{"id":50641,"date":"2011-03-29T12:14:29","date_gmt":"2011-03-29T12:14:29","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/03\/29\/um-novo-comboio-a-partir\/"},"modified":"2011-03-29T12:14:29","modified_gmt":"2011-03-29T12:14:29","slug":"um-novo-comboio-a-partir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-novo-comboio-a-partir\/","title":{"rendered":"Um novo comboio a partir"},"content":{"rendered":"<p>Tiago Freitas, www.patiodosgentios.com <!--more--> <\/p>\n<p>Recordo sempre com algum humor as aulas de Hist&oacute;ria da Igreja, principalmente no que se refere a Greg&oacute;rio XVI, um Papa do s&eacute;culo XIX. Viveu em plena revolu&ccedil;&atilde;o industrial, onde o vapor substituiu v&aacute;rios processos de manufactura. N&atilde;o gostava particularmente da ideia dos comboios. Dizia: &ldquo;<em>chemin de fer, chemin d&#8217;enfer&rdquo;<\/em>. O comboio revelou-se, contudo, sin&oacute;nimo de transforma&ccedil;&atilde;o, sem desencadear a perda de f&eacute;, como talvez receasse o Papa.<\/p>\n<p>Passados dois s&eacute;culos, estamos numa nova revolu&ccedil;&atilde;o: a era digital e o crescimento exponencial da <em>internet<\/em>. At&eacute; h&aacute; alguns anos diz&iacute;amos: &ldquo;vou &agrave; <em>internet<\/em>&rdquo;, hoje, ela acompanha-nos para todo o lado (<em>smartphones, tablets\/ipad, netbooks, laptops<\/em>).<\/p>\n<p>Numa sociedade profundamente transformada pelo digital (&agrave; imagem da revolu&ccedil;&atilde;o industrial), torna-se anacr&oacute;nico falar de um mundo virtual em contraposi&ccedil;&atilde;o a um mundo real. Aquilo que ainda se chama de &ldquo;virtual&rdquo;, como o fazem alguns documentos da Igreja, &eacute; t&atilde;o real quanto o &ldquo;real&rdquo;. Se assim n&atilde;o fosse, qual seria a l&oacute;gica de uma Igreja presente num mundo &ldquo;n&atilde;o-real&rdquo;? Diria at&eacute; que n&atilde;o faz sentido falar de &ldquo;mundos&rdquo; (ou de um sistema de contraposi&ccedil;&atilde;o), de modo a que n&atilde;o se gere uma linguagem amb&iacute;gua, mas sim de uma sociedade que vive numa era digital e est&aacute; cada vez mais <em>online<\/em>.<\/p>\n<p>O ano passado, a Prof. Chiara Giaccardi, a pedido da Confer&ecirc;ncia Episcopal Italiana, orientou um estudo sobre &ldquo;as rela&ccedil;&otilde;es comunicativas e afectivas dos jovens no cen&aacute;rio digital&rdquo;. Muito resumidamente, podemos dizer que se concluiu que existe uma &ldquo;baixa descontinuidade&rdquo; entre o <em>offline <\/em>e o <em>online<\/em>, ou seja, configuram-se &ldquo;como dois n&iacute;veis de experi&ecirc;ncia unit&aacute;ria (unificada pelo sujeito em rela&ccedil;&atilde;o) e n&atilde;o como dois mundos paralelos, alternativos)&rdquo;. O mesmo &eacute; dizer que, para os jovens, as rela&ccedil;&otilde;es humanas atravessam indistintamente os v&aacute;rios n&iacute;veis da dimens&atilde;o comunicativa: o &ldquo;Jo&atilde;o&rdquo; d&aacute; <em>bom dia<\/em> &agrave; &ldquo;Maria&rdquo; numa SMS, encontra-se com ela na universidade, comenta as suas fotos no <em>Facebook<\/em> e, &agrave; noite, liga-lhe atrav&eacute;s do telefone ou <em>Skype<\/em>.<\/p>\n<p>Os espa&ccedil;os da rede n&atilde;o s&atilde;o utopias, projec&ccedil;&otilde;es de uma vida alienada. Pelo contr&aacute;rio, s&atilde;o lugares complementares e antropologicamente significativos. Assim, n&atilde;o se pode afirmar que existem riscos exclusivos da <em>internet<\/em>. O isolamento, as vidas duplas ou a perda do sentido dos valores s&atilde;o fen&oacute;menos anteriores &agrave; era digital e que, certamente, continuar&atilde;o a existir.<\/p>\n<p>Apenas nesta &oacute;ptica percebemos o interesse da Igreja na <em>internet <\/em>e nas <em>redes sociais. <\/em>Uma Igreja ausente desta realidade &eacute; uma Igreja que se dispensa de falar de Cristo ao mundo de hoje. Mas como estar e onde estar?<\/p>\n<p>Quer seja a n&iacute;vel institucional, quer a n&iacute;vel pessoal, ter&aacute; de ser uma presen&ccedil;a com a marca de um testemunho coerente e genu&iacute;no, o que implica, desde logo, uma transpar&ecirc;ncia quanto &agrave; sua condi&ccedil;&atilde;o de crente. O &ldquo;testemunho&rdquo; &eacute; a &uacute;nica linguagem que encontra um receptor dispon&iacute;vel. N&atilde;o existem posi&ccedil;&otilde;es neutras. Pode existir, isso sim, um itiner&aacute;rio pedag&oacute;gico que, por vezes, o di&aacute;logo exige.<\/p>\n<p>O <em>primeiro n&iacute;vel<\/em> de presen&ccedil;a, a n&iacute;vel institucional, &eacute; a <em>p&aacute;gina oficial<\/em>. Serve de refer&ecirc;ncia, como sinal de estabilidade e fonte de not&iacute;cias cred&iacute;veis. Contudo, j&aacute; n&atilde;o &eacute; suficiente. Ter um <em>site<\/em> equivale analogamente a ter uma igreja. Quem entra numa igreja? Quem tem um sentido de perten&ccedil;a. E se n&oacute;s quisermos falar com os n&atilde;o-crentes ou aqueles baptizados afastados?<\/p>\n<p>Um <em>segundo n&iacute;vel<\/em> passa pela disponibiliza&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos multim&eacute;dia de elevada qualidade, quer no conte&uacute;do quer na forma: entrevistas, reflex&otilde;es, concertos e not&iacute;cias de interesse comum entre crentes e n&atilde;o-crentes.<\/p>\n<p>Um <em>terceiro n&iacute;vel<\/em>, certamente mais arriscado e proactivo, passa pelas <em>redes sociais<\/em> e, particularmente, pelo <em>Facebook<\/em>. Neste momento, o <em>Facebook <\/em>conta com 630 milh&otilde;es de utilizadores e, em m&eacute;dia, &eacute; utilizado 44 vezes por m&ecirc;s, ou seja, pelo menos um vez todos os dias. Perante este cen&aacute;rio, pode a Igreja ignorar o seu potencial? Penso que n&atilde;o. Importa, por isso mesmo, reflectir sobre as modalidades de presen&ccedil;a.<\/p>\n<p>Em boa verdade, as iniciativas mais assertivas neste &acirc;mbito encontram-se a n&iacute;vel individual: &ldquo;Toques de Deus&rdquo;, &ldquo;Passo-a-rezar&rdquo; (com cerca de 12.000 pessoas), &ldquo;Audit&oacute;rio Vita&rdquo; ou ainda o Prof. Bento Oliveira com a iniciativa &ldquo;Lent2Face&rdquo;. Partilhar conte&uacute;dos, provocar a reflex&atilde;o, criar uma atmosfera receptiva, tudo isso &eacute; importante. Mas mais importante &eacute; o atrevimento de um testemunho sincero e provocador, de quem n&atilde;o se inibe de anunciar Cristo, ainda que para muitos seja &ldquo;o Desconhecido&rdquo;. O sucesso destas pessoas \/ iniciativas &eacute; que n&atilde;o levaram para o <em>Facebook <\/em>ou <em>blogs<\/em> uma carga institucional, informativa, mas ousaram expor-se, falarem de si e daquilo\/daquele em que(m) acreditam. No&nbsp; fundo, criaram a imagem de uma Igreja que acompanha o quotidiano das pessoas, que vai ao seu encontro (seja no computador, no <em>ipod<\/em> ou no di&aacute;logo presencial), e que se preocupa com as suas inquieta&ccedil;&otilde;es. E se cada pessoa que for tocada passar a mensagem, ent&atilde;o cria-se uma verdadeira rede de evangelizadores.<\/p>\n<p>E isto leva-me ao <em>quarto e &uacute;ltimo n&iacute;vel<\/em>. Apesar das potencialidades do <em>Facebook<\/em>, seria necess&aacute;rio, tamb&eacute;m na <em>internet<\/em>, criar um &ldquo;P&aacute;tio dos gentios&rdquo;, um espa&ccedil;o onde, de um modo mais alargado, fosse poss&iacute;vel dialogar sobre &ldquo;O desconhecido&rdquo;. Ora, este espa&ccedil;o ter&aacute; de assentar num projecto cultural. Por &ldquo;cultural&rdquo; entende-se, neste &acirc;mbito, as m&uacute;ltiplas dimens&otilde;es que constituem a vida das pessoas: fam&iacute;lia, trabalho, educa&ccedil;&atilde;o, lazer, cultura e afectos. Isto para que, finalmente, dialoguemos sobre as d&uacute;vidas que as pessoas t&ecirc;m e n&atilde;o permane&ccedil;amos na l&oacute;gica de quem oferece respostas a d&uacute;vidas que ainda n&atilde;o existem. Neste &ldquo;P&aacute;tio&rdquo; &eacute; necess&aacute;rio, portanto, fazer sil&ecirc;ncio para ouvir, para que fale &ldquo;o Desconhecido&rdquo; que, pela incarna&ccedil;&atilde;o, adquire um rosto: Jesus Cristo.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Tiago Freitas,<\/em><\/p>\n<p align=\"right\"><em>www.patiosdosgentios.com<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tiago Freitas, www.patiodosgentios.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-50641","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50641","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50641"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50641\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50641"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50641"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50641"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}