{"id":5034,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/um-outro-olhar-sobre-as-desigualdades-e-a-exclusao-social-um-outro-compromisso-com-um-mundo-mais-justo-e-solidario\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"um-outro-olhar-sobre-as-desigualdades-e-a-exclusao-social-um-outro-compromisso-com-um-mundo-mais-justo-e-solidario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-outro-olhar-sobre-as-desigualdades-e-a-exclusao-social-um-outro-compromisso-com-um-mundo-mais-justo-e-solidario\/","title":{"rendered":"Um outro olhar sobre as desigualdades e a exclus\u00e3o social. Um outro compromisso com um mundo mais justo e solid\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>Carta da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz aos Crist\u00e3os analisa crise econ\u00f3mica e caminhos de solu\u00e7\u00e3o <!--more--> 1.\tNesta Quaresma de 2004, a CNJP vem dirigir-se aos crist\u00e3os, suas comunidades, organiza\u00e7\u00f5es e movimentos, com um objectivo: convidar a uma paragem, a fim de, com verdade e abertura de cora\u00e7\u00e3o, reflectirmos sobre a sociedade a que pertencemos, os seus problemas e op\u00e7\u00f5es, o seu presente e o seu futuro, \u00e0 luz dos crit\u00e9rios evang\u00e9licos e da doutrina social da Igreja cat\u00f3lica. Com o objectivo de provocar essa reflex\u00e3o partilhamos convosco os t\u00f3picos seguintes.   2.\tVemos com grande preocupa\u00e7\u00e3o que se tenha instalado entre os nossos concidad\u00e3os e concidad\u00e3s uma certa apatia e um aparente conformismo perante situa\u00e7\u00f5es de desigualdade e de exclus\u00e3o social crescentes, no nosso pa\u00eds e no mundo. Trata-se de realidades verdadeiramente clamorosas, mormente quando se tem presente que a Humanidade atingiu j\u00e1 n\u00edveis de produ\u00e7\u00e3o t\u00e3o elevados, que permitiriam assegurar a todas as fam\u00edlias do mundo m\u00ednimos de subsist\u00eancia. O simples facto de tal n\u00e3o ser verdade \u2013 e de o n\u00e3o ser a uma escala t\u00e3o gigantesca \u2013 \u00e9 raz\u00e3o bastante para n\u00e3o nos conform\u00e1mos com o mundo em que vivemos, com o estilo de vida que levamos, o qual permite reproduzir esse mesmo estado de coisas.  3.\t\u00c9 inaceit\u00e1vel que o progresso econ\u00f3mico que o nosso pa\u00eds alcan\u00e7ou nos \u00faltimos 30 anos e as ajudas comunit\u00e1rias entretanto recebidas n\u00e3o se tenham traduzido numa redu\u00e7\u00e3o substancial da pobreza, designadamente nas suas express\u00f5es mais severas, de falta de alimento e de habita\u00e7\u00e3o condigna, de dificuldades no acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 sa\u00fade, de insufici\u00eancia de recursos bastantes para garantir uma vida digna, segundo os padr\u00f5es correntes na nossa sociedade. Cerca de 1\/5 dos nossos concidad\u00e3os conhecem a pobreza com maior ou menor severidade, e uma parte deles nunca teve situa\u00e7\u00e3o diferente, porque a pobreza se tornou heredit\u00e1ria e esteve sempre presente nas suas vidas.  4.\t\u00c9 preocupante que o desemprego tenha aumentado consideravelmente nos \u00faltimos anos e afecte, hoje, mais de 400 mil pessoas, das quais boa parte sem quaisquer perspectivas realistas de vir a encontrar um novo emprego, a curto ou m\u00e9dio prazo.   5.\tPara as pessoas empregadas, a dura\u00e7\u00e3o e as exig\u00eancias do trabalho intensificaram-se e absorvem hoje uma parcela cada vez maior do tempo pessoal, gerando situa\u00e7\u00f5es stressantes e efeitos colaterais s\u00e9rios na vida familiar, no relacionamento humano e na sa\u00fade das pr\u00f3prias pessoas. O recurso sistem\u00e1tico ao trabalho extraordin\u00e1rio, muitas vezes com desrespeito das normas legais vigentes e dos preceitos internacionais, \u00e9 uma pr\u00e1tica com que a sociedade e os governos n\u00e3o deveriam pactuar, nem sequer por omiss\u00e3o, designadamente em tempo de desemprego avultado, como presentemente sucede.   6.\t\u00c9 intoler\u00e1vel que os n\u00edveis de remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia dos trabalhadores e o sal\u00e1rio m\u00ednimo permane\u00e7am consideravelmente abaixo dos valores m\u00e9dios que se verificam nos outros pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia, em contraste com remunera\u00e7\u00f5es escandalosamente altas de gestores e de outros profissionais, como ainda recentemente foi noticiado pela imprensa. Mais grave ainda \u00e9 o facto de que os n\u00edveis de sal\u00e1rio m\u00ednimo e pens\u00e3o m\u00ednima sejam fixados em valores que, reconhecidamente, ficam, no caso do primeiro, muito pr\u00f3ximo do limiar de pobreza e, no caso da segunda, abaixo desse limiar. Ou seja, s\u00e3o estabelecidos com a certeza antecipada de que as pessoas que os t\u00eam como \u00fanica fonte de rendimento n\u00e3o poder\u00e3o assegurar uma subsist\u00eancia digna. Id\u00eantico racioc\u00ednio se poder\u00e1 fazer quanto ao rendimento m\u00ednimo. Em situa\u00e7\u00e3o particularmente gravosa ficam as pessoas naquelas condi\u00e7\u00f5es que t\u00eam de fazer face a despesas com sa\u00fade avultadas, em virtude de padecerem de doen\u00e7a cr\u00f3nica, serem portadoras de defici\u00eancia ou simplesmente em raz\u00e3o da sua idade, j\u00e1 que as comparticipa\u00e7\u00f5es dos fundos p\u00fablicos v\u00eam sendo progressivamente reduzidas.   7.\tPor outro lado, os padr\u00f5es de qualidade dos servi\u00e7os p\u00fablicos de educa\u00e7\u00e3o, de sa\u00fade e, de modo geral, dos demais bens p\u00fablicos, longe de revelarem desej\u00e1veis melhorias, parecem regredir, provocando efeitos particularmente negativos para as pessoas de menores rendimentos. O argumento da falta de recursos do Estado n\u00e3o deve ser aceite acriticamente, antes dever\u00e1 levar a que se questione as prioridades que est\u00e3o subjacentes nos crit\u00e9rios dos decisores pol\u00edticos. Merecem particular reparo os investimentos p\u00fablicos que t\u00eam sido feitos em obras fara\u00f3nicas e projectos de utilidade social duvidosa, beneficiando apenas determinados sectores da popula\u00e7\u00e3o.  8.\tO processo de privatiza\u00e7\u00e3o em curso, nomeadamente no que toca a bens p\u00fablicos b\u00e1sicos, designadamente a \u00e1gua, os correios ou os transportes urbanos, para n\u00e3o falar da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o, poder\u00e3o configurar cen\u00e1rios de maior desigualdade e cavar o fosso entre ricos e pobres, acabando por mercantilizar direitos humanos e sociais b\u00e1sicos.  9.\tE que pensar do que est\u00e1 a ocorrer com o parque habitacional que aumentou consideravelmente em n\u00famero de fogos dispon\u00edveis e qualidade da constru\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o est\u00e1 ao alcance de uma parte significativa da popula\u00e7\u00e3o, que continua, designadamente nas grandes cidades, em situa\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, quando n\u00e3o atirada para bairros perif\u00e9ricos de habitat degradado? Sabe-se que \u00e9 elevado o n\u00famero de casas desocupadas, que funcionam para os seus propriet\u00e1rios apenas como capital expectante, sem qualquer uso social. H\u00e1 ind\u00edcios de que a compra de casas luxuosas em alguns casos est\u00e1 associada \u00e0 lavagem de dinheiro e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Por outro lado, \u00e9 manifesto o d\u00e9fice de habita\u00e7\u00e3o social e as dificuldades com que deparam as pessoas de baixos recursos para terem acesso a uma casa condigna compat\u00edvel com as suas posses. Estas realidades imp\u00f5em-se \u00e0 nossa reflex\u00e3o.  10.\tMuitos milhares de imigrantes t\u00eam procurado no nosso pa\u00eds condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de vida que, por variadas raz\u00f5es, n\u00e3o conseguem lograr nos seus pa\u00edses de origem. Sem o seu contributo, Portugal n\u00e3o teria conhecido os n\u00edveis de crescimento econ\u00f3mico que alcan\u00e7ou no passado recente. Contudo, muitas vezes, esses trabalhadores estrangeiros n\u00e3o s\u00e3o respeitados na sua dignidade e nos seus direitos; n\u00e3o encontram condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de habita\u00e7\u00e3o; e deparam mesmo com algumas resist\u00eancias na sua integra\u00e7\u00e3o nas nossas comunidades.  11.\t Em todos os quadrantes pol\u00edticos, reconhece-se que os investimentos em educa\u00e7\u00e3o e em sa\u00fade e de modo geral nos v\u00e1rios dom\u00ednios da qualidade de vida s\u00e3o de primordial import\u00e2ncia para o nosso pa\u00eds, pela dupla raz\u00e3o de que v\u00eam ao encontro de um direito de cidadania e deste modo refor\u00e7am a coes\u00e3o social e porque v\u00eam preencher um requisito b\u00e1sico do desenvolvimento da qualidade dos recursos humanos, condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel \u00e0 viabiliza\u00e7\u00e3o de uma sociedade de informa\u00e7\u00e3o e do conhecimento de que tanto se espera. N\u00e3o \u00e9, pois, aceit\u00e1vel que, nestas \u00e1reas fundamentais, n\u00e3o estejam asseguradas condi\u00e7\u00f5es de igualdade de oportunidades de acesso e de sucesso, correndo riscos de desigualdades e exclus\u00f5es agravadas no futuro.  12.\tSe alargarmos o nosso horizonte de reflex\u00e3o a outros espa\u00e7os geogr\u00e1ficos, como \u00e9 cada vez mais imperioso fazer por raz\u00f5es \u00e9ticas e por vivermos em tempo de mundializa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podemos ignorar a extens\u00e3o e a intensidade dram\u00e1ticas da pobreza que grassa em vastas regi\u00f5es de outros continentes, com destaque para a \u00c1frica, a \u00c1sia, a Am\u00e9rica Central e alguns pa\u00edses do continente latino-americano. \u00c0 pobreza extrema de uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o que vive nessas regi\u00f5es, acrescem doen\u00e7as evit\u00e1veis, o analfabetismo, a corrup\u00e7\u00e3o dos dirigentes e as guerras. S\u00e3o disfun\u00e7\u00f5es em grande parte produzidas pelo modelo econ\u00f3mico vigente e a hegemonia das grandes pot\u00eancias no dom\u00ednio das rela\u00e7\u00f5es comerciais \u2013 sistemas proteccionistas nos pa\u00edses do Centro, imposi\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os baixos \u00e0s mat\u00e9rias-primas oriundas dos pa\u00edses em desenvolvimento, apertadas regras de depend\u00eancia tecnol\u00f3gica e assist\u00eancia t\u00e9cnica, regime de patentes, asfixia financeira devida a encargos com a d\u00edvida externa. Como encaramos estes problemas? Reconhecemos a\u00ed a nossa quota parte de responsabilidade? Pelas nossas posturas ideol\u00f3gicas e pol\u00edticas? Pelas nossas actua\u00e7\u00f5es, enquanto investigadores, t\u00e9cnicos ou parceiros comerciais, com impacto nas rela\u00e7\u00f5es com esses pa\u00edses? Pelo nosso n\u00e3o envolvimento ou desinteresse em organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil mais atentas a estas problem\u00e1ticas? Pelas nossas atitudes e comportamentos quotidianos, de um consumo irrespons\u00e1vel, de esbanjamento de recursos, de falta de solidariedade no plano mundial?  LER A REALIDADE SEGUNDO O OLHAR DE JESUS  13.\tSe fazemos este elenco de situa\u00e7\u00f5es que tanto nos magoam \u2013 ou deviam magoar \u2013 n\u00e3o \u00e9 para as colocar, uma vez mais, diante dos nossos olhos, como se de um ecr\u00e3 de cinema se tratasse, como se fosse uma mera imagem exterior que n\u00e3o dissesse respeito aos nossos horizontes de preocupa\u00e7\u00e3o, excepto quando nos toca sermos n\u00f3s pr\u00f3prios\/as as v\u00edtimas. Fazemo-lo por tr\u00eas raz\u00f5es.  14.\tEm primeiro lugar, porque reconhecemos que existe na popula\u00e7\u00e3o portuguesa uma fraca sensibiliza\u00e7\u00e3o \u00e0 pobreza e \u00e0 desigualdade, n\u00e3o as considerando como males sociais, isto \u00e9, produzidos pela pr\u00f3pria sociedade e prejudiciais para a mesma. Tanto a grande desigualdade como a pobreza e a exclus\u00e3o social s\u00e3o realidades ainda toleradas por parte de muitos dos nossos concidad\u00e3os e concidad\u00e3s; dir\u00edamos que, para muitos, s\u00e3o fen\u00f3menos aceites com demasiada complac\u00eancia e resigna\u00e7\u00e3o, no pressuposto da sua inevitabilidade, uma esp\u00e9cie de marca do destino, quando n\u00e3o a consequ\u00eancia de alguma culpabilidade dos pr\u00f3prios pobres.  H\u00e1 pa\u00edses europeus em que o grau de avers\u00e3o e recusa da grande desigualdade e da pobreza e exclus\u00e3o social \u00e9 bem superior ao nosso. J\u00e1 faz parte da consci\u00eancia dos cidad\u00e3os desses pa\u00edses a certeza de que a exclus\u00e3o social e em menor escala a grande desigualdade de riqueza, rendimento ou de oportunidades, al\u00e9m de serem conden\u00e1veis por raz\u00f5es \u00e9ticas e\/ou c\u00edvicas, constituem factores que p\u00f5em em risco a pr\u00f3pria democracia, a coes\u00e3o social e a paz. Nestes pa\u00edses, os cidad\u00e3os est\u00e3o dispostos a pagar mais impostos e outras contribui\u00e7\u00f5es para prevenir ou corrigir a exclus\u00e3o e em geral para viabilizar o cumprimento dos direitos de cidadania. S\u00e3o pa\u00edses em que os leques salariais e de remunera\u00e7\u00f5es t\u00eam menor amplitude e aceitam-se pol\u00edticas redistributivas mais claras e eficientes. Sentimos que, tamb\u00e9m entre n\u00f3s, \u00e9 necess\u00e1rio fomentar uma consci\u00eancia mais esclarecida a este respeito. Cremos que \u00e9 tempo de insistir junto dos nossos concidad\u00e3os e dos crist\u00e3os em particular sobre a necessidade de um outro modo de olhar as situa\u00e7\u00f5es de empobrecimento nas suas m\u00faltiplas vertentes e da grande desigualdade que se instalou nas nossas sociedades, de compreender os mecanismos econ\u00f3micos, financeiros e pol\u00edticos, que as produzem e alimentam, de tomar consci\u00eancia de como tais situa\u00e7\u00f5es comprometem a coes\u00e3o social e constituem uma amea\u00e7a \u00e0 paz.   15. A segunda raz\u00e3o que nos move a incentivar esta reflex\u00e3o \u00e9 o facto de constatarmos que em certos meios pol\u00edticos e na comunica\u00e7\u00e3o social, frequentemente se veiculam ideias preconceituosas relativamente aos modelos econ\u00f3micos vigentes, designadamente no que se refere \u00e0 sua inevitabilidade, e suporte te\u00f3rico, da\u00ed retirando legitima\u00e7\u00e3o para certas pol\u00edticas e pr\u00e1ticas de gest\u00e3o. Por exemplo, \u00e9 frequente o argumento da necessidade de controlo or\u00e7amental (o que, em si mesmo, ningu\u00e9m contesta) para justificar medidas de restri\u00e7\u00e3o da despesa p\u00fablica, o que j\u00e1 n\u00e3o pode ser aceite sem pondera\u00e7\u00e3o dos seus efeitos sobre a extens\u00e3o e a qualidade dos servi\u00e7os p\u00fablicos prestados (educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, investiga\u00e7\u00e3o, habita\u00e7\u00e3o social, ac\u00e7\u00e3o social, etc.) ou as redu\u00e7\u00f5es dr\u00e1sticas de remunera\u00e7\u00f5es e regalias dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos sem negocia\u00e7\u00e3o com os interessados e sem contrapartidas. De resto, a despesa \u00e9 apenas um dos factores de ajustamento; este consegue-se tamb\u00e9m atrav\u00e9s da recupera\u00e7\u00e3o de receitas fiscais devidas, atrav\u00e9s de medidas eficazes de combate \u00e0 fraude e \u00e0 evas\u00e3o fiscais e, em geral, com o aperfei\u00e7oamento de uma pol\u00edtica tribut\u00e1ria mais equitativa e eficiente. No que se refere \u00e0s empresas, preocupa-nos que, com frequ\u00eancia, fiquem por sancionar pr\u00e1ticas de gest\u00e3o danosa, por vezes, a par de elevados proveitos dos seus gestores, e, em particular, o encerramento das mesmas, \u00e0 revelia da participa\u00e7\u00e3o dos respectivos trabalhadores que s\u00e3o atirados para despedimentos colectivos, os quais tantas vezes p\u00f5em em risco as economias locais dependentes da empresa que encerra a sua actividade somente para ir procurar em outras paragens lucros mais vultuosos.  16. A terceira raz\u00e3o que nos move nesta reflex\u00e3o \u00e9 o reconhecimento de que os crist\u00e3os pouco confrontam as suas atitudes e comportamentos na sociedade (trabalho, neg\u00f3cios, ensino e investiga\u00e7\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o c\u00edvica e pol\u00edtica) com as exig\u00eancias que decorrem da sua f\u00e9 em Jesus Cristo. Sucede, assim, que os valores humanos e crist\u00e3os interferem pouco ou nada nas suas respectivas pr\u00e1ticas de vida. Ora, h\u00e1 crist\u00e3os em todos os sectores da vida econ\u00f3mica, social e pol\u00edtica \u2013 gestores e quadros t\u00e9cnicos de empresa, banqueiros, educadores e professores, pol\u00edticos, deputados, governantes, ju\u00edzes, detentores de cargos p\u00fablicos \u2013 sem que se observem sinais que testemunhem as suas refer\u00eancias crist\u00e3s.   Por outro lado, temos de reconhecer que, em muitas das nossas comunidades e assembleias, paira uma muralha de sil\u00eancio sobre estas problem\u00e1ticas e s\u00e3o muito t\u00e9nues as interpela\u00e7\u00f5es dirigidas ao compromisso dos crist\u00e3os com os valores evang\u00e9licos quando est\u00e1 em causa a sua aplica\u00e7\u00e3o na transforma\u00e7\u00e3o das sociedades a que pertencem, em ordem \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e da paz.  17. Em que pensaria Jesus quando, dirigindo-se aos seus disc\u00edpulos, lhes dizia: v\u00f3s sois a luz do mundo, v\u00f3s sois o sal da terra, v\u00f3s sois o fermento que uma mulher junta \u00e0 massa para a levedar? Que nos quer dizer a n\u00f3s, mulheres e homens do come\u00e7o deste s\u00e9culo XXI, a n\u00f3s que vivemos em Portugal, um pa\u00eds membro da Uni\u00e3o Europeia, uma das grandes pot\u00eancias econ\u00f3micas do Mundo? Certamente quer encorajar-nos a n\u00e3o nos deixarmos conformar com as situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a e com os mecanismos que lhes est\u00e3o subjacentes, que contradizem os crit\u00e9rios e valores do Evangelho e o paradigma do reino de Deus que a todos n\u00f3s crist\u00e3os cabe anunciar.  18. Ser \u201cluz\u201d, \u201csal\u201d ou \u201cfermento\u201d hoje \u00e9 estar na primeira linha de quem defende e promove direitos fundamentais: \u00a7\ta dignidade e o valor de toda a pessoa humana, de cada mulher e de cada homem, da crian\u00e7a, do jovem, do adulto ou da pessoa idosa; \u00a7\to direito de cada pessoa encontrar na sociedade a que pertence condi\u00e7\u00f5es para uma vida digna, nomeadamente o direito ao trabalho com garantias e sua justa remunera\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m o acesso a uma habita\u00e7\u00e3o condigna, \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 seguran\u00e7a; \u00a7\to direito \u00e0 liberdade de palavra e de express\u00e3o, de desloca\u00e7\u00e3o, de associa\u00e7\u00e3o e de participa\u00e7\u00e3o c\u00edvica e pol\u00edtica, tanto no pr\u00f3prio pa\u00eds como \u00e0 escala mundial. Ser \u201cluz\u201d, \u201csal\u201d ou \u201cfermento\u201d hoje \u00e9, para al\u00e9m disto, escolher estar do lado dos empobrecidos e dos mais fracos (op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres, como lembra o Conc\u00edlio Vaticano II), compartilhar as suas dificuldades e ir em sua ajuda, empenhando-se em remover as causas estruturais da pobreza nas suas m\u00faltiplas vertentes. Ser \u201cluz\u201d, \u201csal\u201d ou \u201cfermento\u201d hoje \u00e9 defender o princ\u00edpio fundamental do destino universal dos bens da terra e consequentemente procurar com todo o empenho que aqueles se destinem prioritariamente \u00e0 subsist\u00eancia e melhoria de condi\u00e7\u00f5es de vida para todos e n\u00e3o em benef\u00edcio exclusivo de alguns. Ser \u201cluz\u201d, \u201csal\u201d ou \u201cfermento\u201d hoje \u00e9 reconhecer que a propriedade privada ou a livre concorr\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o valores absolutos, mas antes instrumentos ao servi\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o e da efici\u00eancia da economia. Ser \u201cluz\u201d, \u201csal\u201d ou \u201cfermento\u201d hoje \u00e9 n\u00e3o pactuar com estruturas injustas, denunciando-as e promovendo as solu\u00e7\u00f5es alternativas e inovadoras que estiverem ao seu alcance; ou refutando os argumentos da inevitabilidade de certas pr\u00e1ticas, contrapondo-lhes solu\u00e7\u00f5es paradigm\u00e1ticas de maior justi\u00e7a na organiza\u00e7\u00e3o da economia e da sociedade, nas empresas como na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e adoptando atitudes e comportamentos pessoais de consumo, de produ\u00e7\u00e3o, de troca, de gest\u00e3o que sejam coerentes com os valores evang\u00e9licos. Ser \u201cluz\u201d, \u201csal\u201d ou \u201cfermento\u201d hoje \u00e9 ser capaz de enquadrar os crit\u00e9rios mundanos da competitividade, da efic\u00e1cia e da efici\u00eancia pelo referencial primeiro do Amor, o sinal pelo qual ser\u00e3o reconhecidos os disc\u00edpulos de Cristo.  19. Estamos conscientes de que o \u201coutro olhar\u201d a que fazemos apelo n\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7\u00e1vel sem uma reflex\u00e3o s\u00e9ria e profunda, em clima interior de abertura ao Esp\u00edrito de Jesus Cristo morto e ressuscitado. Sugerimos, por isso, que esta tem\u00e1tica, cuja import\u00e2ncia para o modo de ser crist\u00e3o hoje, esteja presente, quer na ora\u00e7\u00e3o pessoal de cada crist\u00e3o, quer em iniciativas comunit\u00e1rias neste tempo privilegiado da Quaresma. Cada crist\u00e3o e cada comunidade saber\u00e1 escolher as formas concretas que melhor se adequarem a cada caso.  20. \u00c9 certo que, ao contr\u00e1rio daquilo que muitas vezes aceitamos com f\u00e1cil comodismo, podemos sempre fazer algo para mudar este estado de coisas. Bastaria que, numa sociedade em que a maioria das pessoas se reconhece como crist\u00e3, viv\u00eassemos mais de acordo com os crit\u00e9rios Evang\u00e9licos para que os problemas colectivos que enfrentamos encontrassem resposta. Se o nosso cora\u00e7\u00e3o se alegrasse mais e desse mais valor aquela pessoa que conseguiu romper com a sua situa\u00e7\u00e3o de pobreza e exclus\u00e3o do que \u00e0 ostenta\u00e7\u00e3o do sucesso daquele que j\u00e1 muito tem, fomentar\u00edamos um \u201coutro olhar\u201d, outros valores e outras atitudes na nossa sociedade. A Esperan\u00e7a no Cristo ressuscitado do Domingo de P\u00e1scoa desafia constantemente as nossas certezas condescendentes sobre um \u201cmundo-que-n\u00e3o-podemos-mudar\u201d.  Quaresma de 2004<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carta da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz aos Crist\u00e3os analisa crise econ\u00f3mica e caminhos de solu\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[101,104,134,144,154,189,191,193,206,275,91,314],"class_list":["post-5034","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-africa","tag-america","tag-cnjp","tag-concilio-vaticano-ii","tag-crianca","tag-direitos-humanos","tag-economia","tag-educacao","tag-familia","tag-pascoa","tag-quaresma","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5034","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5034"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5034\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5034"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5034"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5034"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}