{"id":50316,"date":"2011-03-10T08:07:39","date_gmt":"2011-03-10T08:07:39","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/03\/10\/jesus-de-nazare-de-bento-xvi-segunda-parte-a-importancia-de-um-metodo\/"},"modified":"2011-03-10T08:07:39","modified_gmt":"2011-03-10T08:07:39","slug":"jesus-de-nazare-de-bento-xvi-segunda-parte-a-importancia-de-um-metodo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/jesus-de-nazare-de-bento-xvi-segunda-parte-a-importancia-de-um-metodo\/","title":{"rendered":"\u00abJesus de Nazar\u00e9\u00ab de Bento XVI, segunda parte &#8211; A Import\u00e2ncia de um m\u00e9todo"},"content":{"rendered":"<p>H. Noronha Galv\u00e3o <!--more--> <\/p>\n<p>Com este segundo volume da sua obra &ldquo;Jesus de Nazar&eacute;&rdquo;, Bento XVI continua fiel ao seu projecto de apresentar a figura real de Jesus Cristo. Considera por&eacute;m que esta s&oacute; corresponder&aacute; &agrave; sua verdade se, para al&eacute;m do rigor hist&oacute;rico do seu estudo, for vista &agrave; luz da f&eacute;, testemunhada j&aacute;, ali&aacute;s, pelos textos que no-lo d&atilde;o a conhecer. Para o estabelecer &eacute; necess&aacute;rio ir al&eacute;m da pura factualidade dos acontecimentos que tecem a vida, morte e ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo, e consider&aacute;-los como express&atilde;o de algo mais profundo, do pr&oacute;prio des&iacute;gnio de Deus que se cumpre e j&aacute; fora profetizado. Donde a import&acirc;ncia das refer&ecirc;ncias ao Antigo Testamento para esta interpreta&ccedil;&atilde;o e nesta obra de Bento XVI. Na an&aacute;lise dessa teia por vezes subtil de conota&ccedil;&otilde;es evidencia-se a sensibilidade do Autor &agrave;s possibilidades que oferece a lingu&iacute;stica, antiga e moderna. Aliada &agrave; import&acirc;ncia que Ratzinger reconhece &agrave; metodologia hist&oacute;rica &ndash; n&atilde;o s&oacute; neste livro, mas em toda a sua obra teol&oacute;gica (como heran&ccedil;a recebida da escola teol&oacute;gica de Munique) &ndash; esta sensibilidade &agrave;s virtualidades da linguagem permite-lhe estar atento ao alcance simb&oacute;lico de muitas das narrativas neotestament&aacute;rias.<\/p>\n<p>Como diz o pr&oacute;prio Autor, o m&eacute;todo aqui usado aproxima-se daquele que ao longo da Tradi&ccedil;&atilde;o soube interpretar os acontecimentos da vida de Jesus como &ldquo;mist&eacute;rios&rdquo;, todos se ordenando para o mist&eacute;rio central da P&aacute;scoa do Filho de Deus feito homem, que deu a vida e ressuscitou por toda a humanidade. Da&iacute; a import&acirc;ncia deste segundo volume que incide, precisamente, nesse desfecho da vida de Jesus, no qual se revela, desde a entrada solene em Jerusal&eacute;m, o verdadeiro sentido da sua miss&atilde;o messi&acirc;nica.<\/p>\n<p>No pref&aacute;cio &agrave; obra agora publicada, o Autor n&atilde;o s&oacute; nega ser sua inten&ccedil;&atilde;o &nbsp;escrever uma &ldquo;vida de Jesus&rdquo; &agrave; maneira de uma biografia, como tamb&eacute;m elaborar uma &ldquo;cristologia do alto&rdquo;. Trata-se, como &eacute; sabido, de um dos dois modelos cristol&oacute;gicos desenvolvidos durante a primeira metade do sec. V, e a que o Autor tamb&eacute;m se h&aacute;-de referir num dos passos do seu livro. Entre esses dois modelos de pensamento sobre o mist&eacute;rio de Jesus Cristo se travaram as grandes discuss&otilde;es que levariam &agrave; s&iacute;ntese proposta pelo conc&iacute;lio ecum&eacute;nico de Calced&oacute;nia, em 451. &Agrave; &ldquo;cristologia do alto&rdquo; (katab&aacute;tica), dos monges de Alexandria, se contrap&otilde;e ent&atilde;o a &ldquo;cristologia de baixo&rdquo; (anab&aacute;tica) dos eruditos de Antioquia, na S&iacute;ria. A primeira toma como lema a cita&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;logo joanino &ldquo;o Verbo fez-se carne&rdquo;, contemplando o Filho de Deus que desce at&eacute; n&oacute;s, assumindo a nossa carne, a nossa humanidade. A segunda cristologia, numa perspectiva inversa, toma como ponto de partida o homem concreto que Jesus foi, nele reconhecendo a revela&ccedil;&atilde;o do Filho de Deus. Se o primeiro modelo insiste na unidade de Jesus Cristo como presen&ccedil;a do pr&oacute;prio Filho de Deus no meio de n&oacute;s, o segundo sublinha a dualidade daquele que se revela como verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Para conciliar unidade e dualidade do mist&eacute;rio de Jesus Cristo j&aacute; S. Greg&oacute;rio de Nazianzo introduzira o conceito de <em>pericorese <\/em>que, a partir da sua tradu&ccedil;&atilde;o latina <em>circumincessio<\/em>, podemos designar em portugu&ecirc;s por <em>cincumincess&atilde;o<\/em>. Tal como numa &ldquo;prociss&atilde;o&rdquo; se caminha para a frente, na &ldquo;circumincess&atilde;o&rdquo; o movimento &eacute; circular e implica a m&uacute;tua e cont&iacute;nua penetra&ccedil;&atilde;o das realidades divina e humana de Jesus, sem que a sua distin&ccedil;&atilde;o seja abolida. Como dir&aacute; o conc&iacute;lio de Calced&oacute;nia, n&atilde;o h&aacute; nesta unidade nem mistura nem separa&ccedil;&atilde;o das duas naturezas de Jesus. Um novo tipo de unidade &eacute; tornado poss&iacute;vel pela rela&ccedil;&atilde;o criadora do Filho de Deus com a natureza humana por Ele criada, e que Ele assume pessoalmente para salvar a humanidade e a levar &agrave; plenitude.<\/p>\n<p>Estamos perante um dos casos mais not&aacute;veis do vasto processo que se deu na Igreja Antiga, o qual, mais do que incultura&ccedil;&atilde;o, deve ser chamado <em>intercultura&ccedil;&atilde;o<\/em> &ndash; como Ratzinger prefere dizer &ndash; porque, ao encontrar-se com a cultura de inspira&ccedil;&atilde;o grega, a f&eacute; crist&atilde; &eacute; ela pr&oacute;pria portadora de cultura, &eacute; cultura. O processo realiza-se, assim, em ambos os sentidos: se a f&eacute; adopta uma nova conceptualidade em virtude desse encontro, tamb&eacute;m a cultura de inspira&ccedil;&atilde;o hel&eacute;nica &eacute; posta em causa pela f&eacute;, por ela &eacute; criticada, aprofundada e enriquecida. J&aacute; durante o sec. IV, nas discuss&otilde;es sobre o mist&eacute;rio de Deus revelado por Jesus Cristo, um dos princ&iacute;pios basilares do pensamento grego fora abalado, o princ&iacute;pio de que s&oacute; a unidade &eacute; pr&oacute;pria da perfei&ccedil;&atilde;o denotando sempre a pluralidade uma degrada&ccedil;&atilde;o do ser. A f&eacute; crist&atilde; afirma, pelo contr&aacute;rio, que a plenitude do ser em Deus coincide com a pluralidade trina das pessoas divinas que, como m&uacute;tuas rela&ccedil;&otilde;es, se revelam na unidade de uma perfeita comunh&atilde;o. Do mais humilde dos acidentes, na tabela das categorias de Arist&oacute;teles, a rela&ccedil;&atilde;o &eacute; elevada a significar o mais alto sentido do ser, entendido como pessoal. Por isso, a revela&ccedil;&atilde;o do Nome de Deus Yahveh feita a Mois&eacute;s (Ex 3, 14) &ndash; entendido a partir da sua tradu&ccedil;&atilde;o grega como &ldquo;Eu sou Aquele que sou&rdquo;, isto &eacute;, como a plenitude pessoal do Ser &ndash; &nbsp;encontra em Jesus Cristo a sua perfeita revela&ccedil;&atilde;o segundo a f&oacute;rmula de S. Jo&atilde;o: &ldquo;Deus &eacute; Amor&rdquo; (1Jo 4, 8.16). A verdadeira e definitiva interpreta&ccedil;&atilde;o do Nome de Deus &eacute;-nos dada por Jesus Cristo ao mostrar-nos que a plenitude do Ser se identifica com o Amor. Tamb&eacute;m durante as disputas teol&oacute;gicas do sec. V a perfei&ccedil;&atilde;o da natureza divina n&atilde;o &eacute; vista, no mist&eacute;rio de Jesus Cristo, como auto-sufici&ecirc;ncia, <em>autarcia<\/em>, &agrave; maneira grega, mas como o poder de se relacionar, de se dar ao outro, realizando com ele uma nova forma de unidade que, ao contr&aacute;rio de implicar o fechamento do ser sobre si mesmo, o entende como total abertura.<\/p>\n<p>Quando o pr&oacute;prio Deus decide vir at&eacute; n&oacute;s e fazer hist&oacute;ria connosco, a tens&atilde;o implicada no pensamento paradoxal da f&eacute; &eacute; inevit&aacute;vel; e s&oacute; &agrave; luz da f&eacute; ela se torna apreens&iacute;vel. Em contrapartida, sempre que se pretende reduzir a f&eacute; a um qualquer racionalismo naturalista, &eacute;-se for&ccedil;ado a eliminar um dos p&oacute;los da tens&atilde;o. Este perigo existiu j&aacute; quer numa quer noutra das escolas teol&oacute;gicas do sec. V que elaboraram os dois paradigmas cristol&oacute;gicos que referi, paradigmas que se mantiveram ao longo da hist&oacute;ria da teologia como perspectivas poss&iacute;veis para se contemplar o mist&eacute;rio de Jesus Cristo. Tamb&eacute;m hoje, tal como no passado, esta dupla perspectiva teol&oacute;gica se oferece como leg&iacute;tima alternativa, mas tamb&eacute;m com o perigo de reduzir o significado de Jesus Cristo eliminando quer a densidade da sua realidade humana quer a realidade do seu ser divino.<\/p>\n<p>Num tempo em que ganharam grande import&acirc;ncia as possibilidades do conhecimento hist&oacute;rico da figura de Jesus, a tenta&ccedil;&atilde;o mais frequente &eacute; querer reduzi-lo apenas &agrave; sua realidade humana, a &uacute;nica acess&iacute;vel a um tal tipo de conhecimento. Embora seja inteiramente l&iacute;cito optar pela perspectiva que parte da realidade humana de Jesus, pretender contudo isol&aacute;-la da sua realidade divina j&aacute; n&atilde;o respeita a verdade do seu mist&eacute;rio. Ora o projecto de Ratzinger consiste precisamente em partir do estudo hist&oacute;rico de Jesus, como a perspectiva que vai mais ao encontro da mentalidade moderna, mas recusando simultaneamente isolar a realidade humana de Jesus da sua realidade divina que s&oacute; num horizonte de f&eacute; se torna apreens&iacute;vel. O seu projecto pretende, precisamente, sublinhar que se n&atilde;o contradiz uma vis&atilde;o de Jesus &ldquo;a partir de baixo&rdquo; quando se recusa a tenta&ccedil;&atilde;o de parar a meio do trajecto; mas que, pelo contr&aacute;rio, esse trajecto s&oacute; tem real validade quando nos conduz &agrave; totalidade do mist&eacute;rio de Jesus, &agrave; sua plena verdade. &Eacute; o que afirma, logo no pref&aacute;cio, com alguma prud&ecirc;ncia: &ldquo;Exagerando um pouco, poder-se-&aacute; dizer que pretendo encontrar o Jesus real, sendo que &eacute; a partir da&iacute; que algo como uma &lsquo;cristologia de baixo&rsquo; se torna poss&iacute;vel.&rdquo; Para o realizar, tendo sobretudo em conta as insufici&ecirc;ncias positivistas da moderna cr&iacute;tica hist&oacute;rica, &eacute; necess&aacute;rio insistir num outro tipo de hermen&ecirc;utica que sup&otilde;e a f&eacute;, como acontece nesta obra de Bento XVI.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>H. Noronha Galv&atilde;o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H. 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