{"id":50953,"date":"2011-04-19T11:41:06","date_gmt":"2011-04-19T11:41:06","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/04\/19\/as-agencias-de-rating-uma-nova-maquina-de-guerra-do-nosso-tempo\/"},"modified":"2011-04-19T11:41:06","modified_gmt":"2011-04-19T11:41:06","slug":"as-agencias-de-rating-uma-nova-maquina-de-guerra-do-nosso-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/as-agencias-de-rating-uma-nova-maquina-de-guerra-do-nosso-tempo\/","title":{"rendered":"As ag\u00eancias de rating \u2013 uma nova m\u00e1quina de guerra do nosso tempo?"},"content":{"rendered":"<p>Manuela Silva <!--more--> <\/p>\n<p>Nos &uacute;ltimos dias tem-se falado muito acerca de ag&ecirc;ncias de rating e das classifica&ccedil;&otilde;es que aquelas v&ecirc;m atribuindo aos Pa&iacute;ses ou aos bancos e, mais recentemente, &agrave;s cidades.<\/p>\n<p>Poder&aacute; parecer a algumas pessoas que estamos diante de uma realidade nova. N&atilde;o &eacute; o caso. Conv&eacute;m lembrar que a primeira empresa de rating existe h&aacute; mais de cem anos. Foi criada nos Estados Unidos com o objetivo de avaliar o risco dos investimentos no setor dos caminhos de ferro que, ent&atilde;o, come&ccedil;avam a ser constru&iacute;dos naquele Pa&iacute;s.<\/p>\n<p>O que s&atilde;o estas ag&ecirc;ncias de rating? Nem mais nem menos do que empresas de consultadoria que produzem &ndash; e vendem &ndash; informa&ccedil;&atilde;o acerca dos riscos que poder&atilde;o estar associados a determinadas aplica&ccedil;&otilde;es financeiras. Estas entidades avaliam esses riscos, classificando os pa&iacute;ses, as empresas, os&nbsp; bancos e at&eacute; as cidades e atribuindo-lhes&nbsp; classifica&ccedil;&otilde;es (ratings) que pretendem indicar o grau de incumprimento.<\/p>\n<p>&Eacute; sabido que quanto maior for o risco inerente a uma emiss&atilde;o de d&iacute;vida, maior ser&aacute; o retorno exigido pelos investidores, ou seja, maiores ser&atilde;o os juros por eles impostos aos seus credores. Compreende-se, por conseguinte, que as classifica&ccedil;&otilde;es feitas por estas ag&ecirc;ncias se revestem da maior import&acirc;ncia, pois v&atilde;o servir de guia aos investidores, aos emissores e aos administradores p&uacute;blicos para as suas tomadas de decis&atilde;o em mat&eacute;ria de investimento e de financiamento.<\/p>\n<p>Por esta raz&atilde;o, al&eacute;m de se exigir uma elevada compet&ecirc;ncia t&eacute;cnica por parte dessas ag&ecirc;ncias dada a complexidade das mat&eacute;rias analisadas e do grande impacto das classifica&ccedil;&otilde;es atribu&iacute;das sobre a economia dos pa&iacute;ses, a atividade dos bancos e de outras empresas e, indiretamente, nas condi&ccedil;&otilde;es de vida das pessoas, ter-se-&aacute; que garantir condi&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas de transpar&ecirc;ncia acerca dos crit&eacute;rios utilizados e da qualidade das fontes da informa&ccedil;&atilde;o recolhida assim como uma total isen&ccedil;&atilde;o quanto aos interesses em presen&ccedil;a.<\/p>\n<p>Ou seja, tal como se escreve na den&uacute;ncia recentemente apresentada na PGR, <em>n&atilde;o pode permitir-se que ajam por forma a alterar o pre&ccedil;o dos juros, direcionando o mercado para situa&ccedil;&otilde;es em que elas pr&oacute;prias ou os seus clientes tenham interesse e retirem benef&iacute;cios<\/em>.<\/p>\n<p>Ora, h&aacute; raz&otilde;es para pensar que estas condi&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas n&atilde;o estejam a ser respeitadas pelas tr&ecirc;s principais ag&ecirc;ncias de rating.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, porque &eacute; manifesto o seu elevado grau de concentra&ccedil;&atilde;o (90% da atividade), configurando uma situa&ccedil;&atilde;o de dom&iacute;nio do mercado e desrespeito pelas leis da concorr&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, porque se verifica uma situa&ccedil;&atilde;o de conflitualidade de interesses pelo menos em duas das ag&ecirc;ncias visadas, j&aacute; que, na respetiva estrutura do capital acionista, figuram empresas de fundos de investimento; num caso, em posi&ccedil;&atilde;o maiorit&aacute;ria e, noutro, com participa&ccedil;&atilde;o relevante no capital (superior a 11%). Estas empresas de investimento s&atilde;o tomadoras de d&iacute;vida soberana portuguesa (e tamb&eacute;m da Irlanda, Gr&eacute;cia e Espanha), o que leva a admitir que se empenhem em obter nota&ccedil;&otilde;es baixas para que estas lhes abram a porta &agrave; imposi&ccedil;&atilde;o de juros mais elevados.<\/p>\n<p>Por &uacute;ltimo, cabe referir que estas empresas de rating n&atilde;o explicitam com a devida transpar&ecirc;ncia os crit&eacute;rios que subjazem &agrave;s suas classifica&ccedil;&otilde;es e quando muito fazem aprecia&ccedil;&otilde;es vagas, que n&atilde;o abonam em seu favor.<\/p>\n<p>No caso de Portugal, s&atilde;o de estranhar mudan&ccedil;as repentinas e bruscas de classifica&ccedil;&atilde;o quando aparentemente n&atilde;o existem raz&otilde;es objetivas que as possam explicar.<\/p>\n<p>Por outro lado, &eacute; sabido que bancos americanos que foram &agrave; fal&ecirc;ncia eram cotados por estas ag&ecirc;ncias de rating com classifica&ccedil;&otilde;es m&aacute;ximas pouco tempo antes da fal&ecirc;ncia dos mesmos ter sido declarada. Sabe-se, hoje, pelo relat&oacute;rio da Comiss&atilde;o que investiga o colapso de 2007 entregue ao Senado americano que as ag&ecirc;ncias de rating j&aacute; tinham conhecimento da magnitude dos produtos t&oacute;xicos, mas que ter&atilde;o modificado os seus crit&eacute;rios para dar boa nota&ccedil;&atilde;o aos seus clientes.<\/p>\n<p>A concluir algumas quest&otilde;es:<\/p>\n<p>&#8211; Por que raz&atilde;o &eacute; t&atilde;o lenta a justi&ccedil;a na den&uacute;ncia e puni&ccedil;&atilde;o dos crimes econ&oacute;micos, nomeadamente quando est&atilde;o em causa grandes poderes financeiros?<\/p>\n<p>&#8211; Por que raz&atilde;o n&atilde;o foi ainda criada uma ou mais ag&ecirc;ncias de rating no &acirc;mbito da Uni&atilde;o Europeia, com condi&ccedil;&otilde;es de independ&ecirc;ncia e isen&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8211; Por que raz&atilde;o se abriu um fosso t&atilde;o grande entre o mundo financeiro e a &eacute;tica?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o estar&aacute; a falta de &eacute;tica a minar os alicerces da nossa civiliza&ccedil;&atilde;o e a p&ocirc;r em causa o nosso pr&oacute;prio futuro?<\/p>\n<p>&#8211; Que t&ecirc;m os crist&atilde;os a propor para contrariar a centralidade do lucro na vida econ&oacute;mica e financeira, com concomitante descaso do desenvolvimento sustent&aacute;vel, da qualidade de vida das pessoas e da coes&atilde;o social?&nbsp;<\/p>\n<p>Estes e outros assunto s&atilde;o regularmente abordados no blogue <a href=\"http:\/\/areiadosdias.blogspot.com\/\">http:\/\/areiadosdias.blogspot.com<\/a><\/p>\n<p align=\"right\"><em>Manuela Silva, economista<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuela Silva<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[191],"class_list":["post-50953","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-economia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50953","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50953"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50953\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50953"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50953"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50953"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}