{"id":51014,"date":"2011-04-22T18:36:00","date_gmt":"2011-04-22T18:36:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/04\/22\/homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-celebracao-da-paixao-do-senhor\/"},"modified":"2011-04-22T18:36:00","modified_gmt":"2011-04-22T18:36:00","slug":"homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-celebracao-da-paixao-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-celebracao-da-paixao-do-senhor\/","title":{"rendered":"Homilia do cardeal-patriarca de Lisboa na celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<strong>&ldquo;<\/strong><strong>A morte de Jesus. A vida exprime-se no amor&rdquo;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. A Liturgia deste dia celebra, com grande densidade e recolhimento, aquele que &eacute; o momento decisivo da hist&oacute;ria da humanidade. Todo o seu destino, as suas falhas e fraquezas, os seus anseios e projetos, s&atilde;o assumidos por aquele Homem, Jesus de Nazar&eacute;, que aceita morrer para que os homens possam viver. A Liturgia p&otilde;e diante de n&oacute;s o problema da atualidade da morte de Cristo. Acredito que, hoje, Cristo oferece a vida por n&oacute;s, por todos os membros da humanidade? Ou a morte de Cristo &eacute; s&oacute; um acontecimento do passado? Acreditamos que, ainda hoje, Cristo assume em Si o destino da humanidade?<\/p>\n<p>&Eacute; imposs&iacute;vel penetrar no sentido da morte de Cristo, se n&atilde;o percebermos que o amor pelos outros &eacute; a mais bela express&atilde;o da vida. Viver &eacute; ser para os outros e com os outros. Jesus tinha pregado isso no seu Evangelho do Reino. &ldquo;N&atilde;o h&aacute; maior prova de amor do que dar a vida por aqueles que se amam. Quem aceitar perder a vida, ganh&aacute;-la-&aacute;&rdquo;. Esta perspetiva generosa da vida, que se pode exprimir na pr&oacute;pria morte, n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil. Intuem-na aqueles que, na vida, experimentaram um amor aut&ecirc;ntico, que os leva a sacrificar-se por aqueles que amam. Mas o que &eacute; mais comum &eacute; a defesa da pr&oacute;pria vida como autofrui&ccedil;&atilde;o, que leva, tantas vezes, a sacrificar os outros &agrave; pr&oacute;pria maneira de viver.<\/p>\n<p>A hist&oacute;ria de Israel e mesmo a de outras religi&otilde;es e civiliza&ccedil;&otilde;es est&atilde;o repletas deste conceito de &ldquo;substitui&ccedil;&atilde;o vic&aacute;ria&rdquo;. Era princ&iacute;pio absoluto de que todo o mal devia ser expiado e restabelecida a justi&ccedil;a. Assim, introduz-se o h&aacute;bito de que, quando n&atilde;o se conseguia que o culpado expiasse as suas culpas, ele era substitu&iacute;do por outra pessoa, ou por um animal na liturgia de Israel. Os profetas denunciam essa pr&aacute;tica; no entanto ela manteve-se. Al&eacute;m de ferir, de outro modo, a justi&ccedil;a, esse substituto n&atilde;o podia realizar a reden&ccedil;&atilde;o do verdadeiro pecador. Mas como afirma Bento XVI, &ldquo;a hist&oacute;ria inteira aparece &agrave; procura d&rsquo;Aquele que pode verdadeiramente intervir em nosso lugar, que &eacute; verdadeiramente capaz de nos assumir em Si mesmo e, assim, de nos conduzir &agrave; salva&ccedil;&atilde;o&rdquo;[1]. No profeta Isa&iacute;as, surge a figura do Servo Sofredor, que n&atilde;o se limita a substituir na pena, mas assume o destino de todo o Povo, toma sobre si a culpa de muitos, tornando-os justos (cf. Is. 53,11). Esta figura do Servo vai ser identificada com o Messias. Jesus, sem rejeitar o messianismo real, toldado por conota&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, assume-se como Messias nessa identifica&ccedil;&atilde;o com o Servo de Israel. Porque na sua encarna&ccedil;&atilde;o uniu misteriosamente a Si todos os homens, pode sofrer pelos pecados de todos, como se fossem eles a sofrer e a justificar-se pelo sofrimento. Ao aceitar morrer sem pecado, redimindo os pecados dos outros, Ele afirma o sentido da vida como entrega a Deus, pelos outros.<\/p>\n<p>2. Hoje contemplamos esta morte por amor. Isso n&atilde;o diminui em nada a sua densidade dram&aacute;tica, mas &eacute; a afirma&ccedil;&atilde;o de que a vida &eacute; obedi&ecirc;ncia a Deus e amor aos homens que precisam de reden&ccedil;&atilde;o. Encontramos esta densidade de amor na ora&ccedil;&atilde;o de Jesus no Jardim das Oliveiras. Cristo, o Filho, exprime na realidade humana da morte o amor infinito do Pai por todos os homens que criou. No cora&ccedil;&atilde;o de Deus, a reden&ccedil;&atilde;o &eacute; t&atilde;o universal como a cria&ccedil;&atilde;o. E esse amor redentor s&oacute; se pode exprimir, ser Palavra e ser an&uacute;ncio, pelo seu Verbo, por Quem tamb&eacute;m tinha criado todas as coisas. Esta morte vic&aacute;ria &eacute; a verdadeira causa da encarna&ccedil;&atilde;o do Verbo eterno de Deus.<\/p>\n<p>No Jardim das Oliveiras Jesus prostra-se, de rosto por terra e reza: &ldquo;Pai, se Tu o quiseres, afasta de Mim este c&aacute;lice. No entanto, n&atilde;o se fa&ccedil;a a Minha vontade, mas a Tua&rdquo; (Lc. 23,42). Desta ora&ccedil;&atilde;o de Jesus, ressaltam tr&ecirc;s dimens&otilde;es: Jesus trata Deus por &ldquo;Abb&aacute;&rdquo;, fala com Deus como uma crian&ccedil;a fala com o seu querido pai. &Eacute; uma ora&ccedil;&atilde;o cheia de confian&ccedil;a e de ternura filial. Exprime o conjunto de duas vontades: a vontade de Deus, que, como Filho de Deus, Ele comunga com o Pai, e a vontade humana, que, ao assumir a vontade de todos os homens, rejeita a obla&ccedil;&atilde;o e o sofrimento. Cristo sente ao vivo o nosso drama na busca da obedi&ecirc;ncia, da fidelidade e da santidade. Em Cristo s&oacute; pode prevalecer a vontade que tem em comum com o Pai. Ressalta, depois, a dramaticidade do momento. Segundo S&atilde;o Lucas, o sofrimento foi t&atilde;o intenso, que Jesus suou sangue. A fidelidade de Jesus nunca esteve em causa. Est&aacute; patente, isso sim, a densidade da reden&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>3. Pode parecer chocante que Deus n&atilde;o tenha atendido a ora&ccedil;&atilde;o de Jesus. Mas o pr&oacute;prio Jesus n&atilde;o o desejava; Ele queria que a vontade do Pai se cumprisse. Ele sabia que o Pai o ouviria de outra maneira, ressuscitando-o dos mortos e come&ccedil;ando n&rsquo;Ele uma &ldquo;nova cria&ccedil;&atilde;o&rdquo;, uma nova etapa da vida. O autor da Carta aos Hebreus d&aacute;-nos a compreens&atilde;o da Igreja primitiva sobre o que se passou no Jardim das Oliveiras: &ldquo;Nos dias da sua vida terrena, apresentou ora&ccedil;&otilde;es e s&uacute;plicas &Agrave;quele que O podia salvar da morte, com grande clamor e l&aacute;grimas, e foi atendido por causa da sua piedade&rdquo; (He. 5,7). Deus Pai atendeu-O ressuscitando-O dos mortos e tomando a s&eacute;rio a fecundidade da sua morte, aceitando a humanidade redimida.<\/p>\n<p>Jesus trava o grande combate com as for&ccedil;as do pecado e da morte e f&aacute;-lo com ora&ccedil;&otilde;es, isto &eacute;, em comunh&atilde;o amorosa e filial com o Pai. Ou&ccedil;amos o Papa Bento XVI: &ldquo;Trata-se sempre do encontro de Jesus com as for&ccedil;as da morte, cujo abismo Ele, sendo o Santo de Deus, percebe em toda a sua profundidade e hediondez. Assim, a Carta aos Hebreus v&ecirc; toda a Paix&atilde;o de Jesus, desde o monte das Oliveiras at&eacute; ao &uacute;ltimo brado na cruz, permeada pela ora&ccedil;&atilde;o, como uma &uacute;nica e ardente s&uacute;plica a Deus pela vida contra o poder da morte.<\/p>\n<p>Desta maneira, considera-se toda a Paix&atilde;o de Jesus uma luta, na ora&ccedil;&atilde;o com Deus-Pai e simultaneamente com a natureza humana. A Carta aos Hebreus manifesta de modo novo a profundidade teol&oacute;gica da ora&ccedil;&atilde;o no Monte das Oliveiras. Para a Carta, este bradar e suplicar constitui a realiza&ccedil;&atilde;o do sumo sacerd&oacute;cio de Jesus. &Eacute; precisamente no seu bradar, chorar e rezar que Jesus faz o que &eacute; pr&oacute;prio do sumo sacerdote: Ele leva o tormento de ser homem para o alto, rumo a Deus. Leva o homem &agrave; presen&ccedil;a de Deus&rdquo;[2].<\/p>\n<p>4. A Cruz de Cristo &eacute; atual por causa da atualidade dos nossos pecados. N&atilde;o estamos dispensados de travar esse combate, embora, na vit&oacute;ria de Cristo, esteja prometida a nossa vit&oacute;ria. E o aspeto crucial do nosso combate &eacute;, sem renunciar &agrave; nossa vontade, faz&ecirc;-la coincidir com a vontade de Deus. &Eacute; a obedi&ecirc;ncia da f&eacute;. Diz o Santo Padre: &ldquo;Isto &eacute; poss&iacute;vel sem destrui&ccedil;&atilde;o do elemento essencialmente humano, porque, a partir da cria&ccedil;&atilde;o, a vontade humana est&aacute; orientada para a divina. Quando adere &agrave; vontade divina, a vontade humana encontra a sua realiza&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o a sua destrui&ccedil;&atilde;o&rdquo;[3]. A harmonia da nossa vontade com a vontade de Deus &eacute; um longo combate; s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel participando, com Cristo, do seu combate no Jardim das Oliveiras. &Eacute; a mais s&oacute;lida fonte de esperan&ccedil;a que a P&aacute;scoa nos oferece: saber que esse nosso combate esteve presente no combate de Cristo e que s&oacute; Ele nos pode conduzir &agrave; vit&oacute;ria.<\/p>\n<p>S&eacute; Patriarcal, 22 de abril de 2011<\/p>\n<p align=\"right\"><em>D. Jos&eacute; Policarpo<\/em><em>, Cardeal-Patriarca<\/em><\/p>\n<p>NOTAS:<\/p>\n<p>1 &#8211; Bento XVI, Jesus de Nazar&eacute;, vol. II, pp. 143-144<\/p>\n<p>2 &#8211; Ibidem, pp. 136-137<\/p>\n<p>3 &#8211; Ibidem, p. 134<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&ldquo;A morte de Jesus. A vida exprime-se no amor&rdquo; &nbsp; 1. A Liturgia deste dia celebra, com grande densidade e recolhimento, aquele que &eacute; o momento decisivo da hist&oacute;ria da humanidade. 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