{"id":51020,"date":"2011-04-21T18:44:21","date_gmt":"2011-04-21T18:44:21","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/04\/21\/homilia-de-bento-xvi-na-missa-da-ceia-do-senhor-2\/"},"modified":"2011-04-21T18:44:21","modified_gmt":"2011-04-21T18:44:21","slug":"homilia-de-bento-xvi-na-missa-da-ceia-do-senhor-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-bento-xvi-na-missa-da-ceia-do-senhor-2\/","title":{"rendered":"Homilia de Bento XVI na Missa da Ceia do Senhor"},"content":{"rendered":"<p>Amados irm&atilde;os e irm&atilde;s!<\/p>\n<p>&laquo;Desejei ardentemente comer convosco esta P&aacute;scoa, antes de padecer&raquo; (Lc 22, 15): com estas palavras Jesus inaugurou a celebra&ccedil;&atilde;o do seu &uacute;ltimo banquete e da institui&ccedil;&atilde;o da sagrada Eucaristia. Jesus foi ao encontro daquela hora, desejando-a. No seu &iacute;ntimo, esperou aquele momento em que haveria de dar-Se aos seus sob as esp&eacute;cies do p&atilde;o e do vinho. Esperou aquele momento que deveria ser, de algum modo, as verdadeiras n&uacute;pcias messi&acirc;nicas: a transforma&ccedil;&atilde;o dos dons desta terra e o fazer-Se um s&oacute; com os seus, para os transformar e inaugurar assim a transforma&ccedil;&atilde;o do mundo. No desejo de Jesus, podemos reconhecer o desejo do pr&oacute;prio Deus: o seu amor pelos homens, pela sua cria&ccedil;&atilde;o, um amor em expectativa. O amor que espera o momento da uni&atilde;o, o amor que quer atrair os homens a si, para assim realizar tamb&eacute;m o desejo da pr&oacute;pria cria&ccedil;&atilde;o: esta, de facto, aguarda a manifesta&ccedil;&atilde;o dos filhos de Deus (cf. Rm 8, 19). Jesus deseja-nos, aguarda-nos. E n&oacute;s, temos verdadeiramente desejo d&rsquo;Ele? Sentimos, no nosso interior, o impulso para O encontrar? Ansiamos pela sua proximidade, por nos tornarmos um s&oacute; com Ele, dom este que Ele nos concede na sagrada Eucaristia? Ou, pelo contr&aacute;rio, sentimo-nos indiferentes, distra&iacute;dos, inundados por outras coisas? Sabemos pelas par&aacute;bolas de Jesus sobre banquetes, que Ele conhece a realidade dos lugares que ficam vazios, a resposta negativa, o desinteresse por Ele e pela sua proximidade. Os lugares vazios no banquete nupcial do Senhor, com ou sem desculpa, h&aacute; j&aacute; algum tempo que deixaram de ser para n&oacute;s uma par&aacute;bola, tornando-se uma realidade, justamente naqueles pa&iacute;ses aos quais Ele tinha manifestado a sua proximidade particular. Jesus sabia tamb&eacute;m de convidados que viriam sim, mas sem estar vestidos de modo nupcial: sem alegria pela sua proximidade, fazendo-o somente por costume e com uma orienta&ccedil;&atilde;o bem diversa na sua vida. S&atilde;o Greg&oacute;rio Magno, numa das suas homilias, perguntava-se: Que g&eacute;nero de pessoas s&atilde;o aquelas que v&ecirc;m sem h&aacute;bito nupcial? Em que consiste este h&aacute;bito e como se pode adquiri-lo? Eis a sua resposta: Aqueles que foram chamados e v&ecirc;m, de alguma maneira t&ecirc;m f&eacute;. &Eacute; a f&eacute; que lhes abre a porta; mas falta-lhes o h&aacute;bito nupcial do amor. Quem n&atilde;o vive a f&eacute; como amor, n&atilde;o est&aacute; preparado para as n&uacute;pcias e &eacute; expulso. A comunh&atilde;o eucar&iacute;stica exige a f&eacute;, mas a f&eacute; exige o amor; caso contr&aacute;rio, est&aacute; morta, inclusive como f&eacute;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sabemos pelos quatro Evangelhos, que o &uacute;ltimo banquete de Jesus, antes da Paix&atilde;o, foi tamb&eacute;m um lugar de an&uacute;ncio. Jesus prop&ocirc;s, uma vez mais e com insist&ecirc;ncia, os elementos estruturais da sua mensagem. Palavra e Sacramento, mensagem e dom est&atilde;o inseparavelmente unidos. Mas, durante o &uacute;ltimo banquete, Jesus sobretudo rezou. Mateus, Marcos e Lucas usam duas palavras para descrever a ora&ccedil;&atilde;o de Jesus no momento central da Ceia: eucharistesas e eulogesas &ndash; agradecer e aben&ccedil;oar. O movimento ascendente do agradecimento e o movimento descendente da b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o aparecem juntos. As palavras da transubstancia&ccedil;&atilde;o s&atilde;o uma parte desta ora&ccedil;&atilde;o de Jesus. S&atilde;o palavras de ora&ccedil;&atilde;o. Jesus transforma a sua Paix&atilde;o em ora&ccedil;&atilde;o, em oferta ao Pai pelos homens. Esta transforma&ccedil;&atilde;o do seu sofrimento em amor possui uma for&ccedil;a transformadora dos dons, nos quais agora Jesus Se d&aacute; a Si mesmo. Ele no-los d&aacute;, para n&oacute;s e o mundo sermos transformados. O objetivo pr&oacute;prio e &uacute;ltimo da transforma&ccedil;&atilde;o eucar&iacute;stica &eacute; a nossa transforma&ccedil;&atilde;o na comunh&atilde;o com Cristo. A Eucaristia tem em vista o homem novo, com uma novidade tal que assim s&oacute; pode nascer a partir de Deus e por meio da obra do Servo de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir de Lucas e sobretudo de Jo&atilde;o, sabemos que Jesus, na sua ora&ccedil;&atilde;o durante a &Uacute;ltima Ceia, dirigiu tamb&eacute;m s&uacute;plicas ao Pai &ndash; s&uacute;plicas que, ao mesmo tempo, cont&ecirc;m apelos aos seus disc&iacute;pulos de ent&atilde;o e de todos os tempos. Nesta hora, queria escolher somente uma s&uacute;plica que, segundo Jo&atilde;o, Jesus repetiu quatro vezes na sua Ora&ccedil;&atilde;o Sacerdotal. Como O deve ter angustiado no seu &iacute;ntimo! Tal s&uacute;plica continua sem cessar sendo a sua ora&ccedil;&atilde;o ao Pai por n&oacute;s: trata-se da ora&ccedil;&atilde;o pela unidade. Jesus diz explicitamente que tal s&uacute;plica vale n&atilde;o somente para os disc&iacute;pulos ent&atilde;o presentes, mas tem em vista todos aqueles que h&atilde;o de acreditar n&rsquo;Ele (cf. Jo 17, 20). Pede que todos se tornem um s&oacute;, &laquo;como Tu, &oacute; Pai, est&aacute;s em Mim, e Eu em Ti, que eles tamb&eacute;m estejam em n&oacute;s, para que o mundo acredite&raquo; (Jo 17, 21). S&oacute; pode haver a unidade dos crist&atilde;os se estes estiverem intimamente unidos com Ele, com Jesus. F&eacute; e amor por Jesus: f&eacute; no seu ser um s&oacute; com o Pai e abertura &agrave; unidade com Ele s&atilde;o essenciais. Portanto, esta unidade n&atilde;o &eacute; algo somente interior, m&iacute;stico. Deve tornar-se vis&iacute;vel; t&atilde;o vis&iacute;vel que constitua para o mundo a prova do envio de Jesus pelo Pai. Por isso, tal s&uacute;plica tem escondido um sentido eucar&iacute;stico que Paulo p&ocirc;s claramente em evid&ecirc;ncia na Primeira Carta aos Cor&iacute;ntios: &laquo;N&atilde;o &eacute; o p&atilde;o que n&oacute;s partimos uma comunh&atilde;o com o Corpo de Cristo? Uma vez que existe um s&oacute; p&atilde;o, n&oacute;s, que somos muitos, formamos um s&oacute; corpo, visto participarmos todos desse &uacute;nico p&atilde;o&raquo; (1 Cor 10, 16-17). Com a Eucaristia, nasce a Igreja. Todos n&oacute;s comemos o mesmo p&atilde;o, recebemos o mesmo corpo do Senhor, e isto significa: Ele abre cada um de n&oacute;s para al&eacute;m de si mesmo. Torna-nos todos um s&oacute;. A Eucaristia &eacute; o mist&eacute;rio da proximidade e comunh&atilde;o &iacute;ntima de cada indiv&iacute;duo com o Senhor. E, ao mesmo tempo, &eacute; a uni&atilde;o vis&iacute;vel entre todos. A Eucaristia &eacute; sacramento da unidade. Ela chega at&eacute; ao mist&eacute;rio trinit&aacute;rio, e assim cria, ao mesmo tempo, a unidade vis&iacute;vel. Digamo-lo uma vez mais: a Eucaristia &eacute; o encontro pessoal&iacute;ssimo com o Senhor, e no entanto n&atilde;o &eacute; jamais apenas um ato de devo&ccedil;&atilde;o individual; celebramo-la necessariamente juntos. Em cada comunidade, o Senhor est&aacute; presente de modo total; mas Ele &eacute; um s&oacute; em todas as comunidades. Por isso, fazem necessariamente parte da Ora&ccedil;&atilde;o Eucar&iacute;stica da Igreja as palavras: &laquo;una cum Papa nostro et cum Episcopo nostro&raquo;. Isto n&atilde;o &eacute; um mero acr&eacute;scimo exterior &agrave;quilo que acontece interiormente, mas express&atilde;o necess&aacute;ria da pr&oacute;pria realidade eucar&iacute;stica. E mencionamos o Papa e o Bispo pelo nome: a unidade &eacute; totalmente concreta, tem nome. Assim, a unidade torna-se vis&iacute;vel, torna-se sinal para o mundo, e estabelece para n&oacute;s mesmos um crit&eacute;rio concreto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S&atilde;o Lucas conservou-nos um elemento concreto da ora&ccedil;&atilde;o de Jesus pela unidade: &laquo;Sim&atilde;o, Sim&atilde;o, Satan&aacute;s reclamou o poder de vos joeirar como ao trigo. Mas Eu roguei por ti, para que a tua f&eacute; n&atilde;o desfale&ccedil;a. E tu, uma vez convertido, confirma os teus irm&atilde;os&raquo; (Lc 22, 31-32). Com pesar, constatamos novamente, hoje, que foi permitido a Satan&aacute;s joeirar os disc&iacute;pulos visivelmente diante de todo o mundo. E sabemos que Jesus reza pela f&eacute; de Pedro e dos seus sucessores. Sabemos que Pedro, que atrav&eacute;s das &aacute;guas agitadas da hist&oacute;ria vai ao encontro do Senhor e corre perigo de afundar, &eacute; sempre novamente sustentado pela m&atilde;o do Senhor e guiado sobre as &aacute;guas. Mas vem depois um an&uacute;ncio e uma miss&atilde;o. &laquo;Tu, uma vez convertido&#8230;&raquo;. Todos os seres humanos, &agrave; exce&ccedil;&atilde;o de Maria, t&ecirc;m continuamente necessidade de convers&atilde;o. Jesus prediz a Pedro a sua queda e a sua convers&atilde;o. De que &eacute; que Pedro teve de converter-se? No in&iacute;cio do seu chamamento, assombrado com o poder divino do Senhor e com a sua pr&oacute;pria mis&eacute;ria, Pedro dissera: &laquo;Senhor, afasta-Te de mim, que eu sou um homem pecador&raquo; (Lc 5, 8). Na luz do Senhor, reconhece a sua insufici&ecirc;ncia. Precisamente deste modo, com a humildade de quem sabe que &eacute; pecador, &eacute; que Pedro &eacute; chamado. Ele deve reencontrar sem cessar esta humildade. Perto de Cesareia de Filipe, Pedro n&atilde;o quisera aceitar que Jesus tivesse de sofrer e ser crucificado: n&atilde;o era concili&aacute;vel com a sua imagem de Deus e do Messias. No Cen&aacute;culo, n&atilde;o quis aceitar que Jesus lhe lavasse os p&eacute;s: n&atilde;o se adequava &agrave; sua imagem da dignidade do Mestre. No horto das oliveiras, feriu com a espada; queria demonstrar a sua coragem. Mas, diante de uma serva, afirmou que n&atilde;o conhecia Jesus. Naquele momento, isto parecia-lhe uma pequena mentira, para poder permanecer perto de Jesus. O seu hero&iacute;smo ruiu num jogo mesquinho por um lugar no centro dos acontecimentos. Todos n&oacute;s devemos aprender sempre de novo a aceitar Deus e Jesus Cristo como Ele &eacute;, e n&atilde;o como quer&iacute;amos que fosse. A n&oacute;s tamb&eacute;m nos custa aceitar que Ele esteja &agrave; merc&ecirc; dos limites da sua Igreja e dos seus ministros. Tamb&eacute;m n&atilde;o queremos aceitar que Ele esteja sem poder neste mundo. Tamb&eacute;m nos escondemos por detr&aacute;s de pretextos, quando a perten&ccedil;a a Ele se nos torna demasiado custosa e perigosa. Todos n&oacute;s temos necessidade da convers&atilde;o que acolhe Jesus no seu ser Deus e ser-Homem. Temos necessidade da humildade do disc&iacute;pulo que segue a vontade do Mestre. Nesta hora, queremos pedir-Lhe que nos fixe como fixou Pedro, no momento oportuno, com os seus olhos ben&eacute;volos, e nos converta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pedro, o convertido, &eacute; chamado a confirmar os seus irm&atilde;os. N&atilde;o &eacute; um facto extr&iacute;nseco que lhe seja confiado este dever no Cen&aacute;culo. O servi&ccedil;o da unidade tem o seu lugar vis&iacute;vel na celebra&ccedil;&atilde;o da sagrada Eucaristia. Queridos amigos, &eacute; um grande conforto para o Papa saber que, em cada Celebra&ccedil;&atilde;o Eucar&iacute;stica, todos rezam por ele; que a nossa ora&ccedil;&atilde;o se une &agrave; ora&ccedil;&atilde;o do Senhor por Pedro. &Eacute; somente gra&ccedil;as &agrave; ora&ccedil;&atilde;o do Senhor e da Igreja que o Papa pode corresponder ao seu dever de confirmar os irm&atilde;os: apascentar o rebanho de Cristo e fazer-se garante daquela unidade que se torna testemunho vis&iacute;vel do envio de Jesus pelo Pai.<\/p>\n<p>&laquo;Desejei ardentemente comer convosco esta P&aacute;scoa&raquo;. Senhor, V&oacute;s tendes desejo de n&oacute;s, de mim. Tendes desejo de nos fazer participantes de V&oacute;s mesmo na Sagrada Eucaristia, de Vos unir a n&oacute;s. Senhor, suscitai tamb&eacute;m em n&oacute;s o desejo de V&oacute;s. Refor&ccedil;ai-nos na unidade convosco e entre n&oacute;s. Dai &agrave; vossa Igreja a unidade, para que o mundo creia. Amen.<\/p>\n<p>Bas&iacute;lica de S&atilde;o Jo&atilde;o de Latr&atilde;o, quinta-feira Santa, 21 de abril de 2011<\/p>\n<p align=\"right\"><em>&copy; Copyright 2011 &#8211; Libreria Editrice Vaticana<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amados irm&atilde;os e irm&atilde;s! &laquo;Desejei ardentemente comer convosco esta P&aacute;scoa, antes de padecer&raquo; (Lc 22, 15): com estas palavras Jesus inaugurou a celebra&ccedil;&atilde;o do seu &uacute;ltimo banquete e da institui&ccedil;&atilde;o da sagrada Eucaristia. Jesus foi ao encontro daquela hora, desejando-a. 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