{"id":50734,"date":"2011-04-05T12:36:53","date_gmt":"2011-04-05T12:36:53","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/04\/05\/perseverantes-ou-inquietos-o-job-sofredor-que-existe-em-todos-nos\/"},"modified":"2011-04-05T12:36:53","modified_gmt":"2011-04-05T12:36:53","slug":"perseverantes-ou-inquietos-o-job-sofredor-que-existe-em-todos-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/perseverantes-ou-inquietos-o-job-sofredor-que-existe-em-todos-nos\/","title":{"rendered":"Perseverantes ou inquietos: o Job sofredor que existe em todos n\u00f3s!"},"content":{"rendered":"<p>Lu\u00edsa Maria Almendra, UCP <!--more--> <\/p>\n<p><strong>O Livro de Job debate-se<\/strong><strong> <\/strong>com muitas perguntas, de entre elas, uma das mais desafiadoras &eacute; a quest&atilde;o: <strong>porque &eacute; que sofremos?<\/strong><strong> <\/strong>Alguns falam que o sofrimento &eacute; algo que nos acontece por acaso e aquele que sofre &eacute; simplesmente um mal-afortunado. Outros defendem que o sofrimento pode ser caminho para um sentido at&eacute; ent&atilde;o desconhecido. Neste &uacute;ltimo caso, aquele que sofre pode ou deve aprender a viver o sofrimento sem se deixar abater por ele. E &eacute; assim que alguns de n&oacute;s sofremos, tentando integrar a dor na certeza de que o sofrimento tem sentido e significado. Por&eacute;m as perguntas persistem: &eacute; poss&iacute;vel conhecer este sentido? Haver&aacute; mais do que um significado para o nosso sofrimento? O simples facto de conhecer este sentido pode fazer alguma diferen&ccedil;a na nossa vida?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O autor do Livro de Job acreditava que havia uma resposta adequada para a pergunta sobre o nosso sofrimento. E, por isso, ousa surpreender-nos, colocando-nos perante um &laquo;grito&raquo; veemente de ang&uacute;stia e de dor: <em>Por fim, Job abriu a boca e amaldi&ccedil;oou o dia do seu nascimento. Tomou a palavra e disse: &laquo;Desapare&ccedil;a o dia em que nasci e a noite em que foi dito:&lsquo;Foi concebido um var&atilde;o!&rsquo; &raquo;<\/em> (Jb 3,1-3). Nada, no in&iacute;cio do livro (Jb 1-2), nos havia preparado para um tal derramar de amarga afli&ccedil;&atilde;o. A simples imagem de amaldi&ccedil;oar o dia do nascimento &eacute; suficientemente vigorosa. O sofrimento que Job vive no momento presente f&aacute;-lo desejar a simples supress&atilde;o do dia do seu nascimento. Por outras palavras, o seu sofrimento &eacute; de tal modo aterrador, nas suas implica&ccedil;&otilde;es, que o leva a amea&ccedil;ar at&eacute; mesmo a ordem que Deus estabeleceu na cria&ccedil;&atilde;o<em>: Converta-se esse dia em trevas! Deus, l&aacute; do alto, n&atilde;o se preocupe com ele nem a luz o venha iluminar. Apoderem-se dele as trevas e a escurid&atilde;o. Que as nuvens o envolvam e os eclipses o apavorem!&#8230; <\/em>(Jb 3,4-5).<\/p>\n<p>Este grito emerge como a abertura &agrave; grande &laquo;sinfonia&raquo; do sofrimento. As palavras de Job prosseguem com o som semelhante ao de um trov&atilde;o, sublinhando o seu desejo de, pelo menos, poder ter habitado de imediato a morada dos mortos, ali onde ele acredita n&atilde;o haver lugar para a puni&ccedil;&atilde;o nem para a recompensa de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&Eacute; no contexto deste doloroso lamento pessoal que o autor coloca, na boca de Job, a quest&atilde;o do sofrimento do ser humano em geral: <em>Por que raz&atilde;o foi dada luz ao infeliz, e vida &agrave;queles para quem s&oacute; h&aacute; amargura? Esses esperam a morte que n&atilde;o vem e a procuram mais do que um tesouro, esses saltariam de j&uacute;bilo e se alegrariam por chegar ao sepulcro. Porque vive um homem cujo caminho foi barrado e a quem Deus cerca por todos os lados? <\/em>(Jb 3,20-21.23).<\/p>\n<p>A quest&atilde;o do sofrimento deixa de ser uma situa&ccedil;&atilde;o particular, para tornar-se a mira de uma conting&ecirc;ncia comum a todo o ser humano. Por&eacute;m, a verdade fica bem assinalada: foi da quest&atilde;o, porque &eacute; que este sofrimento me est&aacute; a acontecer a mim que desabrochou a urg&ecirc;ncia da quest&atilde;o, porque &eacute; que todo o ser humano sofre?<\/p>\n<p>N&oacute;s n&atilde;o sabemos exatamente qual era o sofrimento que atingia Job. Conhecemos apenas alguns acontecimentos dolorosa que marcaram a sua vida (Jb 1-2; 7,5). Os detalhes do seu sofrimento n&atilde;o parecem importantes, porque a causa da ang&uacute;stia de Job parece ser mais profunda que a perda mais querida ou que a dor mais forte. N&atilde;o &eacute; o sofrimento em si mesmo que est&aacute; em causa, mas aquilo que esse sofrimento implica. Job tinha constru&iacute;do a sua vida numa f&eacute; impl&iacute;cita de que o universo era regido por uma ordem interna coerente.<\/p>\n<p>Uma ordem que todo o ser humano conhecia e sob a qual organizava toda a sua vida. Era, por isso, normal esperar algo de bom na vida, principalmente quando se era bom. Por&eacute;m, um tal sofrimento imerecido &eacute; inexplic&aacute;vel. Job coloca tudo em quest&atilde;o, mergulhando-se numa esp&eacute;cie de desespero, onde toda a vida humana parece reduzir-se a uma quest&atilde;o de boa ou m&aacute; &laquo;sorte&raquo;. Job parece mesmo aproximar-se do abismo que &eacute; considerar isto como a verdade da exist&ecirc;ncia humana. Ser&aacute; preciso ler muito atentamente o decorrer das suas palavras e das palavras que s&atilde;o pronunciadas pelos amigos (Jb 3-31), pelo pr&oacute;prio Deus (Job 38,1-42,6) e finalmente por um jovem (Jb 32-37) e muitos outros s&aacute;bios (Jb 28), para entrevermos a dire&ccedil;&atilde;o que, naquela altura, tomou a resposta &agrave; quest&atilde;o do sofrimento. Os amigos n&atilde;o responderam, limitando-se a justificar o agir insond&aacute;vel Deus e culpabilizar Jb (32,1-7). O pr&oacute;prio Deus parece n&atilde;o responder diretamente a nenhuma das quest&otilde;es colocadas por Job (Jb 38,1-42,6).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por breves momentos, o autor parece abrigar a grande quest&atilde;o do sofrimento de Jb e de todo o ser humano na aparente insondabilidade do mist&eacute;rio e da alteridade divina (<em>De facto, eu falei de coisas que n&atilde;o entendia, de maravilhas que superavam o meu saber &#8211; <\/em>Jb 42,3b). Na verdade, precisamos de demorar-nos algum tempo para nos refazermos do impacto das palavras e da leitura, e entrevermos finalmente que a resposta se oculta na esperan&ccedil;a singular e not&aacute;vel que Job sempre manifestou em Deus (&hellip;<em>para Deus correm as l&aacute;grimas dos meus olhos<\/em>. Jb 16,20; cf. 17,2-3; 19,25-27). Com Job todo o leitor crente aprende que a resposta &agrave; quest&atilde;o do sofrimento est&aacute; dentro de si mesmo, na sua capacidade de n&atilde;o desesperar, mas antes de esperar e de esperar sempre em Deus. No entanto, se &eacute; absolutamente necess&aacute;rio, ali no cora&ccedil;&atilde;o do nosso sofrimento, encontrar uma esperan&ccedil;a em Deus, ent&atilde;o Job e todo o ser humano ter&atilde;o de se voltar para o pr&oacute;prio Deus e de, em todos momentos, aprender a pedir Deus a Deus. E &eacute; um pouco, por tudo isto, que podemos dizer que o Livro de Job, embora colocando perguntas, algumas delas sobre o sofrimento, &eacute; sobretudo o Livro da grande procura de Deus que, percorrendo caminhos tortuosos e dif&iacute;ceis, desagua numa esperan&ccedil;a &uacute;ltima que s&oacute; Deus &eacute;.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Lu&iacute;sa Maria Almendra, professora da Faculdade de Teologia da UCP<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00edsa Maria Almendra, UCP<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[321],"class_list":["post-50734","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50734","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50734"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50734\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50734"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50734"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50734"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}