{"id":50087,"date":"2011-02-22T10:54:15","date_gmt":"2011-02-22T10:54:15","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/02\/22\/menos-estado-para-melhor-educacao\/"},"modified":"2011-02-22T10:54:15","modified_gmt":"2011-02-22T10:54:15","slug":"menos-estado-para-melhor-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/menos-estado-para-melhor-educacao\/","title":{"rendered":"Menos Estado para melhor Educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Nuno Crato, professor catedr\u00e1tico no Instituto Superior de Economia e Gest\u00e3o, autor do livro \u00abO \u2018Eduqu\u00eas\u2019 em Discurso Directo\u00bb, considera que h\u00e1 Estado a mais na Educa\u00e7\u00e3o, em Portugal <!--more--> <\/p>\n<p>Nuno Crato, professor no Instituto Superior de Economia e Gest&atilde;o, autor do livro &laquo;O &lsquo;Eduqu&ecirc;s&rsquo; em  Discurso Directo&raquo;, considera que h&aacute; Estado a mais na Educa&ccedil;&atilde;o, em Portugal, defendendo &ldquo;uma miss&atilde;o reguladora muito gen&eacute;rica e que sobretudo promovesse a avalia&ccedil;&atilde;o do que se est&aacute; a passar&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>ECCLESIA (E) &ndash; O que &eacute; que est&aacute; em causa, quando ouvimos hoje falar tanto na necessidade de defender a liberdade de educa&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n<p><em>Nuno Crato (NC) &#8211;<\/em> H&aacute; muitas vers&otilde;es da liberdade de educa&ccedil;&atilde;o. H&aacute; a liberdade de educa&ccedil;&atilde;o no sentido completamente libert&aacute;rio, e que cada um escolha a maneira de fazer a educa&ccedil;&atilde;o dos seus filhos, h&aacute; modelos mistos, mas o princ&iacute;pio geral &eacute; que &eacute; o princ&iacute;pio correcto: o de as fam&iacute;lias n&atilde;o estarem obrigadas a que a educa&ccedil;&atilde;o dos seus filhos seja toda feita sobre um modelo estrito, dirigido centralmente.<\/p>\n<p>Claro que tem que haver uma s&eacute;rie de directrizes gerais por parte do Estado, e eu julgo que, em Portugal, as directrizes gerais se transformaram nas directrizes mais espec&iacute;ficas que existem. Em Portugal h&aacute; muito pouca liberdade de educa&ccedil;&atilde;o, porque o Estado, centralmente, e os Governos, dirigem a Educa&ccedil;&atilde;o nos seus &iacute;nfimos pormenores, no pormenor da dura&ccedil;&atilde;o das aulas, por exemplo. Eu acho espantoso que esteja regulamentado por Decreto-lei qual &eacute; a dura&ccedil;&atilde;o das aulas. Deveria estar regulamentada qualquer uma mais geral, no sentido que as crian&ccedil;as deveriam ter um tanto n&uacute;mero de horas de matem&aacute;tica m&iacute;nimo por semana, um tanto n&uacute;mero de horas m&iacute;nimo de portugu&ecirc;s, esse tipo de coisas regulamentadas, e isso n&atilde;o est&aacute; regulamentado, essas coisas desse ponto de vista est&atilde;o regulamentadas no pormenor.<\/p>\n<p>O nosso Estado, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Educa&ccedil;&atilde;o, como em rela&ccedil;&atilde;o com outras &aacute;reas, substitui o princ&iacute;pio de avaliar bem e dar liberdade de processos pelo princ&iacute;pio de controlar o processo e avaliar mal. As escolas n&atilde;o s&atilde;o bem avaliadas, os estudantes n&atilde;o s&atilde;o bem avaliados, os resultados s&atilde;o pouco avaliados. E, em contrapartida, o que o Estado e os Governos fazem &ndash; todos eles gostam de fazer isso, todos os partidos em Portugal &ndash; &eacute; controlar ao mais &iacute;nfimo pormenor os processos da escola.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; H&aacute; demasiada presen&ccedil;a Estatal e pol&iacute;tica nas escolas?<\/em><\/p>\n<p><em>NC &#8211;<\/em> H&aacute;, e criou-se em Portugal um corpo de educadores, uma simbiose entre o Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o, os departamentos de Educa&ccedil;&atilde;o, algumas escolas superiores de Educa&ccedil;&atilde;o e departamentos de Educa&ccedil;&atilde;o universit&aacute;rios consultores, criou-se aqui uma simbiose de um corpo de pessoas que vivem controlando a Educa&ccedil;&atilde;o e dando opini&otilde;es. Se reparar, no Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o sempre as mesmas pessoas, que fazem os mesmos programas, que avaliam os programas, que avaliam os resultados, sempre as mesmas pessoas. E isso traduz-se numa vontade de regular, at&eacute; ao mais &iacute;nfimo pormenor, aquilo que se passa nas escolas, e acho que isso &eacute; p&eacute;ssimo. Acho que o Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o deveria quase que ser implodido, devia desaparecer, devia-se criar uma coisa muito mais simples, que n&atilde;o tivesse a Educa&ccedil;&atilde;o como perten&ccedil;a mas tivesse a Educa&ccedil;&atilde;o como miss&atilde;o, uma miss&atilde;o reguladora muito gen&eacute;rica e que sobretudo promovesse a avalia&ccedil;&atilde;o do que se est&aacute; a passar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Isso exigia a t&atilde;o falada autonomia das escolas. H&aacute; muitos professores e sindicatos que tamb&eacute;m n&atilde;o est&atilde;o muito adeptos desta quest&atilde;o.<\/em><\/p>\n<p><em>NC &ndash;<\/em> H&aacute; uma s&eacute;rie de pessoas que n&atilde;o est&atilde;o adeptas mas a autonomia &eacute; uma coisa fundamental. Toda a gente fala de autonomia, toda a gente defende autonomia, mas depois o que se faz &eacute; o contr&aacute;rio da autonomia. Como &eacute; que se pode promover a autonomia das escolas se nem sequer h&aacute; a autonomia dos hor&aacute;rios? Isto &eacute; completamente absurdo. &Eacute; como se houvesse um minist&eacute;rio central de jornalistas, que dissesse a que horas &eacute; que os jornalistas trabalham, a que horas &eacute; que fazem entrevistas, e que regulasse tudo sobre os jornalistas. Esse &eacute; um problema, dei o exemplo da autonomia nos hor&aacute;rios, que &eacute; o mais absurdo. Depois h&aacute; uma s&eacute;rie de outras coisas: os professores s&atilde;o colocados centralmente, pelo Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o &ndash; imagine o que se passava no jornalismo, que houvesse um minist&eacute;rio central do jornalismo que dissesse: este jornalista agora vai para o Di&aacute;rio de Not&iacute;cias, este vai para a televis&atilde;o, este vai para a Antena 2. Isto &eacute; absurdo, mas &eacute; o que se passa no Ensino: h&aacute; um minist&eacute;rio que controla a coloca&ccedil;&atilde;o dos professores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; E os reflexos est&atilde;o na insatisfa&ccedil;&atilde;o, que &eacute; quase geral em qualquer conversa sobre Educa&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n<p><em>NC &ndash;<\/em> H&aacute; uma insatisfa&ccedil;&atilde;o porque os resultados da Educa&ccedil;&atilde;o s&atilde;o maus, quando os comparamos com uma s&eacute;rie de outros pa&iacute;ses, com pa&iacute;ses que t&ecirc;m resultados razo&aacute;veis na Educa&ccedil;&atilde;o, n&oacute;s estamos bastante mal. &Eacute; tamb&eacute;m curioso o seguinte: isso s&oacute; agora &eacute; que se sabe, porque durante d&eacute;cadas n&atilde;o se soube, foi escondido, porque este aparatic, grupo, esta click que dirige o que se passa na Educa&ccedil;&atilde;o ocultou. Primeiro, acabaram com os exames nacionais, depois proibiram as compara&ccedil;&otilde;es internacionais. S&oacute; agora, quase j&aacute; no principio do s&eacute;culo XXI, &eacute; que as coisas come&ccedil;aram a ser mudadas, come&ccedil;aram-se a fazer exames internos &ndash; honra seja feita aos ministros Mar&ccedil;al Grilo e David Justino por isso. Portugal come&ccedil;ou a aparecer nas compara&ccedil;&otilde;es internacionais, come&ccedil;aram-se a conhecer os resultados de Pisa e Timsss &#8211; que foi abandonado e n&atilde;o deveria ter sido &ndash; e portanto come&ccedil;ou-se a perceber o estado mau em que a Educa&ccedil;&atilde;o estava em Portugal, mas isso foi com grandes obst&aacute;culos. Eu relembro que houve uma secret&aacute;ria de Estado que proibiu a avalia&ccedil;&atilde;o internacional, porque os resultados eram maus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Os resultados continuam a ser fracos<\/em><\/p>\n<p><em>NC &ndash;<\/em> Os resultados continuam a ser fracos. N&oacute;s n&atilde;o podemos ficar contentes por estarmos iguais ou parecidos com a Espanha, a It&aacute;lia ou os Estados Unidos, que t&ecirc;m mais resultados. E o caso de Espanha ou de It&aacute;lia, s&atilde;o casos de pa&iacute;ses muito semelhantes a n&oacute;s, neste controlo central de Educa&ccedil;&atilde;o e nesta s&eacute;rie de ideias absurdas que come&ccedil;aram a ser difundidas sobre Educa&ccedil;&atilde;o. A mesma vontade, de n&atilde;o fazer avalia&ccedil;&atilde;o de alunos, a mesma degrada&ccedil;&atilde;o dos programas, a mesma degrada&ccedil;&atilde;o da exig&ecirc;ncia, s&atilde;o problemas comuns numa s&eacute;rie de pa&iacute;ses europeus, infelizmente. N&oacute;s dever&iacute;amos olhar para pa&iacute;ses como a China, o Jap&atilde;o, a Coreia, pa&iacute;ses que conseguiram grandes progressos na Educa&ccedil;&atilde;o, e com uma filosofia completamente diferente da nossa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Ser&aacute; precisamente a filosofia, o modo de pensar a escola, a quest&atilde;o da autonomia, em que cada escola pode fazer o seu curr&iacute;culo, fazer o seu projecto educativo. Porque &eacute; que n&atilde;o se faz?<\/em><\/p>\n<p><em>NC &ndash;<\/em> N&atilde;o se faz porque se criou quase uma casta de pessoas que controlam a Educa&ccedil;&atilde;o em Portugal, uma casta de pessoas que dirige tudo e acha que consegue e deve dirigir tudo. E esse grupo est&aacute; no Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o, faz parte dos departamentos de Educa&ccedil;&atilde;o de muitas universidades e escolas superiores, fazem os programas e acham que devem controlar tudo. H&aacute; outro aspecto triste no meio disto tudo: &eacute; que n&oacute;s se olharmos para as orienta&ccedil;&otilde;es que saem do Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o, s&oacute; vemos absurdos ou vemos muitos absurdos, porque a &aacute;rea das chamadas Ci&ecirc;ncias da Educa&ccedil;&atilde;o em Portugal est&aacute; muito desactualizada do que se passa de bom na investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica do mundo. &Eacute; uma &aacute;rea muito ideol&oacute;gica, que nasceu desta ideia do centralismo, de que um Estado central haveria de conseguir controlar bem a Educa&ccedil;&atilde;o, e que o Estado central haveria de dizer a cada filho, a cada fam&iacute;lia, escola, professor, aquilo que deve fazer, ao mais &iacute;nfimo pormenor e duma forma muito marcada, ideologicamente, e pouco aberta &agrave;quilo que a Ci&ecirc;ncia nos diz hoje: aquilo que a Psicologia Cognitiva, os Estudos de Economia de Educa&ccedil;&atilde;o nos dizem sobre o que s&atilde;o as melhores pr&aacute;ticas das escolas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Portugal tem uma popula&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m pouco exigente, nesse sentido?<\/em><\/p>\n<p><em>NC &ndash;<\/em> A nossa popula&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m &eacute; pouco exigente em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; escola, infelizmente. Muitas vezes, os pais quando entram na escola n&atilde;o &eacute; para protestarem pelos filhos saberem pouco, &eacute; a protestarem com as m&aacute;s notas. H&aacute; muitos professores que se queixam que, a &uacute;nica vez que viram os pais foi quando deram m&aacute;s notas aos filhos. Isto n&atilde;o &eacute; assim com toda a gente, felizmente h&aacute; pa&iacute;s que se interessam muito e que pressionam a escola para darem uma boa educa&ccedil;&atilde;o aos seus filhos, mas muitas vezes n&atilde;o &eacute; isso que se passa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Vivemos t&atilde;o convencidos de uma sociedade do conhecimento, que nos esquecemos que o conhecimento &eacute; s&oacute; o in&iacute;cio. Passa-se isso nas nossas escolas?<\/em><\/p>\n<p><em>NC &ndash;<\/em> A nossa escola deveria assegurar a transmiss&atilde;o de conhecimentos e, &agrave;s vezes, o que se passa &eacute; que, com pretextos muito grandiosos, de criar cidad&atilde;os cr&iacute;ticos, jovens cientistas, escritores activos, eleitores activos, com esses slogans grandiosos, esquece-se aquilo que &eacute; fundamental na escola, que &eacute; transmitir conhecimentos b&aacute;sicos. Como &eacute; que se pode criar um cidad&atilde;o cr&iacute;tico se o cidad&atilde;o tem dificuldade em ler o jornal, como se passa com muitos jovens ao sa&iacute;rem do ensino obrigat&oacute;rio? Como &eacute; que se pode criar um cidad&atilde;o activo se ele tem dificuldade em fazer coisas simples? Como &eacute; que se pode criar um cidad&atilde;o consciente, se esse cidad&atilde;o n&atilde;o sabe nada de Hist&oacute;ria de Portugal? Ou da Hist&oacute;ria do Mundo? N&oacute;s dever&iacute;amos preocupar-nos que a Escola tivesse mais exig&ecirc;ncia, transmitisse os conte&uacute;dos fundamentais aos jovens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Est&atilde;o muito baixos, os n&iacute;veis de exig&ecirc;ncia?<\/em><\/p>\n<p><em>NC &ndash;<\/em> Est&atilde;o baix&iacute;ssimos, s&atilde;o extraordinariamente baixos. H&aacute; pouco tempo, na prova interm&eacute;dia de F&iacute;sico-qu&iacute;mica do 11.&ordm; ano, lan&ccedil;ada pelo Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o, uma das quest&otilde;es era simplesmente: transcreve do texto ao lado o coment&aacute;rio sobre o electromagnetismo. Cheg&aacute;mos a este ponto: no 11.&ordm; ano, quando os alunos deveriam saber muito bem o que &eacute; electricidade, o que &eacute; magnetismo, electromagnetismo, transcreve-se de um texto o que &eacute;. Ou provas do 6.&ordm; ano, em Matem&aacute;tica, em que se pede aos jovens para dividirem 8 por 4. Como &eacute; que &eacute; poss&iacute;vel isto acontecer? Isto &eacute; uma ac&ccedil;&atilde;o concertada que, objectivamente, est&aacute; a desvalorizar a escola. Uma ac&ccedil;&atilde;o concertada da parte duma s&eacute;rie de pessoas, ditas te&oacute;ricas de educa&ccedil;&atilde;o, que justificam que estas coisas se passem, por parte de um grupo de pessoas que controlam o Minist&eacute;rio e os departamentos de educa&ccedil;&atilde;o e que, no fundo, sabem muito pouco sobre educa&ccedil;&atilde;o, est&atilde;o muito desactualizados e est&atilde;o muito ideologizados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; &Eacute; uma quest&atilde;o pedag&oacute;gica ou &eacute; uma quest&atilde;o para atingir n&uacute;meros?<\/em><\/p>\n<p><em>NC &ndash;<\/em> &Eacute; tudo, casam-se as duas coisas. As pessoas que defendem conceitos de educa&ccedil;&atilde;o ultrapassados &#8211; como seja este conceito de que os conte&uacute;dos n&atilde;o interessam, o que interessa &eacute; ser cidad&atilde;o cr&iacute;tico, etc, conceitos ultrapassados pela Ci&ecirc;ncia e pela Psicologia Cognitiva &ndash; casam-se com um Minist&eacute;rio que quer mostrar n&uacute;meros bons onde eles n&atilde;o existem. Portanto, se os exames s&atilde;o cada vez mais f&aacute;ceis, isso conv&eacute;m a um Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o que quer mostrar resultados bons no interior e no exterior, e encontra uma boa justifica&ccedil;&atilde;o nos te&oacute;ricos da educa&ccedil;&atilde;o, que acham que os exames f&aacute;ceis &eacute; que devem ser feitos. N&oacute;s estamos numa situa&ccedil;&atilde;o dram&aacute;tica na Educa&ccedil;&atilde;o e temos que ultrapassar isto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; O facilitismo resulta de n&atilde;o se saber lidar com o insucesso?<\/em><\/p>\n<p><em>NC &ndash;<\/em> N&oacute;s temos de lidar com o insucesso combatendo o insucesso. E n&oacute;s temos lidado com o insucesso escolar, disfar&ccedil;ando o insucesso, fazendo exames cada vez mais simples, escondendo a realidade da educa&ccedil;&atilde;o. Acho que dever&iacute;amos lidar de maneira completamente oposta, que &eacute; mostrar o insucesso, mostrar o que &eacute; que pode ser feito e ser exigente. O problema da escola n&atilde;o ser exigente &eacute; que degrada tudo por a&iacute; abaixo. Quando o Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o pergunta aos alunos do 6&ordm; ano de escolaridade quanto &eacute; que &eacute; 8 a dividir por quatro, est&aacute; a dar a mensagem &agrave;s escolas, aos professores, aos pais e aos alunos de que essa &eacute; que &eacute; a altura certa para saber quanto &eacute; que &eacute; 8  a dividir por 4, quando devia ser no 2.&ordm; ou no 3.&ordm; ano de escolaridade. Essa falta de exig&ecirc;ncia que existe na Escola &eacute; pegada de cima, e isso &eacute; que &eacute; grav&iacute;ssimo. &Eacute; que os Governos e ministros que nos temos tido t&ecirc;m feito este estilo de degrada&ccedil;&atilde;o da escola.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; A discuss&atilde;o normalmente vem sempre pelos custos&hellip;<\/em><\/p>\n<p><em>NC &ndash;<\/em> Eu n&atilde;o acredito em n&uacute;mero nenhum que o Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o diga. Quando eles dizem que a escola custa tanto por turma, n&atilde;o vale a pena acreditar porque tudo isso precisava de ser transparente, n&atilde;o &eacute; transparente. Repare-se que o partido no poder rejeitou uma primeira tentativa desses n&uacute;meros serem auditados na Assembleia da Rep&uacute;blica. Depois os n&uacute;meros, s&oacute; sendo transparentes &eacute; que se pode saber o que se est&aacute; a discutir. S&atilde;o n&uacute;meros complicados. Qualquer pessoa que saiba um m&iacute;nimo de Contabilidade percebe que saber quanto &eacute; que custa um aluno numa escola &eacute; uma conta complicada. Entra ou n&atilde;o entra o custo do edif&iacute;cio? E se o edif&iacute;cio est&aacute; alugado, entra o aluguer? Entra o custo de manuten&ccedil;&atilde;o do edif&iacute;cio? Entram as amortiza&ccedil;&otilde;es para o edif&iacute;cio, se ele pertence ao Estado e j&aacute; est&aacute; velho? Quer dizer, a contabilidade p&uacute;blica &eacute; complicada e esses n&uacute;meros que t&ecirc;m aparecido s&atilde;o n&uacute;meros muito pouco fi&aacute;veis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Acredita que um dia a escola possa ser p&uacute;blica ou privada?<\/em><\/p>\n<p><em>NC &ndash;<\/em> H&aacute; pessoas que defendem um chamado cheque de educa&ccedil;&atilde;o, h&aacute; v&aacute;rias maneiras de o fazer, n&atilde;o sei exactamente qual a melhor maneira. Mas a situa&ccedil;&atilde;o actual, em que o Estado financia as suas escolas, controla-as ao pormenor, depois financia de forma muito arbitr&aacute;ria o ensino privado e tamb&eacute;m tenta control&aacute;-lo ao pormenor, esta f&oacute;rmula n&atilde;o pode funcionar. N&oacute;s n&atilde;o temos medidas de sucesso, n&oacute;s vamos para uma escola p&uacute;blica ou privada e n&atilde;o sabemos qual &eacute; a melhor, porque o Estado tem recusado a fazer uma avalia&ccedil;&atilde;o dos alunos, das escolas, fazem umas coisas que s&atilde;o muito casu&iacute;sticas, mal feitas, apenas para dizer que se fazem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; O ranking das escolas, por exemplo.<\/em><\/p>\n<p><em>NC &ndash;<\/em> A&iacute; &eacute; um problema diferente. Os dados sobre os resultados das escolas s&oacute; come&ccedil;aram a ser divulgados pelo Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o entre 2002 ou 2004, &agrave; volta disso, e houve uma grande batalha para que o Minist&eacute;rio desse &agrave; sociedade os dados sobre os resultados das escolas e o Minist&eacute;rio op&ocirc;s-se. Eu lembro-me de ministros que juravam nos jornais que n&atilde;o iam fazer isso, que n&atilde;o iam dar os dados. Isto &eacute; uma coisa absolutamente inacredit&aacute;vel, mas &eacute; medida da arrog&acirc;ncia de um Estado que controla tudo. Essa informa&ccedil;&atilde;o &eacute; fundamental ser dada &agrave;s pessoas e isso o Minist&eacute;rio tem feito desde que foi obrigado, porque &eacute; uma quest&atilde;o legal, o Estado &eacute; obrigado a fazer e &eacute; bom que o fa&ccedil;a.<\/p>\n<p>Depois, com base nessa informa&ccedil;&atilde;o dos resultados das escolas, que &eacute; transmitida aos jornalistas, a toda a gente, h&aacute; jornais que fazem rankings. Isso &eacute; com eles, os rankings t&ecirc;m v&aacute;rios crit&eacute;rios, diferentes, mas para conseguir medir as escolas bem precis&aacute;vamos de ter uma avalia&ccedil;&atilde;o fi&aacute;vel dos alunos, ao longo dos v&aacute;rios anos de escolaridade, que mostrasse em que medida &eacute; que a escola acrescenta valor aos alunos.&nbsp;<\/p>\n<p>O que est&aacute; em causa &eacute;: Qual das escolas &eacute; que est&aacute; a fazer um melhor servi&ccedil;o, no sentido de pegar nos alunos, na etapa em que eles est&atilde;o, e faz&ecirc;-los progredir mais. Se calhar, &eacute; a escola que aparece pior no ranking.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; O sistema, tal como existe hoje, a continuar assim, tem tend&ecirc;ncia a chegar &agrave; ruptura? <\/em><\/p>\n<p><em>NC &ndash;<\/em> Em Portugal, as rupturas s&atilde;o dif&iacute;ceis. Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. &Eacute; sempre poss&iacute;vel estar pior. N&oacute;s estamos muito piores do que est&aacute;vamos h&aacute; 10 ou 20 anos, mas tamb&eacute;m n&atilde;o tenho dados para mostrar isso, porque o Minist&eacute;rio sistematicamente n&atilde;o d&aacute; dados &agrave;s pessoas, recusa-se a fazer avalia&ccedil;&otilde;es objectivas dos alunos e das escolas e, portanto, isto &eacute; tudo muito dif&iacute;cil de discutir.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, desde 1929 que h&aacute; um exame de sa&iacute;da das escolas secund&aacute;rias para entrar nas universidades que &eacute; compar&aacute;vel, feito por uma empresa privada. E em Portugal n&atilde;o, isso n&atilde;o &eacute; feito, n&oacute;s n&atilde;o podemos dizer se os alunos est&atilde;o melhores ou piores, ou em que &aacute;reas &eacute; que est&atilde;o melhores ou piores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &#8211; Portanto, para si, &eacute; ponto assente que &eacute; preciso mais avalia&ccedil;&atilde;o e mais transpar&ecirc;ncia?<\/em><\/p>\n<p><em>NC &ndash;<\/em> Mais transpar&ecirc;ncia e mais liberdade &agrave;s escolas para se organizarem da maneira que acharem melhor. Criar resultados e n&atilde;o controlar os processos; o que o Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o tem feito &eacute; exactamente o contr&aacute;rio.<\/p>\n<p><em>PRE\/JCP\/OC<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nuno Crato, professor catedr\u00e1tico no Instituto Superior de Economia e Gest\u00e3o, autor do livro \u00abO \u2018Eduqu\u00eas\u2019 em Discurso Directo\u00bb, considera que h\u00e1 Estado a mais na Educa\u00e7\u00e3o, em Portugal<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[191,193],"class_list":["post-50087","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-economia","tag-educacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50087","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50087"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50087\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50087"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50087"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50087"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}