{"id":50089,"date":"2011-02-22T11:00:45","date_gmt":"2011-02-22T11:00:45","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/02\/22\/as-liberdades-de-educacao-em-portugal-e-na-europa\/"},"modified":"2011-02-22T11:00:45","modified_gmt":"2011-02-22T11:00:45","slug":"as-liberdades-de-educacao-em-portugal-e-na-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/as-liberdades-de-educacao-em-portugal-e-na-europa\/","title":{"rendered":"As liberdades de educa\u00e7\u00e3o em Portugal e na Europa"},"content":{"rendered":"<p>M\u00e1rio Pinto, professor da UCP <!--more--> <\/p>\n<p>As liberdades individuais de educa&ccedil;&atilde;o e ensino s&atilde;o unanimemente consideradas, nos Estados de Direito Democr&aacute;tico do modelo europeu, como liberdades fundamentais da pessoa humana, usualmente enunciadas como liberdades [1] de aprender, [2] de ensinar e [3] de cria&ccedil;&atilde;o e direc&ccedil;&atilde;o de escola privada &#8211; estas s&atilde;o as tr&ecirc;s express&otilde;es que a nossa Constitui&ccedil;&atilde;o consagra expressamente no art. 43&ordm;, depois que a vers&atilde;o inicial de 1976 foi revista, em 1982, em 1989 e em 1997.<\/p>\n<p>Al&eacute;m destas direitos fundamentais de liberdade, s&atilde;o tamb&eacute;m consagrados os chamados direitos sociais &agrave; educa&ccedil;&atilde;o e ao ensino. Trata-se, agora, j&aacute; n&atilde;o de reconhecer autonomias ou liberdades, que cada um exerce sem interfer&ecirc;ncias do Estado, mas, diferentemente, de reconhecer um direito a presta&ccedil;&otilde;es f&aacute;cticas positivas, a cargo do Estado (e da Sociedade). Estes direitos sociais devem considerar-se instrumentais relativamente ao exerc&iacute;cio das liberdades pessoais; porque as presta&ccedil;&otilde;es devidas como satisfa&ccedil;&atilde;o dos direitos sociais visam criar condi&ccedil;&otilde;es f&aacute;cticas para que todos possam exercer os direitos de liberdade, de acordo com o princ&iacute;pio da igualdade de oportunidades.&nbsp;<\/p>\n<p>Esta &eacute; a doutrina geral, v&aacute;lida para todas as liberdades fundamentais e para todos os direitos sociais. Por exemplo, a Constitui&ccedil;&atilde;o Portuguesa consagra a liberdade fundamental pessoal da escolha da profiss&atilde;o, dizendo, no art. 47&ordm;: &#8220;Todos t&ecirc;m o direito de escolher livremente a profiss&atilde;o ou o g&eacute;nero de trabalho&hellip;&#8221;. Este &eacute; o direito de liberdade. Depois, mais adiante, a Constitui&ccedil;&atilde;o reconhece um direito social correspondente, nestes termos: &#8220;Para assegurar o direito ao trabalho, incumbe ao Estado promover [&hellip;] a igualdade de oportunidades na escolha da profiss&atilde;o ou g&eacute;nero de trabalho&hellip;&#8221; (art. 58&ordm; CRP). Portanto, o direito social tem o fim de garantir a efectividade das liberdades individuais, atrav&eacute;s da presta&ccedil;&atilde;o de condi&ccedil;&atilde;o f&aacute;cticas necess&aacute;rias ao seu exerc&iacute;cio. Esta &eacute; a ideia essencial do chamado Estado Social: os direitos sociais tornam poss&iacute;veis, efectivas, as liberdades de escolha.<\/p>\n<p>Por&eacute;m, no caso das liberdades de educa&ccedil;&atilde;o e de ensino, temos uma situa&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica e pol&iacute;tica espec&iacute;fica, sobretudo nos pa&iacute;ses europeus latinos e nos pa&iacute;ses autorit&aacute;rios. Ao contr&aacute;rio do que acontece por exemplo para as liberdades de comunica&ccedil;&atilde;o social e de imprensa, ou para as liberdades de profiss&atilde;o (como j&aacute; vimos), onde o Estado de Direito Democr&aacute;tico e Social n&atilde;o faz quest&atilde;o de ser ele pr&oacute;prio a monopolizar as presta&ccedil;&otilde;es sociais impondo as suas op&ccedil;&otilde;es, na educa&ccedil;&atilde;o e no ensino escolar h&aacute; uma esp&eacute;cie de excep&ccedil;&atilde;o autorit&aacute;ria, pretendendo o Estado manter uma rede de escolas estatais com o monop&oacute;lio do financiamento p&uacute;blico, fazendo assim uma concorr&ecirc;ncia desleal &agrave; livre iniciativa privada. E porqu&ecirc;? Por raz&otilde;es ideol&oacute;gicas, evidentemente, que v&ecirc;m de uma tradi&ccedil;&atilde;o jacobina. Com efeito, existe uma tradi&ccedil;&atilde;o jacobina, sobretudo na Europa latina, em mat&eacute;ria de ensino escolar; que &eacute; anterior ao Estado Social em Estado de Direito Democr&aacute;tico. Segundo esta tradi&ccedil;&atilde;o, o Estado criou sistemas escolares estatais para combater a tradicional posi&ccedil;&atilde;o da Igreja na educa&ccedil;&atilde;o. S&oacute; nos pa&iacute;ses do centro e do norte da Europa se verificou um maior respeito das escolas privadas, confessionais ou n&atilde;o confessionais, apoiando o Estado as suas pr&oacute;prias escolas mas tamb&eacute;m as escolas privadas e confessionais crist&atilde;s, protestantes e cat&oacute;licas.<\/p>\n<p>As v&aacute;rias esp&eacute;cies de jacobinismo, ainda resistentes nos pa&iacute;ses de tradicional pendor laicista, t&ecirc;m-se mantido apesar da ratifica&ccedil;&atilde;o da Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos do Homem, onde se consagrou o princ&iacute;pio da prioridade do direito dos pais na escolha da educa&ccedil;&atilde;o dos filhos e das pr&oacute;prias constitui&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas. Existe portanto um conflito acerca da escola livre, nestes Estados, que ainda n&atilde;o se resolveu satisfatoriamente. Em Portugal, este conflito &eacute; t&atilde;o mais chocante quanto &eacute; certo que a Constitui&ccedil;&atilde;o recusou ao Estado o direito de educar, nestes termos: &#8220;O Estado n&atilde;o pode programar a educa&ccedil;&atilde;o e a cultura segundo quaisquer directrizes filos&oacute;ficas, est&eacute;ticas, pol&iacute;ticas, ideol&oacute;gicas ou religiosas&#8221; (art. 43&ordm;, n&ordm; 2).<\/p>\n<p>A tend&ecirc;ncia, contudo, que se verifica na Europa, sobretudo na Europa do Norte e do Centro, mas tamb&eacute;m mais arrastadamente nos pa&iacute;ses do sul, &eacute; no sentido de implementar a n&atilde;o discrimina&ccedil;&atilde;o entre escolas p&uacute;blicas e privadas, sendo apoiados igualmente pelo Estado os alunos de todas as escolas, sem discriminar as suas escolhas. Por exemplo em Espanha, o Tribunal Constitucional estabeleceu que o Estado n&atilde;o podia discriminar financeiramente as escolas privadas. Em Portugal, a Constitui&ccedil;&atilde;o e a legisla&ccedil;&atilde;o ordin&aacute;ria tamb&eacute;m hoje consagram a igualdade de tratamento no financiamento, mas a pr&aacute;tica dos Governos &eacute; inconstitucional e ilegal, mantendo o monop&oacute;lio da escola p&uacute;blica. Ali&aacute;s com alguma agressividade pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>S&oacute; para dar um exemplo desta ilegalidade, transcreva-se o que diz a lei da gratuitidade do ensino obrigat&oacute;rio (DL n&ordm; 35\/90): &#8220;Durante o per&iacute;odo da escolaridade obrigat&oacute;ria, o ensino &eacute; gratuito&#8221; (art. 3&ordm;). &#8220;O presente diploma aplica-se aos alunos que frequentem o ensino n&atilde;o superior em estabelecimentos de ensino oficial, particular ou cooperativo&#8221; (art. 1&ordm;). E diz ainda: &#8220;[o] c&aacute;lculo dos encargos decorrentes da aplica&ccedil;&atilde;o do presente diploma ao ensino particular e cooperativo e a assumir por conta das dota&ccedil;&otilde;es do Estado ser&aacute; feito com base nos custos relativos ao ensino oficial&#8221; (art. 25&ordm;).<\/p>\n<p>Na Uni&atilde;o Europeia conhecemos uma importante Resolu&ccedil;&atilde;o do Parlamento Europeu. Considerando que a liberdade de ensino pede a disposi&ccedil;&atilde;o de meios materiais para o seu exerc&iacute;cio, e esses meios, quando facultados pelo Estado, devem respeitar o princ&iacute;pio maior da igualdade e n&atilde;o discrimina&ccedil;&atilde;o entre os cidad&atilde;os, o Parlamento Europeu tomou uma importante Resolu&ccedil;&atilde;o sobre o direito social &agrave; educa&ccedil;&atilde;o na Comunidade Europeia (Resolu&ccedil;&atilde;o de 14.03.1984, &sect; 9), nos seguintes termos: &#8220;O direito &agrave; liberdade de ensino implica, para os Estados membros, a obriga&ccedil;&atilde;o de tornar poss&iacute;vel, incluindo no plano financeiro, o exerc&iacute;cio pr&aacute;tico deste direito, e de conceder &agrave;s escolas [privadas] as subven&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas necess&aacute;rias ao exerc&iacute;cio da sua miss&atilde;o e ao cumprimento das suas obriga&ccedil;&otilde;es, em condi&ccedil;&otilde;es iguais &agrave;quelas de que beneficiam os estabelecimentos p&uacute;blicos correspondentes, sem discrimina&ccedil;&atilde;o dos organizadores escolares, dos pais dos alunos, dos pr&oacute;prios alunos, e do pessoal escolar&#8221;.<\/p>\n<p>Portugal &eacute;, sem qualquer d&uacute;vida, um dos pa&iacute;ses da Europa com melhor legisla&ccedil;&atilde;o, em mat&eacute;ria de liberdades de educa&ccedil;&atilde;o e ensino escolar; e, simultaneamente, com as piores e mais duras pr&aacute;ticas de discrimina&ccedil;&atilde;o dos alunos das escolas privadas.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>M&aacute;rio Pinto, professor da Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rio Pinto, professor da UCP<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[193,203,321],"class_list":["post-50089","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-educacao","tag-europa","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50089","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50089"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50089\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50089"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50089"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50089"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}