{"id":50291,"date":"2011-03-09T11:18:49","date_gmt":"2011-03-09T11:18:49","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/03\/09\/em-favor-de-uma-catequese-narrativa\/"},"modified":"2011-03-09T11:18:49","modified_gmt":"2011-03-09T11:18:49","slug":"em-favor-de-uma-catequese-narrativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/em-favor-de-uma-catequese-narrativa\/","title":{"rendered":"Em favor de uma catequese narrativa"},"content":{"rendered":"<p>Tolentino Mendon\u00e7a, Faculdade de Teologia da UCP <!--more--> <\/p>\n<p>Infelizmente ainda se insiste numa catequese muito conceptual e indiferenciada, com mais coisas para decorar do que para perceber vitalmente. As narrativas evang&eacute;licas, por&eacute;m, prop&otilde;em um conhecimento de Jesus em situa&ccedil;&atilde;o. De facto, damos um passo em profundidade quando reconhecemos que, nos Evangelhos, Jesus n&atilde;o nos &eacute; apresentado j&aacute; elaborado, como se o seu retrato estivesse predeterminado e sabido. A revela&ccedil;&atilde;o de Jesus vai-se operando progressivamente. Para cada pessoa, Jesus come&ccedil;a por ser uma pergunta, e &eacute; t&atilde;o importante que seja assim, &eacute; t&atilde;o necess&aacute;rio que nos interroguemos: &laquo;Quem &eacute; este?&raquo;; &laquo;Donde lhe vem esta autoridade?&raquo;; &laquo;Donde lhe vem tudo isto?&raquo;.<\/p>\n<p>O conhecimento de Jesus desenha-se e consolida-se numa sucess&atilde;o de encontros, que o leitor dos Evangelhos &eacute; levado a acompanhar. Para dizer: n&atilde;o &eacute; indiferente para a compreens&atilde;o de Jesus as raz&otilde;es dos que se aproximaram dele, mesmo que a princ&iacute;pio tenham sido amb&iacute;guas e necessitadas de matura&ccedil;&atilde;o. Como n&atilde;o s&atilde;o indiferentes os seus actores: os nomeados e os an&oacute;nimos, aqueles que disseram palavras e os que nada verbalizaram, aqueles que junto a ele choraram e riram, aqueles que vieram de longe e de perto, essa rede m&uacute;ltipla e inumer&aacute;vel de humanidade que a narra&ccedil;&atilde;o coloca continuamente em redor dele e a quem, talvez, n&atilde;o tenhamos dado ainda a import&acirc;ncia devida. A cristologia dos evangelhos &eacute; iminentemente narrativa. Conta e ouve hist&oacute;rias. Acolhe as traject&oacute;rias existenciais e potencia-as. Parte da&iacute; para a descoberta de Jesus.<\/p>\n<p>Essa narratividade confere aos textos das origens crist&atilde;s uma for&ccedil;a muito peculiar. Nos Evangelhos h&aacute; personagens colectivas: os disc&iacute;pulos, os fariseus, os publicanos, as multid&otilde;es&hellip; Mas quando se passa do plural ao singular h&aacute; uma intensifica&ccedil;&atilde;o. Os verbos ganham for&ccedil;a. Os adjectivos deixam a abstrac&ccedil;&atilde;o e passam a uma concretude incisiva, a um colorido &iacute;ntimo e pr&oacute;prio. Enquanto temos personagens colectivas a actuar, vemos tudo como que num plano geral, mas quando &eacute; aquele jovem rico que vem procurar Jesus ou aquela mulher cananeia ou Nicodemos o quadro torna-se fulgurante. O texto sobe em temperatura. Estamos diante daquela dor, daquela esperan&ccedil;a; &eacute; aquela emo&ccedil;&atilde;o que est&aacute; em cena e n&atilde;o se dilui nos tra&ccedil;os do conjunto. Por tudo isto, parece essencial tornarmo-nos sens&iacute;veis ao seguinte: a prop&oacute;sito de Jesus, o relevante n&atilde;o &eacute; apenas como do problema (que cada um traz e encena) se passa ao desfecho, como se Jesus fosse apenas revelado pelas coisas que resolve. Por exemplo, quando Jesus cura o leproso, o importante n&atilde;o &eacute; apenas que h&aacute; um leproso e que no fim do encontro este fica curado. Fundamental &eacute; tamb&eacute;m o modo como isso acontece: o facto de Jesus correr o risco de contamina&ccedil;&atilde;o. Jesus podia curar observando o afastamento recomendado em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;quele tipo de doentes, mas ele escolhe tocar no leproso. E este gesto, insubmisso e fort&iacute;ssimo, na direc&ccedil;&atilde;o daquela vida interditada, &eacute; t&atilde;o ou mais forte que a cura em si.<\/p>\n<p>Quando outro doente &eacute; descido de maneira espectacular pelo telhado, porque pelas entradas normais era imposs&iacute;vel chegar a Jesus, temos uma imagem que vale por mil palavras. D&aacute; a ver tudo: o desespero, mas igualmente a esperan&ccedil;a, o esfor&ccedil;o de ir at&eacute; ao fim, de precisar de Jesus at&eacute; ao fim. Aquele pai, que tem um filho epil&eacute;ptico, e que nos &eacute; desenhado com realismo: o rapaz deitado por terra, a espumar em convuls&atilde;o. Este pai vem ter com Jesus e diz-lhe: &laquo;Mestre, eu pe&ccedil;o-te que venhas ver o meu filho&raquo;. Rapidamente percebemos que neste pedido se concentra um dramatismo precioso que a pr&oacute;pria narrativa propositadamente conserva. O importante n&atilde;o &eacute; apenas que havia um n&oacute; que Jesus desfaz. Decisivo &eacute; tamb&eacute;m o caminho que cada personagem faz para Jesus, e esse caminho na fragilidade, esse processo de uma humanidade que se interroga, em crise, em sofrimento, ou simplesmente em curiosidade e busca &ndash; isso &eacute; mat&eacute;ria que nos permite uma aproxima&ccedil;&atilde;o intensa, existencial de Jesus. A Jesus n&oacute;s chegamos pela exposi&ccedil;&atilde;o radical de n&oacute;s mesmos. &Eacute; no modo como ele cruza e se deixa cruzar pelas nossas vidas que a sua identidade (e tamb&eacute;m a nossa) se vai descobrindo. O Rosto de Jesus reconstr&oacute;i-se antes de tudo pelo rasto que ele deixa nos nossos cora&ccedil;&otilde;es. &nbsp;<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Jos&eacute; Tolentino Mendon&ccedil;a<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tolentino Mendon\u00e7a, Faculdade de Teologia da UCP<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[127,321],"class_list":["post-50291","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-catequese","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50291","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50291"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50291\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50291"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50291"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50291"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}