{"id":50642,"date":"2011-03-29T12:26:09","date_gmt":"2011-03-29T12:26:09","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/03\/29\/os-cristaos-na-fronteira-estranhos-ou-estrangeiros\/"},"modified":"2011-03-29T12:26:09","modified_gmt":"2011-03-29T12:26:09","slug":"os-cristaos-na-fronteira-estranhos-ou-estrangeiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/os-cristaos-na-fronteira-estranhos-ou-estrangeiros\/","title":{"rendered":"Os crist\u00e3os na fronteira: estranhos ou estrangeiros?"},"content":{"rendered":"<p>Alfredo Teixeira, Centro de Estudos de Religi\u00f5es e Culturas, UCP <!--more--> <\/p>\n<p>Os crist&atilde;os, pelos finais do s&eacute;culo I, pensaram a sua inscri&ccedil;&atilde;o social a partir da figura do &laquo;estrangeiro&raquo; em rela&ccedil;&atilde;o ao mundo &ndash; enquanto &laquo;visitador de passagem&raquo;, aspirando a uma cidade a vir, a urbe celeste. Este tema persistiu em v&aacute;rias das tend&ecirc;ncias da antiguidade crist&atilde;. Encontramos tend&ecirc;ncias que exacerbam a idealiza&ccedil;&atilde;o de uma Igreja preexistente e escatol&oacute;gica e outras que privilegiam o desafio do compromisso. Nesta segunda tend&ecirc;ncia, a experi&ecirc;ncia crist&atilde; representa-se como o tempo interm&eacute;dio da &laquo;difus&atilde;o do evangelho no mundo&raquo; (S. Justino). Assim, a terra ent&atilde;o conhecida como habitada, a &laquo;oikoum&eacute;n&ecirc;&raquo;, torna-se o lugar de realiza&ccedil;&atilde;o da voca&ccedil;&atilde;o crist&atilde;. Estamos perante a passagem da condi&ccedil;&atilde;o de &laquo;estrangeiro de passagem&raquo; para a experi&ecirc;ncia do &laquo;estrangeiro domiciliado&raquo;: o &laquo;estrangeiro no mundo&raquo;, mas n&atilde;o &laquo;estranho ao mundo&raquo; (M.-F. Baslez).<\/p>\n<p>Na &laquo;Ep&iacute;stola a Diogneto&raquo;, nos finais do s&eacute;c. II, descobrimos a suma desta teologia da cidadania crist&atilde; que assume o risco de um paradoxo: compatibilizar a dissid&ecirc;ncia e a integra&ccedil;&atilde;o. Os crist&atilde;os n&atilde;o se distinguem socialmente dos outros concidad&atilde;os, mas, na medida em que vivem o seu quotidiano a partir de uma outra perten&ccedil;a, podem ser a alma do mundo, apontando para o seu inacabamento e para a necessidade de o manter aberto &agrave; d&aacute;diva de Deus. As figuras teol&oacute;gicas da dupla perten&ccedil;a, &agrave; cidade terrena e &agrave; cidade do alto, traduzem essa escolha crist&atilde; de participa&ccedil;&atilde;o na constru&ccedil;&atilde;o de uma civilidade comum e a recusa da impermeabilidade pr&oacute;pria do gueto, ou da seita. Esta escolha conduz a miss&atilde;o crist&atilde;, neste mundo da antiguidade tardia, &agrave;s paragens mais interiores da laicidade cultural, ou seja, os lugares religiosamente neutros. &Eacute; por isso que, por exemplo, a miss&atilde;o paulina tece a mem&oacute;ria crist&atilde; na malha daquilo que &eacute; mais capilar na sociedade a &laquo;casa&raquo; (&laquo;oikos&raquo;), enquanto agregado familiar, e mais tarde &ndash; em Roma, Alexandria e Antioquia &ndash; a evangeliza&ccedil;&atilde;o procura a escola, lugar de forma&ccedil;&atilde;o das elites determinantes na constru&ccedil;&atilde;o da cidade.<\/p>\n<p>A situa&ccedil;&atilde;o que os crist&atilde;os vivem, actualmente, traz uma especial legibilidade a este paradoxo da condi&ccedil;&atilde;o crist&atilde;. Naquelas primeiras gera&ccedil;&otilde;es estava em constru&ccedil;&atilde;o a experi&ecirc;ncia da Igreja enquanto corpo social. Hoje, vive-se um processo de desagrega&ccedil;&atilde;o a que Michel de Certeau chamou o fim do &laquo;cristianismo objectivo&raquo; (o historiador e antrop&oacute;logo leu nessa desagrega&ccedil;&atilde;o o fim da articula&ccedil;&atilde;o estrutural entre a experi&ecirc;ncia pessoal do crente e a experi&ecirc;ncia social da comunidade atrav&eacute;s da Igreja enquanto &laquo;corpo de sentido&laquo;). Nestas condi&ccedil;&otilde;es, os crist&atilde;os vivem de novo, de forma acentuada, o drama de que antes se falava. Talvez por isso nos encontramos, tamb&eacute;m, perante as tend&ecirc;ncias de guetiza&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia crist&atilde; e as perplexidades dos que escolhem a ambiguidade do mundo como lugar do testemunho.<\/p>\n<p>Esta ambiguidade est&aacute; patente na complexidade dos regimes de perten&ccedil;a que descrevem as sociabilidades contempor&acirc;neas. Curiosamente, Georg Simmel, um dos que primeiro reflectiu sobre este problema, no contexto das culturas urbanas p&oacute;s-industriais, usou a met&aacute;fora do estrangeiro para interpretar a mobilidade caracter&iacute;stica dessas sociabilidades. Esse estrangeiro n&atilde;o &eacute; o viajante que hoje chega para partir amanh&atilde;, mas sim esse errante que chega hoje e que ficar&aacute; amanh&atilde;, sem prescindir da liberdade de ir e vir. Essa liberdade permite uma nova compreens&atilde;o da identidade e da alteridade, uma vez que o estrangeiro introduz num grupo um conjunto de compromissos entre o pr&oacute;ximo e o long&iacute;nquo &mdash; o estrangeiro aproxima o long&iacute;nquo, uma vez que ele n&atilde;o fazia parte do grupo desde o in&iacute;cio, mas ao mesmo tempo distancia o pr&oacute;ximo, uma vez ele incorpora um princ&iacute;pio de mobilidade potencial.<\/p>\n<p>Vivemos o tempo do &laquo;estrangeiro&raquo;. N&atilde;o me refiro apenas h&aacute; mobilidade que se descreve na geografia humana. Refiro-me &agrave;quela que se declina nos itiner&aacute;rios de recomposi&ccedil;&atilde;o do v&iacute;nculo social. Essa recomposi&ccedil;&atilde;o exibe os riscos do desenraizamento pr&oacute;prio destas sociedades destradicionalizadas. Num tempo em que os indiv&iacute;duos se descobrem tantas vezes &laquo;doentes de si pr&oacute;prios&raquo;, porque enredados nos seus labirintos, sem substitutos para as antigas inst&acirc;ncias comunit&aacute;rias facilitadoras da integra&ccedil;&atilde;o, os nossos contempor&acirc;neos praticam permanentemente a fronteira. N&atilde;o reconhecendo uma terra como sua, cada indiv&iacute;duo torna-se o lugar de cruzamento de mundos m&uacute;ltiplos que excitam as compet&ecirc;ncias comunicativas, densificam as transac&ccedil;&otilde;es sociais e multiplicam as perten&ccedil;as.<\/p>\n<p>As mais recentes possibilidades abertas pelas tecnologias da informa&ccedil;&atilde;o e da comunica&ccedil;&atilde;o s&atilde;o o exemplo mais acabado desta explos&atilde;o comunicativa e da emerg&ecirc;ncia de sociabilidades em rede que ultrapassam os constrangimentos das rela&ccedil;&otilde;es baseadas no territ&oacute;rio. Estas plataformas permitem formas in&eacute;ditas de comunica&ccedil;&atilde;o e novas l&oacute;gicas comunicativas. Mas, para al&eacute;m disso, favorecem a emerg&ecirc;ncia de outras formas de construir os la&ccedil;os sociais. Globalmente, s&atilde;o &laquo;vias&raquo; de comunica&ccedil;&atilde;o de car&aacute;cter acentrado &ndash; n&atilde;o h&aacute; para ningu&eacute;m lugar pr&eacute;vio de autoridade (mesmo que seja a autoridade de uma tradi&ccedil;&atilde;o), ningu&eacute;m tem condi&ccedil;&otilde;es para se pronunciar &laquo;ex cathedra&raquo;. A reconstru&ccedil;&atilde;o criativa de uma cidadania crist&atilde; exige novas aprendizagens.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Alfredo Teixeira, Centro de Estudos de Religi&otilde;es e Culturas, UCP<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alfredo Teixeira, Centro de Estudos de Religi\u00f5es e Culturas, UCP<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[321],"class_list":["post-50642","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50642","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50642"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50642\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50642"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50642"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50642"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}