{"id":504,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/ser-para-a-ressurreicao\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"ser-para-a-ressurreicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ser-para-a-ressurreicao\/","title":{"rendered":"Ser para a Ressurrei\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>H. Noronha Galv\u00e3o  &#8211; Professor UCP <!--more--> Ser para a Ressurrei\u00e7\u00e3o Obras primas da arte crist\u00e3, nomeadamente medievais, representam Jesus Cristo na cruz com uma serenidade e soberania que j\u00e1 s\u00e3o pr\u00f3prias da ressurrei\u00e7\u00e3o. E antigos relatos do supl\u00edcio dos m\u00e1rtires contam que, por vezes, acontecia desaparecerem dos seus rostos a express\u00e3o do sofrimento, e era j\u00e1 a alegria da ressurrei\u00e7\u00e3o que deles irradiava. Entre a cruz e a ressurrei\u00e7\u00e3o h\u00e1 uma unidade profunda, a unidade do mist\u00e9rio pascal, da \u201cpassagem\u201d de Jesus para o Pai, numa obedi\u00eancia que \u00e9 express\u00e3o de amor inexced\u00edvel, e cuja fecundidade se mostra na nova comunidade que a ressurrei\u00e7\u00e3o faz surgir, a Igreja. \u201cEu, quando for elevado da terra, atrairei todos a mim\u201d (Jo 12,32). Deste modo se referia Jesus Cristo \u00e0 sua morte na cruz, segundo o evangelista S. Jo\u00e3o (v. 33). Pelo mesmo verbo \u201celevar\u201d se exprime neste Evangelho a gl\u00f3ria que ser\u00e1 revelada pela ressurrei\u00e7\u00e3o. \u00c9 a mesma gl\u00f3ria que se manifesta na cruz e ressurrei\u00e7\u00e3o, momentos de um s\u00f3 mist\u00e9rio, o mist\u00e9rio da P\u00e1scoa (\u201cpassagem\u201d) definitiva. \u201cAntes da festa da P\u00e1scoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles at\u00e9 ao extremo.\u201d (Jo 13,1) Testemunha singular da f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 o te\u00f3logo redentorista franc\u00eas, Fran\u00e7ois-Xavier Durrwell que, em 1950, publicou a sua primeira obra A ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, mist\u00e9rio de Salva\u00e7\u00e3o. Desde ent\u00e3o, este mist\u00e9rio \u00faltimo e primeiro da f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o tem deixado de estar no centro de todos os seus estudos, como fecho-de-ab\u00f3bada de todo o edif\u00edcio da f\u00e9, tal como \u00e9 o seu fundamento. Em 2001 surgiu uma sua obra de s\u00edntese, como que o seu testamento teol\u00f3gico, com o t\u00edtulo Cristo nossa P\u00e1scoa, em que de novo repete e aprofunda a sua tese. A obedi\u00eancia total de Jesus na cruz tem um tal valor de d\u00e1diva ao Pai que significa a sua realiza\u00e7\u00e3o humano-divina plena de Filho, a sua \u201cgera\u00e7\u00e3o\u201d como Messias Filho de Deus, como fora anunciado pelo Salmo 2, v. 7: \u201cTu \u00e9s meu Filho, Eu hoje te gerei\u201d. \u00c9, com efeito, \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus que S. Paulo aplica este an\u00fancio messi\u00e2nico (Act 13,33). E se S. Paulo s\u00f3 prega Cristo crucificado (cf. 1Co 2,2), Cristo \u00e9 sempre para ele o Senhor ressuscitado. \u201cSe confessares com a tua boca: \u2018Jesus \u00e9 o Senhor\u2019, e acreditares no teu cora\u00e7\u00e3o que Deus o ressuscitou de entre os mortos, ser\u00e1s salvo.\u201d (Rm 10,9s) \u201cSe Cristo n\u00e3o ressuscitou \u00e9 v\u00e3 a nossa prega\u00e7\u00e3o, \u00e9 v\u00e3 tamb\u00e9m a vossa f\u00e9.\u201d (1Co 15,14) A salva\u00e7\u00e3o operada por Jesus na cruz \u00e9 um mist\u00e9rio de filia\u00e7\u00e3o. Segundo o hino cristol\u00f3gico citado na Carta de S. Paulo aos Filipenses (2,3-5), Cristo que tinha um ser, uma condi\u00e7\u00e3o divina \u2013 e portanto a poderia reivindicar sem a arrebatar ilegitimamente como presa \u2013, em vez disso dela se esvaziou para assumir o ser, a condi\u00e7\u00e3o de servo pr\u00f3pria do homem e do \u00faltimo dos homens. \u00c9 esse o significado do sofrimento e morte de Jesus sobre a cruz: o facto de o Filho de Deus se querer solidarizar totalmente com o homem, querer partilhar da sua condi\u00e7\u00e3o no que ela tem de mais humilhante, para que fosse toda essa condi\u00e7\u00e3o humana a ser salva e assumida na nova realidade institu\u00edda por Deus em Cristo. Esta \u00e9 a realidade de um homem que, na sua pr\u00f3pria humanidade, se torna Filho de Deus \u2013 o que acontece pela sua fidelidade plena a Deus, demonstrada na sua fidelidade total \u00e0 humanidade, no seu amor pelos homens: \u201c&#8230; h\u00e1 um s\u00f3&#8230; mediador entre Deus e os homens, um homem: Jesus Cristo, que se entregou a si mesmo como resgate por todos.\u201d (1Tm 2,5s). Ele torna-se Filho para, com Ele e por Ele, todos podermos entrar na intimidade de filhos com Deus \u201cnosso Pai\u201d. E, assim como \u00e9 no Esp\u00edrito Santo que a gera\u00e7\u00e3o \u00faltima de Jesus como Filho se realiza na cruz-ressurrei\u00e7\u00e3o, assim tamb\u00e9m \u00e9 o Esp\u00edrito Santo que, em n\u00f3s, nos faz dizer: \u201cPap\u00e1 (Abb\u00e1), \u00f3 Pai\u201d (cf. Rm 8,15; Gl 4,6), tal como Jesus rezava ao Pai chamando-lhe Abb\u00e1, Pap\u00e1 (cf. Mc 14,36). Durrwell tem sido criticado por parecer minimizar o papel do sofrimento e da morte na reden\u00e7\u00e3o operada por Jesus. Mas o te\u00f3logo n\u00e3o desiste de insistir que o importante n\u00e3o \u00e9 esse sofrimento e essa morte, em si mesmos, mas a atitude pessoal de d\u00e1diva total (\u201cobedi\u00eancia\u201d, na linguagem b\u00edblica, cf. Fl 2,8) que nesse partilhar da condi\u00e7\u00e3o humana se exprime e realiza. Essa atitude, provinda afinal do Filho de Deus que Jesus \u00e9, opera no homem que Jesus \u00e9 igualmente, em fidelidade total \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o humana, uma gera\u00e7\u00e3o, uma incarna\u00e7\u00e3o humana da sua filia\u00e7\u00e3o divina. Salva\u00e7\u00e3o pascal significa, pois, acedermos a essa exaltante condi\u00e7\u00e3o filial em face de Deus, de tal modo que o pr\u00f3prio sofrimento e a pr\u00f3pria morte, no vazio do seu sem sentido, se tornam o lugar do acesso a Deus e aos irm\u00e3os, n\u00e3o pelo seu sem sentido, mas porque \u00e9 atrav\u00e9s desse vazio que o Filho de Deus por amor se esvazia da sua condi\u00e7\u00e3o divina, assumindo a condi\u00e7\u00e3o de servo; e sendo deste modo gerado, tamb\u00e9m como homem, para uma filia\u00e7\u00e3o divina de que todos n\u00f3s podemos participar pela f\u00e9. Limitado ao seu horizonte intramundano, pode o homem aparecer apenas como um \u201cser para a morte\u201d (Heidegger) \u2013 e s\u00ea-lo-\u00e1, de facto, se n\u00e3o aceitar a salva\u00e7\u00e3o que lhe vem por Cristo, como j\u00e1 o viu St. Agostinho. Inserido, por\u00e9m, na filia\u00e7\u00e3o divina que nele opera o mist\u00e9rio pascal, \u00e9 um ser para a ressurrei\u00e7\u00e3o. Durante a sua vida terrena, dos crist\u00e3os n\u00e3o se espera tanto que se preparem para a morte. Deles se espera sim que, deixando-se cada vez mais possuir pela filia\u00e7\u00e3o divina, se preparem para a ressurrei\u00e7\u00e3o. O mesmo \u00e9 dizer o lugar inalien\u00e1vel que a esperan\u00e7a tem para os crist\u00e3os. O indicativo da ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9, para todos os que vivem em Jesus Cristo, um imperativo de alegria: \u201cAlegrai-vos todos no Senhor! De novo digo: alegrai-vos!\u201d (Fl 4,4) E n\u00e3o \u00e9 este o testemunho de tantos que, nas prova\u00e7\u00f5es da vida e perante a pr\u00f3pria morte, irradiam a for\u00e7a e a luz da f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o? Um testemunho que n\u00e3o desconhece o dram\u00e1tico das situa\u00e7\u00f5es votadas \u00e0 dor e \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o, mas que o transcende no sentido \u00faltimo da vida e da hist\u00f3ria. H. Noronha Galv\u00e3o  Professor UCP <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H. 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