{"id":505,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/onde-os-nossos-olhos-ai-o-nosso-coracao\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"onde-os-nossos-olhos-ai-o-nosso-coracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/onde-os-nossos-olhos-ai-o-nosso-coracao\/","title":{"rendered":"Onde os nossos olhos, a\u00ed o nosso cora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Micael Pereira &#8211; Professor UCP <!--more--> Onde os nossos olhos, a\u00ed o nosso cora\u00e7\u00e3o Seja a realidade qual for, hoje como sempre, vivemos e actuamos a partir das imagens que conhecemos. Tenhamos os princ\u00edpios que tivermos, precisamos de actuar dentro de um contexto concreto que sirva de base aos nossos ju\u00edzos e decis\u00f5es. \u00c9 atrav\u00e9s das imagens que conhecemos esse contexto, que enquanto circunst\u00e2ncia e ambiente fundamenta o que queremos fazer e em grande parte, bem mais do que parece, nos proporciona igualmente as raz\u00f5es de viver. Vivendo em espa\u00e7os cada vez mais extensos, com maior densidade, mais complexos, as imagens em que nos apoiamos deixaram de ser elaboradas s\u00f3 por n\u00f3s a partir de factos que tenhamos presenciado. O espa\u00e7o em que vivemos, as pessoas, a realidade a que nos referimos, \u00e9 t\u00e3o vasta que temos necessariamente de nos apoiar em imagens tamb\u00e9m elaboradas por outros; deix\u00e1mos em grande parte de conhecer o nosso pr\u00f3prio mundo e a realidade em primeira m\u00e3o. S\u00e3o em grande parte os outros quem constr\u00f3i o contexto da nossa pr\u00f3pria vida.  A cultura da morte  v\u00ea tudo de modo negativo \u00c0s imagens nos agarramos hoje como a um tronco; somos em parte camale\u00f5es. Sem querer fazemos nossas as cores do que vemos e a realidade tende a acompanhar essas mesmas imagens. Tamb\u00e9m neste sentido a realidade \u00e9 cada vez mais virtual. Porque as imagens s\u00e3o cada vez mais f\u00e1ceis de trabalhar e se tornam mais atractivas embrenhamo-nos cada vez mais no sensacional, no que desperta a sensibilidade e a emo\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 sensacional pode ser excelente, estimulante, renovador. Acabamos por\u00e9m por preferir o que \u00e9 catastr\u00f3fico, doloroso, o que inspira piedade, talvez porque precisemos de dar voz ao que nos aflige por dentro. Com o drama e desgra\u00e7a alheias exorcizamos os medos que est\u00e3o dentro de n\u00f3s: centramo-nos no mal dos outros que sempre \u00e9 mais f\u00e1cil de suportar que a ansiedade pr\u00f3pria. \u00c9 assim que n\u00e3o s\u00f3 o que \u00e9 violento, mau, chocante facilmente se torna not\u00edcia, como se procura insistentemente descobrir o que possa vir a correr mal. Acaba-se por ter prazer em prever horizontes de cat\u00e1strofe por vezes para n\u00f3s, para os nossos advers\u00e1rios, para os que consideramos fracos e desconhecidos. Em quantas mesas, n\u00e3o s\u00f3 de caf\u00e9, saboreamos por antecipa\u00e7\u00e3o tudo quanto ir\u00e1 correr mal, apiedando-nos das v\u00edtimas das desgra\u00e7as que se anunciam! \u00c9 que al\u00e9m do mais temos bom cora\u00e7\u00e3o! Ver o mundo com um horizonte negro n\u00e3o s\u00f3 inspira muitos moralismos, como parece reconfortar quem n\u00e3o aceita os seus riscos e limita\u00e7\u00f5es. Escandalizamo-nos com o mal e corrup\u00e7\u00e3o, receamos pela nossa seguran\u00e7a e pelo futuro, avidamente queremos conhecer todos os processos escandalosos que nos possam chocar. Fantasiamos ser os justiceiros ou as v\u00edtimas do mundo podre que nos envolve, sem nos apercebermos de que assim s\u00f3 conseguimos desencadear processos de desconfian\u00e7a e de destrui\u00e7\u00e3o em que n\u00f3s pr\u00f3prios nos deixamos necessariamente envolver.  Tamb\u00e9m somos  muito pessimistas  H\u00e1 povos que pelas suas grandezas e pequenez v\u00e3o longe neste negativismo. N\u00f3s, portugueses, somos um desses povos. Ecum\u00e9nicos como sempre fomos, habitu\u00e1mo-nos a que tudo o que h\u00e1 de grande se passe l\u00e1 fora, nesse outro imenso pa\u00eds a que chamamos estrangeiro. L\u00e1 \u00e9 que tudo vale a pena! Por c\u00e1, vivemos numa terra pequenina, agrad\u00e1vel, mas que amesquinhamos na primeira ocasi\u00e3o. Por c\u00e1 vemos os nossos defeitos, por c\u00e1 nos parece que tudo corre mal e nada vale a pena. Continuamos a dar ouvidos a velhos do Restelo que s\u00f3 agoiram fracassos e decep\u00e7\u00f5es. N\u00e3o admira que tenhamos tantas vezes o ar macamb\u00fazio de quem est\u00e1 mal com a vida, de quem n\u00e3o se salva nem se deixa salvar.  Conhecemos a vida dos que vivem imediatamente \u00e0 nossa volta, mas dela quantas vezes s\u00f3 fixamos o que correu mal, os fracassos, as doen\u00e7as, as trai\u00e7\u00f5es, o infort\u00fanio. Conhecemos o curr\u00edculo negativo dos outros, prevemos para eles o pior. As costas dos outros est\u00e3o sempre na nossa palavra profundamente manchadas; vemo-nos rodeados de incompetentes, de rivais, de quem vive \u201c\u00e0 m\u00e1 f\u00e9\u201d. Como se pode ter esperan\u00e7a vivendo num contexto em que s\u00f3 sabemos real\u00e7ar o mal e a falsidade? Rodeados de vis\u00f5es catastr\u00f3ficas cuidadosamente cultivadas em termos de p\u00f3s-modernidade e de postura nacional, sempre de \u00f3culos escuros que nos pro\u00edbem a claridade da vida, constru\u00edmos uma realidade que se torna efectivamente triste.  Cultura da morte,  cultura da vida A esta cultura da morte, precisamos de opor a cultura da vida. Esta escolha \u00e9 hoje fundamental. Precisamos de que nos caiam dos olhos as escamas que nos impedem de ver a luz; precisamos de rejuvenescer, sem falsos optimismos, mas com a alegria e coragem de viver. Ver o que est\u00e1 bem, falar do que vale a pena, procurar a alegria, olhar para o lado positivo da realidade, \u00e9 criar um ambiente em que a vida pode crescer. N\u00e3o ser\u00e1 \u00e0 custa de demonstrar o mal, que o bem encontrar\u00e1 clima em que possa desenvolver-se. \u00c9 a imagem do bem, \u00e9 a imagem da beleza que nos pode estimular para que a vida se renove. Toda a realidade tem uma face estimulante, sugestiva, criadora. Se vivermos sem falsas nostalgias de grandezas passadas, se n\u00e3o nos sentirmos cercados por uma realidade que s\u00f3 sabemos ver como adversa, criaremos mais facilmente condi\u00e7\u00f5es para viver. Precisamos de n\u00e3o ter medo da felicidade e de n\u00e3o nos rirmos com sofisticado ar superior e desenganado face a quem tem a simplicidade de querer ser feliz.  Ser feliz \u00e9 capaz de n\u00e3o chegar como ideal de uma vida, mas \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para vida de todos. Como pode desdenhar a felicidade, quem anseia pela felicidade eterna? H\u00e1 contrastes demasiadamente acentuados entre o \u201c vale de l\u00e1grimas\u201d actual e a bem-aventuran\u00e7a futura. A cruz d\u00e1 quotidianamente voz \u00e0 dor, mas desabrocha na ressurrei\u00e7\u00e3o. Estar para al\u00e9m da dor, senti-la mas ser capaz de ir mais al\u00e9m, procurar o que \u00e9 bem, beleza, felicidade, \u00e9 criar o contexto em que pode vir a acontecer o que valha a pena viver. Micael Pereira Professor UCP <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Micael Pereira &#8211; Professor UCP<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[321],"class_list":["post-505","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/505","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=505"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/505\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=505"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=505"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=505"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}