{"id":50652,"date":"2011-03-29T17:48:29","date_gmt":"2011-03-29T17:48:29","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/03\/29\/homilia-do-bispo-das-forcas-armadas-e-de-seguranca-na-evocacao-dos-antigos-combatentes\/"},"modified":"2011-03-29T17:48:29","modified_gmt":"2011-03-29T17:48:29","slug":"homilia-do-bispo-das-forcas-armadas-e-de-seguranca-na-evocacao-dos-antigos-combatentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-das-forcas-armadas-e-de-seguranca-na-evocacao-dos-antigos-combatentes\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo das For\u00e7as Armadas e de Seguran\u00e7a na evoca\u00e7\u00e3o dos antigos combatentes"},"content":{"rendered":"<p>1. Em 1 de Janeiro de 1974, no 7.&ordm; Dia Mundial da Paz, era entregue, de m&atilde;o em m&atilde;o, &agrave;s portas das Igrejas do Porto, uma simples folha policopiada, com este dizer: &ldquo;H&aacute; 13 anos que Portugal mant&eacute;m uma guerra na Guin&eacute;, em Angola e Mo&ccedil;ambique. Com toda uma s&eacute;rie de consequ&ecirc;ncias, que nos tocam de perto (&hellip;). &Eacute; a n&oacute;s que nos &eacute; lembrado hoje e para todo este ano: a Paz depende tamb&eacute;m de ti. O apelo do Papa Paulo VI n&atilde;o deixa nenhuma escapat&oacute;ria&rdquo;.<\/p>\n<p>Em qualquer inst&acirc;ncia da vida, a guerra arrasta consigo o clamor da bravura, o protesto contra o pavor, o incontido de sentimentos, as disson&acirc;ncias e tens&otilde;es pol&iacute;ticas. Por vezes, e a prop&oacute;sito da Guerra do Ultramar, brada-se &agrave; revolta, porque os traidores de ontem, assim chamados, foram depois, pela hist&oacute;ria, os her&oacute;is; tamb&eacute;m os her&oacute;is, expoentes de outras eras, foram mais tarde acoimados de traidores. H&aacute; temas que escapam &agrave; acalmia.<\/p>\n<p>A Guerra do Ultramar, guerra de ou em &Aacute;frica ou guerra Colonial (at&eacute; o adere&ccedil;o fomenta equ&iacute;vocos e desconfian&ccedil;as) arrastou sempre consigo m&uacute;ltiplas e azedas posi&ccedil;&otilde;es. Como falar de algo, do qual foi imposto n&atilde;o falar em outros tempos? N&atilde;o tenho d&uacute;vidas de que houve combatentes por convic&ccedil;&atilde;o; tamb&eacute;m estiveram presentes rebeldes e contrariados que, forjaram com a obedi&ecirc;ncia &agrave; lei, cent&iacute;metro a cent&iacute;metro, o desabar do Imp&eacute;rio: foi nas matas de &Aacute;frica que o governo de Lisboa caiu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. S&atilde;o os mortos dessa saga p&aacute;tria, que aqui nos congregam; s&atilde;o tamb&eacute;m os vivos, porventura tantos deles, muito mais realizados enquanto protagonistas da submiss&atilde;o &agrave; P&aacute;tria, do que, mais tarde, por motivo da mesma P&aacute;tria, sentirem-se constrangidos pelo esquecimento, solid&atilde;o e desinteresse.<\/p>\n<p>Bem devemos hoje entoar o sentido da Palavra de Deus t&atilde;o nossa conhecida: &ldquo;Dai-nos o p&atilde;o de cada dia, libertai-nos do mal, reconciliai-nos com os outros e com a Hist&oacute;ria, salvai-nos das ofensas e opress&otilde;es cometidas&rdquo; e que a tua Palavra cumpra a Miss&atilde;o da Paz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. Sempre que celebramos a Eucaristia n&atilde;o escamoteamos acontecimentos nem homenageamos situa&ccedil;&otilde;es. Ao contr&aacute;rio, oramos por cada um e por todos, tenham sido considerados profetas e construtores de novos tempos ou cavaleiros de um novo Apocalipse. A Eucaristia n&atilde;o &eacute; a canoniza&ccedil;&atilde;o de conflitos, pa&iacute;ses ou potentados. &Eacute; comunh&atilde;o libertadora, contempla&ccedil;&atilde;o sobre a vida, abertura ao encargo de fazer ressuscitar para a Justi&ccedil;a e para a Paz as intranquilidades, as tens&otilde;es e as m&aacute;s mem&oacute;rias. N&atilde;o esquecemos ningu&eacute;m. N&atilde;o discriminamos ningu&eacute;m. Da Palavra de Deus vem o apelo a nunca nos reduzirmos &agrave; neutralidade ou &agrave; coniv&ecirc;ncia com cap&iacute;tulos de um viver colectivo, que nunca deveriam ter existido. Que os mortos vivam na paz de Deus; que os vivos releiam os factos e as interven&ccedil;&otilde;es da humanidade &agrave; luz do respeito pela dignidade humana, das li&ccedil;&otilde;es da liberdade e da democracia, dos valores de um Estado de direito, da excel&ecirc;ncia de uma cultura de igualdade de oportunidades, que nunca da bancarrota, dos desmandos, da incompet&ecirc;ncia e da cal&uacute;nia.<\/p>\n<p>E que a P&aacute;tria, que os enviou em miss&atilde;o, e em miss&atilde;o t&atilde;o espinhosa, fa&ccedil;a justi&ccedil;a!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4. &Eacute; fundamental refontalizar a vis&atilde;o do Papa Jo&atilde;o XXIII e do n&uacute;mero 42 da Carta Enc&iacute;clica &ldquo;<em>Pacem in Terris&rdquo;<\/em>: &ldquo; Dado que todos os povos, j&aacute; conseguiram a sua liberta&ccedil;&atilde;o ou se encontram em vias de a conseguir, num futuro pr&oacute;ximo j&aacute; n&atilde;o haver&aacute; povos que dominam os outros, nem povos que obede&ccedil;am a pot&ecirc;ncias estranhas&rdquo;; &eacute; inesquec&iacute;vel evocar o testemunho de grandes bispos e mission&aacute;rios como o her&oacute;i e santo D. Sebasti&atilde;o Soares de Resende, D. Manuel Vieira Pinto, D. Mois&eacute;s Alves de Pinho, Arcebispo de Luanda, e tantos mais, como de numerosos&nbsp; padres portugueses e estrangeiros, pacificadores e justos e de capel&atilde;es militares que, no seu anonimato, apoiaram as popula&ccedil;&otilde;es locais e foram sustent&aacute;culos de valores e de raz&otilde;es ao servi&ccedil;o das For&ccedil;as Armadas. N&atilde;o &eacute; momento aprazado para aprofundar esta Hist&oacute;ria. N&atilde;o tenho d&uacute;vidas de que interesses<strong> <\/strong>rapaces<strong> <\/strong>motivaram pot&ecirc;ncias estrangeiras e cumplicidades nacionais. Mas, de igual modo, a pol&iacute;tica portuguesa, face &agrave; trucul&ecirc;ncia e &agrave; revolta, n&atilde;o teve nem podia ter, no horizonte da ideologia ditatorial, uma solu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, aberta e conforme, que contribu&iacute;sse para a emancipa&ccedil;&atilde;o dos aut&oacute;ctones, protegendo, ao mesmo tempo, os portugueses presentes, sujeitos ao vilip&ecirc;ndio.<\/p>\n<p>As for&ccedil;as militares portuguesas foram at&eacute; ao extremo de uma ac&ccedil;&atilde;o interventiva, for&ccedil;adas a esgotar um tempo em ordem a que um governo buscasse a solu&ccedil;&atilde;o civilizacional.<\/p>\n<p>Tudo isto representou um logro. Na perspectiva da filosofia pol&iacute;tica, o regime portugu&ecirc;s foi diligente aluno do &ldquo;resistir&rdquo;, emblema de n&atilde;o poucas escolas anquilosadas e opositor a sistemas de pol&iacute;ticas condignas da descoloniza&ccedil;&atilde;o. E, por ironia, embora de consequ&ecirc;ncia se tratasse, os militares maltratados s&oacute; tiveram que dar ligeiro empurr&atilde;o para que a aparente robustez governamental oficializasse a sua anunciada despromo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Os combatentes foram as grandes v&iacute;timas de quem desconhecia o surto da hist&oacute;ria. Mas cumpriram a miss&atilde;o, e a gosto e a contragosto, protagonizaram um plano.<\/p>\n<p>Pela palavra de um bispo, foi-lhes pedido que restabelecessem a ordem justa onde reinasse a desordem, que defendessem o direito violado, onde vigorasse a viola&ccedil;&atilde;o do direito e realizassem as obras da paz em ordem ao bem comum, a saber: impedir o dom&iacute;nio ditatorial ou totalit&aacute;rio de outras pot&ecirc;ncias; tudo promover para que, de forma ordeira e inteligente, respeitados os portugueses locais, fosse devolvido aos povos o que aos povos pertencia.<\/p>\n<p>&Eacute; mister honrar quem foi enviado, sobretudo quando, no ap&oacute;s, os condicionalismos de debilidade f&iacute;sica e psicol&oacute;gica e de situa&ccedil;&otilde;es econ&oacute;mico-sociais n&atilde;o alcan&ccedil;aram o respeito da justi&ccedil;a e da gratid&atilde;o. Este &eacute; o problema nacional, herdado da Guerra do Ultramar. Em vez de paix&otilde;es e de agressividades ret&oacute;ricas de gente que se exalta, bem mais consequente seria lan&ccedil;ar m&atilde;o aos sofredores e injusti&ccedil;ados:<\/p>\n<p>Nunca mais a guerra. Que o sacrif&iacute;cio das v&iacute;timas tombadas<strong> <\/strong>nos alcance a paz e a conc&oacute;rdia.<\/p>\n<p>E, Senhor, livrai-nos de todo o mal. Dai-nos o p&atilde;o da justi&ccedil;a e da tranquilidade na ordem.<\/p>\n<p>&Aacute;men.<\/p>\n<p>Lisboa, Mosteiro de Santa Maria de Bel&eacute;m &ndash; Jer&oacute;nimos &ndash; 15 de Mar&ccedil;o de 2011<\/p>\n<p align=\"right\"><em>D. Janu&aacute;rio Torgal Mendes Ferreira, Bispo das For&ccedil;as Armadas e de Seguran&ccedil;a<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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