{"id":50240,"date":"2011-03-04T11:00:08","date_gmt":"2011-03-04T11:00:08","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/03\/04\/i-republica-e-igreja-no-algarve-2\/"},"modified":"2011-03-04T11:00:08","modified_gmt":"2011-03-04T11:00:08","slug":"i-republica-e-igreja-no-algarve-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/i-republica-e-igreja-no-algarve-2\/","title":{"rendered":"I Rep\u00fablica e Igreja no Algarve"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista ao padre Afonso da Cunha Duarte, sacerdote e investigador, director do Arquivo Diocesano do Algarve e autor da obra \u00abA Rep\u00fablica e a Igreja no Algarve\u00bb, destacando a figura de D. Ant\u00f3nio Barbosa Le\u00e3o (1860-1929), bispo local entre 1908 e 1919 <!--more--> <\/p>\n<p>O padre Afonso da Cunha Duarte, sacerdote e investigador, director do Arquivo Diocesano do Algarve, considera que a implanta&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica nesta regi&atilde;o do pa&iacute;s, fez com que &ldquo;tanto os frades como o clero diocesano&rdquo; fossem &ldquo;perseguidos&rdquo;.<\/p>\n<p>Autor da obra &laquo;A Rep&uacute;blica e a Igreja no Algarve&raquo;, este especialista revela que, na imprensa do in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, a Igreja era rotulada como &ldquo;&laquo;jesu&iacute;tica&raquo;, &laquo;inquisitorial&raquo;, &laquo;ultramontanista&raquo; e &laquo;miguelista&raquo;&rdquo;.<\/p>\n<p>&ldquo;A catequese pol&iacute;tica abundava na imprensa regional&rdquo;, acrescenta.<\/p>\n<p>O sacerdote refere, em entrevista &agrave; Ag&ecirc;ncia ECCLESIA, que os conflitos com a Igreja se avolumavam e &ldquo;os dist&uacute;rbios eram frequentes, de modo particular nos enterros de alguns republicanos mais exaltados, declaradamente inimigos p&uacute;blicos da Igreja&rdquo;.<\/p>\n<p>Ap&oacute;s uma investiga&ccedil;&atilde;o de 15 anos, o padre Afonso da Cunha Duarte destaca a figura de D. Ant&oacute;nio Barbosa Le&atilde;o (1860-1929), bispo do Algarve entre 1908 e 1919, um mon&aacute;rquico constitucionalista que manteve sempre o distanciamento na luta partid&aacute;ria.<\/p>\n<p>A Lei da Separa&ccedil;&atilde;o, de Abril de 1911, apanhou de surpresa o bispo, o qual n&atilde;o esperava que &ldquo;fosse t&atilde;o aguda e t&atilde;o radical&rdquo;. &ldquo;Todavia, n&atilde;o se calou e sofreu as consequ&ecirc;ncias: pris&atilde;o e ex&iacute;lio.<\/p>\n<p>O Decreto de Expuls&atilde;o de D. Ant&oacute;nio Barbosa Le&atilde;o &eacute; publicado a 12 de Janeiro de 1912, mas o bispo tinha sa&iacute;do do territ&oacute;rio no dia anterior. Passados dois anos, a 11 de Janeiro de 1914, o bispo voltou novamente &agrave; diocese, em &ldquo;apoteose&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA (AE) &ndash; O Algarve foi das regi&otilde;es onde se sentiu mais os efeitos da Implanta&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica. H&aacute; alguma raz&atilde;o espec&iacute;fica?<\/em><\/p>\n<p><em>Afonso da Cunha Duarte (ACD) &ndash;<\/em> Foi um reflexo de &eacute;pocas anteriores. O anticlericalismo era evidente&hellip; Nas d&eacute;cadas de 1880 e 1890 operou-se uma grande transforma&ccedil;&atilde;o no seio da igreja algarvia. A maioria das par&oacute;quias sofreu um forte abalo. Com o liberalismo acentua-se a ignor&acirc;ncia religiosa. Foi um caos&hellip; Uma parte do clero seguiu o D. Miguel e a outra parte o D. Pedro. Gerou-se um conflito interno, mas foi a lei do mais forte que venceu. Quando foi a Implanta&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica (5 de Outubro de 1910) ainda existiam resqu&iacute;cios do passado. Tanto os frades como o clero diocesano foram perseguidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Quer dizer que os conflitos j&aacute; eram evidentes quando se deu a Implanta&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica. <\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> No s&eacute;culo XIX, o Algarve tinha os padres &laquo;misseiros&raquo; (que s&oacute; celebravam missa), onde a voca&ccedil;&atilde;o era quase nula. Nem sei se tinham prepara&ccedil;&atilde;o catequ&eacute;tica&hellip; Serviam para celebrar missa e para as Confrarias. N&atilde;o podiam confessar nem pregar&hellip; Como n&atilde;o tinham prepara&ccedil;&atilde;o, a ignor&acirc;ncia religiosa aumentava. Quando chegou a Rep&uacute;blica estava tudo oco. S&oacute; com D. Ant&oacute;nio Mendes Belo e D. Ant&oacute;nio Barbosa Le&atilde;o &eacute; que se come&ccedil;ou a organizar a catequese em todas as par&oacute;quias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Em 1908, quando D. Ant&oacute;nio Barbosa Le&atilde;o chegou &agrave; diocese do Algarve verificou que existiam v&aacute;rias ilhas republicanas disseminadas sobretudo no Litoral e no Barrocal?<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Essas ilhas republicanas existiam porque Afonso Costa, Te&oacute;filo Braga e Bernardino Machado mandavam os &laquo;linguados&raquo; dos jornais publicados noutras regi&otilde;es para os jornais republicanos do Algarve. Essa atitude fomentou aquelas ilhas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; A imprensa regional estava dominada pelos grupos republicanos?<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Estavam muito bem dominados. A Igreja era rotulada na imprensa e pelos pol&iacute;ticos como &laquo;jesu&iacute;tica&raquo;, &laquo;inquisitorial&raquo;, &laquo;ultramontanista&raquo; e &laquo;miguelista&raquo;. A catequese pol&iacute;tica abundava na imprensa regional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Grupos esses que acusavam a Igreja de estar aliada &agrave; monarquia.<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash; <\/em>Esses grupos &ndash; influenciados pela filosofia positivista &ndash; tinham muita for&ccedil;a. Os conflitos com a Igreja avolumavam-se e os dist&uacute;rbios eram frequentes, de modo particular nos enterros de alguns republicanos mais exaltados, declaradamente inimigos p&uacute;blicos da Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Nas celebra&ccedil;&otilde;es religiosas, especialmente na Semana Santa, esse indiferentismo e &laquo;gozo&raquo; era evidente. Na Prociss&atilde;o dos Passos, em Faro, na Quaresma de 1911 existiu mesmo um epis&oacute;dio caricato&hellip;<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Sim. Nessa Prociss&atilde;o &ndash; como era tradi&ccedil;&atilde;o &ndash; havia dois serm&otilde;es: o do Pret&oacute;rio e o do Calv&aacute;rio. A prociss&atilde;o percorreu as principais art&eacute;rias da cidade, mas um homem colocou-se debaixo de um andor. A pol&iacute;cia interveio, mas ele continuou a acompanhar o andor com o chap&eacute;u na cabe&ccedil;a. Os &acirc;nimos exaltaram-se e o homem acabou preso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Embora D. Ant&oacute;nio Barbosa Le&atilde;o fosse mon&aacute;rquico constitucionalista, manteve sempre o distanciamento na luta partid&aacute;ria&hellip;<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Era mon&aacute;rquico, mas muito liberal. At&eacute; aconselhava os padres para n&atilde;o se imiscu&iacute;rem na pol&iacute;tica. Chegou &laquo;cantar vit&oacute;ria&raquo; com a Rep&uacute;blica porque libertou-nos do regalismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Apesar de &laquo;cantar vit&oacute;ria&raquo;, n&atilde;o estava &agrave; espera das consequ&ecirc;ncias visto que a Igreja algarvia foi vilipendiada e ofendida.<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Ele n&atilde;o esperava que a Lei da Separa&ccedil;&atilde;o (Abril de 1911) fosse t&atilde;o aguda e t&atilde;o radical. Todavia, n&atilde;o se calou e sofreu as consequ&ecirc;ncias: pris&atilde;o e ex&iacute;lio. Pagou amargamente a sua frontalidade. No meio de toda a anarquia, tr&ecirc;s ou quatro c&oacute;negos conseguiram manter a ordem na diocese. N&atilde;o recuaram e n&atilde;o tiveram medo das autoridades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Mas a abertura do Semin&aacute;rio, no ano lectivo de 1910, foi perturbada com a revolu&ccedil;&atilde;o de 5 de Outubro de 1910?<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> A perturba&ccedil;&atilde;o do momento impediu desde logo que se desse o in&iacute;cio &agrave;s aulas e D. Ant&oacute;nio Barbosa Le&atilde;o encerrou o Semin&aacute;rio durante um m&ecirc;s. A propaganda contra o clero intensificou-se, os vexames e insultos eram constantes e nem todos os alunos estavam dispostos a serem m&aacute;rtires. Alguns alunos n&atilde;o comparecerem em Novembro&hellip;<\/p>\n<p>Entretanto saiu a Lei de Separa&ccedil;&atilde;o e, no princ&iacute;pio de Agosto de 1911, a Comiss&atilde;o de Arrolamento dos Bens Eclesi&aacute;sticos iniciou o arrolamento do Semin&aacute;rio. Esteve l&aacute; at&eacute; ao in&iacute;cio do m&ecirc;s seguinte (6 de Setembro), data em que um pol&iacute;cia, apresentando um of&iacute;cio do presidente da Comiss&atilde;o Concelhia de Invent&aacute;rio, exigiu a entrega das chaves do Semin&aacute;rio. A diocese do Algarve ficou sem Semin&aacute;rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Para al&eacute;m do Semin&aacute;rio Diocesano, onde decorreram as situa&ccedil;&otilde;es mais graves? <\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Em Lagos, Lagoa, Tavira e S. Br&aacute;s de Alportel. Alguns padres foram presos por den&uacute;ncia dos caciques locais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; O Liceu de Faro chegou mesmo a fazer greve, visto que uma parte do corpo docente era formado por sacerdotes e foram rejeitados pelos alunos.<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Sim. &Eacute; preciso n&atilde;o esquecer que, nessa altura, o liceu era no semin&aacute;rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Perante estes acontecimentos, no final de 1910 (22 de Dezembro), D. Ant&oacute;nio Barbosa Le&atilde;o dirigiu-se mesmo ao Governador Civil.<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Encontrei v&aacute;rios documentos onde se faz refer&ecirc;ncia &agrave;s idas do Bispo ao Governador Civil. D. Ant&oacute;nio ia l&aacute; protestar e o Dr. Zacarias (Governador Civil) prometia &laquo;provid&ecirc;ncias&raquo; mas ficava tudo na mesma. Dizia &laquo;&Aacute;men&raquo; ao bispo, mas n&atilde;o fazia nada para alterar as coisas. Quando o bispo do Algarve ia a uma par&oacute;quia administrar o Sacramento do Crisma, &agrave; hora da missa, no adro, havia &laquo;confer&ecirc;ncias liberais&raquo;, mercados ou barulhos ensurdecedores. O bispo era posto em rid&iacute;culo por causa das ofertas do povo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Nunca teve medo dos contestat&aacute;rios.<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> N&atilde;o teve medo e cumpria o seu programa. Nunca teve medo dos arruaceiros. Falava bem alto e at&eacute; &laquo;cantava muito bem&raquo;, para inveja dos &laquo;trombones&raquo; republicanos radicais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Uma das formas de calar a &laquo;voz da Igreja&raquo; foi o encerramento da tipografia?<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Numa das depend&ecirc;ncias do Pa&ccedil;o Episcopal estava instalada a tipografia do bispado. A Comiss&atilde;o Municipal Administrativa da cidade de Faro tomou posse poucos dias depois da Implanta&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica (5 de Outubro de 1910) e, na semana seguinte, entra logo em ac&ccedil;&atilde;o. No dia 27 de Outubro pede a ced&ecirc;ncia da casa anexa ao Pa&ccedil;o Episcopal (com frente para a Rua do Munic&iacute;pio) para escolas. O edif&iacute;cio estava reservado para a resid&ecirc;ncia do C&oacute;nego Provisor do Bispado e, numa das depend&ecirc;ncias, o C&oacute;n. Franco, secret&aacute;rio da C&acirc;mara Eclesi&aacute;stica, tinha instalado l&aacute; a tipografia. O pretexto para o pedido da ced&ecirc;ncia foi uma causa justa e filantr&oacute;pica: a cria&ccedil;&atilde;o de novas escolas prim&aacute;rias, mas visava sobretudo silenciar a voz da Igreja. Os republicanos diziam que a tipografia n&atilde;o podia continuar a difundir &laquo;propaganda reaccion&aacute;ria&raquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Com a Lei da Separa&ccedil;&atilde;o (Abril de 1911), a sustenta&ccedil;&atilde;o do clero algarvia torna-se mais dif&iacute;cil?<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Alguns padres vivem muito pobremente. O bispo do Algarve pediu uma ajuda ao estrangeiro e escreve mesmo uma exorta&ccedil;&atilde;o (11-08-1911) aos diocesanos sobre este problema. Pede-lhes uma contribui&ccedil;&atilde;o e lamenta que nos com&iacute;cios os arruaceiros fomentem a ira contra o clero e que os padres sejam presos por motivos &laquo;f&uacute;teis&raquo;.<\/p>\n<p>N&atilde;o compreendia como era poss&iacute;vel que caciques andem pelas freguesias a amea&ccedil;ar o povo com pris&otilde;es, multas, aumento de impostos se contribu&iacute;rem com alguma coisa para a sustenta&ccedil;&atilde;o do clero e do culto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; O bispo diocesano enviou mesmo ao Governador Civil um extenso of&iacute;cio a protestar contra as arbitrariedades da Comiss&atilde;o Municipal de arrolamento sobre a ocupa&ccedil;&atilde;o do Semin&aacute;rio Episcopal e dos edif&iacute;cios da Mitra.<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Sim, mas n&atilde;o evitou a posse pelo Estado dos bens da diocese. Em Novembro, D. Ant&oacute;nio chamou os seminaristas e teve de aloj&aacute;-los no seu pa&ccedil;o. Como era um pequeno n&uacute;mero de seminaristas, a Academia deixou de ter actividade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Como sabia que ia ser expulso da diocese, a 8 de Janeiro de 1912 escreveu ao Governador Civil: &ldquo;Ainda n&atilde;o sei o motivo porque sou tratado pelas autoridades de Faro com um malfeitor&rdquo;. <\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Pedia tamb&eacute;m as necess&aacute;rias provid&ecirc;ncias para que pudesse, sem mais vexames, retirar-se, deixando acautelado tudo o que lhe pertence e sobre o qual tem responsabilidade. D. Ant&oacute;nio Barbosa Le&atilde;o enviou tamb&eacute;m um extenso protesto ao Presidente da Rep&uacute;blica contra o &laquo;soberano desprezo&raquo; pelos bispos e p&otilde;e em causa os conhecimentos jur&iacute;dicos de Afonso Costa. Salienta a ilegalidade do Decreto de Expuls&atilde;o &ndash; se houvesse crime seria punido com pris&atilde;o -, as inexactid&otilde;es, as afirma&ccedil;&otilde;es gratuitas, a &laquo;priva&ccedil;&atilde;o de resid&ecirc;ncia&raquo; (eufemismo engenhoso do desterro) e a tirania infligida aos bispos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; O Decreto de Expuls&atilde;o &eacute; publicado a 12 de Janeiro de 1912, mas D. Ant&oacute;nio &laquo;fugiu&raquo; no dia anterior. Apanhou o comboio para Lisboa e foi residir na sua terra natal.<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Quando soube, arrancou logo para n&atilde;o se sujeitar &agrave; gritaria na partida. Foi para a terra natal, mas estava em comunica&ccedil;&atilde;o &ndash; quase di&aacute;ria &ndash; com a diocese. O Vig&aacute;rio Geral &ndash; ficou a substitui-lo &ndash; foi preso por causa disso.<\/p>\n<p>D. Ant&oacute;nio n&atilde;o abandonou o clero nem a diocese. Frequentemente, enviava instru&ccedil;&otilde;es sobre o tratamento a ter com os &laquo;padres pensionistas&raquo;, c&ocirc;ngrua paroquial, bens paroquiais, estudos eclesi&aacute;sticos dos seminaristas e reorganiza&ccedil;&atilde;o das par&oacute;quias. O governador do bispado, C&oacute;nego Manuel Alexandre Silva &ndash; homem culto e ponderado &#8211; continuamente o informava das dificuldades que ia encontrando e das ac&ccedil;&otilde;es levadas a cabo na reorganiza&ccedil;&atilde;o da diocese.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Passados dois anos, 11 de Janeiro de 1914, voltou novamente &agrave; diocese.<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Foi uma apoteose. Nunca se imaginou que aquele bispo entrasse triunfalmente na cidade de Faro. Como n&atilde;o tinha onde residir, foi habitar no Semin&aacute;rio ad hoc, numa casa da Rua do Munic&iacute;pio, oferecida pelo Padre Ant&oacute;nio Antunes, capel&atilde;o naval.<\/p>\n<p>Numa carta (28 de Janeiro de 1914) enviada aos padres e aos crist&atilde;os algarvios, o bispo afirmava: &ldquo;Unidos venceremos&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Como foi resolvida a quest&atilde;o dos &laquo;padres pensionistas&raquo;?<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Foram chamados, mas uma parte &ndash; infelizmente &ndash; aceitou a pens&atilde;o e foram suspensos at&eacute; se retratarem. Quando se retratavam no jornal da diocese ou num jornal di&aacute;rio de Lisboa entravam novamente no col&eacute;gio presbiteral do Algarve.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Dizia-se na altura, que D. Ant&oacute;nio Barbosa Le&atilde;o fez da pena uma espada.<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Era um homem forte, bem constitu&iacute;do, alto e com uma voz maravilhosa. Um homem que desafiou tudo e todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Um reformador?<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Em todos os sentidos. Deu um avan&ccedil;o enorme &agrave; catequese e implantou todos os movimentos que surgiram no S&eacute;culo XIX na diocese do Algarve. Queria que os padres se actualizassem com frequ&ecirc;ncia e fazia reciclagem ao clero. Para que o culto fosse imponente, organizou em todas as par&oacute;quias um grupo coral para animar as eucaristias dominicais. Leu os sinais dos tempos. Merecia uma homenagem no Algarve.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Apesar da crise existente, o bispo algarvio incentivou para que todas as par&oacute;quias do Algarve distribu&iacute;ssem mensalmente aos pobres, no dia 13, o &laquo;P&atilde;o de Santo Ant&oacute;nio&raquo;.<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Sim, tal como os bodos aos pobres nas principais festas lit&uacute;rgicas. Pelo Natal fazia-se tamb&eacute;m a distribui&ccedil;&atilde;o de roupas. Uma p&aacute;gina evang&eacute;lica que a Igreja viveu apesar de tantas persegui&ccedil;&otilde;es e insultos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Nos primeiros tempos da Rep&uacute;blica, a dan&ccedil;a dos nomes das ruas foi tamb&eacute;m uma constante e nem sempre se respeitou a mem&oacute;ria do passado.<\/em><\/p>\n<p><em>ACD &ndash;<\/em> Com a implanta&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica, uma das primeiras decis&otilde;es das juntas revolucion&aacute;rias e das c&acirc;maras municipais foi alterar a topon&iacute;mia de terras e retirar das ruas as designa&ccedil;&otilde;es ligadas &agrave; Igreja. S&oacute; n&atilde;o tocaram nos cruzeiros. Foi uma ventania. D. Ant&oacute;nio sofreu amargamente com a Rep&uacute;blica devido &agrave; anarquia reinante. Em v&aacute;rias localidades teve de travar uma luta destemida para que a ordem p&uacute;blica fosse restabelecida e os Direitos Humanos fossem cumpridos.<\/p>\n<p><em>LFS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista ao padre Afonso da Cunha Duarte, sacerdote e investigador, director do Arquivo Diocesano do Algarve e autor da obra \u00abA Rep\u00fablica e a Igreja no Algarve\u00bb, destacando a figura de D. 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