{"id":51025,"date":"2011-04-22T18:38:50","date_gmt":"2011-04-22T18:38:50","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/04\/22\/alocucao-do-bispo-do-porto-na-celebracao-da-paixao-do-senhor\/"},"modified":"2011-04-22T18:38:50","modified_gmt":"2011-04-22T18:38:50","slug":"alocucao-do-bispo-do-porto-na-celebracao-da-paixao-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/alocucao-do-bispo-do-porto-na-celebracao-da-paixao-do-senhor\/","title":{"rendered":"Alocu\u00e7\u00e3o do bispo do Porto na celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p><strong>Esplendor da verdade, fulgor da bondade<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Amados irm&atilde;os,<\/p>\n<p>Fic&aacute;mos de novo preenchidos com o relato da Paix&atilde;o do Senhor e com a sensa&ccedil;&atilde;o de que qualquer palavra que lhe juntemos estar&aacute; a mais. Mas, se a Liturgia prev&ecirc; que vos fale agora, ent&atilde;o n&atilde;o ser&aacute; para &ldquo;juntar&rdquo;, antes para partilhar com a maior simplicidade algo do que a mesma Paix&atilde;o me sugeriu desta vez, com a aplica&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica que inclua.<\/p>\n<p>Fixo-me num passo apenas, do di&aacute;logo entre Jesus e Pilatos. Di&aacute;logo que este n&atilde;o concluiu na altura, mas n&oacute;s teremos de levar por diante: &ldquo;Jesus respondeu-lhe. &lsquo;&Eacute; como dizes: sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que &eacute; da verdade escuta a minha voz&rsquo;. Disse-lhe Pilatos: &lsquo;- Que &eacute; a verdade?&rsquo;.<\/p>\n<p>Foi com superficialidade e displic&ecirc;ncia que o governador romano soltou aquele &ldquo;- Que &eacute; a verdade?&rdquo;. Superficialidade e displic&ecirc;ncia em que tantos o seguiram e seguem hoje em dia. Da verdade se abusou muito, sempre que foi encerrada em c&oacute;digos ou imposta em ideologias, de sinal contr&aacute;rio ali&aacute;s. Da verdade se desiste hoje em demasia, como se j&aacute; n&atilde;o cont&aacute;ssemos realmente com Deus, nem connosco&hellip;<\/p>\n<p>Uma verdade em que &ldquo;caibamos&rdquo; todos, mesmo o pr&oacute;prio Deus &ndash; em si mesmo maior do que qualquer compreens&atilde;o nossa &ndash; s&oacute; pode ser reconhecida e servida, nunca delimitada e possu&iacute;da. O mesmo Jesus referia que &ldquo;quem &eacute; da verdade, escuta a sua voz&rdquo;. Quem &eacute; da verdade, n&atilde;o quem a &ldquo;possui&rdquo; a ela. Ele sim, &ldquo;dava testemunho da verdade&rdquo;, verdade do Pai e verdade nossa, transparecendo a primeira e abrindo a segunda, n&atilde;o absorvendo nenhuma; antes esclarecendo as duas, nele existencialmente unidas.<\/p>\n<p>De &ldquo;compreender&rdquo; Deus acabou por desistir Job, como tamb&eacute;m foram desautorizados os seus amigos. Estes, por Lhe diminu&iacute;rem as contas, fazendo-O quase pagador &ldquo;mec&acirc;nico&rdquo; de m&eacute;ritos ou dem&eacute;ritos; Job, por de algum modo n&atilde;o sair da&iacute;, pois Lhe respondia ainda com a sua aus&ecirc;ncia de dem&eacute;ritos, como que &agrave; espera de outro tratamento (cf. Jb 42, 1 ss). De compreender Deus nos desautorizam outros vers&iacute;culos lapidares: &ldquo;Os meus planos n&atilde;o s&atilde;o os vossos planos, os vossos caminhos n&atilde;o s&atilde;o os meus caminhos &ndash; or&aacute;culo do Senhor. Tanto quanto os c&eacute;us est&atilde;o acima da terra, assim os meus caminhos s&atilde;o mais altos que os vossos, e os meus planos mais altos que os vossos planos&rdquo; (Is 55, 8-9). E nos desautorizaria a pr&oacute;pria vida humana, sempre tr&aacute;gica e surpreendente, apesar de todas as previs&otilde;es e equa&ccedil;&otilde;es. De um deus &agrave; nossa medida &ndash; mesmo &agrave; nossa grande medida &ndash; melhor seria de facto sermos &ldquo;agn&oacute;sticos&rdquo; e at&eacute; &ldquo;ateus&rdquo;, como eram acusados de o serem os primeiros crist&atilde;os, por desacreditarem nos deuses do imp&eacute;rio da altura.<\/p>\n<p>Sabemos, por outro lado, que as ideologias mais recentes tentaram definir e impor a verdade &ndash; social e culturalmente delimitada &ndash; como pol&iacute;tica concreta e obrigat&oacute;ria para todos. Foram os v&aacute;rios &ldquo;ismos&rdquo; que retalharam a humanidade do s&eacute;culo XX e tanta destrui&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua originaram. A eles se contrap&ocirc;s depois a desist&ecirc;ncia p&oacute;s-moderna em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s meta-narrativas e a atual resist&ecirc;ncia difusa a qualquer defini&ccedil;&atilde;o vital coletivamente respeitada. Prefere-se a contradi&ccedil;&atilde;o &agrave; unanimidade, o subjetivismo ao essencialismo.<\/p>\n<p>De nos compreendermos &ldquo;em&rdquo; Deus (cf. Ac 17, 28), como na pr&oacute;pria verdade, n&atilde;o podemos nem devemos desistir nunca, para n&atilde;o nos desfazermos na insignific&acirc;ncia. A vida &eacute; grande demais para isso, ainda na sua tragicidade ineg&aacute;vel, pr&oacute;pria e alheia. Mas aten&ccedil;&atilde;o: abeiramo-nos de Deus como quem se abeira da vida, da vida toda, sem exclus&otilde;es a priori, nem pr&eacute;-sele&ccedil;&atilde;o limitadora. Melhor dir&iacute;amos que, em rela&ccedil;&atilde;o a Deus, mais nos apercebemos duma presen&ccedil;a total do que O percebemos como objeto de entendimento. Presen&ccedil;a total, mas n&atilde;o totalit&aacute;ria, ali estava Jesus diante de Pilatos. Era a surpreendente verdade de Deus, diante da costumeira distra&ccedil;&atilde;o do homem.&nbsp;<\/p>\n<p>Ali&aacute;s, se ainda aceitarmos que a verdade est&aacute; na adequa&ccedil;&atilde;o da mente ao objeto, ent&atilde;o n&atilde;o diminuamos nem a subjetividade nem a objetividade. Com a humildade de quem sabe que s&oacute; vai ao todo pela parte e precisamente onde esta se abre ao todo, por n&atilde;o deixar de fora nenhuma possibilidade do humano e do divino; do divino no humano, como Pilatos o poderia ter entrevisto em Jesus, diante de si.<\/p>\n<p>E como n&oacute;s o podemos entrever tamb&eacute;m na humanidade de todos e de cada um. Humanidade que Jesus faz sua, com grande realismo, e onde se nos apresenta hoje, como naquele dia diante de Pilatos. &Eacute; sempre bom recordar outro passo: &ldquo;Ent&atilde;o, os justos v&atilde;o responder-lhe: &lsquo;Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na pris&atilde;o, e fomos visitar-te? E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: &lsquo;Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes irm&atilde;os mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes&rdquo; (Mt 25, 37-40).<\/p>\n<p>A verdade da rela&ccedil;&atilde;o &eacute; j&aacute; a pr&oacute;pria verdade, tal como a aprendemos em Cristo e tamb&eacute;m experimentamos na vida. Historicamente figurada no rosto concreto de Jesus de Nazar&eacute;, acontece eternamente na rela&ccedil;&atilde;o em que Ele nos inclui com o seu Pai, na circula&ccedil;&atilde;o do Esp&iacute;rito. Por isso, ressuscitado j&aacute;, disse a Maria Madalena, : &ldquo;&hellip; vai ter com os meus irm&atilde;os e diz-lhes: &lsquo;Subo para o meu Pai, que &eacute; vosso Pai, para o meu Deus, que &eacute; vosso Deus&rsquo;&rdquo; (Jo 20, 17). Assim o Pai e os irm&atilde;os, na partilha completa da vida que circula. Assim a verdade, finalmente e s&oacute; assim. A verdade na caridade, a verdade da caridade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas Pilatos detivera-se no limite estrito dum imp&eacute;rio a defender, sen&atilde;o mesmo na urg&ecirc;ncia de se livrar de apuros, mesmo &agrave; custa da justi&ccedil;a&hellip; Saiu-lhe aquele &ldquo;- Que &eacute; a verdade?&rdquo;, como poderia ter sa&iacute;do outra express&atilde;o qualquer, pois no cinismo tudo equivale a coisa nenhuma. Por id&ecirc;nticas m&aacute;s raz&otilde;es, parecem tantos desistir hoje do mais necess&aacute;rio, isto &eacute;, duma base s&oacute;lida, filos&oacute;fica e jur&iacute;dica, onde indispensavelmente assente a conviv&ecirc;ncia humana, sem excluir nada nem ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>O Papa Bento XVI tem sido incans&aacute;vel em requer&ecirc;-la, nem precisando de argumentos imediatamente teol&oacute;gicos para tal. Como no seguinte trecho do seu livro mais recente: &ldquo;&hellip; se a verdade nada conta, que sucede? Ent&atilde;o, que justi&ccedil;a ser&aacute; poss&iacute;vel? N&atilde;o deve porventura haver crit&eacute;rios comuns que garantam verdadeiramente a justi&ccedil;a para todos, crit&eacute;rios esses subtra&iacute;dos &agrave; arbitrariedade das opini&otilde;es mut&aacute;veis e &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o do poder? N&atilde;o &eacute; verdade que as grandes ditaduras existiram em virtude da mentira ideol&oacute;gica e que s&oacute; a verdade pode trazer a liberta&ccedil;&atilde;o? &ldquo; (Jesus de Nazar&eacute;. Da Entrada em Jerusal&eacute;m at&eacute; &agrave; Ressurrei&ccedil;&atilde;o, p. 157-158).&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Diante de si, Pilatos tinha toda a verdade de Deus, como dramaticamente se apresentava em  Jesus. N&atilde;o a acolheu ele, devemos acolh&ecirc;-la n&oacute;s. Aceitemos coerentemente a natureza relacional da verdade, coincidente com a nossa pr&oacute;pria natureza relacional de pessoas, imagens de Deus precisamente aqui. Verdade do bem de todos, verdade da inoc&ecirc;ncia divina, t&atilde;o humanamente oferecida.<\/p>\n<p>Pilatos teve uma oportunidade &uacute;nica para a entrever, uma vez que atestou de Jesus, logo a seguir: &ldquo;N&atilde;o encontro neste homem culpa alguma&rdquo;. Positiva e maximamente o declararia depois um disc&iacute;pulo da Verdade: &ldquo;Car&iacute;ssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. Aquela que n&atilde;o ama n&atilde;o chegou a conhecer a Deus, pois Deus &eacute; amor&rdquo; (1 Jo 4, 7-8). E alguns vers&iacute;culos &agrave; frente, igualmente expl&iacute;cito: &ldquo;A Deus nunca ningu&eacute;m o viu; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em n&oacute;s e o seu amor chegou &agrave; perfei&ccedil;&atilde;o em n&oacute;s&rdquo; (1 Jo&nbsp; 4, 12).&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; Qu&atilde;o melhor ficaria Pilatos, se da considera&ccedil;&atilde;o da bondade de Jesus passasse &agrave; mais pequena benevol&ecirc;ncia que fosse! Mas tinha pressa de despachar um assunto inc&oacute;modo e melindroso. Mesmo &agrave; custa da verdade, mesmo &agrave; custa da vida alheia&hellip;<\/p>\n<p>Amados irm&atilde;os e irm&atilde;s, aqui reunidos na Paix&atilde;o do Senhor: &#8211; Nunca neguemos &agrave; verdade a disponibilidade certa que ela sempre requer! E reconhe&ccedil;amos de vez que s&oacute; na caridade acedemos &agrave; verdade, de Deus e nossa, de todos para todos! Mesmo nas condi&ccedil;&otilde;es mais tr&aacute;gicas, como as que o pr&oacute;prio Deus assumiu na Cruz. Mesmo no drama atual da humanidade pr&oacute;xima ou distante, em que Deus se continua a apresentar: &#8211; Eis o homem! Eis o pr&oacute;prio Deus (humanado)!<\/p>\n<p>Concentramo-nos hoje ao p&eacute; da Cruz; permane&ccedil;amos sempre em torno dela, como se prolonga na vida de tanta gente agora. Reconhe&ccedil;amos a&iacute; mesmo a &uacute;nica religi&atilde;o, a &uacute;nica verdade de um Deus universal que se manifesta na irredut&iacute;vel particularidade de cada ser humano, pedindo para mais oferecer.<\/p>\n<p>Correspondamos a um Deus que nos &ldquo;compreende&rdquo; a n&oacute;s, mais, imensamente mais, do que n&oacute;s o compreendemos a Ele. Em Deus, na sua verdade, podemos &ldquo;entrar&rdquo;, do pouco para o muito, ouvindo por fim o mais belo de ouvir: &ldquo;Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor&rdquo; (Mt 25, 21).<\/p>\n<p>Se a beleza &eacute; esplendor da verdade, melhor diremos que &eacute; fulgor da bondade. &ndash; Essa mesma com que Jesus olhava Pilatos; sobretudo essa, com que nos olha da Cruz!<\/p>\n<p>S&eacute; do Porto, 22 de abril de 2011<\/p>\n<p align=\"right\"><em>D. Manuel Clemente, Bispo do Porto<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esplendor da verdade, fulgor da bondade &nbsp; Amados irm&atilde;os, Fic&aacute;mos de novo preenchidos com o relato da Paix&atilde;o do Senhor e com a sensa&ccedil;&atilde;o de que qualquer palavra que lhe juntemos estar&aacute; a mais. 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