&atilde;o condi&ccedil;&otilde;es indispens&aacute;veis para a constru&ccedil;&atilde;o do discipulado em n&oacute;s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Muitas vezes essa condi&ccedil;&atilde;o d&aacute; ao cristianismo a marca do sofrimento&hellip;<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Quando o desprendimento &eacute; bem entendido, sem d&uacute;vida que &eacute; exigente. Mas &eacute; uma exig&ecirc;ncia dentro da ternura e da esperan&ccedil;a. De facto o cristianismo tem um lado de luta e resist&ecirc;ncia. Tertuliano dizia: &ldquo;N&oacute;s n&atilde;o nascemos crist&atilde;os; tornamo-nos crist&atilde;os&rdquo;. Ser crist&atilde;o n&atilde;o &eacute; um dado espont&acirc;neo da nossa natureza &ndash; &eacute; uma decis&atilde;o. Implica uma vitalidade e at&eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o de combate. Por isso h&aacute; um certo sofrimento no ser crist&atilde;o, mas n&atilde;o &eacute; um sofrimento sem sentido e como um fim em si mesmo, mas uma etapa necess&aacute;ria de uma constru&ccedil;&atilde;o, de uma sementeira que est&aacute; a acontecer em n&oacute;s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; O padre Tolentino Mendon&ccedil;a escrevia que o cristianismo n&atilde;o &eacute; um ornamento, mas um fermento&hellip;<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> O grande perigo &eacute; reduzirmos o cristianismo a uma dimens&atilde;o ornamental e puramente sociol&oacute;gica. Somos crist&atilde;os apenas por ser, porque recebemos isso do passado ou apenas porque a gram&aacute;tica crist&atilde; nos d&aacute; uma certa consola&ccedil;&atilde;o. O cristianismo tem de ser muito mais do que isso. Tem de ser fermento, tem de ser vida, tem de ser uma decis&atilde;o e um caminho. E nesse sentido os evangelhos constituem para n&oacute;s uma sacudidela da nossa instala&ccedil;&atilde;o e do nosso conformismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; De que forma &eacute; poss&iacute;vel colocar o evangelho no di&aacute;logo cultural? Creio que esta &eacute; uma prioridade do padre Tolentino&hellip;<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> &Eacute; uma imensa prioridade de toda a Igreja tornar Jesus pertinente para as mulheres e os homens do nosso tempo. Porque o grande perigo &eacute; termos uma coisa extraordin&aacute;ria para anunciar, uma boa nova, mas ningu&eacute;m nos querer ouvir. E n&oacute;s pr&oacute;prios perdermos a capacidade de tornar o an&uacute;ncio aud&iacute;vel. &Eacute; um esfor&ccedil;o muito grande. Estes anos t&ecirc;m mostrado que a cultura &eacute; o novo templo, &eacute; o novo espa&ccedil;o da miss&atilde;o, &eacute; o novo lugar do an&uacute;ncio. Ela &eacute; tudo aquilo que torna a vida humana decisiva, &eacute; o horizonte de felicidade que cada tempo procura. &Eacute; aquilo que realmente faz mexer, que d&aacute; sentido ao dia a dia. E &eacute; a&iacute; que n&oacute;s temos de colocar o fermento do evangelho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Num di&aacute;logo permanente com os chamados &ldquo;crist&atilde;os culturais&rdquo;?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Tratam-se de pessoas que t&ecirc;m uma cultura crist&atilde; mas que s&atilde;o crist&atilde;os desativados, n&atilde;o praticantes. Contudo n&atilde;o deixam de ser crist&atilde;os. H&aacute; neles uma semente do evangelho que em algumas circunst&acirc;ncias faz emergir a quest&atilde;o de Deus &ndash; num funeral, numa festa de fam&iacute;lia ou quando se &eacute; questionado pelo sentido da vida, em momentos chave da exist&ecirc;ncia, nas suas etapas mais dram&aacute;ticas. A Igreja tem de olhar para os crist&atilde;os n&atilde;o praticantes n&atilde;o como um peso mas como um desafio.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>E &ndash; Para esses e para todas as pessoas h&aacute; um &ldquo;tesouro escondido&rdquo; que &eacute; preciso descobrir. Chegamos a ele pela imagem t&atilde;o sugestiva da batata e da cebola&#8230; (*)<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Jesus, quando fala do &ldquo;tesouro escondido&rdquo;, refere-se a alguma coisa que est&aacute; no cora&ccedil;&atilde;o do homem. &Agrave;s vezes vivemos o drama da evangeliza&ccedil;&atilde;o: a quem? Como? Onde? De que forma? &Eacute; ao cora&ccedil;&atilde;o que temos de chegar. E no fundo o tesouro, ainda que escondido, j&aacute; l&aacute; est&aacute;.<\/p>\n<p>Do que se trata &eacute; de fazer da f&eacute; uma proposta de encontro e reencontro consigo mesmo. Hoje o cristianismo precisa de redescobrir uma dimens&atilde;o sapiencial. Ele tem de ser anunciado como alguma coisa que faz a diferen&ccedil;a, que ajuda a viver. N&atilde;o &eacute; apenas uma verdade que est&aacute; por cima das nossas cabe&ccedil;as, uma ideologia que nos transcende, um dogma que vai para l&aacute; de n&oacute;s. O cristianismo &eacute; pratic&aacute;vel, no sentido em que nos ajuda nas pequenas e grandes decis&otilde;es e nas hesita&ccedil;&otilde;es do nosso viver. Por isso &eacute; preciso anunciar que em cada cora&ccedil;&atilde;o h&aacute; o tesouro escondido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Qual a import&acirc;ncia de uma atitude t&atilde;o cultivada por Jesus Cristo como &eacute; a aten&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> A aten&ccedil;&atilde;o &eacute; capaz de perfurar as camadas da cebola. Todos n&oacute;s temos muitos v&eacute;us, muitas m&aacute;scaras, muitas crostas. Jesus olha para o homem como uma batata, n&atilde;o como uma cebola. Para ele n&atilde;o h&aacute; os equ&iacute;vocos das apar&ecirc;ncias. Ele sabe olhar para o que &eacute; vital e substancial, sabe olhar para o fruto e para o tesouro que cada um &eacute;. E isso &eacute; a aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Nos evangelhos chega a ser comovedor: h&aacute; uma grande multid&atilde;o e ningu&eacute;m repara em  ningu&eacute;m. Sabemos, pelas multid&otilde;es de hoje, que ningu&eacute;m se olha nos olhos, ningu&eacute;m est&aacute; a olhar para os dramas e alegrias que cada um vive. Na massa todos n&oacute;s somos an&oacute;nimos, muito sonolentos e son&acirc;mbulos. Mas Jesus repara: repara na dor daquele pai, no sofrimento daquela mulher, ouve a voz daquele doente e do cego que a multid&atilde;o manda calar. Jesus d&aacute; aten&ccedil;&atilde;o ao humano. E essa aten&ccedil;&atilde;o &eacute; alguma coisa que a Igreja, e n&oacute;s crist&atilde;os, temos novamente de nos apropriar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; No quadro da recupera&ccedil;&atilde;o da aten&ccedil;&atilde;o no &acirc;mbito espiritual, que import&acirc;ncia tem o sil&ecirc;ncio?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> O sil&ecirc;ncio &eacute; a grande escola da aten&ccedil;&atilde;o. &Eacute; no sil&ecirc;ncio que o nosso olhar se prepara para ir al&eacute;m das apar&ecirc;ncias, para romper aquilo que temos como evidente e que muitas vezes &eacute; um mero preconceito. O sil&ecirc;ncio &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o para a escuta, para ouvirmos profundamente o que se diz e o que n&atilde;o se diz, o presente e o ausente. O sil&ecirc;ncio &eacute; uma escola que afina os nossos sentidos para a hospitalidade e para podermos acolher realmente o outro na sua situa&ccedil;&atilde;o. Por isso o sil&ecirc;ncio a que somos chamados neste tempo quaresmal prepara-nos para sermos especialistas em humanidade e em encontro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; O Tempo Pascal &eacute; uma oportunidade para descobrir que tudo em n&oacute;s passa pelo mist&eacute;rio pascal (**)?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Gosto de pensar que a Quaresma &eacute; uma primavera. Estamos rodeados de natureza e vemos que tudo renasce, tudo brota, tudo rebenta. N&atilde;o estamos condenados &agrave; cinza. Na Quarta-feira de Cinzas recebemo-las para as transformarmos em fogo, em labareda e vida nova. O fogo novo &eacute; aquele que no extremo da morte acendemos no s&aacute;bado pascal, para que as portas da manh&atilde; de P&aacute;scoa possam abrir. &Eacute; &agrave; luz do fogo pascal e da sua labareda que somos chamados a olhar para n&oacute;s pr&oacute;prios e para o mundo, sentindo e acolhendo este desafio &agrave; primavera do Esp&iacute;rito e ao rejuvenescimento interior a que o Tempo Pascal nos convida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Que ajuda d&aacute; o livro &ldquo;O Tesouro Escondido&rdquo; [da autoria de Jos&eacute; Tolentino Mendon&ccedil;a] a quem deseja aproximar-se do mist&eacute;rio pascal, que &eacute; o essencial da mensagem crist&atilde;?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Escrevi este livro como uma ferramenta espiritual. Muitas vezes estamos sozinhos, com uma vida muito ocupada, sem grande tempo ou disponibilidade para fazer um retiro espiritual nas condi&ccedil;&otilde;es que a tradi&ccedil;&atilde;o crist&atilde; nos oferece e recomenda.<\/p>\n<p>Esta obra constitui um subs&iacute;dio para, na vida de todos os dias, vivermos um tempo de Deus, um tempo de reencontro conosco pr&oacute;prios, um tempo sapiencial.<\/p>\n<p>O livro fala das grandes etapas e dilemas de uma exist&ecirc;ncia adulta, e o seu cristianismo avan&ccedil;ado ajuda-nos a sentir que Jesus nos reconstr&oacute;i, cura e transforma depois dos nossos quebramentos, ruturas e deris&otilde;es interiores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Essa transforma&ccedil;&atilde;o opera-se atrav&eacute;s da beleza das imagens liter&aacute;rias e mediante a radicalidade que prop&otilde;e&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> O cristianismo &eacute; um instrumento de cura do humano, na sua inteireza e verdade. N&atilde;o &eacute; um sufrag&acirc;neo ou contrafa&ccedil;&atilde;o. Quando anunciamos o Cristo inteiro, sentimos que o evangelho &eacute; palavra que hoje nos renova e revitaliza. Nesse sentido n&atilde;o &eacute; um livro de autoajuda, n&atilde;o &eacute; um livro que apresenta um Jesus ao sabor das modas, mas procura, na simplicidade, partir da verdade do an&uacute;ncio crist&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>* &ldquo;O Tesouro Escondido&rdquo; &eacute; o t&iacute;tulo do mais recente livro de Jos&eacute; Tolentino Mendon&ccedil;a, onde o autor pergunta se o &ldquo;mundo interior&rdquo; das pessoas &ldquo;&eacute; uma cebola ou uma batata&rdquo;.<\/em><\/p>\n<p><em>** Passagem da morte para a ressurrei&ccedil;&atilde;o em Jesus e, a partir dele, nos crist&atilde;os; refere-se tanto &agrave; cren&ccedil;a na vida eterna como a um dinamismo na exist&ecirc;ncia presente, em que as falhas pessoais (conducentes &agrave; morte espiritual, psicol&oacute;gica e f&iacute;sica) s&atilde;o perdoadas e redimidas por Deus (encaminhando o fiel para vida).<\/em><\/p>\n<p><em>PTE\/RM<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segunda parte da conversa 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