{"id":50512,"date":"2011-03-22T12:04:39","date_gmt":"2011-03-22T12:04:39","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/03\/22\/deixa-a-tua-terra\/"},"modified":"2011-03-22T12:04:39","modified_gmt":"2011-03-22T12:04:39","slug":"deixa-a-tua-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/deixa-a-tua-terra\/","title":{"rendered":"Deixa a tua terra&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Tony Neves, mission\u00e1rio espiritano <!--more--> <\/p>\n<p>Deixar tudo e seguir&#8230;&eacute; perfei&ccedil;&atilde;o&rsquo; diz o P. Ant&oacute;nio Vieira num dos serm&otilde;es sobre a Vida Consagrada. Mas, podemos &lsquo;deixar tudo, seguir Cristo&rsquo; sem &lsquo;devorar quil&oacute;metros&rsquo;, como bem lembra D. H&eacute;lder C&acirc;mara num dos poemas mais bonitos que eu conhe&ccedil;o sobre a Miss&atilde;o. A entrega radical de uma vida ao servi&ccedil;o dos outros (em especial dos mais pobres e exclu&iacute;dos) &eacute; caracter&iacute;stica comum a todos os consagrados, diria mesmo que &eacute; uma imagem de marca da identidade crist&atilde;. Mas o &lsquo;deixar a terra&rsquo; (pedido feito a Abra&atilde;o, cujo &lsquo;sim&rsquo; mudou a hist&oacute;ria da humanidade) tem consequ&ecirc;ncias muito pr&oacute;prias que definem a Miss&atilde;o &lsquo;Ad Gentes&rsquo; l&aacute; fora das fronteiras da terra que nos viu nascer e crescer e que constituem o nosso cantinho de conforto e seguran&ccedil;a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Dos Homens e dos Deuses&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p>Vi tr&ecirc;s vezes e tenho organizado cine-f&oacute;runs a partir do filme &lsquo;Dos Homens e dos Deuses&rsquo;. Para quem o n&atilde;o viu (garanto que perdeu muito!), este filme tenta transmitir os &uacute;ltimos tempos de uma comunidade de Monges Trapistas no interior da Arg&eacute;lia, num contexto mu&ccedil;ulmano, em tempo de luta aberta entre grupos extremistas e um governo corrupto. Eles foram quase todos assassinados, ap&oacute;s receberem muitas amea&ccedil;as e terem optado ficar com o povo at&eacute; ao fim. Ora, a tomada de decis&atilde;o de &lsquo;partir&rsquo; ou &lsquo;ficar com o povo&rsquo;, &eacute; um dos momentos fortes do filme. O que o povo e os monges v&atilde;o dizendo mostram que a decis&atilde;o de &lsquo;deixar a terra&rsquo; tem consequ&ecirc;ncias enormes. As pessoas s&atilde;o enviadas para contextos onde a cultura, a situa&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica e social, a viv&ecirc;ncia dos direitos humanos at&eacute; a religi&atilde;o podem ser muitos diferentes dos que viviam nas suas terras de origem. Esta situa&ccedil;&atilde;o exige muita for&ccedil;a e muita flexibilidade (abertura) e muita coragem&#8230; ou melhor, exige uma F&eacute; &agrave; prova de tudo. A decis&atilde;o que os monges tomam de ficar com o povo (a determinada altura, uma senhora mu&ccedil;ulmana diz a dois dos monges que o mosteiro para o povo &eacute; o ramo da &aacute;rvore onde as pessoas s&atilde;o os p&aacute;ssaros: se os monges forem embora, o povo n&atilde;o tem onde poisar e se proteger!) &eacute; dura, d&oacute;i muito mas mostra o sentido de uma consagra&ccedil;&atilde;o e de uma Miss&atilde;o fora de portas. A ousadia (que s&oacute; a for&ccedil;a do Esp&iacute;rito oferece) de partir e ficar quando todas as seguran&ccedil;as desapareceram e nos faltam os apoios das ra&iacute;zes, mostra a diferen&ccedil;a entre o &lsquo;estar fora e longe&rsquo; e o fazer miss&atilde;o &lsquo;ao p&eacute; da porta&rsquo;.<\/p>\n<p>Fora da nossa &aacute;rea de conforto, sentimo-nos mais fr&aacute;geis, mais humildes, mais dependentes dos outros. Como que a terra nos foge de debaixo dos p&eacute;s. Em alguns contextos de pobreza e viol&ecirc;ncia, sentimo-nos amea&ccedil;ados e sem outra seguran&ccedil;a que n&atilde;o seja a Deus. &Eacute; a F&eacute; que nos diz que o lugar mais seguro do mundo &eacute; aquele onde Deus nos quer e, aconte&ccedil;a o que acontecer, estamos onde devemos estar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Leigos fora de portas&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>O partilhar a vida do povo (&agrave; luz dos princ&iacute;pios propostos pelo Conc&iacute;lio Vaticano II, segundo os quais &lsquo;as alegrias e tristezas, as ang&uacute;stias e esperan&ccedil;as&rsquo; das pessoas s&atilde;o as da Igreja), quando acontece fora de casa exige prepara&ccedil;&atilde;o, capacidade de encaixe e de sofrimento, abertura e dedica&ccedil;&atilde;o extrema. &Eacute; por isso que na forma&ccedil;&atilde;o de Mission&aacute;rios professos (Padres, irm&atilde;s e Irm&atilde;os de Institutos) e de Leigos (Volunt&aacute;rios Mission&aacute;rios) h&aacute; que tomar muito a s&eacute;rio a avalia&ccedil;&atilde;o do perfil de cada um(a), bem como uma prepara&ccedil;&atilde;o que ajude a dar ra&iacute;zes &agrave; capacidade de desenraizamento cultural, clim&aacute;tico, eclesial e social. A Teologia da Miss&atilde;o (com uma grande insist&ecirc;ncia nas quest&otilde;es relativas &aacute; Incultura&ccedil;&atilde;o e ao Di&aacute;logo Ecum&eacute;nico e Inter Religioso) constitui uma ajuda preciosa para quem parte.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>A minha experi&ecirc;ncia&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>A minha experi&ecirc;ncia mission&aacute;ria por terras de Angola durante a guerra civil foi muito semelhante &agrave; que os Monges Trapistas viveram por terras das montanhas do Atlas, no interior pobre e violento da Arg&eacute;lia. H&aacute; momentos em que temos que decidir entra a seguran&ccedil;a de partir e o risco de ficar. Aconteceu-me. Nessa hora, os sentimentos est&atilde;o confusos, pois o &lsquo;partir&rsquo; salva a pele de quem foge, mas complica ainda mais a vida dos que ficam. Vi esse drama tamb&eacute;m muito bem retratado no filme &lsquo;Hotel Rwanda&rsquo; sobre os tempos de genoc&iacute;dio que vitimaram milh&otilde;es de pessoas na guerra entre Hutus e Tutsis. Ora, decidir a quente n&atilde;o d&aacute; bom resultado. Fugir (porque se &eacute; estrangeiro), piorando a situa&ccedil;&atilde;o dos que ficam (porque s&atilde;o nacionais) n&atilde;o faz qualquer sentido. Ficar foi a op&ccedil;&atilde;o dos mission&aacute;rios estrangeiros no Huambo, como foi a dos Monges Trapistas na Arg&eacute;lia. Estes, pagaram quase todos com a morte a decis&atilde;o de ficar com o povo, em nome de Deus. Os Mission&aacute;rios no Huambo tiveram sortes diferentes: uns morreram, outros ficaram feridos e a outros n&atilde;o aconteceu nada de muito grave, como foi o meu caso.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Tony Neves<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tony Neves, mission\u00e1rio espiritano<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[106,189,326],"class_list":["post-50512","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-angola","tag-direitos-humanos","tag-vida-consagrada"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50512","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50512"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50512\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50512"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50512"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50512"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}