{"id":50962,"date":"2011-04-19T15:22:52","date_gmt":"2011-04-19T15:22:52","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/04\/19\/jesus-continua-a-ser-uma-pergunta-fundamental-no-coracao-humano\/"},"modified":"2011-04-19T15:22:52","modified_gmt":"2011-04-19T15:22:52","slug":"jesus-continua-a-ser-uma-pergunta-fundamental-no-coracao-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/jesus-continua-a-ser-uma-pergunta-fundamental-no-coracao-humano\/","title":{"rendered":"Jesus continua a ser uma pergunta fundamental no cora\u00e7\u00e3o humano"},"content":{"rendered":"<p>Primeira parte da conversa entre o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, padre Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, e o jornalista Paulo Rocha, diretor da Ag\u00eancia ECCLESIA <!--more--> <\/p>\n<p>O padre e poeta madeirense Jos&eacute; Tolentino Mendon&ccedil;a defende que Jesus continua a ser uma pergunta fundamental no cora&ccedil;&atilde;o humano e que o moralismo reduz a pessoa de Cristo.<\/p>\n<p>Em plena Semana Santa, apresenta-se a primeira parte da conversa entre o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura e o jornalista Paulo Rocha, diretor da Ag&ecirc;ncia ECCLESIA, na qual se fala da cruz e da ressurrei&ccedil;&atilde;o, da mesa e das par&aacute;bolas, da Quaresma e da Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>ECCLESIA &ndash; &ldquo;Quem dizem os homens que eu sou?&rdquo; foi uma pergunta de Jesus que causou perplexidade desde o momento que foi proferida. J&aacute; est&aacute; respondida?<\/em><\/p>\n<p><em>Jos&eacute; Tolentino Mendon&ccedil;a &ndash;<\/em> &Eacute; uma pergunta que continua por responder porque o estilo de Jesus &eacute; aberto e inclusivo. Vemos que as suas a&ccedil;&otilde;es e palavras n&atilde;o tinham uma interpreta&ccedil;&atilde;o &uacute;nica, dependendo da qualidade do acolhimento que lhes era proporcionado. E por isso essa interroga&ccedil;&atilde;o &eacute; muito plaus&iacute;vel porque dizem-se, em todos os tempos, coisas muito diferentes acerca de Jesus, j&aacute; que acerca dele, e nele, n&oacute;s refletimos as perguntas do pr&oacute;prio cora&ccedil;&atilde;o humano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Essa pergunta continua a ser formulada nos di&aacute;logos de hoje?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Jesus continua a ser uma pergunta fundamental no cora&ccedil;&atilde;o humano. Veja-se, por exemplo, como de uma forma secular e laica, ele passou do vitral para a montra. H&aacute; uma curiosidade enorme por Jesus: a quantidade de publica&ccedil;&otilde;es, filmes, conversas e tentativas &ndash; muitas vezes tenta&ccedil;&otilde;es &ndash; de entrar por veredas um pouco estranhas representam, no fundo, o desejo de o tocar. A imagem que os evangelistas nos d&atilde;o da multid&atilde;o que se acotovelava em torno a ele, para o tocar, continua a ser a situa&ccedil;&atilde;o do homem contempor&acirc;neo. N&oacute;s tamb&eacute;m fazemos press&atilde;o para romper a multid&atilde;o, para romper as ideias conhecidas acerca de Jesus, porque cada um tem a necessidade de um toque original em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sua pessoa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Jesus nunca teve a preocupa&ccedil;&atilde;o de dar respostas conclusivas acerca de si&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Isso &eacute; interessante na pedagogia de Jesus, que &eacute; aberta. Jesus n&atilde;o d&aacute; respostas. E as palavras que diz solicitam sempre um caminho de ades&atilde;o. Nunca nada &eacute; imediato em rela&ccedil;&atilde;o a Jesus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; &Eacute; uma pessoa que n&atilde;o aponta solu&ccedil;&otilde;es mas caminhos&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Jesus &eacute; uma pergunta, mais do que uma resposta. No evangelho de S&atilde;o Jo&atilde;o ele diz &ldquo;Eu sou o caminho, a verdade e a vida&rdquo; &ndash; mas n&atilde;o os explica. Temos de ser n&oacute;s, pelo exerc&iacute;cio do compromisso e do discipulato a descobrir que verdades s&atilde;o essas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Jesus escolhe sempre palavras quase enigm&aacute;ticas para falar da sua pessoa&#8230; Por exemplo, &ldquo;Eu sou o p&atilde;o da vida&rdquo;.<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Essa escolha prende-se com a po&eacute;tica de Jesus. Ele utiliza uma linguagem que n&atilde;o &eacute; fechada nem de sentido &uacute;nico, mas sempre com uma sem&acirc;ntica plural e diversidade de sentidos. Isso d&aacute; &agrave; sua palavra uma riqueza enorme e uma responsabilidade de apropria&ccedil;&atilde;o, no sentido que cada leitor e ouvinte &eacute; chamado tamb&eacute;m a apropriar-se de uma forma original daquilo que l&ecirc; e ouve.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Muita dessa po&eacute;tica de Jesus est&aacute; apropriada em ambientes lit&uacute;rgicos, ou at&eacute; mais moralistas, em alguns setores eclesiais?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> S&atilde;o duas coisas diferentes. A liturgia &eacute; vida e tamb&eacute;m faz uma apropria&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica de Jesus, no sentido de que a ora&ccedil;&atilde;o &eacute; uma experi&ecirc;ncia aberta &ndash; aquilo que Romano Guardini chamava o jogo da liturgia. Ele dizia uma coisa interessante: &ldquo;S&oacute; quem sabe brincar com um brinquedo entende a liturgia&rdquo;. Porque ela &eacute; feita de cor, &eacute; feita para os nossos sentidos perceberem. E por isso ela &eacute; tamb&eacute;m uma linguagem aberta.<\/p>\n<p>O moralismo &eacute; outra coisa. &Eacute; fazer um tra&ccedil;ado de sentido &uacute;nico a uma realidade que tem de ser aberta e ampla.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; &Eacute; um tra&ccedil;ado que n&atilde;o interessa&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> N&atilde;o interessa porque reduz Jesus. A experi&ecirc;ncia crist&atilde; n&atilde;o &eacute;, antes de tudo, uma experi&ecirc;ncia moral, mas uma experi&ecirc;ncia do ser. &Eacute; a partir dela e da experi&ecirc;ncia do amor que n&oacute;s chegamos &agrave; decis&atilde;o moral, &agrave; decis&atilde;o &eacute;tica, que &eacute; sempre um segundo momento em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; verdade do amor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; O que &eacute; que a Hist&oacute;ria nos diz acerca de Jesus?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash; <\/em>&Eacute; uma personalidade fascinante, da qual temos muitas informa&ccedil;&otilde;es, mesmo parecendo que s&atilde;o poucas. Sabemos que ele &eacute; um crente judeu. Sabemos que l&ecirc; a tradi&ccedil;&atilde;o dos pais, a tradi&ccedil;&atilde;o das Escrituras, e que as comenta de uma forma que, ao mesmo tempo, est&aacute; em continuidade com a tradi&ccedil;&atilde;o prof&eacute;tica e messi&acirc;nica de Israel, mas tamb&eacute;m assume uma configura&ccedil;&atilde;o nova.<\/p>\n<p>Sabemos que Jesus era um mestre considerado no seu tempo porque os fariseus o acolhiam e convidavam para sua casa. Sabemos que fez uma experi&ecirc;ncia como os rabis faziam, que &eacute; a de ter um grupo de disc&iacute;pulos que ele inicia.<\/p>\n<p>Sabemos tamb&eacute;m que ele tem uma l&oacute;gica de diferencia&ccedil;&atilde;o, e mesmo de rutura, em rela&ccedil;&atilde;o ao seu tempo. Jesus prega uma palavra que &eacute; original, uma palavra de amor e inclus&atilde;o, uma palavra de perd&atilde;o, num sistema religioso demasiado fechado para o admitir.<\/p>\n<p>E a forma como ele fala de Deus &eacute; nova, original. H&aacute; uma dic&ccedil;&atilde;o de Deus que ele faz como ningu&eacute;m &ndash; &ldquo;Quem me v&ecirc;, v&ecirc; o Pai&rdquo;, diz a Filipe.<\/p>\n<p>E depois h&aacute; o seu pr&oacute;prio destino. N&atilde;o podemos esquecer que Jesus morre como um maldito. Jesus &eacute; exclu&iacute;do daquele sistema religioso porque a sua palavra, o seu estilo e a sua mensagem n&atilde;o eram comport&aacute;veis pelo universo religioso do seu tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Que rela&ccedil;&otilde;es estabeleceu Jesus com o universo pol&iacute;tico, nomeadamente do Imp&eacute;rio Romano?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> &Eacute; interessante olhar para as Escrituras e perceber que h&aacute; uma esp&eacute;cie de alian&ccedil;a t&aacute;cita entre o sistema religioso e pol&iacute;tico. Jesus era olhado pelos romanos, certamente, como um ser bizarro. O Imp&eacute;rio n&atilde;o compreendia Jesus e achava que ele era um problema que os judeus tinham de resolver.<\/p>\n<p>Mas vemos, a posteriori, o esfor&ccedil;o que os crist&atilde;os fazem, nomeadamente S&atilde;o Paulo e S&atilde;o Lucas, para traduzir o cristianismo numa linguagem que o universo helenista e romano pudesse compreender. O mundo pol&iacute;tico, tal como o mundo religioso, n&atilde;o compreendeu Jesus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; &Eacute; a terra de Jesus que n&atilde;o o compreende?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> H&aacute; um drama na narrativa de Jesus, que o pr&oacute;logo do evangelho de S&atilde;o Jo&atilde;o diz de forma muito clara: &ldquo;Ele veio para os que eram seus e os seus n&atilde;o o acolheram&rdquo;. Isto tem a ver com a terra de Jesus, com o contexto, com o sistema religioso fechado, com o sistema pol&iacute;tico, mas tamb&eacute;m com uma quest&atilde;o mais ampla, que &eacute; a da humanidade. Porque a terra de Jesus &eacute; o cora&ccedil;&atilde;o humano. Jesus encarna, torna-se um de n&oacute;s. Penso que &eacute; a n&iacute;vel da humanidade que essa compreens&atilde;o da recusa de Jesus tem de ser feita, porque ainda hoje Jesus, como proposta de vida e de revela&ccedil;&atilde;o de Deus, continua a n&atilde;o ser aceite, mesmo por aqueles que s&atilde;o seus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Podemos dizer que Jesus viveu entre inimigos, ou que teria inimigos?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Sem d&uacute;vida que o discurso de Jesus n&atilde;o era consensual e dividia. Colocava uns a favor dele e outros contra. Porque Jesus fala claro: &eacute; uma linguagem do &ldquo;sim, sim&rdquo;, &ldquo;n&atilde;o, n&atilde;o&rdquo;. S&atilde;o Lucas conta desde o cap&iacute;tulo 5.&ordm; que alguns faziam tudo para tramar e eliminar Jesus. Nesse sentido ele tinha inimigos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Entre os inimigos de Jesus est&atilde;o a fome, a exclus&atilde;o, a cruz?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Esses s&atilde;o os seus grandes inimigos. Mais do que designarmos grupos humanos, interessa perceber que os grandes opositores da mensagem crist&atilde; s&atilde;o o sofrimento da v&iacute;tima e do justo, a fome, o injustific&aacute;vel e o irrepar&aacute;vel da viol&ecirc;ncia e da guerra, o manto de ego&iacute;smo que se estende sobre as nossas sociedades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; A cruz &eacute; s&iacute;mbolo dessa oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; mensagem de Cristo?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> A cruz &eacute; um duplo s&iacute;mbolo. &Eacute; o s&iacute;mbolo da radicalidade do gesto crist&atilde;o. Jesus est&aacute; disposto a ir at&eacute; ao fim. &Eacute; um amor incondicional. &Eacute; um amor que vai ao extremo de si na l&oacute;gica do dom. A cruz &eacute; para n&oacute;s a &aacute;rvore da vida, tendo um sentido claramente positivo.<\/p>\n<p>Mas a cruz tamb&eacute;m tem o sentido do homic&iacute;dio, da m&aacute;quina torcion&aacute;ria que massacra o justo. E aqui ela &eacute; den&uacute;ncia de todos os processos que conduzem &agrave; viol&ecirc;ncia e &agrave; injusti&ccedil;a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Acredita na capacidade da linguagem da cruz nos dias de hoje?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> A cruz &eacute; uma linguagem paradoxal e tamb&eacute;m uma interpela&ccedil;&atilde;o. &Eacute; verdade que o pior que pode acontecer &eacute; quando ela se torna ornamento, quando a trazemos ao peito como trazemos um outro s&iacute;mbolo qualquer a que n&atilde;o damos import&acirc;ncia. Hoje os crist&atilde;os continuam a fazer a cruz sobre o seu corpo, e muitas vezes fazem-no de forma mec&acirc;nica. Isso &eacute; triste porque &eacute; diminuir e dispersar o sentido de levantamento que a cruz tem.<\/p>\n<p>O sentido da cruz &eacute; sempre paradoxal. &Eacute; amb&iacute;guo porque tem a ver com a hist&oacute;ria de sofrimento e rejei&ccedil;&atilde;o que Jesus protagoniza e tem a ver com a hist&oacute;ria do dom que ele exemplifica e testemunha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; O horizonte da ressurrei&ccedil;&atilde;o acaba por dar &agrave; cruz o sentido pleno&hellip;<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> N&atilde;o entendemos a cruz sem entender a ressurrei&ccedil;&atilde;o. A cruz &eacute; o limiar, o patamar, aquele momento mais fundo onde Jesus pode descer, como nos diz o hino da carta [de S&atilde;o Paulo] aos Filipenses: ele fez-se homem, o &uacute;ltimo dos homens. E isso &eacute; vis&iacute;vel na cruz de Jesus.<\/p>\n<p>O mist&eacute;rio da cruz n&atilde;o acaba nela &ndash; transcende-a e vence-a. Jesus &eacute; vencido e &eacute; vencedor, &eacute; triunfador da cruz precisamente porque h&aacute; a manh&atilde; de P&aacute;scoa, porque h&aacute; essa insurrei&ccedil;&atilde;o que ela representa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Tertuliano dizia que acreditava na ressurrei&ccedil;&atilde;o como algo absurdo, no sentido de que est&aacute; para l&aacute; da raz&atilde;o. &Eacute; nessa dimens&atilde;o do mist&eacute;rio que nos temos de situar?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> A ressurrei&ccedil;&atilde;o &eacute; o in&eacute;dito de Deus. N&oacute;s dizemos que &eacute; um absurdo, que contraria as evid&ecirc;ncias. Quando S&atilde;o Paulo, no Are&oacute;pago de Atenas, falou aos s&aacute;bios do seu tempo, eles mandaram-no voltar mais tarde porque n&atilde;o podiam acreditar naquela verdade. De facto a ressurrei&ccedil;&atilde;o estilha&ccedil;a as certezas humanas e o que temos a partir dos nossos sentidos e racionalidade. Ela &eacute; o poder de Deus, contrariando a vit&oacute;ria fatal que a morte parece ter sobre a hist&oacute;ria humana e sobre as nossas hist&oacute;rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Falemos dos espa&ccedil;os e contextos em que  Jesus, no seu tempo, se dava a conhecer. O espa&ccedil;o comensal adquire a&iacute; uma import&acirc;ncia vital?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> A mesa e a refei&ccedil;&atilde;o s&atilde;o extraordin&aacute;rias. &Eacute; interessante verificarmos que grande parte das hist&oacute;rias dos evangelhos sup&otilde;e uma refei&ccedil;&atilde;o. Os evangelhos s&atilde;o muito contados &agrave; mesa porque ela &eacute; a estrutura comunit&aacute;ria por excel&ecirc;ncia em todas as culturas. A mesa &eacute; um s&iacute;mbolo transversal. Nela n&oacute;s experimentamos a intimidade, como a rela&ccedil;&atilde;o flui, a vizinhan&ccedil;a.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; por acaso que a mensagem crist&atilde; se vai alojar nessa plataforma de intimidade que &eacute; a mesa. E que o grande s&iacute;mbolo crist&atilde;o, a eucaristia, que come&ccedil;a com a &uacute;ltima ceia, &eacute; alguma coisa que se faz &agrave; volta da mesa. Porque &agrave; mesa n&oacute;s alimentamo-nos do mesmo alimento, mas sobretudo &ndash; e &eacute; essa a for&ccedil;a da mesa &ndash; alimentamo-nos uns dos outros. Somos alimento uns dos outros. E nesse sentido Jesus d&aacute;-se como alimento e a intimidade que vivemos com ele &eacute; uma intimidade que nos constr&oacute;i.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Uma intimidade que Jesus proporciona a situa&ccedil;&otilde;es e pessoas que, no caso do mundo judaico, estariam longe de ser poss&iacute;veis. Por exemplo, com a mulher pecadora.<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> A comensalidade de Jesus &eacute; aberta. Isto &eacute; muito curioso porque o cristianismo &eacute; a &uacute;nica religi&atilde;o onde se pode comer de tudo com todos. A mesa crist&atilde; &eacute; inclusiva. N&atilde;o h&aacute; restri&ccedil;&otilde;es. Mesmo agora, na Quaresma, temos abstin&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; carne, mas &eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o pontual e com uma raz&atilde;o asc&eacute;tica, para implicar um esfor&ccedil;o interior de abnega&ccedil;&atilde;o. Porque verdadeiramente n&oacute;s podemos comer de tudo. E isso mostra como Jesus fez da mesa o grande &iacute;cone do reino de Deus e da proposta que Jesus faz dele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Nesse ambiente de comensalidade, a resposta de Jesus parece de outra ordem: no caso do encontro com a mulher pecadora, ele diz &ldquo;A tua f&eacute; te salvou&rdquo;.<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> &Agrave; mesa Jesus constr&oacute;i experi&ecirc;ncias de vida e de f&eacute;. &Eacute; verdade que eles deviam comer p&atilde;o, cordeiro, ervas amargas; deviam beber vinho e &aacute;gua. Mas o principal alimento era o encontro. &Eacute; muito interessante olharmos para os evangelhos porque eles narram sobretudo hist&oacute;rias de encontro. E a pecadora, que atravessa a hostilidade dos fariseus para chegar a Jesus, ou os publicanos que comiam com ele e faziam perguntar &ldquo;quem &eacute; este que come com os pecadores?&rdquo;, mostram bem como Jesus privilegia o encontro e a rela&ccedil;&atilde;o como lugar onde a f&eacute; &eacute; poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>Para n&oacute;s, a f&eacute; n&atilde;o &eacute; uma verdade abstrata, n&atilde;o &eacute; um conjunto de f&oacute;rmulas, n&atilde;o &eacute; simplesmente um credo. A f&eacute; &eacute; uma verdade praticada no interior de um encontro din&acirc;mico de descoberta, em que a nossa humanidade &eacute; abra&ccedil;ada por Jesus, &eacute; colocada aos seus ombros, e percebemos que &eacute; salva e renovada por ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Nessas situa&ccedil;&otilde;es Jesus foi objeto de esc&acirc;ndalo ao romper com o que hoje chamar&iacute;amos de pequenos gestos protocolares&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Ainda hoje, nas nossas sociedades, em que parece que tudo &eacute; muito mais fluido e livre, o protocolo de mesa continua a ser muito r&iacute;gido. &Eacute; muitas vezes o &uacute;nico lugar de ritualidade que mantemos. Por exemplo, &agrave; nossa mesa n&atilde;o se senta qualquer pessoa. E quando estamos em fam&iacute;lia h&aacute; uma distribui&ccedil;&atilde;o dos lugares. H&aacute; aquele que se serve primeiro e aquele que fica para o fim.<\/p>\n<p>&Eacute; belo ver que Jesus rompe com a ritualidade estabelecida e inscreve uma nova, em que os &uacute;ltimos ser&atilde;o os primeiros, em que h&aacute; espa&ccedil;o para todos, em que aquele que quer ser o primeiro &eacute; quem vai lavar os p&eacute;s e fazer os ritos de hospitalidade. Jesus funda um novo protocolo de mesa, que n&atilde;o &eacute; apenas para observar &agrave; refei&ccedil;&atilde;o, instituindo uma nova qualidade de rela&ccedil;&atilde;o entre os homens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; E isso tamb&eacute;m na dimens&atilde;o religiosa: no templo [de Jerusal&eacute;m] h&aacute; uma ocasi&atilde;o em que Jesus diz que ele pr&oacute;prio &eacute; o templo.<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> &Eacute; impressionante olhar para Jesus porque ele &eacute; um inovador. Ele escreve o gesto novo de Deus na hist&oacute;ria. E n&oacute;s vemos nas diversas situa&ccedil;&otilde;es &#8211; &agrave; mesa, em casa, mas tamb&eacute;m na sinagoga e no templo &#8211; como Jesus rompe com as ideias feitas, com o mundo de apar&ecirc;ncia, com um sistema fechado que exclu&iacute;a o irm&atilde;o e estreitava a imagem de Deus.<\/p>\n<p>O grande problema dos sistemas &eacute; que empobrecem e diminuem Deus. Jesus devolve uma imagem de Deus que &eacute; ampla, que faz justi&ccedil;a ao seu amor e miseric&oacute;rdia. Um exemplo para l&aacute; do templo &eacute; o pr&oacute;prio discurso religioso, que tem uma grande tend&ecirc;ncia a tornar-se estreito, monoc&oacute;rdico e empalidecido. Jesus fala uma linguagem religiosa aberta. N&atilde;o fala &agrave; maneira moralista. Jesus conta hist&oacute;rias, conta par&aacute;bolas. E nesse sentido fala de Deus de uma forma po&eacute;tica, que o d&aacute; a ver para l&aacute; dos nossos preconceitos, limita&ccedil;&otilde;es e obst&aacute;culos que colocamos. &Eacute; um Jesus inaugurador de pontes, um Jesus grande int&eacute;rprete da largueza de Deus, um Jesus que nos diz, como disse a Pedro, &ldquo;faz-te ao largo&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Jesus provocou nos fariseus interroga&ccedil;&otilde;es como esta: &ldquo;Quem &eacute; este que profere blasf&eacute;mias?&rdquo;. &Eacute; uma rea&ccedil;&atilde;o que pode provocar tamb&eacute;m hoje?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Jesus &eacute; heterodoxo. N&oacute;s, crist&atilde;os, n&atilde;o temos a verdade &ndash; somos medidos por ela. N&atilde;o possu&iacute;mos Jesus &ndash; &eacute; o esp&iacute;rito do ressuscitado que nos possui. E &eacute; ele que avalia, que &eacute; o crit&eacute;rio &uacute;ltimo das nossas vidas. Jesus n&atilde;o &eacute; uma pessoa que n&oacute;s manipulamos, mas algu&eacute;m para quem convergimos. Nesse sentido, ele continua a dar-nos a volta, continua a pedir-nos convers&atilde;o. Precisamos ouvi-lo, colocarmo-nos aos p&eacute;s dele, como Maria ficou aos p&eacute;s de Jesus a escut&aacute;-lo. Precisamos de aprender quem &eacute; Jesus.<\/p>\n<p>&Eacute; muito interessante o inciso que Dostoievsky tem nos &ldquo;Irm&atilde;os Karamazov&rdquo;, a lenda do grande inquisidor, que para n&oacute;s, crist&atilde;os, &eacute; um murro no est&ocirc;mago. Aparece de novo Jesus e o respons&aacute;vel da Inquisi&ccedil;&atilde;o manda prend&ecirc;-lo. E &agrave; noite vai falar com ele &agrave; pris&atilde;o, dizendo-lhe: &ldquo;Tu j&aacute; n&atilde;o tens lugar, agora somos n&oacute;s. A tua palavra &eacute; inc&oacute;moda, n&atilde;o a podemos ouvir. Agora ficamos n&oacute;s no teu lugar&rdquo;. Ora, a Igreja n&atilde;o ficou no lugar de Jesus. A Igreja &eacute; uma comunidade que continua a ter Jesus por mestre, no centro. Precisamos de viver numa convers&atilde;o permanente para escutarmos e vivermos em fidelidade a palavra de Jesus. Porque ele continua a surpreender-nos. O que ele diz &agrave; Igreja de cada tempo &eacute; que ela precisa de caminhar e esfor&ccedil;ar-se, precisa de abrir-se e renovar-se para poder continuar obediente a Jesus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; A Igreja ter&aacute; passado pela tenta&ccedil;&atilde;o de substituir Jesus?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Eu digo que sim por n&oacute;s pr&oacute;prios, por mim pr&oacute;prio. Penso que cada um de n&oacute;s vive essa tenta&ccedil;&atilde;o de olhar para a experi&ecirc;ncia crist&atilde; como uma sabedoria na qual somos iniciados, mas que depois &eacute; manipul&aacute;vel, adapt&aacute;vel &agrave;s nossas necessidades e desejos.<\/p>\n<p>Aquilo que o cristianismo nos prop&otilde;e &eacute; diferente. &Eacute; uma experi&ecirc;ncia de rela&ccedil;&atilde;o permanente, de descoberta, de audi&ccedil;&atilde;o. A Igreja est&aacute; &agrave; escuta da palavra de Jesus, que n&atilde;o &eacute; algu&eacute;m que eu conhe&ccedil;o &ndash; Jo&atilde;o Batista tem aquela frase maravilhosa: &ldquo;no meio de v&oacute;s est&aacute; algu&eacute;m que n&atilde;o conheceis&rdquo;. Jesus continua a ser algu&eacute;m que eu preciso de descobrir. E em cada Quaresma, em cada Tempo Pascal, tempos fortes de &lsquo;recentramento&rsquo;, a Igreja &eacute; chamada a esta primavera, que &eacute; no fundo a disponibilidade para reencontrar Jesus em toda a intensidade.<\/p>\n<p><em>PR\/PTE\/RM<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Primeira parte da conversa entre o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, padre Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, e o jornalista Paulo Rocha, diretor da Ag\u00eancia ECCLESIA<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[246,276,91,308],"class_list":["post-50962","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-liturgia","tag-pastoral-da-cultura","tag-quaresma","tag-semana-santa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50962","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50962"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50962\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50962"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50962"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50962"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}