{"id":50643,"date":"2011-03-29T12:27:09","date_gmt":"2011-03-29T12:27:09","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/03\/29\/crer-na-fronteira-como-dor-e-graca\/"},"modified":"2011-03-29T12:27:09","modified_gmt":"2011-03-29T12:27:09","slug":"crer-na-fronteira-como-dor-e-graca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/crer-na-fronteira-como-dor-e-graca\/","title":{"rendered":"Crer na fronteira como dor e gra\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Fraz\u00e3o Correia, sj <!--more--> <\/p>\n<p>Do centro uno e est&aacute;vel para a instabilidade das m&uacute;ltiplas periferias, a gosto ou a contragosto, tem sido este o sentido da desloca&ccedil;&atilde;o do cristianismo na cultura ocidental. Na pra&ccedil;a das nossas tend&ecirc;ncias culturais e sociais e nos laborat&oacute;rios das nossas possibilidades t&eacute;cnicas e cient&iacute;ficas, a sua relev&acirc;ncia para determinar o curso das coisas tem vindo a esbater-se. Considerado aqu&eacute;m ou al&eacute;m dos gostos, das ideias e das pr&aacute;ticas que podem configurar o mundo contempor&acirc;neo, quando ainda &eacute; evocado, parece ser mais como reservat&oacute;rio de s&iacute;mbolos culturais ou cita&ccedil;&atilde;o de um passado religioso e moral ido do que como for&ccedil;a e forma de uma exist&ecirc;ncia que valha a pena. A imagem do cristianismo como fundo ideol&oacute;gico ultrapassado ou como devo&ccedil;&atilde;o irrelevante, remete a f&eacute; crist&atilde; para longe da complexidade da exist&ecirc;ncia dos homens e mulheres do nosso tempo. &Eacute; como se a verdade que professa e o caminho de vida que promete tivessem deixado de ser, afectiva e efectivamente, pertinentes e relevantes, vitais e operativos.<\/p>\n<p>Em tempos de fluidez e de tr&acirc;nsito permanente, o acto de f&eacute; e as pr&aacute;ticas crentes deixaram de contar com a protec&ccedil;&atilde;o de um centro reconhecido e incontestado, bem delimitado e seguro. Perante a indiferen&ccedil;a de muitos e a hostilidade de alguns, torn&aacute;mo-nos pobres, n&atilde;o tanto de coisas, mas de relev&acirc;ncia, de lugares e de identidade (S. Morra). Perdido o centro que definia e geria tudo a partir de cima e de dentro, o cristianismo parece atravessar, hoje, a dor da perda e da inseguran&ccedil;a. Como tantos outros no passado, v&ecirc;-se, a si pr&oacute;prio, na margem, exclu&iacute;do, inseguro. Os pap&eacute;is inverteram-se.<\/p>\n<p>Ser&aacute; este um mal contra o qual resistir her&oacute;ica e estoicamente, perante a suposta inevitabilidade do abismo? Ser&aacute;, pelo contr&aacute;rio, motivo suficiente para a resigna&ccedil;&atilde;o lamuriosa de quem, no fundo, deixou de crer que o Evangelho possa ser reconhecido e acolhido como boa not&iacute;cia que faz viver e da qual se pode viver? N&atilde;o poderemos olhar este momento hist&oacute;rico como dom fecundo de uma noite escura (J. da Cruz), dolorosa, mas necess&aacute;ria para algo mais aut&ecirc;ntico? O que estamos a perder n&atilde;o parece essencial &agrave; f&eacute; em  Jesus. Ser&aacute;, antes, uma falsa seguran&ccedil;a (cultural, pol&iacute;tica, &eacute;tica, etc.) que, em muitos casos e momentos, parece ter obscurecido e enfraquecido o Evangelho. Por isso, se nos deixarmos atravessar pela prova, a noite abrir&aacute; os nossos olhos (J. Tolentino); o vazio restituir-nos-&aacute; O sempre presente (D. Faria); a fractura instaurar&aacute; coisas novas, um corpo eclesial renovado (M. de Certeau).<\/p>\n<p>Tal como no princ&iacute;pio &ndash; ou j&aacute; nos teremos esquecido? &ndash;, a morte &eacute; o caminho para a vida e a perda o lugar do encontro. Poderemos redescobrir que morrer para o poder e para o conforto do centro para viver o tr&acirc;nsito inseguro das periferias, afinal, n&atilde;o &eacute; perda, mas reapropria&ccedil;&atilde;o do lugar que Jesus escolheu para si e da vitalidade pr&oacute;pria ao seu seguimento; n&atilde;o &eacute; solid&atilde;o, mas comunh&atilde;o com os &uacute;ltimos, aqueles de quem &eacute; o Reino dos C&eacute;us; n&atilde;o &eacute; aus&ecirc;ncia de Deus, mas reencontro com o Mist&eacute;rio encarnado nos cumes e abismos da nossa humanidade e que sempre resiste a toda a posse ideol&oacute;gica e idol&aacute;trica.<\/p>\n<p>Crer na fronteira significar&aacute;, assim, depositar confian&ccedil;a no lugar que nos oferece o &ecirc;xodo como domic&iacute;lio, a perda como ganho, os &uacute;ltimos como pessoas de casa. N&atilde;o tendo, tal como o Mestre, lugar onde repousar a cabe&ccedil;a, aprenderemos, realmente, a ter todo o mundo como casa. E acolheremos a imprevisibilidade de cada circunst&acirc;ncia e encontro como momento de gra&ccedil;a e a escassez de reconhecimento como alimento bastante. A suspei&ccedil;&atilde;o que poderia suscitar este lugar de passagem e de instabilidade, de miscigena&ccedil;&atilde;o e de impureza, face aos centros est&aacute;veis, guardi&atilde;es de identidade pura e inabal&aacute;vel, d&aacute; lugar &agrave; confian&ccedil;a de que a f&eacute; em Jesus de Nazar&eacute; n&atilde;o quer ser sem a diversidade de pessoas, tempos e modos, os seus dramas e &ecirc;xitos. Assumidas pelo pr&oacute;prio Verbo exposto na nossa carne, as fronteiras dos nossos percursos concretos de vida, s&atilde;o-nos dadas, de novo, como lugar fecundo de f&eacute; e de vida.<\/p>\n<p>Este renovado e generoso contacto, tanto com os ritmos e lugares da nossa humanidade, como com o Evangelho e os mist&eacute;rios crist&atilde;os, n&atilde;o deixar&aacute; de incidir na qualidade da nossa sensibilidade e intelig&ecirc;ncia, no modo como celebramos e acolhemos. Tocar&aacute; a qualidade da ora&ccedil;&atilde;o e da cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica, dos percursos de inicia&ccedil;&atilde;o mistag&oacute;gica e de forma&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica e dos modos de denunciar e contestar profeticamente as corrup&ccedil;&otilde;es do mundo. O desejo de o qualificar evangelicamente ter&aacute; que passar pela disponibilidade a sermos presen&ccedil;a, humana e espiritualmente, qualificada pelo Evangelho. O caminho &eacute; longo e pede paix&atilde;o, a mesma de Jesus.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Jos&eacute; Fraz&atilde;o Correia, sj<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Fraz\u00e3o Correia, sj<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-50643","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50643","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50643"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50643\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50643"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50643"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50643"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}