{"id":50378,"date":"2011-03-14T11:34:30","date_gmt":"2011-03-14T11:34:30","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/03\/14\/apresentacao-do-livro-jesus-de-nazare-pelo-bispo-do-porto\/"},"modified":"2011-03-14T11:34:30","modified_gmt":"2011-03-14T11:34:30","slug":"apresentacao-do-livro-jesus-de-nazare-pelo-bispo-do-porto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/apresentacao-do-livro-jesus-de-nazare-pelo-bispo-do-porto\/","title":{"rendered":"Apresenta\u00e7\u00e3o do livro \u00abJesus de Nazar\u00e9\u00bb pelo bispo do Porto"},"content":{"rendered":"<p><strong>O recente livro do Papa na simples leitura dum bispo<\/strong><\/p>\n<p>Ao ler Jesus de Nazar&eacute;. Da Entrada em Jerusal&eacute;m at&eacute; &agrave; Ressurrei&ccedil;&atilde;o, de Joseph Ratzinger\/Bento XVI (Cascais: Principia, 2011, em tradu&ccedil;&atilde;o fluente que estimula a leitura), v&aacute;rias vezes me lembrei dum c&eacute;lebre trecho das Escrituras crist&atilde;s: &ldquo;&hellip; no &iacute;ntimo do vosso cora&ccedil;&atilde;o, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a raz&atilde;o da vossa esperan&ccedil;a a todo aquele que vo-la pe&ccedil;a; com mansid&atilde;o e respeito, mantende limpa a consci&ecirc;ncia&hellip;&rdquo; (1 Pe 3, 15-16). Os destinat&aacute;rios s&atilde;o crist&atilde;os que j&aacute; sofriam desconfian&ccedil;as e contradi&ccedil;&otilde;es. A recomenda&ccedil;&atilde;o &eacute; para terem f&eacute; serena e partilh&aacute;vel, precisamente em tais circunst&acirc;ncias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De Roma nos chega agora este livro do Papa, meditado e escrito em tempos de novas ou reeditadas desconfian&ccedil;as e contradi&ccedil;&otilde;es. E a resposta &eacute; dada em duas centenas e meia de p&aacute;ginas, com as mesmas qualifica&ccedil;&otilde;es requeridas: dando raz&otilde;es da esperan&ccedil;a, com mansid&atilde;o, respeito e limpidez de consci&ecirc;ncia. Serenamente, pois, e abertamente. A apologia poss&iacute;vel e oportuna, ao &ldquo;modo suave de Deus&rdquo;, como indica a certo passo (cf. p. 224).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N&atilde;o tem propriamente &ldquo;tema&rdquo;, por se tratar antes de mais duma figura. Figura n&atilde;o s&oacute; tematiz&aacute;vel, mas real&iacute;ssima de facto. A historiografia, enquanto recupera&ccedil;&atilde;o de not&iacute;cias e enquadramentos originais, atesta-lhe a exist&ecirc;ncia, mas &eacute; ultrapassada pela conviv&ecirc;ncia. Sabe-se &ldquo;historicamente&rdquo; de Jesus da Nazar&eacute; mais do que doutras figuras anteriores ou coevas, indiscut&iacute;veis tamb&eacute;m. Mas, como de qualquer pessoa, sabe-se dele pela conviv&ecirc;ncia que teve e o rasto que deixou, porque a defini&ccedil;&atilde;o de cada um &eacute; rec&iacute;proca em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;queles com quem directa ou indirectamente convive. Da&iacute; que n&atilde;o haja mem&oacute;ria sem testemunhos, nem hist&oacute;ria sem interpreta&ccedil;&atilde;o, compreens&atilde;o, por parte de quem v&ecirc;, ouve ou conta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Creio coincidir neste ponto com o que o Papa escreve, logo ao princ&iacute;pio: &ldquo;Tal exegese [b&iacute;blica cient&iacute;fica] deve reconhecer que uma hermen&ecirc;utica da f&eacute;, desenvolvida de forma justa, &eacute; conforme ao texto e pode unir-se a uma hermen&ecirc;utica hist&oacute;rica ciente dos pr&oacute;prios limites para formar um todo metodol&oacute;gico&rdquo; (p. 10).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Digamos ainda que, se a personalidade em causa &eacute; menos consistente, as interpreta&ccedil;&otilde;es imediatas ou sucessivas podem recri&aacute;-la e at&eacute; contrafaz&ecirc;-la, ao ponto de a tornarem irrecuper&aacute;vel. Quando acontece o contr&aacute;rio, ela imp&otilde;e-se de tal modo que mesmo as interpreta&ccedil;&otilde;es distintas acabam por ser &ldquo;sinf&oacute;nicas&rdquo;. Concluamos que assim sucede em rela&ccedil;&atilde;o a Jesus de Nazar&eacute;, como se acentua a prop&oacute;sito dos disc&iacute;pulos de Ema&uacute;s: &ldquo;N&atilde;o foram as palavras da Escritura que suscitaram o relato dos factos, mas sim os factos [a P&aacute;scoa de Cristo], que num primeiro tempo eram incompreens&iacute;veis, que levaram a uma nova compreens&atilde;o da Escritura&rdquo; (p. 168).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dos v&aacute;rios autores referidos e comentados na bibliografia, sobressai John P. Meier, exegeta americano. Dele escreve o Papa: &ldquo;Esta obra, em v&aacute;rios volumes, [&hellip;] constitui, sob muitos aspectos, um modelo de exegese hist&oacute;rico-cr&iacute;tica no qual est&atilde;o patentes tanto a import&acirc;ncia como os limites desta disciplina&rdquo; (p. 238). Mas foi o pr&oacute;prio Meier que, depois de ter concentrado em poucas linhas um percurso exegeticamente certific&aacute;vel de Jesus, acrescentou: &ldquo;&Eacute; contra o pano de fundo desse escasso referencial cronol&oacute;gico que procuraremos agora entender o que Jesus de Nazar&eacute; disse e fez durante esses dois breves anos [de minist&eacute;rio p&uacute;blico] que mudaram a face do mundo&hellip;&rdquo; (Um judeu marginal. Repensando o Jesus hist&oacute;rico. Rio de Janeiro: Imago, 1993, vol. 1, p. 402).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&Eacute; patente o crescimento, do historicamente verific&aacute;vel, enquanto disciplina cient&iacute;fica, &agrave; repercuss&atilde;o &ldquo;mundial&rdquo; que atingiu, enquanto conviv&ecirc;ncia come&ccedil;ada, transmitida e alargada em n&uacute;mero e consequ&ecirc;ncia. E poderemos acrescentar que a &ldquo;hist&oacute;ria&rdquo; de Jesus incide sobre o que ele disse e fez e as repercuss&otilde;es imediatas e mediatas que tal obteve nos seus disc&iacute;pulos, dos primeiros aos actuais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Admitamos tamb&eacute;m que, da historiografia &ldquo;positivista&rdquo; &agrave; s&eacute;culo XIX, que pretendia recuperar o passado tal e qual, atrav&eacute;s da documenta&ccedil;&atilde;o conseguida e independentemente da subjectividade de quem a lesse e seleccionasse, evolu&iacute;mos entretanto para uma historiografia &ldquo;personalista&rdquo;, que reconhece cada um atrav&eacute;s da rela&ccedil;&atilde;o que manteve com os demais e das consequ&ecirc;ncias mentais e existenciais que neles originou e continua a originar. N&atilde;o estar&aacute; longe disto a seguinte alus&atilde;o do Papa aos contornos escatol&oacute;gicos de Jesus: &ldquo;O verdadeiro &lsquo;acontecimento&rsquo; &eacute; a pessoa em quem, n&atilde;o obstante a passagem do tempo, permanece realmente o presente. Nessa pessoa est&aacute; agora presente o futuro. Em &uacute;ltima an&aacute;lise, o futuro n&atilde;o nos colocar&aacute; numa situa&ccedil;&atilde;o diversa daquela que j&aacute; se realizou no encontro com Jesus&rdquo; (p. 51).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Personalidade consistente &#8211; e por isso &ldquo;verdadeira&rdquo; -, a de Jesus, sumamente impressiva na consci&ecirc;ncia dos seus disc&iacute;pulos e bastante para lhes legitimar o testemunho, de h&aacute; dois mil&eacute;nios para c&aacute;. Tanto que Bento XVI se sente levado a perguntar-nos: &ldquo;Porventura n&atilde;o irradia de Jesus um raio de luz que cresce ao longo dos s&eacute;culos, um raio que n&atilde;o podia provir de nenhum simples ser humano, um raio mediante o qual entre verdadeiramente no mundo o esplendor da luz de Deus? Teria o an&uacute;ncio [pascal] dos ap&oacute;stolos podido encontrar f&eacute; e edificar uma comunidade universal se n&atilde;o operasse neles a for&ccedil;a da verdade?&rdquo; (p. 224).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Que isto seja assim, atesta-o certamente o interesse que o livro do Papa desperta, dentro e fora do c&iacute;rculo confessional. E, mesmo sendo o tom muito sereno e fluente, dentro das balizas culturais geralmente aceites, consente aqui e ali a manifesta&ccedil;&atilde;o duma alma crente e &ldquo;m&iacute;stica&rdquo;, quando a descri&ccedil;&atilde;o dalgum passo se abre &agrave; directa compaix&atilde;o. Ser&aacute; porventura este o mais revelador, em torno de Jesus em Gets&eacute;mani: &ldquo;Ali, Jesus experimentou a solid&atilde;o extrema, toda a tribula&ccedil;&atilde;o do ser homem. Ali, o abismo do pecado e de todo o mal penetrou at&eacute; ao fundo da sua alma. Ali foi assaltado pela turva&ccedil;&atilde;o da morte iminente. Ali O beijou o traidor. Ali todos os disc&iacute;pulos O abandonaram. Ali Ele lutou tamb&eacute;m, por mim&rdquo; (p. 126).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na &uacute;ltima frase, o exegeta e o te&oacute;logo d&atilde;o lugar ao m&iacute;stico, porque a rela&ccedil;&atilde;o se torna directa e agradecida com a personagem estudada. Da intelig&ecirc;ncia, acedemos &agrave; &ldquo;alma&rdquo; de Bento XVI. E a esperan&ccedil;a aqui j&aacute; n&atilde;o precisa de &ldquo;raz&otilde;es&rdquo;, embora esteja pronta a d&aacute;-las, &ldquo;com mansid&atilde;o e respeito&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&Eacute; ainda desta ordem &ndash; e muito coerente com o fio condutor da verifica&ccedil;&atilde;o pela conviv&ecirc;ncia &#8211; o antepen&uacute;ltimo par&aacute;grafo do texto papal: &ldquo;E porque n&atilde;o pedir-Lhe que nos conceda tamb&eacute;m hoje testemunhas novas da sua presen&ccedil;a, nas quais Ele mesmo se aproxime de n&oacute;s?&rdquo; (p. 236).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bastar&aacute; assim, como convite &agrave; leitura. O livro &ndash; cuja excelente edi&ccedil;&atilde;o temos de agradecer tamb&eacute;m &agrave; Princ&iacute;pia Editora &#8211; trata de muitos outros pontos, da maior relev&acirc;ncia. Fui particularmente sens&iacute;vel &agrave; hist&oacute;ria viva que Jesus de Nazar&eacute; vai fazendo com Bento XVI e os seus leitores.<\/p>\n<p>Universidade Cat&oacute;lica, Porto, 11 de Mar&ccedil;o de 2011<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Manuel Clemente<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O recente livro do Papa na simples leitura dum bispo Ao ler Jesus de Nazar&eacute;. Da Entrada em Jerusal&eacute;m at&eacute; &agrave; Ressurrei&ccedil;&atilde;o, de Joseph Ratzinger\/Bento XVI (Cascais: Principia, 2011, em tradu&ccedil;&atilde;o fluente que estimula a leitura), v&aacute;rias vezes me lembrei dum c&eacute;lebre trecho das Escrituras crist&atilde;s: &ldquo;&hellip; no &iacute;ntimo do vosso cora&ccedil;&atilde;o, confessai Cristo como [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,187],"class_list":["post-50378","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-diocese-do-porto"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50378","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50378"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50378\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50378"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50378"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50378"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}