{"id":50038,"date":"2011-02-18T14:20:40","date_gmt":"2011-02-18T14:20:40","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/02\/18\/o-catolicismo-portugues-cerca-de-1910\/"},"modified":"2011-02-18T14:20:40","modified_gmt":"2011-02-18T14:20:40","slug":"o-catolicismo-portugues-cerca-de-1910","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-catolicismo-portugues-cerca-de-1910\/","title":{"rendered":"O catolicismo portugu\u00eas cerca de 1910"},"content":{"rendered":"<p>D. Manuel Clemente <!--more--> <\/p>\n<p>O centen&aacute;rio da Rep&uacute;blica tem dado azo a v&aacute;rias alus&otilde;es ao papel da Igreja Cat&oacute;lica na altura, bem como a indaga&ccedil;&otilde;es s&eacute;rias e circunstanciadas sobre o que realmente ter&aacute; ela dito e feito, dentro de si mesma e na rela&ccedil;&atilde;o com a sociedade, a cultura e a pol&iacute;tica nacionais, que a seu modo integrava, ali&aacute;s.<\/p>\n<p>A t&oacute;nica ideol&oacute;gica ou convicta da hist&oacute;ria que se escreve, como das hist&oacute;rias que se contam, origina frequentemente leituras apressadas das mem&oacute;rias que restam, mais para legitimar posi&ccedil;&otilde;es actuais e futuras do que para compreender, quanto poss&iacute;vel, a realidade passada, tamb&eacute;m irrecuper&aacute;vel, em termos absolutos.<\/p>\n<p>Deparamos, ent&atilde;o, com duas dificuldades maiores, provinda uma da natureza irremediavelmente ultrapassada do que aconteceu e devida outra &agrave; extrema complexidade das realidades religiosas, propriamente ditas. Destas &uacute;ltimas podemos acrescentar que quase s&oacute; &eacute; apreci&aacute;vel a superf&iacute;cie; e a superf&iacute;cie que cada &eacute;poca enxerga dum passado total e indefin&iacute;vel. Em tempos recentes, a historiografia detinha-se muito nos movimentos colectivos de tipo social e econ&oacute;mico; mais proximamente, interessa-se sobremaneira pelo particular, os sentimentos e os costumes, aqui evidenciando a resist&ecirc;ncia p&oacute;s-moderna &agrave;s meta-narrativas.<\/p>\n<p>Era &ldquo;pol&iacute;tica&rdquo; a rela&ccedil;&atilde;o que se apresentava entre a Rep&uacute;blica e a Igreja Cat&oacute;lica, negativa ou positivamente, quase s&oacute; referida a espa&ccedil;os perdidos, conquistados ou reconquistados, por uma ou outra. Negativamente, diziam uns, porque o catolicismo portugu&ecirc;s, eivado de clericalismo ou &ldquo;jesuitismo&rdquo;, se ligara tanto &agrave; monarquia que ca&iacute;ra com ela. Positivamente, diziam outros, porque, apesar de tudo, o mesmo catolicismo demonstrara uma not&aacute;vel capacidade de resist&ecirc;ncia &agrave;s medidas republicanas de 1910-1911, pela ac&ccedil;&atilde;o espont&acirc;nea ou conjugada de cl&eacute;rigos e popula&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A esta redu&ccedil;&atilde;o &ldquo;pol&iacute;tica&rdquo; do sucedido, juntavam-se outras cong&eacute;neres. Era o caso da redu&ccedil;&atilde;o &ldquo;cultural&rdquo;, quer afirmando que a vis&atilde;o cat&oacute;lica das coisas &ndash; mais at&eacute; do que o sentimento cat&oacute;lico das mesmas &ndash; n&atilde;o resistira ao impacto do positivismo te&oacute;rico, que impusera a ultrapassagem da religi&atilde;o pela ci&ecirc;ncia, quer real&ccedil;ando, bem pelo contr&aacute;rio, que as elites culturais tinham manifestado, confessionalmente ou n&atilde;o, uma grande propens&atilde;o neo-rom&acirc;ntica pelas sondagens mais profundas da &ldquo;alma portuguesa&rdquo;, onde os t&oacute;picos crist&atilde;os estavam presentes, mesmo que ao modo de cada um. A&iacute; estavam os &uacute;ltimos anos de Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Raul Brand&atilde;o e outros mais, para o demonstrarem.<\/p>\n<p>O certo &eacute; que, reducionismos ultrapassados, fica muito por entender no que ao catolicismo portugu&ecirc;s da altura diz respeito. Alguma concomit&acirc;ncia sociol&oacute;gica e cultural prefere apurar as persist&ecirc;ncias de motivos pr&eacute;-crist&atilde;os na religiosidade popular, relativizando o impacto da doutrina cat&oacute;lica propriamente dita. N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil verific&aacute;-las em parte, mas fica por explicar a incapacidade das sucessivas tentativas de implantar uma religi&atilde;o &ldquo;c&iacute;vica&rdquo; entre n&oacute;s, mesmo que com ritos de passagem e simbolismos laicizados; bem como a perman&ecirc;ncia &ndash; pouco sistem&aacute;tica, ali&aacute;s &ndash; de motivos propriamente crist&atilde;os. Cem anos depois, continua a ser problem&aacute;tico substituir cruzes por &aacute;rvores, ainda que se possa junt&aacute;-las.<\/p>\n<p>Detalhando mais, deparamo-nos com viv&ecirc;ncias e contornos dificilmente quantific&aacute;veis do catolicismo portugu&ecirc;s de ent&atilde;o, quando reparamos em fam&iacute;lias e liga&ccedil;&otilde;es pessoais ou de grupo, em percursos biogr&aacute;ficos, em rela&ccedil;&otilde;es directas ou indirectas com a institui&ccedil;&atilde;o eclesial, no &acirc;mbito nacional ou internacional: apuramentos dif&iacute;ceis e ainda incipientes[1].<\/p>\n<p>Est&atilde;o apurados muitos factos e debates[2]. A partir do &ldquo;5 de Outubro&rdquo; somam-se as medidas laicizadoras, da supress&atilde;o da vida religiosa ao esvaziamento p&uacute;blico de qualquer refer&ecirc;ncia confessional (no casamento e na fam&iacute;lia, no registo &ldquo;civil&rdquo;, nas escolas e estabelecimentos do Estado&hellip;). A religi&atilde;o ficaria para o &iacute;ntimo de cada um, cada vez mais superada pelo ide&aacute;rio civil, patri&oacute;tico e progressista.<\/p>\n<p>Sobreveio o novo enquadramento legal da religi&atilde;o organizada, conforme a &ldquo;Lei de Separa&ccedil;&atilde;o do Estado das Igrejas&rdquo; de 20 de Abril de 1911. Ou nem tanto, dada a resist&ecirc;ncia da Igreja Cat&oacute;lica a integrar-se nesse quadro; e com as consequentes desaven&ccedil;as entre o Governo e o Episcopado, seguido este pela grande maioria dos cl&eacute;rigos e &ldquo;fi&eacute;is&rdquo;, que redescobriram a subst&acirc;ncia deste apelativo, com reiterado est&iacute;mulo pontif&iacute;cio[3].<\/p>\n<p>&nbsp;Poucos anos passados &#8211; e sobretudo a partir da Grande Guerra, que relativizou os debates anteriores e consolidou convic&ccedil;&otilde;es e sentimentos cat&oacute;licos, quer em torno da assist&ecirc;ncia religiosa aos militares, quer na liga&ccedil;&atilde;o das apari&ccedil;&otilde;es de F&aacute;tima ao fim do conflito &#8211;&nbsp; esbo&ccedil;ar-se-ia com do Sidonismo (1917-1918) um novo tipo de rela&ccedil;&atilde;o Igreja &ndash; Estado, rumo &agrave; separa&ccedil;&atilde;o mutuamente aceitada, com a primeira a requerer liberdade de express&atilde;o e actua&ccedil;&atilde;o confessional e os cat&oacute;licos a inserirem-se mais claramente na cidadania activa e na participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, dentro do sistema vigente. A&iacute; defenderiam a liberdade da Igreja e das suas organiza&ccedil;&otilde;es, no campo c&iacute;vico e parlamentar, como no Centro Cat&oacute;lico Portugu&ecirc;s, de 1917 em diante.<\/p>\n<p>Mas alguma sensa&ccedil;&atilde;o persiste, de que n&atilde;o captamos o catolicismo portugu&ecirc;s na globalidade, antes e al&eacute;m do institucional. Como continuamos a detectar alguma restri&ccedil;&atilde;o &ldquo;pol&iacute;tica&rdquo; do seu significado, ficando-nos mais pelo exterior do que pelo interior desse mesmo catolicismo, como seria vivido e convivido em v&aacute;rios n&iacute;veis de cren&ccedil;a, popular ou ilustrada.<\/p>\n<p>Podemos lembrar, &eacute; certo, a restrita capacidade do nosso catolicismo oitocentista em ser receptivo e proponente nos grandes debates culturais coevos, entre filosofia e ci&ecirc;ncia, tradi&ccedil;&atilde;o e progresso. &Eacute; um facto, e mais por limita&ccedil;&atilde;o externa do que por escolha pr&oacute;pria. A Igreja Cat&oacute;lica ficara muito reduzida naquilo mesmo que lhe permitiria acompanhar o movimento das ideias. Em 1759 deixara de contar com os col&eacute;gios dos Jesu&iacute;tas, ent&atilde;o expulsos por Pombal; desde as Invas&otilde;es Francesas (1807-1811), ficara ainda mais depauperada com a desorganiza&ccedil;&atilde;o geral do pa&iacute;s e os seus reflexos negativos nas institui&ccedil;&otilde;es religiosas; em 1834 desapareceram casas, bibliotecas e centros de estudo mon&aacute;sticos e conventuais; os semin&aacute;rios diocesanos estavam reduzidos ou fechados, e foram reabrindo em meados do s&eacute;culo, muito limitados em geral; a Faculdade de Teologia de Coimbra nunca conseguiu colmatar tais lacunas nem formar as elites cat&oacute;licas ou influenciar por a&iacute; al&eacute;m as que se afastavam&hellip; Algumas iniciativas pessoais, de prelados, sacerdotes ou leigos, n&atilde;o foram bastantes para sustentar uma presen&ccedil;a cultural cat&oacute;lica &agrave; altura daqueles tempos e circunst&acirc;ncias. A constata&ccedil;&atilde;o disto mesmo encontra-se em sucessivos depoimentos de v&aacute;rias figuras da Igreja, at&eacute; &agrave; Rep&uacute;blica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Digamos, por&eacute;m, que aquelas mesmas circunst&acirc;ncias, imediatamente negativas, acabariam por ocasionar uma das novidades marcantes do catolicismo portugu&ecirc;s &ldquo;contempor&acirc;neo&rdquo;. Precisamente no campo do laicado militante -, acompanhado por alguns cl&eacute;rigos atentos -, sucederam-se, depois de 1834, as iniciativas que alentaram um novo modo de ser cat&oacute;lico, com maior interven&ccedil;&atilde;o no espa&ccedil;o c&iacute;vico ent&atilde;o aberto pelo ide&aacute;rio e a pol&iacute;tica liberais.<\/p>\n<p>Da Sociedade Cat&oacute;lica (1843 ss) ao jornalismo confessional, ou &agrave;s Associa&ccedil;&otilde;es e Congressos Cat&oacute;licos (1871 ss), sucederam-se factos e nomes reveladores duma nova aten&ccedil;&atilde;o e outra presen&ccedil;a cat&oacute;lica no campo s&oacute;ciocultural. At&eacute; &agrave; Rep&uacute;blica e depois da sua implanta&ccedil;&atilde;o, o catolicismo portugu&ecirc;s foi contando com novos protagonismos, cuja dimens&atilde;o mais avulta com o tempo[4]. Quando a legisla&ccedil;&atilde;o de 1910-1911 e a respectiva concretiza&ccedil;&atilde;o agravarem as limita&ccedil;&otilde;es da vida eclesial, confrontar-se-&atilde;o como uma nova milit&acirc;ncia crente, alimentada pelo &ldquo;movimento cat&oacute;lico&rdquo; assim surgido.<\/p>\n<p>N&atilde;o esque&ccedil;amos, ali&aacute;s, que as limita&ccedil;&otilde;es de 1910 e seguintes agravaram outras, que o liberalismo j&aacute; impusera &aacute; Igreja. Assim quanto &agrave; tutela estatal das nomea&ccedil;&otilde;es eclesi&aacute;sticas, ao benepl&aacute;cito r&eacute;gio dos documentos pontif&iacute;cios e pastorais, ao escasso apoio aos semin&aacute;rios diocesanos, &agrave;s sucessivas expuls&otilde;es e condicionamentos da vida religiosa&hellip; O pr&oacute;prio Afonso Costa, logo a seguir &agrave; revolu&ccedil;&atilde;o, rep&ocirc;s expressamente em vigor as medidas de Pombal contra o jesu&iacute;tas e as de D. Pedro contra os religiosos em geral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N&atilde;o havia grande novidade neste ponto, nem podemos tomar essas medidas como especificamente &ldquo;republicanas&rdquo;. Acontecia, por&eacute;m, que a Monarquia tinha o catolicismo portugu&ecirc;s como coisa sua e assim justificava o controlo que exercia sobre a Igreja, enquanto a Rep&uacute;blica oficialmente o deixava de reconhecer, devendo, em princ&iacute;pio, abster-se de intervir na vida interna do que n&atilde;o tinha por coisa p&uacute;blica. Concordemos, por&eacute;m, que tal seria dif&iacute;cil para juristas formados no regalismo coimbr&atilde;o, por mais agn&oacute;sticos ou ateus que se apresentassem.<\/p>\n<p>Por outro lado, a diversidade verificada nos meios pol&iacute;ticos e culturais do s&eacute;culo XIX teve correspond&ecirc;ncia e reflexos no movimento cat&oacute;lico portugu&ecirc;s, que consentiu igualmente uma grande variedade interna, no que &agrave; rela&ccedil;&atilde;o com o Estado respeitava. As divis&otilde;es entre cat&oacute;licos legitimistas e constitucionais continuar&atilde;o durante a Rep&uacute;blica, entre os que n&atilde;o aceitavam o regime e os que francamente se integravam nele, tentando convencer os respons&aacute;veis pol&iacute;ticos de que a Rep&uacute;blica teria na Igreja uma colaboradora aut&oacute;noma e leal, em tudo o que ao bem comum dissesse respeito.<\/p>\n<p>Ainda nos anos imediatamente anteriores &agrave; mudan&ccedil;a de regime os cat&oacute;licos se tinham dividido entre os que tomavam o Partido Nacionalista como obrigat&oacute;rio para os crentes e os que defendiam a possibilidade de votar em partidos diferentes; repercutindo-se esta divis&atilde;o num certo estreitamento partid&aacute;rio do movimento cat&oacute;lico de 1903 a 1910, que alargou a dissens&atilde;o com o republicanismo em ascens&atilde;o. Como o Partido Nacionalista era apoiado por uma revista dos Jesu&iacute;tas, foi mais f&aacute;cil chamar &ldquo;jesuitismo&rdquo; a toda a tentativa cat&oacute;lica de intervir politicamente no pa&iacute;s[5].&nbsp;<\/p>\n<p>Entretanto &ndash; e ainda mais do que j&aacute; sucedera na segunda metade do s&eacute;culo XIX &ndash; o catolicismo portugu&ecirc;s e ocidental como que se redefinira nalguns pontos maiores e mais especificamente religiosos, como o culto eucar&iacute;stico, o cristocentrismo, o marianismo e a liga&ccedil;&atilde;o mais directa ao papado. Em torno destes pontos foi mais f&aacute;cil unir os cat&oacute;licos e relan&ccedil;&aacute;-los num &ldquo;apostolado&rdquo; comum, designadamente depois do Apelo que os bispos lhes lan&ccedil;aram em Santar&eacute;m, em Julho de 1913: dentro da ordem pol&iacute;tica vigente, defenderiam a liberdade religiosa da Igreja e trabalhariam pela cristianiza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s. N&atilde;o foi imediato nem f&aacute;cil, mas criou uma plataforma ajustada onde o futuro p&ocirc;de come&ccedil;ar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A gera&ccedil;&atilde;o mental que fez a Rep&uacute;blica e determinou o seu devir imediato dificilmente compreenderia o catolicismo portugu&ecirc;s, nas suas espec&iacute;ficas motiva&ccedil;&otilde;es religiosas. Estivesse ou n&atilde;o convencido que ele acabaria em poucas gera&ccedil;&otilde;es, Afonso Costa e os seus indefect&iacute;veis n&atilde;o participavam dessa realidade, que imaginavam e combatiam. Ainda se contam hist&oacute;rias vividas das positivas surpresas do ministro Afonso Costa, ao visitar certas institui&ccedil;&otilde;es cat&oacute;licas que queria encerrar, acabando por permiti-las de algum modo.<\/p>\n<p>O ministro e os seus, ou nunca tinham sido praticantes, ou cedo abandonaram uma religi&atilde;o em que n&atilde;o tinham sido propriamente iniciados. Escassamente &ndash; ou de modo algum &ndash; tinham convivido com autores e obras cat&oacute;licas anteriores &agrave; mudan&ccedil;a de regime. Ou ent&atilde;o o &uacute;nico contacto tinha sido pol&eacute;mico e sem disponibilidade para ouvir e entender.<\/p>\n<p>Por seu lado, o movimento cat&oacute;lico n&atilde;o contou com elites cultas e acad&eacute;micas em quantidade e &agrave; altura dos desafios intelectuais que eram feitos. Posi&ccedil;&otilde;es pessoais das &uacute;ltimas d&eacute;cadas de oitocentos e primeira de novecentos, como as de Samod&atilde;es no Porto, Henrique Barros Gomes em Lisboa ou Sena Freitas um pouco por toda a parte, obviamente n&atilde;o chegavam.<\/p>\n<p>E n&atilde;o foi tanto um &ldquo;di&aacute;logo de surdos&rdquo;, mas de escuta pr&eacute;-definida, pois dum lado e doutro se ouviam muito mais os correligion&aacute;rios estrangeiros, do que os nacionais que pensassem diferentemente. Deparamos nas apolog&eacute;ticas da altura com interroga&ccedil;&otilde;es e increpa&ccedil;&otilde;es que decerto n&atilde;o apareceriam, caso se tivesse realmente ouvido ou lido o que j&aacute; provinha do &ldquo;outro lado da barricada&rdquo;. Como se ningu&eacute;m esperasse nada de ningu&eacute;m, a n&atilde;o ser a rendi&ccedil;&atilde;o absoluta. Quando, por evolu&ccedil;&atilde;o da vida e das ideias, se mudasse de campo, tal podia significar cortar la&ccedil;os e deixar amigos e mesmo admiradores entusiastas: a convers&atilde;o de Gomes Leal ao catolicismo, nas v&eacute;speras da Rep&uacute;blica, acarretou-lhe abandonos generalizados, a ele mesmo que t&atilde;o aclamado fora pelos radicais.<\/p>\n<p>Em t&atilde;o grandes contrastes, o catolicismo portugu&ecirc;s n&atilde;o podia entender o anticatolicismo de tantos republicanos, nem estes podiam entender a legitimidade da cren&ccedil;a tradicional. As an&aacute;lises e propostas sobre a religi&atilde;o que mais se ouviram no campo republicano, em geral, antes e depois do 5 de Outubro, ainda que n&atilde;o fossem as &uacute;nicas, evidenciavam o desconhecimento do catolicismo moderno, de Rosmini a Newman, por exemplo. Mesmo as enc&iacute;clicas de Le&atilde;o XIII (+ 1903), de mat&eacute;ria social e pol&iacute;tica, n&atilde;o foram lidas e compreendidas como mereceriam, como se j&aacute; nada se esperasse do papado.<\/p>\n<p>E, se assim acontecia em rela&ccedil;&atilde;o ao catolicismo erudito, n&atilde;o se melhorava em rela&ccedil;&atilde;o ao popular e espont&acirc;neo. &Eacute; certo que, desde o romantismo &agrave; Chateaubriand ou Garrett, se dera outra aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s tradi&ccedil;&otilde;es locais, plenas de conota&ccedil;&otilde;es religiosas; certo &eacute; tamb&eacute;m que o s&eacute;culo XIX desenvolvera a etnografia e mesmo uma antropologia onde a dimens&atilde;o religiosa da exist&ecirc;ncia era vista como algo mais do que mera sobreviv&ecirc;ncia de est&aacute;dios rudimentares da humanidade. Mas, se lermos a cr&iacute;tica anticat&oacute;lica pr&eacute; e p&oacute;s-republicana, deparamos quase s&oacute; com a recusa intelectual dum catolicismo que pouco merecera a aten&ccedil;&atilde;o dispon&iacute;vel dos seus cr&iacute;ticos, facilmente quedados na ironia displicente ou caricatural. Reciprocamente, n&atilde;o foi f&aacute;cil ao catolicismo militante destrin&ccedil;ar e valorizar alguma alus&atilde;o mais certeira dos seus abundantes cr&iacute;ticos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N&atilde;o basta, por&eacute;m, esta linha de an&aacute;lise. Temos de complement&aacute;-la com outra dificuldade comum, que teve graves consequ&ecirc;ncias pol&iacute;tico-religiosas. Refiro-me &agrave; apressada avalia&ccedil;&atilde;o que alguns respons&aacute;veis cat&oacute;licos fizeram da religiosidade popular, valorizando-a exageradamente. De facto, tal realidade n&atilde;o se mostrou politicamente redut&iacute;vel ou aproveit&aacute;vel, quer a favor quer contra o catolicismo p&aacute;trio.<\/p>\n<p>Aprenderam-no tarde os que avaliaram em alta as grandes manifesta&ccedil;&otilde;es marianas de 1904 (cinquenten&aacute;rio da defini&ccedil;&atilde;o dogm&aacute;tica da Imaculada Concei&ccedil;&atilde;o), tomando-as como sinal de cren&ccedil;a segura e consequente[6]. Tamb&eacute;m se enganaram os que minimizaram a convic&ccedil;&atilde;o profunda de muitos outros, pronta a resistir &agrave;s dificuldades que a imposi&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada da Lei de Separa&ccedil;&atilde;o trouxe &agrave; vida habitual e comunit&aacute;ria das popula&ccedil;&otilde;es crentes: assim se constatou no fracasso da sua vig&ecirc;ncia[7]; como ressaltaria tamb&eacute;m na exig&ecirc;ncia popular da assist&ecirc;ncia religiosa aos militares durante a Grande Guerra, ou na r&aacute;pida ades&atilde;o ao testemunho dos Videntes de F&aacute;tima, em 1917 e seguintes.<\/p>\n<p>Diremos para terminar que, entre tantas refer&ecirc;ncias de sinal contr&aacute;rio, acabaram mais distintos os campos, no sentido contempor&acirc;neo do termo. E creio que, neste ponto, o catolicismo portugu&ecirc;s de h&aacute; cem anos se revelou mais consistente do que muitos presumiam na altura.<\/p>\n<p>Lisboa, Faculdade de Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa, 17 de Fevereiro de 2010<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Manuel Clemente <\/em><\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p>[1] Ainda assim, tenhamos presente a observa&ccedil;&atilde;o de Gomes dos Santos, distinguindo a geografia e apurando a milit&acirc;ncia: &ldquo;Exceptuando algumas regi&otilde;es do norte, onde o povo conserva o h&aacute;bito da missa di&aacute;ria e da pr&aacute;tica frequente dos sacramentos, no resto do pa&iacute;s os templos est&atilde;o quase sempre vazios. [&hellip;] Dos cinco milh&otilde;es de cat&oacute;licos que se atribuem a Portugal, nem um d&eacute;cimo s&atilde;o cat&oacute;licos pr&aacute;ticos. [&hellip;] a vida religiosa est&aacute; confinada em algumas fam&iacute;lias cat&oacute;licas, t&atilde;o raras, que se podiam contar a dedo. S&atilde;o elas que inalteravelmente figuram &agrave; frente de todas as iniciativas tendentes a realizar a benefic&ecirc;ncia e a caridade. [&hellip;] Essa clientela cat&oacute;lica &eacute; t&atilde;o pequena, que, se as congrega&ccedil;&otilde;es quisessem reunir listas de nomes, n&atilde;o juntariam, reunidas todas, dez mil pessoas&rdquo; (O catolicismo em Portugal, 1906, p. 24-25).<\/p>\n<p>[2] Cf. MATOS, Lu&iacute;s Salgado de &ndash; A separa&ccedil;&atilde;o do Estado e da Igreja. Conc&oacute;rdia e conflito entre a Primeira Rep&uacute;blica e o Catolicismo. Alfragide: Publica&ccedil;&otilde;es Dom Quixote, 2010. SEABRA, Jo&atilde;o &ndash; O Estado e a Igreja em Portugal no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX. A Lei de Separa&ccedil;&atilde;o de 1911. Cascais: Principia, 2009. Sobre a &ldquo;separa&ccedil;&atilde;o&rdquo; legislada e outras poss&iacute;veis, cf. PINTO, S&eacute;rgio Ribeiro &ndash; Separa&ccedil;&atilde;o religiosa como modernidade. Decreto-Lei de 20 de Abril de 1911 e modelos alternativos. Lisboa: Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa. Centro de Estudos de Hist&oacute;ria Religiosa, 2011.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[3] Sete anos depois do texto de Gomes dos Santos, j&aacute; lemos estas palavras do Episcopado: &ldquo;Os templos regurgitam de fi&eacute;is; e os fi&eacute;is assistem com rever&ecirc;ncia maior aos actos religiosos; aumenta a frequ&ecirc;ncia dos Sacramentos em algumas regi&otilde;es, e at&eacute; na capital; e estas demonstra&ccedil;&otilde;es de cren&ccedil;a e piedade tanto mais valem e maior admira&ccedil;&atilde;o excitam quando reflectimos nas dificuldades, nos apodos e motejos, at&eacute; agress&otilde;es corporais, com que t&ecirc;m de arrostar os que as praticam. [&hellip;] Grandemente consoladora &eacute; tamb&eacute;m a express&atilde;o e o entusiasmo da juventude, unindo-se e organizando-se em associa&ccedil;&otilde;es que, dentro de breve prazo, se t&ecirc;m t&atilde;o admiravelmente multiplicado como afirmado brilhantemente &ldquo; (Apelo de Santar&eacute;m, 10 de Julho de 1913.  In LOUREN&Ccedil;O, Joaquim Maria &ndash; Situa&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica da Igreja em Portugal, Coimbra Editora, 1943, p. 189-190).<\/p>\n<p>[4] Sobre o movimento cat&oacute;lico em geral, cf. CLEMENTE, Manuel &ndash; Igreja e sociedade portuguesa do liberalismo &agrave; rep&uacute;blica. Lisboa: Grifo, 2002. CRUZ, Manuel Braga da &ndash; As origens da Democracia Crist&atilde; e o salazarismo. Lisboa: Editorial Presen&ccedil;a \/ Gabinete de Investiga&ccedil;&otilde;es Sociais, 1980. GOMES. J. Pinharanda &ndash; Os Congressos Cat&oacute;licos em  Portugal. Subs&iacute;dios para a hist&oacute;ria da cultura cat&oacute;lica portuguesa contempor&acirc;nea, 1870-1980. Lisboa: Secretariado Nacional para o Apostolado dos Leigos, 1984.&nbsp; Sobre alguns dos seus maiores protagonistas, cf. FERREIRA, Ant&oacute;nio Matos &ndash; Um cat&oacute;lico militante diante da crise nacional. Manuel Isa&iacute;as Ab&uacute;ndio da Silva (1874-1914). Lisboa: Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa. Centro de Estudos de Hist&oacute;ria Religiosa, 2007. GON&Ccedil;ALVES, Eduardo C. Cordeiro &ndash; Cat&oacute;licos e pol&iacute;tica (1870-1910). O pensamento e a ac&ccedil;&atilde;o do Conde de Samod&atilde;es. Instituto Superior da Maia, 2004. NETO, Ant&oacute;nio Lino &ndash; Interven&ccedil;&otilde;es parlamentares (1918-1926). Coord. Ant&oacute;nio Matos Ferreira e Jo&atilde;o Miguel Almeida. Lisboa: Assembleia da Rep&uacute;blica e Texto Editores, 2009.<\/p>\n<p>[5] .Cf. SILVA, M. Ab&uacute;ndio da &ndash; Cartas a um Abade. Sobre alguns aspectos da quest&atilde;o pol&iacute;tico-religiosa em  Portugal. Braga: Cruz &amp; C&ordf;, 1913, p. 131-132: &ldquo;Destes e de mais elementos [= a pouca consequ&ecirc;ncia pol&iacute;tica da devo&ccedil;&atilde;o&nbsp; e dos col&eacute;gios &ldquo;cat&oacute;licos&rdquo;] de observa&ccedil;&atilde;o dispunham os nacionalistas e seus mentores quando desceram &agrave; arena pol&iacute;tica com um partido que degenerou em seita logo que a sua aceita&ccedil;&atilde;o se imp&ocirc;s como um dever de consci&ecirc;ncia e se irmanaram no seu significado e extens&atilde;o duas palavras inconfund&iacute;veis: nacionalismo e catolicismo. O mal chegaria ao c&uacute;mulo quando o nacionalismo se integrasse tamb&eacute;m com o monarquismo, em plena decad&ecirc;ncia e rude e infatigavelmente combatido. [&hellip;] Ainda para mais, a opini&atilde;o p&uacute;blica convencera-se de que o nacionalismo que, rasgando o seu programa de 1903, se reduzira a uma atrabili&aacute;ria seita de jacobinos da extrema-direita, n&atilde;o era agora mais do que uma continua&ccedil;&atilde;o da Companhia de Jesus, a organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tico-partid&aacute;ria deste grande insituto religioso&rdquo;.<\/p>\n<p>[6] SILVA, M. Ab&uacute;ndio &ndash; Cartas a um Abade, p. 125-127: &ldquo;N&atilde;o se esquece V. Rev&ordf; da impon&ecirc;ncia singular que revestiu a comemora&ccedil;&atilde;o jubilar da defini&ccedil;&atilde;o dogm&aacute;tica da Concei&ccedil;&atilde;o Imaculada da Sant&iacute;ssima Virgem [= centenas de milhares de peregrinos na romagem ao Sameiro em 1904]. [&hellip;] Mas o n&uacute;mero escasso, demasiadamente escasso, dos cat&oacute;licos que concorreram aos actos preparat&oacute;rios da grande manifesta&ccedil;&atilde;o, obriga-nos a ver que, se para a impon&ecirc;ncia da comemora&ccedil;&atilde;o jubilar, a piedade por Maria contribuiu com muito, n&atilde;o pequeno factor foi tamb&eacute;m um esp&iacute;rito de villegiatura e de distrac&ccedil;&atilde;o, um desejo de ver festas e ilumina&ccedil;&otilde;es, o prazer dum passeio, elementos estes que perverteram e profanaram as nossas mais c&eacute;lebres romarias, nas quais o arraial se sobrep&ocirc;s &agrave; comemora&ccedil;&atilde;o religiosa&rdquo;. &nbsp;<\/p>\n<p>[7] Cf. MOURA, Maria L&uacute;cia de Brito &ndash; A &ldquo;guerra religiosa&rdquo; na I Rep&uacute;blica. Lisboa: Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa. Centro de Estudos de Hist&oacute;ria Religiosa, 2010. IDEM &ndash; Nas trincheiras da Flandres. Com Deus ou sem Deus, eis a quest&atilde;o. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es Colibri, 2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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