{"id":50513,"date":"2011-03-22T12:07:16","date_gmt":"2011-03-22T12:07:16","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/03\/22\/do-dar-ao-ser-para-os-outros\/"},"modified":"2011-03-22T12:07:16","modified_gmt":"2011-03-22T12:07:16","slug":"do-dar-ao-ser-para-os-outros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/do-dar-ao-ser-para-os-outros\/","title":{"rendered":"Do dar ao ser para os outros"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Dias da Silva, vogal da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz <!--more--> <\/p>\n<p>Dar &eacute; uma palavra que encerra em si v&aacute;rios significados.<\/p>\n<p>H&aacute; o dar dinheiro ou bens materiais, a forma mais habitual, a que corresponde a l&oacute;gica da esmola. Faz-se quase instintivamente. Normalmente, nem conhecemos a pessoa que pede nem se realmente precisa ou n&atilde;o. Alem de que a esmola tem sempre muito de humilhante.<\/p>\n<p>H&aacute; o dar em caso de uma cat&aacute;strofe pequena ou grande, pr&oacute;xima e afastada, que decorre da l&oacute;gica da reciprocidade. Perante uma situa&ccedil;&atilde;o aflitiva, sentimos obriga&ccedil;&atilde;o de ajudar algu&eacute;m em necessidade. Talvez seja uma reminisc&ecirc;ncia profunda da antiqu&iacute;ssima lei da hospitalidade, uma esp&eacute;cie de &ldquo;lei do tali&atilde;o&rdquo; positiva: dou-te porque posso tamb&eacute;m vir a precisar que me d&ecirc;s: <em>do ut des<\/em> (dou para que me d&ecirc;s) j&aacute; dizia o aforismo latino.<\/p>\n<p>H&aacute; o dar os nossos talentos &ndash; tempo, aten&ccedil;&atilde;o ao outro, disponibilidade &ndash;, j&aacute; mais rara e que est&aacute; na base do voluntariado. Responde &agrave; l&oacute;gica da solidariedade: dou o que tenho de bom para ser &uacute;til aos outros, para os ajudar a superar as dificuldades em que se encontram, sejam de ordem material, psicol&oacute;gica ou espiritual. &Eacute; um dar para que o outro se torne mais pessoa e n&atilde;o apenas menos pobre. Exige muito esfor&ccedil;o f&iacute;sico e espiritual, obriga a uma mobiliza&ccedil;&atilde;o consistente da intelig&ecirc;ncia mas tamb&eacute;m da vontade: a &ldquo;vontade de fazer (o) bem&rdquo;.<\/p>\n<p>Finalmente temos o dar-se a si mesmo. Entr&aacute;mos na l&oacute;gica da gratuidade, do amor, do dom, da gra&ccedil;a. J&aacute; n&atilde;o &eacute; um &ldquo;interesseiro&rdquo; <em>do ut des<\/em> ou um dar para que me &ldquo;deixes em paz&rdquo;, mas um dar &ldquo;de gra&ccedil;a&rdquo;. Aterr&aacute;mos na l&oacute;gica do &ldquo;tudo &eacute; gra&ccedil;a&rdquo;, uma exig&ecirc;ncia a que n&atilde;o podemos fugir porque tudo nos foi dado, gratuitamente e n&atilde;o por m&eacute;rito nosso. Todos poder&atilde;o dar assim, especialmente os crist&atilde;os, por exig&ecirc;ncia da sua f&eacute;. N&atilde;o se pode ser crist&atilde;o se falharmos aqui, porque deixamos de ser seguidores de Jesus Cristo, que se deu a si mesmo at&eacute; &agrave; morte e morte de cruz. O dar &ldquo;crist&atilde;o&rdquo; &eacute; o dar-se aos outros, um dar que engloba todas as outras formas de dar, mas que as ultrapassa e purifica: &ldquo;N&atilde;o tenho ouro nem prata, mas o que tenho isso te dou: em nome de Jesus Cristo Nazareno levanta-te e caminha&rdquo; (Act 3,6).<\/p>\n<p>Uma das frases do Evangelho que mais me fez pensar durante anos vem no Serm&atilde;o da Montanha: &ldquo;Se algu&eacute;m te requisitar para andares uma milha, caminha com ele duas&rdquo; (Mt 5,41). A explica&ccedil;&atilde;o, que encontrei, parece-me ilustrar bem o que tenho estado a dizer. Na Antiguidade, como n&atilde;o havia correios, os reis tinham os seus estafetas que podiam requisitar, por lei, qualquer cidad&atilde;o para os acompanhar durante uma milha. E, depois, iam repetindo as requisi&ccedil;&otilde;es. Neste contexto, o que traz de novo esta passagem evang&eacute;lica? Se eu for requisitado, sou obrigado, por lei, a andar uma milha. Mas, se verificar que o estafeta n&atilde;o tem ningu&eacute;m para requisitar ao fim dessa milha, tenho duas hip&oacute;teses: ou me venho embora, pois j&aacute; cumpri a obriga&ccedil;&atilde;o legal; ou me ofere&ccedil;o para andar outra milha e, assim, entro na ordem da gratuidade. A segunda milha &eacute; &ldquo;de gra&ccedil;a&rdquo; porque a dou voluntariamente: n&atilde;o resulta da exig&ecirc;ncia legal, mas da l&oacute;gica do dom. Estamos, pois, no oposto da l&oacute;gica da reciprocidade, numa esp&eacute;cie de &ldquo;&eacute;tica assim&eacute;trica&rdquo; e passamos tamb&eacute;m da ordem da legalidade para a ordem do amor.<\/p>\n<p>Ao colocarmo-nos na ordem do amor, saltamos para a ordem do ser para os outros. O amor ou &eacute; ego&iacute;sta ou &eacute; oblativo. O amor ego&iacute;sta n&atilde;o &eacute; amor a s&eacute;rio, &eacute; interesse particular, &eacute; um fechar-se em si: pertence &agrave; l&oacute;gica de &ldquo;o problema n&atilde;o &eacute; meu&rdquo;. O amor oblativo d&aacute;-se sem mais.<\/p>\n<p>Este salto &eacute; muito dif&iacute;cil. Mas em vez de desanimar, devemos aceitar que vivemos num mundo imperfeito, onde se entretecem v&aacute;rias formas de amor. Bento XVI, ao reflectir sobre &ldquo;eros como o amor &laquo;mundano&raquo; e agape como express&atilde;o do amor fundado sobre a f&eacute; e por ela plasmado&rdquo;, demonstra a &iacute;ntima liga&ccedil;&atilde;o e reciprocidade, que os une: &ldquo;Embora o eros seja inicialmente sobretudo ambicioso, ascendente, depois, &agrave; medida que se aproxima do outro, far-se-&aacute; cada vez menos perguntas sobre si pr&oacute;prio, procurar&aacute; sempre mais a felicidade do outro, preocupar-se-&aacute; cada vez mais com ele, doar-se-&aacute; e desejar&aacute; &laquo;existir para&raquo; o outro. Assim se insere nele o momento da agape; caso contr&aacute;rio, o eros decai e perde mesmo a sua pr&oacute;pria natureza&rdquo;. Mas, &ldquo;por outro lado, o homem n&atilde;o pode viver exclusivamente no amor oblativo, descendente. N&atilde;o pode limitar-se sempre a dar, deve tamb&eacute;m receber&rdquo; (DCE 7).<\/p>\n<p>A explica&ccedil;&atilde;o &eacute; f&aacute;cil. O ser humano &eacute;, por defini&ccedil;&atilde;o, um ser social, um ser para os outros. Duplamente o tem de ser o crist&atilde;o: porque &eacute; um ser humano e porque se sente amado gratuitamente por Deus. Contudo, como n&atilde;o somos deuses, precisamos de sentir que o nosso amor n&atilde;o &eacute; sistematicamente ignorado: necessitamos de reciprocidade vis&iacute;vel, que nos estimule e anime a continuar. N&atilde;o &eacute; s&oacute; porque somos humanos e limitados, mas porque o amor, sobretudo o amor oblativo, n&atilde;o subsiste se for unilateral. O amor exige amor. At&eacute; Jesus sentiu a ang&uacute;stia dessa falta de reciprocidade: &ldquo;Nem sequer pudeste vigiar uma hora comigo&rdquo; (Mt 26,40; Mc 14,37).<\/p>\n<p>De qualquer modo, esta nossa limita&ccedil;&atilde;o humana n&atilde;o pode desviar-nos do grande objectivo, que &eacute; darmo-nos para podermos &ldquo;ser para os outros&rdquo;. O crist&atilde;o &eacute; algu&eacute;m que tem por modelo Jesus de Nazar&eacute; que &ldquo;passou pelo mundo fazendo o bem&rdquo;, que se deu e se deu at&eacute; ao fim para que todos pudessem ser mais pessoa. N&oacute;s, que somos chamados a ser as m&atilde;os, a boca, a intelig&ecirc;ncia do nosso Deus, s&oacute; temos um caminho: darmo-nos ao outro, todo o outro, amando-o como &ldquo;um que faz parte de mim&rdquo;, como &ldquo;um dom para mim&rdquo; e para o qual devo saber &ldquo;criar espa&ccedil;o&rdquo;, &ldquo;levando os fardos uns dos outros e rejeitando as tenta&ccedil;&otilde;es ego&iacute;stas que sempre nos amea&ccedil;am e geram competi&ccedil;&atilde;o, arrivismo, suspeitas e ci&uacute;mes&rdquo; (NMI 43).<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Jos&eacute; Dias da Silva<\/em><em>,<\/em><\/p>\n<p align=\"right\"><em>vogal da Comiss&atilde;o Nacional Justi&ccedil;a e Paz<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Dias da Silva, vogal da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120,314,329],"class_list":["post-50513","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi","tag-solidariedade","tag-voluntariado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50513","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50513"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50513\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50513"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50513"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50513"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}