{"id":50218,"date":"2011-03-03T11:48:55","date_gmt":"2011-03-03T11:48:55","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/03\/03\/do-jesus-da-historia-ao-jesus-da-igreja\/"},"modified":"2011-03-03T11:48:55","modified_gmt":"2011-03-03T11:48:55","slug":"do-jesus-da-historia-ao-jesus-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/do-jesus-da-historia-ao-jesus-da-igreja\/","title":{"rendered":"Do Jesus da Hist\u00f3ria ao Jesus da Igreja"},"content":{"rendered":"<p>Pe. Joaquim Carreira das Neves <!--more--> <\/p>\n<p>Nestes dois &uacute;ltimos s&eacute;culos a pessoa de Jesus passou da Igreja para a hist&oacute;ria. O que &eacute; que esta mudan&ccedil;a de paradigma tem de novidade? A novidade n&atilde;o come&ccedil;a com a f&eacute; da Igreja em Jesus Cristo como Filho de Deus e Deus com Deus (Emmanuel). Come&ccedil;a com a verdade evang&eacute;lica de Jo 1, 14: &ldquo;E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco&rdquo; (Jo 1, 14).<\/p>\n<p>O Jesus da Igreja &eacute; o mesmo que o Jesus da f&eacute; e a f&eacute;, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, tem as suas ra&iacute;zes na morte e ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus. Significa isto que entre o Jesus da hist&oacute;ria e o da f&eacute;-Igreja existe um fosso intranspon&iacute;vel que s&oacute; a f&eacute; pode resolver? Significa que existe uma oposi&ccedil;&atilde;o conceptual entre o que &eacute; hist&oacute;rico e o que &eacute; da f&eacute;? De modo algum. Os quatro evangelhos s&atilde;o o espelho da concord&acirc;ncia interna entre a hist&oacute;ria e a f&eacute;. Enquanto que os tr&ecirc;s evangelhos sin&oacute;pticos (Mateus, Marcos e Lucas) acentuam, nas suas narrativas, o Jesus da hist&oacute;ria, o quarto evangelho (Jo&atilde;o) acentua o Jesus da f&eacute;, isto &eacute;, o Jesus na depend&ecirc;ncia do Pai, mas igual ao Pai (Jo 10, 19: &ldquo;Tal &eacute; o encargo que recebi de meu Pai&rdquo;; 10, 38: &ldquo;&hellip;E assim vireis a saber e ficareis a compreender que o Pai est&aacute; em mim e Eu no Pai&rdquo;; 10, 30: &ldquo;Eu e o Pai somos Um&rdquo;). Mas os sin&oacute;pticos tamb&eacute;m lan&ccedil;am a ponte entre o hist&oacute;rico e o divino (Mt 28, 19-20: &ldquo;Ide, pois, fazei disc&iacute;pulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Esp&iacute;rito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que eu estarei sempre convosco at&eacute; ao fim dos tempos.&rdquo;). O problema surge quando os estudos exeg&eacute;ticos concluem que este Jesus ressuscitado a falar aos disc&iacute;pulos &eacute; um Jesus da Igreja, isto &eacute;, um Jesus que fala em nome da Igreja crente: &#8211; foi a Igreja que colocou na boca de Jesus semelhantes palavras ou doutrina&ccedil;&atilde;o catequ&eacute;tica. Nem podia ser de outra maneira. Mas, uma vez mais, a Igreja n&atilde;o parte do zero, isto &eacute;, n&atilde;o inventa um novo Jesus, o da f&eacute; ou o da Igreja contra o da hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>Se pegarmos no evangelho de Marcos &ndash; o mais antigo (escrito mais ou menos pelo ano 70 d. C.) &ndash; encontramos este Jesus ao mesmo tempo da hist&oacute;ria e da f&eacute;. Nos tr&ecirc;s primeiros cap&iacute;tulos de Marcos surgem-nos narrativas de literatura cristol&oacute;gica bem arcaica. Mc 2, 5: &ldquo;Filho, os teus pecados s&atilde;o perdoados.&rdquo; E, na continua&ccedil;&atilde;o da narrativa, ficamos a saber que s&oacute; Deus pode perdoar os pecados. Mc 2, 19b: &ldquo;Enquanto t&ecirc;m consigo o esposo, n&atilde;o podem jejuar&rdquo;. Mc 2, 27: &ldquo;E disse-lhes: &lsquo;O s&aacute;bado foi feito para o homem e n&atilde;o o homem para o s&aacute;bado. O Filho o Homem at&eacute; do s&aacute;bado &eacute; Senhor&rsquo;&rdquo;. Mc 3, 23-30: &ldquo;Ent&atilde;o, Jesus chamou-os e disse-lhes em par&aacute;bolas: &lsquo;Como pode Satan&aacute;s expulsar Satan&aacute;s? Se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino n&atilde;o pode perdurar; e se uma fam&iacute;lia se dividir contra si mesma, essa fam&iacute;lia n&atilde;o pode subsistir. Se, portanto, Satan&aacute;s se levanta contra si pr&oacute;prio, est&aacute; dividido e n&atilde;o poder&aacute; subsistir; &eacute; o seu fim. Ningu&eacute;m consegue entrar em casa de um homem forte e roubar-lhe os bens sem primeiro o amarrar; s&oacute; depois poder&aacute; saquear-lhe a casa. Em verdade vos digo: todos os pecados e todas as blasf&eacute;mias que proferirem os filhos dos homens, tudo lhes ser&aacute; perdoado; mas, quem blasfemar contra o Esp&iacute;rito Santo, nunca mais ter&aacute; perd&atilde;o: &eacute; r&eacute;u de pecado eterno.&rdquo; Disse-lhes isto porque eles afirmavam: &lsquo;Tem um esp&iacute;rito maligno&rsquo;&rdquo;. Estes textos do Jesus hist&oacute;rico colocam Jesus na esfera do divino: poder sobre Satan&aacute;s, poder sobre a lei do s&aacute;bado, poder de perdoar pecados, poder de n&atilde;o jejuar por causa do mundo novo &ndash; o mundo do Reino de Deus.<\/p>\n<p>Mas Jesus ser&aacute; sempre um grande mist&eacute;rio <em>dentro da hist&oacute;ria<\/em>. Para o compreender devemos partir da sua real hist&oacute;ria com os m&eacute;todos hist&oacute;ricos e racionais. Como Filho de Deus Pai, como seu Verbo eterno, n&atilde;o &eacute; nem um Filho ou um Verbo resultante de uma ideia, um conceito, uma abstrac&ccedil;&atilde;o. Estas abstrac&ccedil;&otilde;es ideais s&atilde;o pr&oacute;prias da mitologia grega e do monismo psicol&oacute;gico das religi&otilde;es orientais (hindu&iacute;smo, budismo).<\/p>\n<p>A realidade hist&oacute;rica de Jesus sobressai, de maneira avassaladora, das rupturas que fez com a cultura religiosa e familiar daquele tempo.<\/p>\n<p>1. Pelos 27 anos rompeu com a sua fam&iacute;lia (Mc 3, 20-21. 31-35 e par.).<\/p>\n<p>2. Foi disc&iacute;pulo de Jo&atilde;o Baptista, mas acabou por romper com ele, isto &eacute;, rompeu com a apocal&iacute;ptica messi&acirc;nica de Jo&atilde;o, sem hist&oacute;ria real (Mt 11, 2-15 e par. Lc 7, 18-28 e Jo 3, 22-26).<\/p>\n<p>3. Rompeu com o sistema religioso e cultural judaico: s&aacute;bado, templo, leis do <em>kosher<\/em>. Convive com leprosos, com mulheres pecadoras, com estrangeiros, com publicanos, com samaritanos. Jesus n&atilde;o &eacute; um te&oacute;rico mas um hist&oacute;rico. &Eacute; a hist&oacute;ria a pronunciar o seu ser. E, neste sentido, nada melhor, para o compreender, que as suas par&aacute;bolas sobre o Reino, sobretudo a par&aacute;bola do banquete (Mt 22, 1-10 e par. Lc 14, 15-24) e, por acr&eacute;scimo, as bem-aventuran&ccedil;as (Mt 5, 1-12 e par. Lc 6, 20-26).<\/p>\n<p>3. Rompeu com a Galileia para passar &agrave; Judeia e a Jerusal&eacute;m (Mc 10, 32: &ldquo;Iam a caminho, subindo para Jerusal&eacute;m, e Jesus seguia &agrave; frente deles. Estavam espantados, e os que seguiam estavam cheios de medo&rdquo;; ver par. Lc 18, 31-34 e Mt 20, 17-19). &Eacute; por esta ocasi&atilde;o que se intitula <em>Filho do Homem. <\/em>Trata-se de um t&iacute;tulo &ndash; s&oacute; pronunciado por Jesus &ndash; ao mesmo tempo divino e humano (Dn 7, 13-14). O drama de Jesus encerra-se e desvenda-se neste t&iacute;tulo. N&atilde;o foi nem a f&eacute; nem a Igreja quem o inventou. O drama da paix&atilde;o, morte e ressurrei&ccedil;&atilde;o pertence &agrave; hist&oacute;ria deste t&iacute;tulo, isto &eacute;, &agrave; auto-consci&ecirc;ncia de Jesus como Filho do Homem.<\/p>\n<p>4. Rompeu com a morte com a sua ressurrei&ccedil;&atilde;o (Mt 16, 21; 17, 23; 20, 19; Lc 9, 22; 18, 31-34: &ldquo;Olhai, subimos agora a Jerusal&eacute;m e vai cumprir-se tudo o que foi escrito pelos profetas acerca do Filho do Homem: vai ser entregue aos gentios, vai ser escarnecido, maltratado e coberto de escarros; e, depois de o a&ccedil;oitarem, v&atilde;o dar-lhe a morte. Mas ao terceiro dia, ressuscitar&aacute;.&rdquo; Eles, por&eacute;m, nada disto entenderam&hellip;&rdquo;.<\/p>\n<p>A quest&atilde;o da ressurrei&ccedil;&atilde;o &eacute;, realmente, hist&oacute;rica e mais do que hist&oacute;rica. A alus&atilde;o de Jesus aos sinais sobre os tr&ecirc;s dias e tr&ecirc;s noites de Jonas (Mt 11, 40), sobre o templo reconstru&iacute;do em tr&ecirc;s dias (Mc 14, 58; Mt 27, 40) pertence ao reino do Jesus hist&oacute;rico. Para tr&aacute;s, no AT, confluem textos como Os 6, 1-2 (&ldquo;Ao terceiro dia nos reerguer&aacute;&rdquo;); Ez 37, 1-14 (vale dos ossos), Sl 49, 15-16; Dn 12, 1-3; 2Mac 7; Sb 3, 1-4.<\/p>\n<p>A ida das mulheres ao t&uacute;mulo &eacute; um assunto hist&oacute;rico. O que lhes aconteceu no t&uacute;mulo &eacute; descrito de maneira diferente nos quatro evangelhos porque entramos no reino do numinoso e do divino. Mas as apari&ccedil;&otilde;es &agrave;s mulheres e aos disc&iacute;pulos n&atilde;o s&atilde;o uma inven&ccedil;&atilde;o ou cria&ccedil;&atilde;o da f&eacute; e da Igreja. S&atilde;o, sim, provas <em>humanas<\/em> e &agrave; <em>maneira humana<\/em>, onde entra a hist&oacute;ria, a apolog&eacute;tica e a ret&oacute;rica normal para descrever, em narrativa hist&oacute;rica, um assunto de ordem transcendental.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Pe. Joaquim Carreira das Neves, OFM<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. Joaquim Carreira das Neves<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-50218","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50218","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50218"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50218\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50218"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50218"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50218"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}