{"id":50428,"date":"2011-03-16T13:02:53","date_gmt":"2011-03-16T13:02:53","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/03\/16\/homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-missa-de-abertura-do-ano-judicial\/"},"modified":"2011-03-16T13:02:53","modified_gmt":"2011-03-16T13:02:53","slug":"homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-missa-de-abertura-do-ano-judicial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-missa-de-abertura-do-ano-judicial\/","title":{"rendered":"Homilia do cardeal-patriarca de Lisboa na missa de abertura do Ano Judicial"},"content":{"rendered":"<p><strong>&ldquo;Bem-aventurados os que t&ecirc;m fome e sede de justi&ccedil;a&rdquo;<\/strong><\/p>\n<p>Este ano escolhi, como leitura do Santo Evangelho, nesta celebra&ccedil;&atilde;o com que quisestes dar a dimens&atilde;o crente e orante &agrave; abertura do novo Ano Judicial, o texto de S&atilde;o Mateus, mais conhecido como Serm&atilde;o da Montanha ou Evangelho das Bem-aventuran&ccedil;as (Mt. 5,1-12).<\/p>\n<p>O contexto ajuda-nos a compreender o texto. Jesus est&aacute; rodeado de uma multid&atilde;o que O segue para O escutar. J&aacute; se tornara claro que a sua mensagem &eacute; portadora de uma novidade transformadora, an&uacute;ncio de uma nova ordem da conviv&ecirc;ncia humana, a que Ele chama o Reino de Deus. V&aacute;rias passagens dos Evangelhos mostram-nos que Jesus &eacute; sens&iacute;vel &agrave;s multid&otilde;es, pressente os seus problemas e anseios, comove-se perante elas, porque parecem um &ldquo;rebanho sem pastor&rdquo;, alimenta-as miraculosamente com a multiplica&ccedil;&atilde;o dos p&atilde;es.<\/p>\n<p>Naquele dia, num monte frente ao lago de Tiber&iacute;ades, tamb&eacute;m chamado mar da Galileia, Jesus, como rabino oriental, senta-se no ch&atilde;o e convida a multid&atilde;o a sentar-se &agrave; sua volta, e fala-lhes, tendo em conta a realidade das suas vidas, que O comove, e desafiando-os para um novo horizonte, onde a vit&oacute;ria sobre os problemas presentes ganha um novo ritmo e uma outra projec&ccedil;&atilde;o. A palavra &ldquo;bem-aventurados&rdquo; &eacute; a designa&ccedil;&atilde;o escatol&oacute;gica atribu&iacute;da &agrave;queles que j&aacute; atingiram a meta, o fim da sua caminhada. Ao designar assim aqueles que est&atilde;o dispostos a p&ocirc;r-se a caminho, Jesus anuncia o ritmo de todas as lutas deste mundo pela dignidade e pela plenitude humanas. A palavra hebraica tem esse sentido din&acirc;mico. Livremente, poder&iacute;amos traduzi-la assim: v&oacute;s os pobres ponde-vos a caminho em ordem a uma nova viv&ecirc;ncia da pobreza.<\/p>\n<p>&Eacute; neste contexto que Jesus, ao falar &agrave;quela multid&atilde;o, refere duas vezes os sedentos de justi&ccedil;a: &ldquo;Bem-aventurados os que t&ecirc;m fome e sede de justi&ccedil;a, porque ser&atilde;o saciados&rdquo;. E mais &agrave; frente: &ldquo;Bem-aventurados os que s&atilde;o perseguidos por lutarem pela justi&ccedil;a; a esses pertencer&aacute; o Reino dos C&eacute;us&rdquo;. Jesus reconhece que aquela &eacute; uma multid&atilde;o faminta de justi&ccedil;a. E o enquadramento hist&oacute;rico ajuda-nos a situar o problema: Povo ocupado pelos romanos, sobrecarregado de impostos, limitado na sua identidade espiritual. Mas &agrave;quela multid&atilde;o sedenta de justi&ccedil;a, Jesus abre o horizonte da verdadeira justi&ccedil;a, no caso do Israel muito ligada &agrave; sua tradi&ccedil;&atilde;o espiritual e religiosa. A justi&ccedil;a na perspectiva religiosa significa o reconhecer a grandeza e a dignidade do homem, como Deus o criou e deseja. &Eacute; uma vit&oacute;ria sobre o mal, exige a renova&ccedil;&atilde;o interior do homem, poss&iacute;vel com a for&ccedil;a de Deus e a sua interven&ccedil;&atilde;o na hist&oacute;ria. &Eacute; por isso que neste ensinamento de Jesus &agrave; multid&atilde;o, a justi&ccedil;a passa pela renova&ccedil;&atilde;o do cora&ccedil;&atilde;o, onde todas as realidades humanas passam a ser vistas com um novo olhar. Aquela multid&atilde;o, sedenta de justi&ccedil;a, Jesus n&atilde;o ignora as injusti&ccedil;as concretas que sofrem, mas desafia-os a irem mais longe, a desejarem a verdadeira justi&ccedil;a, que sup&otilde;e a reden&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Uma verdadeira promo&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a n&atilde;o pode limitar-se ao horizonte concreto do imediato, sup&otilde;e um processo cultural e um ideal exigente de humanidade. S&atilde;o Paulo tinha raz&atilde;o quando faz coincidir o conceito de &ldquo;justifica&ccedil;&atilde;o&rdquo; com o de salva&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o basta ser considerado justo, &eacute; preciso s&ecirc;-lo, disposto a lutar e a sofrer pela justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>O quadro que Jesus enfrenta naquela multid&atilde;o, sedenta de justi&ccedil;a, repete-se, vezes sem fim, ao longo da hist&oacute;ria. A sede de justi&ccedil;a &eacute; mobilizadora, pode originar movimentos de transforma&ccedil;&atilde;o da sociedade. Estamos a assistir, no momento presente, a grandes movimentos de transforma&ccedil;&atilde;o da sociedade, originados nessas multid&otilde;es sedentas de justi&ccedil;a. E entre n&oacute;s est&aacute; a criar-se uma consci&ecirc;ncia colectiva, cada vez mais abrangente, a exigir reformas na justi&ccedil;a. &Eacute; um erro hist&oacute;rico n&atilde;o ouvir essas multid&otilde;es, embora sabendo que essas multid&otilde;es raramente baseiam a sua reclama&ccedil;&atilde;o em dados anal&iacute;ticos precisos: reagem a acontecimentos e pressentimentos. Mas a sua reivindica&ccedil;&atilde;o &eacute; clara: querem caminhos renovados de constru&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>Um servi&ccedil;o judicial &eacute; apenas um meio nesta busca da justi&ccedil;a. Mas n&atilde;o se pode pedir-lhe tudo; a busca da justi&ccedil;a &eacute; um processo cultural e espiritual, sup&otilde;e a educa&ccedil;&atilde;o, a ordem &eacute;tica, uma s&atilde; antropologia. Um Estado de Direito &eacute; apenas uma dimens&atilde;o de uma sociedade justa, onde a dignidade do homem seja respeitada e promovida. Mas este clamor colectivo tem de ser escutado, tem de nos mobilizar a todos para sermos justos, pois s&oacute; homens justos podem construir uma sociedade justa.<\/p>\n<p>Termino com as palavras de Jesus: Bem-aventurados aqueles que sofrem, que s&atilde;o perseguidos, por causa da justi&ccedil;a. A todos os obreiros da justi&ccedil;a, no nosso Pa&iacute;s, eu digo: se estiverdes entre esses que sofrem, tende coragem, n&atilde;o desanimeis, porque est&aacute;-vos destinado o Reino dos C&eacute;us.<\/p>\n<p>S&eacute; Patriarcal, 16 de Mar&ccedil;o de 2011<\/p>\n<p align=\"right\"><em>D. Jos&eacute; Policarpo, Cardeal-Patriarca<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&ldquo;Bem-aventurados os que t&ecirc;m fome e sede de justi&ccedil;a&rdquo; Este ano escolhi, como leitura do Santo Evangelho, nesta celebra&ccedil;&atilde;o com que quisestes dar a dimens&atilde;o crente e orante &agrave; abertura do novo Ano Judicial, o texto de S&atilde;o Mateus, mais conhecido como Serm&atilde;o da Montanha ou Evangelho das Bem-aventuran&ccedil;as (Mt. 5,1-12). 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