{"id":50402,"date":"2011-03-15T15:09:33","date_gmt":"2011-03-15T15:09:33","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/03\/15\/quaresma-na-primavera\/"},"modified":"2011-03-15T15:09:33","modified_gmt":"2011-03-15T15:09:33","slug":"quaresma-na-primavera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/quaresma-na-primavera\/","title":{"rendered":"Quaresma na Primavera"},"content":{"rendered":"<p>Ir. Marta Silva <!--more--> <\/p>\n<p>Como &eacute; poss&iacute;vel que haja tanta gente a gostar da Primavera? &Eacute; incr&iacute;vel como se continua, nas escolas prim&aacute;rias por este pa&iacute;s fora, a compor tantos textos po&eacute;ticos sobre este tema.<\/p>\n<p>A raz&atilde;o pr&aacute;tica que mais rapidamente me ocorre para o facto da Quaresma calhar nesta altura &eacute; a magn&iacute;fica oportunidade que as alergias nos d&atilde;o para praticar a penit&ecirc;ncia. N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vidas: os olhos inchados, as dificuldades em respirar e em alinhar dois pensamentos coerentes que um espirro n&atilde;o venha interromper obrigam a entrar, quer se queira quer n&atilde;o, por um caminho de despojo. E este, bem aproveitado, bem pode ser de liberta&ccedil;&atilde;o e de retorno gozoso &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de criatura que topa com os seus limites.<\/p>\n<p>A Primavera n&atilde;o &eacute; de fiar, porque pressagia em amanheceres gloriosos um consolo de calor que depois n&atilde;o cumpre. Atrai&ccedil;oa pelas costas com constipa&ccedil;&otilde;es&hellip; e desconcerta&#8209;nos com tantas promessas e possibilidades que deixa entrever! H&aacute; algum tempo que fa&ccedil;a lembrar tanto um adolescente?<\/p>\n<p>E no entanto, faz falta ter a adolesc&ecirc;ncia a alguma dist&acirc;ncia para conseguir apreciar a sua beleza, para resgatar a ternura e destilar a generosidade exuberante dos in&iacute;cios por entre o descontrole, o susto e o &ecirc;xtase ao descobrir o pr&oacute;prio e incontrolado poder.<\/p>\n<p>A vida que come&ccedil;a&hellip; mas ainda n&atilde;o. O frio que acaba&hellip; mas ainda n&atilde;o. J&aacute;&hellip; j&aacute;? Ainda n&atilde;o! Por isso &eacute; preciso continuar a pedir, como no poema de Sophia de Mello Breyner, <em>&ldquo;que o Teu Reino antes do tempo venha&rdquo;<\/em> &#8211; com o melhor adjectivo alguma vez encontrado para qualific&aacute;&#8209;la &#8211; <em>&ldquo;em Primavera feroz precipitado.&rdquo;<\/em><\/p>\n<p>A luz da Primavera &eacute; feroz, porque <em>&ldquo;h&aacute; muitas coisas que eu n&atilde;o quero ver&rdquo;<\/em>. Mas n&atilde;o cega: &eacute; dura porque revela tudo cruamente. A Revela&ccedil;&atilde;o acontece &agrave; nossa frente, e p&otilde;e tudo &agrave; mostra de modo evidente&hellip; o que n&atilde;o quer dizer que o vejamos. Deve ser por isso que a meio da Quaresma lemos a passagem da cura do cego de nascen&ccedil;a (Jo 9).<\/p>\n<p>De repente, no bloco de terra gelada, h&aacute; um risco de verde. Tenro, fr&aacute;gil, suave. E vence o bloco. N&atilde;o digo &ldquo;vencer&aacute; no outro mundo&rdquo;, ou &ldquo;acredito que no fundo, teve uma vit&oacute;ria moral&rdquo;. Venceu mesmo, j&aacute;, est&aacute; a&iacute; diante do nosso nariz. A mais m&iacute;nima flor do campo supera e cobre todos os horrores que se queiram enumerar. N&atilde;o digo que uma flor equivale a dez bombas nucleares. Digo que qualquer pequeno tra&ccedil;o de beleza &eacute; infinitamente mais poderoso que qualquer monstruosidade. Digo que um gesto de ternura, um gr&atilde;o de bem, tem mais peso que quaisquer males; digo que o ser anula o n&atilde;o ser; e digo que a vida resgata a morte. J&aacute; resgatou!<\/p>\n<p>Quando as gemas de novos ramos querem rebentar sobre o tronco que, depois da poda, pouco passa de toco, lembram&#8209;se bem do Inverno. Ali&aacute;s, apoiam&#8209;se e alimentam&#8209;se dele, crescem sobre o antigo. A Nova Cria&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; <em>ex nihilo<\/em>. O caminho para a P&aacute;scoa n&atilde;o apaga o meu passado. Ali&aacute;s, &eacute; ele que me capacita para chegar aqui. O meu pecado &eacute; que me faz conhecer o perd&atilde;o de Deus. Descubro quanto sou amada gra&ccedil;as &agrave; minha culpa.<\/p>\n<p>Claro que d&oacute;i! Mas os espa&ccedil;os novos no cora&ccedil;&atilde;o s&atilde;o ganhos &agrave; for&ccedil;a de o partir e rasgar. O facto de existir uma pena associada, &eacute; que faz com que algo valha a pena&hellip; por isso, como pensar em esquecer a pena que lhe deu o valor?<\/p>\n<p>Quando as gemas de novos ramos querem rebentar sobre o tronco que, depois da poda, pouco passa de toco, n&atilde;o s&atilde;o outra vez os mesmos rebentos do ano passado. A Nova Cria&ccedil;&atilde;o, &eacute; mesmo nova. A &aacute;rvore j&aacute; n&atilde;o &eacute; a semente, &eacute; outra coisa. A irrepetibilidade de cada momento traz o selo da eternidade a que aponta.<\/p>\n<p>Talvez o movimento de trasla&ccedil;&atilde;o &agrave; volta do Sol traga a Terra outra vez ao ponto de Primavera. Mas o c&iacute;rculo que descreve n&atilde;o est&aacute; preso num samsara fat&iacute;dico, a roda faz o carro avan&ccedil;ar, e estamos sempre mais perto! J&aacute;&hellip; mas ainda n&atilde;o&hellip;<\/p>\n<p><em>Eis que o Inverno j&aacute; passou,<\/em><em> a chuva parou e foi-se embora; despontam as flores na terra, chegou o tempo das can&ccedil;&otilde;es, e a voz da rola j&aacute; se ouve na nossa terra; a figueira faz brotar os seus figos e as vinhas floridas exalam perfume.. Levanta-te! Anda, vem da&iacute;, &oacute; minha bela amada! (Cantar 2, 11-13)<\/em><\/p>\n<p align=\"right\"><em>Marta Silva, aci<\/em><em><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ir. Marta Silva<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[91],"class_list":["post-50402","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50402","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50402"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50402\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50402"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50402"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50402"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}