{"id":50175,"date":"2011-03-01T11:04:16","date_gmt":"2011-03-01T11:04:16","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/03\/01\/conferencias-vicentinas-contra-a-crise-e-o-isolamento\/"},"modified":"2011-03-01T11:04:16","modified_gmt":"2011-03-01T11:04:16","slug":"conferencias-vicentinas-contra-a-crise-e-o-isolamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/conferencias-vicentinas-contra-a-crise-e-o-isolamento\/","title":{"rendered":"Confer\u00eancias vicentinas contra a crise e o isolamento"},"content":{"rendered":"<p>Natural de uma aldeia do concelho de Penamacor (distrito de Castelo Branco) Ant\u00f3nio Correia Saraiva \u00e9 presidente da Sociedade de S. Vicente de Paulo (SSVP) desde Abril 2010. \u00c0 Ag\u00eancia ECCLESIA, fala das dificuldades que a crise coloca e da resposta que os vicentinos oferecem, um pouco por todo o pa\u00eds <!--more--> <\/p>\n<p>Depois de vir da Guerra do Ultramar, Ant&oacute;nio Correia Saraiva come&ccedil;ou a namorar com a actual esposa, mas o sogro (86 anos) &ndash; &ldquo;&eacute; o vicentino mais antigo de Portugal&rdquo; &ndash; aliciou-o para as tarefas humanit&aacute;rias. &ldquo;Vou ao Lameir&atilde;o (perto da Covilh&atilde;) visitar um pobre n&atilde;o queres vir comigo?&rdquo;. Foi o princ&iacute;pio&hellip; &ldquo;Comecei a ter o &laquo;bichinho&raquo; de ajudar as pessoas e nunca mais sa&iacute; dos vicentinos&rdquo; &ndash; disse &agrave; Ag&ecirc;ncia ECCLESIA.<\/p>\n<p>Natural de uma aldeia do concelho de Penamacor (distrito de Castelo Branco) Ant&oacute;nio Correia Saraiva &eacute; presidente da Sociedade de S. Vicente de Paulo (SSVP) desde Abril 2010. Vive na Covilh&atilde; h&aacute; muitos anos e teve um percurso laboral na actividade banc&aacute;ria. Actualmente est&aacute; aposentado &ndash; tem 65 anos &ndash; e &ldquo;quatro d&eacute;cadas de vicentino&rdquo;.<\/p>\n<p>As suas tarefas directivas na SSVP &laquo;obrigam-no&raquo; a deslocar-se a Lisboa com frequ&ecirc;ncia, mas continua na Confer&ecirc;ncia Vicentina de S. Pedro, na Covilh&atilde;. Casado e pai de dois filhos, Ant&oacute;nio Correia Saraiva confessou tamb&eacute;m que a esposa pertence aos vicentinos, mas os filhos n&atilde;o. &ldquo;Mas acompanharam-me muitas vezes enquanto foram solteiros&rdquo; &ndash; disse.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA (AE)<\/strong> &ndash; Qual a identidade espec&iacute;fica do vicentino (membro da Sociedade de S. Vicente de Paulo)?<\/p>\n<p><strong>Ant&oacute;nio Correia Saraiva (ACS)<\/strong> &ndash; N&atilde;o existe uma identidade espec&iacute;fica, mas boa vontade para ajudar o pr&oacute;ximo. No entanto, um vicentino deve ter algumas caracter&iacute;sticas que o distinguem dos outros volunt&aacute;rios. O nosso lema &eacute; a visita domicili&aacute;ria aos pobres e testemunhar a f&eacute; em obras.<\/p>\n<p>&Eacute; fundamental ter algum tempo, mas na nossa vida temos sempre tempo para tudo. Embora, algumas vezes dizemos que n&atilde;o. Temos que estabelecer prioridades. &Eacute; prefer&iacute;vel estar duas horas no caf&eacute; ou ajudar um vizinho carenciado? &Eacute; prefer&iacute;vel fazer &laquo;coisas&raquo; em prol dos outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Numa sociedade individualista como a actual, os vicentinos lutam contra a corrente?<\/p>\n<p><strong>ACS<\/strong> &ndash; As pessoas ligam mais ao &laquo;ter&raquo; do que ao &laquo;ser&raquo;, mas temos de nos consciencializar de um facto: quando as pessoas s&atilde;o sensibilizadas para essas realidades &ndash; existem muitos exemplos disso &ndash; elas ajudam. Come&ccedil;am a pensar no &laquo;ser&raquo; e colocam de lado o &laquo;ter&raquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Evangelizam atrav&eacute;s da &laquo;ajuda&raquo; aos mais necessitados?<\/p>\n<p><strong>ACS<\/strong> &ndash; Quando estamos no terreno, notamos que o pobre tem necessidades materiais e espirituais. Muitas vezes, as necessidades materiais n&atilde;o s&atilde;o as maiores. Se conseguirmos resolver as necessidades espirituais\/psicol&oacute;gicas &eacute; meio caminho andado para o pobre se levantar e retomar a sua vida.<\/p>\n<p>Se colocarmos apenas g&eacute;neros materiais, o pobre nunca mais se levanta. Entra naquele v&iacute;cio de &ndash; todos os meses ou semanas &ndash; lhe levarem a alimenta&ccedil;&atilde;o e o ajudarem a pagar as contas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE <\/strong>&ndash; Como chegam aos desprotegidos? Informa&ccedil;&otilde;es da comunidade ou descoberta dos vicentinos?<\/p>\n<p><strong>ACS<\/strong> &ndash; A Sociedade de S. Vicente de Paulo trabalha integrada em par&oacute;quias. Todas as confer&ecirc;ncias vicentinas t&ecirc;m uma liga&ccedil;&atilde;o com a par&oacute;quia. O p&aacute;roco e outros crist&atilde;os relatam-nos situa&ccedil;&otilde;es e, noutros casos, como estamos no terreno constatamos outros casos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; E nos tempos que correm, o n&uacute;mero tem crescido.<\/p>\n<p><strong>ACS<\/strong> &ndash; Estamos envolvidos numa crise profunda. No &uacute;ltimo m&ecirc;s de Dezembro fizeram-se campanhas para o Fundo Social Solid&aacute;rio e para outras institui&ccedil;&otilde;es, mas not&aacute;mos que as pessoas responderam afirmativamente. Apesar da crise, o povo portugu&ecirc;s tem uma &laquo;alma boa&raquo; e &eacute; solid&aacute;rio.<\/p>\n<p>A Sociedade S. Vicente de Paulo deve ser a maior organiza&ccedil;&atilde;o a trabalhar no terreno ligada &agrave; Igreja. Temos &#8211; em n&uacute;meros aproximados &ndash; mais de 900 confer&ecirc;ncias vicentinas que correspondem a 12500 vicentinos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; De v&aacute;rias faixas et&aacute;rias?<\/p>\n<p><strong>ACD<\/strong> &ndash; Outrora havia distin&ccedil;&atilde;o (jovens, masculinas e femininas), mas actualmente as confer&ecirc;ncias vicentinas congregam pessoas dos dois sexos e de v&aacute;rias idades. No entanto, damos uma aten&ccedil;&atilde;o especial aos jovens porque estamos muito carenciados deles. Um dos nossos objectivos passa pelo cativar a juventude para as confer&ecirc;ncias porque algumas est&atilde;o a ficar envelhecidas, mas tamb&eacute;m reconhecemos que a vida &eacute; muito acelerada e para os jovens muito mais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Mas para se ser vicentino &eacute; necess&aacute;ria determinada forma&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>ACS<\/strong> &ndash; H&aacute; um per&iacute;odo de forma&ccedil;&atilde;o (dura cerca de um ano) at&eacute; se fazer o compromisso. Os &laquo;novos&raquo; vicentinos trabalham nas confer&ecirc;ncias com os mais experientes e absorvem os princ&iacute;pios da Sociedade de S. Vicente de Paulo. &Eacute; essencial adquirir alguns conhecimentos do cristianismo e saber lidar com os carenciados. O vicentino n&atilde;o se pode esquecer que o carenciado &eacute; um ser humano e tem a sua dignidade pr&oacute;pria.<\/p>\n<p>Nesse per&iacute;odo de est&aacute;gio, as pessoas ficam ou n&atilde;o ficam sensibilizadas para esta ajuda aos mais carenciados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Qual a forma que utilizam para angariar as verbas e alimentos que distribuem? Tem liga&ccedil;&otilde;es a empresas?<\/p>\n<p><strong>ACS<\/strong> &ndash; Temos poucas liga&ccedil;&otilde;es com empresas. Essencialmente, os vicentinos vivem das d&aacute;divas das pessoas em cada par&oacute;quia. Como reunimos &ndash; por norma &ndash; todas as semanas para dialogar sobre os novos casos fazemos uma colecta para a confer&ecirc;ncia. Quando fazemos apelos nas missas dominicais aparece de imediato o bem solicitado. Tanto pode ser um frigor&iacute;fico como uma cama.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE <\/strong>&ndash; Trabalham no sil&ecirc;ncio e sem os holofotes da fama?<\/p>\n<p><strong>ACS<\/strong> &ndash; Sempre no sil&ecirc;ncio&hellip; Ali&aacute;s, o Evangelho diz: &ldquo;Dar com a m&atilde;o esquerda sem que a direita saiba&rdquo;. Temos tamb&eacute;m outra regra: tudo o que se fala nas reuni&otilde;es das confer&ecirc;ncias fica ali dentro. Ningu&eacute;m sabe c&aacute; fora se n&oacute;s ajudamos A, B ou C. N&atilde;o temos (vicentinos) de estar a expor as pessoas e as suas necessidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Ao longo destes anos todos j&aacute; realizaram &laquo;opera&ccedil;&otilde;es de sucesso&raquo;? A passagem de carenciado para vicentino?<\/p>\n<p><strong>ACS<\/strong> &ndash; Temos muitos &laquo;casos&raquo; de sucesso. Esse &eacute; o objectivo final do nosso trabalho e quando isso acontece alegra-nos muito. Queremos que as pessoas saiam do estado de pobreza onde se encontram, mas nem sempre o conseguimos porque a sociedade est&aacute; muito desestruturada. H&aacute; pessoas que nasceram pobres e julgam que t&ecirc;m de viver nessa situa&ccedil;&atilde;o toda a vida. Temos mentalidades dessas&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Nesses casos &eacute; fundamental a motiva&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p><strong>ACS<\/strong> &ndash; Motivar &eacute; a palavra de ordem. Na confer&ecirc;ncia onde estou &#8211; S. Pedro, na Covilh&atilde; &#8211; temos uma mi&uacute;da &#8211; m&atilde;e solteira &ndash; que ajudamos. Como o beb&eacute; est&aacute; com sete meses estamos a tratar da papelada junto do Centro de Emprego para que a m&atilde;e comece a trabalhar. Ela n&atilde;o pode ficar em casa eternamente &agrave; espera que a ajudem a ela e ao beb&eacute;. N&atilde;o podemos permitir que as pessoas com sa&uacute;de e v&aacute;lidas permane&ccedil;am inactivas. Isso &eacute; o pior que pode suceder a uma pessoa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Mas a crise laboral n&atilde;o ajuda nada?<\/p>\n<p><strong>ACS <\/strong>&ndash; &Eacute; verdade. Hoje para se arranjar um emprego&hellip; H&aacute; 15 anos atr&aacute;s era mais f&aacute;cil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Quando o emprego escasseia, o Fundo Social Solid&aacute;rio (FSS) &eacute; uma ajuda fulcral?<\/p>\n<p><strong>ACS<\/strong> &ndash; O FSS tem sido uma grande ajuda. Temos (juntamente com a C&aacute;ritas e a Comiss&atilde;o Justi&ccedil;a e paz) em todas as dioceses uma comiss&atilde;o local de acompanhamento que analisa os casos e envia para a comiss&atilde;o central, em Lisboa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Qual a diocese que est&aacute; a pedir mais apoios?<\/p>\n<p><strong>ACS<\/strong> &ndash; Nos primeiros meses, a diocese que pediu mais apoios foi a de Vila Real, mas existem bolsas de pobreza por todo o pa&iacute;s. A zona metropolitana do Porto tamb&eacute;m est&aacute; muito fragilizada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; J&aacute; assistiu a casos arrepiantes?<\/p>\n<p><strong>ACS <\/strong>&ndash; Muitos, ainda na semana passada lev&aacute;mos (vicentinos) uma cama, mesa, cadeiras e roupa para uma fam&iacute;lia. &Eacute; um casal jovem que comia com o prato na m&atilde;o. Essas cinco pessoas tinham apenas dois copos e dormiam no ch&atilde;o. A casa estava despida completamente. Tinha literalmente zero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Esse foi um caso descoberto, mas existe tamb&eacute;m muita pobreza envergonhada?<\/p>\n<p><strong>ACS<\/strong> &ndash; Esse &eacute; o grande problema actual. Basta um elemento do casal perder o emprego e a estabilidade da fam&iacute;lia &laquo;vai-se&raquo;. No entanto, apelamos &agrave;s pessoas para se dirigirem &agrave; par&oacute;quia. N&oacute;s mantemos o anonimato dessas pessoas&hellip; Muitos casos que nos param nas m&atilde;os j&aacute; est&atilde;o mesmo no fundo. Com os cortes sociais que o Governo implementou a pessoas est&atilde;o a entrar num beco sem sa&iacute;da.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; A publicidade tamb&eacute;m n&atilde;o ajuda.<\/p>\n<p><strong>ACS<\/strong> &ndash; A televis&atilde;o d&aacute;-nos uma ideia de facilidade que n&atilde;o existe. A publicidade &eacute; enganosa e, do ponto de vista psicol&oacute;gico, as pessoas s&atilde;o fracas e cavam cada vez mais buracos. Ficam em situa&ccedil;&otilde;es verdadeiramente aflitivas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Apesar de vivermos numa sociedade global onde tudo comunica com tudo, a solid&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m um drama bem evidente.<\/p>\n<p><strong>ACS<\/strong> &ndash; Ningu&eacute;m imagina o n&uacute;mero de pessoas que vivem na solid&atilde;o. &Eacute; uma coisa terr&iacute;vel. Temos vicentinos que passam as horas que t&ecirc;m dispon&iacute;veis a visitar pessoas s&oacute; para falar com elas. H&aacute; pessoas que passam dias e dia sem falar com ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; O que fazer para alterar este panorama?<\/p>\n<p><strong>ACS<\/strong> &ndash; &Eacute; fundamental que as institui&ccedil;&otilde;es ligadas &agrave; Igreja d&ecirc;em as m&atilde;os e denunciem estes casos junto das entidades oficiais. As pessoas est&atilde;o nos gabinetes e n&atilde;o t&ecirc;m consci&ecirc;ncia do que se passa em muitos lares portugueses. Por outro lado, temos de consciencializar as pessoas que t&ecirc;m determinados direitos, mas como n&atilde;o sabem n&atilde;o os reivindicam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE <\/strong>&ndash; Se S. Vicente de Paulo voltasse &agrave; terra ficava escandalizado?<\/p>\n<p><strong>ACS<\/strong> &ndash; Ficava pasmado, mas com a for&ccedil;a dele continuaria a fazer o trabalho como fez. Lutando contra tudo e contra todos.<\/p>\n<p><em>LFS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Natural de uma aldeia do concelho de Penamacor (distrito de Castelo Branco) Ant\u00f3nio Correia Saraiva \u00e9 presidente da Sociedade de S. 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