{"id":5065,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/ser-bispo-do-porto\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"ser-bispo-do-porto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ser-bispo-do-porto\/","title":{"rendered":"Ser Bispo do Porto"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 normal que o pastor de um dado territ\u00f3rio acolha e comungue com o idiossincrasia do povo que lhe foi confiado. Assumir as caracter\u00edsticas de uma diocese com hist\u00f3ria \u00e9 de elementar lucidez. Perceber as energias e potenciar os valores de uma tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 exerc\u00edcio essencial para o lan\u00e7amento de projectos e para a descoberta de rumos. \u00c9 que ao l\u00edder, mesmo pastoral, requer-se esta capta\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas de uma regi\u00e3o e ousadia de propostas para fazer crescer as potencialidades e colmatar as lacunas. Ora, pertencem \u00e0 identidade ciosa e aut\u00f3noma do portuense: um car\u00e1cter de honra gran\u00edtica, uma tonalidade s\u00f3bria e altiva de quem emergiu na afirma\u00e7\u00e3o do poder \u00e0 custa do trabalho desenvolto, um tratamento \u00e1spero e rude com sabor a maresia, uma alma patente no bom cora\u00e7\u00e3o, generoso e leal. Herculano chamava-lhe \u201cantigo car\u00e1cter portugu\u00eas\u201d. Torga apercebia-se da \u201csaud\u00e1vel consci\u00eancia gregr\u00e1ria\u201d que n\u00e3o se anima com \u201ccavalarias cosmopolitas\u201d. Cortes\u00e3o n\u00e3o via que o \u201czeloso amor \u00e0s liberdades locais esfriasse o sentido e a consci\u00eancia da unidade nacional.\u201d A vis\u00e3o desembara\u00e7ada, fruto da longa influ\u00eancia mercantil, n\u00e3o esperou ningu\u00e9m, em v\u00e1rios momentos da hist\u00f3ria, para lutar pela liberdade amea\u00e7ada, contra o poder centralista. Desde a Idade M\u00e9dia, passando pelo despotismo pombalino, chegando \u00e0s duras guerras liberais e \u00e0 actualidade, o Porto exerceu uma liberdade cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao poder institu\u00eddo. A experi\u00eancia de estar longe do poder, sem perder a consci\u00eancia do peso das decis\u00f5es na vida das gentes ocasionou no pa\u00eds movimentos de altera\u00e7\u00e3o renovadora, na linha do futuro. Pratica-se uma linguagem frontal, sem almofadas e rodeios. As rever\u00eancias e salamaleques da abordagem urbana, carregada de c\u00e1lculos e diplomacias manhosas, n\u00e3o seduzem as gentes do Porto. Como tem sido vivida a rela\u00e7\u00e3o entre o Burgo e o Bispo n\u00e3o cabe neste espa\u00e7o. Desde os suevos \u00e0 urbe episcopal, restaurada pelo foral de D. Teresa ao bispo franc\u00eas D. Hugo, da liberdade conseguida pelos cidad\u00e3os at\u00e9 ao respeito pela voz livre do Bispo h\u00e1 uma hist\u00f3ria curiosa. \u00c9, no entanto, recente a atribui\u00e7\u00e3o de peso espec\u00edfico \u00e0 express\u00e3o \u201cser Bispo do Porto\u201d. S\u00f3 acontece em virtude de figuras marcantes que expressaram em atitudes concretas a sua ades\u00e3o e correspond\u00eancia \u00e0 cidade a \u00e0 diocese. Basta recordar dois bispos dados ao Porto no princ\u00edpio e nos finais do s\u00e9culo XX, que captaram o tom pr\u00f3prio da cidade. O bondoso mission\u00e1rio D. Ant\u00f3nio Barroso foi bispo do Porto entre 1899 e 1918. Provou, na coragem com que defendeu a liberdade da Igreja perante os atropelos e ofensas republicanas, ser homem destemido, sem se vergar diante da injusti\u00e7a. Sofreu o alto pre\u00e7o de dois ex\u00edlios e conquistou o cora\u00e7\u00e3o dos por-tuenses. No final do s\u00e9culo, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes, bispo do Porto entre 1952 e 1982, enfrentou o regime de Salazar com cr\u00edticas nascidas da doutrina social da Igreja. Denuncia o aparente concordismo da pol\u00edtica do Estado Novo com as posi\u00e7\u00f5es autenticamente crist\u00e3s. A liberdade ousada da sua verticalidade obrigou-o a dez anos de ex\u00edlio fora do pa\u00eds. Mas nem essa experi\u00eancia amarga calou a voz prof\u00e9tica do Bispo do Porto. Continuou fiel \u00e0 dif\u00edcil miss\u00e3o de Bispo e as interven\u00e7\u00f5es, antes e depois do 25 de Abril, apontaram caminhos questionado-res da realidade vigente e lan\u00e7aram luz inovadora para os problemas nacionais. O facto de viverem pr\u00f3ximos da realidade do trabalho, do concreto existencial das popula\u00e7\u00f5es permite aos bispos um pressentimento da evolu\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e a antevis\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es para os problemas, por via directa e n\u00e3o discursiva. Os lugares s\u00f3 marcam os que os ocupam quando h\u00e1 simultaneamente consci\u00eancia de um cumprimento fiel do encargo e liberdade para recriar o \u00e2nimo de um povo. Ao aceitar a miss\u00e3o episcopal, a humildade recomenda ao pastor que d\u00ea continuidade cr\u00edtica ao legado regional, por realismo cultural e n\u00e3o por regionalismos distorcidos do bem nacional ou afastados da dimens\u00e3o evang\u00e9lica, diapas\u00e3o de todas as op\u00e7\u00f5es. \u00c9 isso que tem permitido aos bispos do Porto identificarem-se, atrav\u00e9s dos seus dotes e limites pessoais, com a tonalidade humana encontrada e construirem, em complementa-ridade, um projecto evangelizador para esse terreno espec\u00edfico. Alguns mostraram-se excelentes bispos da Igreja universal, \u00e0 maneira do Porto. O modo \u00e9 relativo, at\u00e9 estranho para habituados a estilos diferentes ou a episcopado sem estilo definido. Portugal tem benefeciado todo destes contributos.  Carlos A. Moreira Azevedo <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 normal que o pastor de um dado territ\u00f3rio acolha e comungue com o idiossincrasia do povo que lhe foi confiado. Assumir as caracter\u00edsticas de uma diocese com hist\u00f3ria \u00e9 de elementar lucidez. 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