{"id":49990,"date":"2011-02-15T16:12:15","date_gmt":"2011-02-15T16:12:15","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/02\/15\/significado-historico-e-eclesial-do-diaconado-permanente\/"},"modified":"2011-02-15T16:12:15","modified_gmt":"2011-02-15T16:12:15","slug":"significado-historico-e-eclesial-do-diaconado-permanente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/significado-historico-e-eclesial-do-diaconado-permanente\/","title":{"rendered":"Significado hist\u00f3rico e eclesial do Diaconado Permanente"},"content":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de D. Jorge Ortiga nas Jornadas de Teologia da UCP-Porto <!--more--> <\/p>\n<p>A ordem do diaconado &eacute; um grau permanente da hierarquia da Igreja Cat&oacute;lica. Esta figura ministerial n&atilde;o pode ser entendida como um tempo de espera ou de passagem para a ordena&ccedil;&atilde;o sacerdotal. O diaconado insere-se na grande &ldquo;diaconia&rdquo; e &ldquo;martiria&rdquo; da Igreja em ordem ao an&uacute;ncio do mist&eacute;rio pascal de Cristo. J&aacute; na Igreja Apost&oacute;lica, ainda que com contornos bem espec&iacute;ficos, o diaconado recebeu um reconhecimento e estima que sublinham o seu significado eclesial ao longo dos tempos.<\/p>\n<p>Espero, por isso, partilhar convosco um conjunto de elementos que nos ajudem a reflectir acerca do significado hist&oacute;rico e eclesial do diaconado permanente. Confesso que quem inicia tem sempre a vantagem ou a desvantagem de fazer refer&ecirc;ncias incompletas que outros completar&atilde;o e melhorar&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>I &ndash; Dimens&atilde;o hist&oacute;rica do diaconado<br \/>a) Tradi&ccedil;&atilde;o Apost&oacute;lica<\/strong><\/p>\n<p>A Tradi&ccedil;&atilde;o da Igreja coloca a origem do diaconado nos alvores do cristianismo. A palavra &ldquo;diaconoi&rdquo; surge no Novo Testamento cerca de 29 vezes, a maior parte delas no livro dos Actos dos Ap&oacute;stolos, e nas Cartas de Paulo.<\/p>\n<p>Relativamente a Act 6, 1-6, os exegetas n&atilde;o s&atilde;o un&acirc;nimes em reconhecer a exist&ecirc;ncia da palavra, uma vez que a palavra &ldquo;diaconoi&rdquo; n&atilde;o aparece de modo expl&iacute;cito. Aparece sim, pela primeira vez, neste texto a miss&atilde;o destinada aos di&aacute;conos: &ldquo;irm&atilde;os, &eacute; melhor procurardes entre v&oacute;s sete irm&atilde;os de boa reputa&ccedil;&atilde;o, cheios de Esp&iacute;rito e de sabedoria; confiar-lhes-emos essa tarefa (servir &agrave;s mesas). Quanto a n&oacute;s, entregar-nos-emos assiduamente &agrave; ora&ccedil;&atilde;o e ao servi&ccedil;o da Palavra [&hellip;] Foram apresentados aos ap&oacute;stolos que, depois de orarem, lhes impuseram as m&atilde;os&rdquo; (Act 6, 3-4.6). A origem hist&oacute;rica do diaconado est&aacute; supostamente associada ao &ldquo;servi&ccedil;o das mesas&rdquo; (Act 6,1-6) e &agrave; ora&ccedil;&atilde;o consacrat&oacute;ria da ordena&ccedil;&atilde;o diaconal. Todavia, sem anular esta interpreta&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel, n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil extrair desta passagem a aut&ecirc;ntica imagem dos di&aacute;conos, porque a&iacute; apenas podemos encontrar uma refer&ecirc;ncia espec&iacute;fica &agrave; atitude de servir assumida pelos sete homens de boa reputa&ccedil;&atilde;o. (diaconein-Servir).<\/p>\n<p>Por sua vez, S. Paulo reconhece a presen&ccedil;a hier&aacute;rquica dos di&aacute;conos na Igreja1: &ldquo;Paulo e Tim&oacute;teo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus que est&atilde;o em Filipos, com seus bispos e di&aacute;conos: a v&oacute;s a gra&ccedil;a e paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo!&rdquo; (Fl 1, 1-2) e enumera um itiner&aacute;rio necess&aacute;rio para o discernimento com o elenco de qualidades a testemunhar na comunidade2: &ldquo;Os di&aacute;conos sejam pessoas dignas, sem duplicidade, n&atilde;o inclinados ao excesso de vinho, nem &aacute;vidos de lucros desonestos [&hellip;] Sejam maridos de uma s&oacute; mulher, capazes de dirigir bem os filhos e a pr&oacute;pria casa. Pois aqueles que cumprirem bem o diaconado adquirem para si uma posi&ccedil;&atilde;o honrosa e autoridade em quest&atilde;o de f&eacute;, em Cristo Jesus&rdquo; (1 Tim. 3,8-10. 12-13).<\/p>\n<p>&Eacute; curioso verificar que tanto nos Actos como nas cartas paulinas o di&aacute;cono est&aacute; associado aos ap&oacute;stolos ou aos bispos como podemos verificar nos textos supra citados. Por isso, como afirma Borras e outros, o termo grego&nbsp;&#8220;Diacon&oacute;s&#8221; n&atilde;o designa figuras rigorosamente id&ecirc;nticas. No m&aacute;ximo, podem tirar-se da&iacute; &laquo;esbo&ccedil;os variados&raquo; de minist&eacute;rios assumidos por &ldquo;di&aacute;conos&rdquo;. Mas &eacute; uma ilus&atilde;o querer uma descri&ccedil;&atilde;o precisa, gra&ccedil;as ao Novo Testamento, dos contornos do minist&eacute;rio diaconal&rdquo;3.<\/p>\n<p><strong>b) Tradi&ccedil;&atilde;o Patr&iacute;stica<br \/><\/strong>Na tradi&ccedil;&atilde;o patr&iacute;stica dos primeiros s&eacute;culos sobressai o papel particular do Bispo, acompanhado pelo col&eacute;gio dos presb&iacute;teros (aconselhamento) e pela assist&ecirc;ncia dos di&aacute;conos. Ao aparecer lentamente como auxiliar e confidente &ldquo;o di&aacute;cono torna o Bispo pr&oacute;ximo do seu povo e o povo pr&oacute;ximo do seu bispo&rdquo;4.<\/p>\n<p>Avan&ccedil;ando um pouco mais, &eacute; paradigm&aacute;tica a maneira como os padres da Igreja olham para o diaconado como um aut&ecirc;ntico minist&eacute;rio eclesial. In&aacute;cio de Antioquia descreve-os assim: &ldquo;&Eacute; necess&aacute;rio que os di&aacute;conos, os quais s&atilde;o os ministros dos minist&eacute;rios de Jesus Cristo, consigam agir com a satisfa&ccedil;&atilde;o de todos&rdquo;. Eles, de facto, n&atilde;o s&atilde;o di&aacute;conos que distribuem alimentos e bebidas, s&atilde;o ministros da &ldquo;Igreja de Deus&rdquo;5.<\/p>\n<p>Uma outra refer&ecirc;ncia ao diaconado vem descrita na obra Ensinamento dos Ap&oacute;stolos onde &eacute; real&ccedil;ada a import&acirc;ncia da comunh&atilde;o com o bispo: &ldquo;Ele [o di&aacute;cono] seja os ouvidos dos Bispos, a sua boca, o seu cora&ccedil;&atilde;o, a sua alma: dois numa s&oacute; vontade&rdquo;6. Esta s&iacute;ntese da figura do di&aacute;cono na vida da Igreja nascente indicia as suas necessidades face ao crescimento da f&eacute; crist&atilde; e ao alargamento das compet&ecirc;ncias dos diversos ministros. Todos estavam conscientes da import&acirc;ncia de se sentirem unidos e em comunh&atilde;o eclesial at&eacute; porque o ambiente pol&iacute;tico e p&uacute;blico era adverso e hostil &agrave;s comunidades crist&atilde;s nascentes.<\/p>\n<p>Assim, podemos dizer que, at&eacute; ao s&eacute;c. IV, os di&aacute;conos estiveram ao servi&ccedil;o da caridade e na gest&atilde;o administrativa das Igrejas locais. Eram uma esp&eacute;cie de &ldquo;colaboradores-natos&rdquo; do Bispo. A partir do s&eacute;c. V, e sem pretens&otilde;es de elencar as causas do desaparecimento progressivo do diaconado, os di&aacute;conos foram perdendo muitos dos seus encargos, uma vez que os subdi&aacute;conos assumiram a gest&atilde;o patrimonial e os monges ocuparam-se da dimens&atilde;o caritativa. Perdem a liga&ccedil;&atilde;o estreita ao Bispo e limitaram-se ao servi&ccedil;o lit&uacute;rgico. A Igreja clericalizou-se e a figura do sacerdote, cura animarum, sobrep&ocirc;s-se a todo e qualquer minist&eacute;rio existente7.<\/p>\n<p>Acrescentamos ainda que a progressiva clericaliza&ccedil;&atilde;o do minist&eacute;rio da ordem, a ideia de uma religi&atilde;o do templo, de benesses e regalias, o afrouxamento do ardor apost&oacute;lico e assun&ccedil;&atilde;o de tarefas por parte dos sacerdotes at&eacute; ent&atilde;o destinadas ao diaconado foram factores decisivos para que o diaconado permanente se fosse diluindo na hist&oacute;ria at&eacute; &agrave; sua revitaliza&ccedil;&atilde;o no Vaticano II.<\/p>\n<p><strong>c) Conc&iacute;lio Vaticano II<\/strong><\/p>\n<p>Com o conc&iacute;lio Vat. II redescobre-se novamente a import&acirc;ncia da figura e da miss&atilde;o do di&aacute;cono. Robustecidos pela &ldquo;gra&ccedil;a sacramental&rdquo; da ordem recebida, os di&aacute;conos s&atilde;o chamados &ldquo;para o servi&ccedil;o ao povo de Deus. O Conc&iacute;lio decidiu que o diaconado ser&aacute; &ldquo;no futuro restaurado como um grau pr&oacute;prio e permanente da hierarquia&rdquo; para o qual ser&atilde;o importantes as m&atilde;os &ldquo;n&atilde;o para o sacerd&oacute;cio mas para o servi&ccedil;o&rdquo;8. E com isso estabeleceu-se o exerc&iacute;cio permanente do diaconado em tr&ecirc;s dimens&otilde;es: 1) como grau do minist&eacute;rio ordenado em ordem ao &laquo;servi&ccedil;o&raquo;; 2) a sua fun&ccedil;&atilde;o primordial &eacute; na Liturgia, Palavra e Caridade, em comunh&atilde;o com o bispo e seu presbit&eacute;rio; 3) o diaconado realiza-se em benef&iacute;cio do Povo de Deus e da sua miss&atilde;o no mundo.<\/p>\n<p>Nota-se a preocupa&ccedil;&atilde;o dos padres conciliares em se fundamentarem na tradi&ccedil;&atilde;o antiga para darem resposta &agrave;s novas situa&ccedil;&otilde;es pastorais e aos desafios colocados &agrave; evangeliza&ccedil;&atilde;o da Igreja. O Conc&iacute;lio deixa &agrave;s Confer&ecirc;ncias Episcopais a responsabilidade de darem consist&ecirc;ncia a esta &ldquo;reposi&ccedil;&atilde;o&rdquo; (este termo espec&iacute;fica melhor do que restaura&ccedil;&atilde;o) do diaconado. Os documentos que se seguiram explicam o significado eclesial de que se reveste.<\/p>\n<p><strong>d) Magist&eacute;rio Pontif&iacute;cio: Paulo VI &#8211; Jo&atilde;o Paulo II &ndash; Bento XVI<\/strong><\/p>\n<p>O Papa Paulo VI, no seu Moto Pr&oacute;prio Ad Pascendum, descreve o diaconado &ldquo;como ordem interm&eacute;dia entre os graus superiores da hierarquia eclesi&aacute;stica e o restante povo de Deus [&hellip;] De alguma maneira interprete das necessidades e dos desejos das comunidades crist&atilde;s, animador do servi&ccedil;o, ou seja, da diaconia da Igreja junto das comunidades cristas locais, sinal ou sacramento do pr&oacute;prio Cristo Senhor, que &laquo;n&atilde;o veio para ser servido mas para servir&raquo;&rdquo; (Mt. 20,28)<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Paulo II, aos participantes do Congresso dos di&aacute;conos permanente de It&aacute;lia, referia que &ldquo;o di&aacute;cono no seu grau personifica Cristo servo do Pai, participante na tr&iacute;plice fun&ccedil;&atilde;o do sacramento da ordem: &eacute; mestre enquanto proclama e explica a palavra de Deus; &eacute; santificado, enquanto administra o sacramento do baptismo, da eucaristia e os sacramentos; &eacute; guia enquanto administrador das comunidades ou dos diversos sectores de anima&ccedil;&atilde;o da vida eclesial. Deste modo, o di&aacute;cono contribuiu para a comunh&atilde;o, para o servi&ccedil;o e para a miss&atilde;o da Igreja&rdquo;9.<\/p>\n<p>O Papa Bento XVI fala-nos do servi&ccedil;o diaconal na Verbum Domini, n&ordm; 81: &laquo;O Direct&oacute;rio para o diaconado permanente afirma que da &ldquo;identidade teol&oacute;gica do diaconado derivam com clareza os tra&ccedil;os da sua espiritualidade espec&iacute;fica, que se apresenta essencialmente como espiritualidade de servi&ccedil;o. O modelo por excel&ecirc;ncia &eacute; Cristo servo, que viveu totalmente ao servi&ccedil;o de Deus, para bem dos seres humanos&rdquo;&raquo;.<\/p>\n<p>Desta breve leitura hist&oacute;rica, resultam tr&ecirc;s dimens&otilde;es estruturantes da voca&ccedil;&atilde;o diaconal para os dias de hoje: Comunh&atilde;o-Servi&ccedil;o-Miss&atilde;o. Os di&aacute;conos s&atilde;o constitu&iacute;dos pela ordena&ccedil;&atilde;o como sinal vivo de Cristo-Servo e enviados &agrave; comunidade numa atitude de plena comunh&atilde;o com o bispo e com o presbit&eacute;rio. N&atilde;o sendo ordenados para presidir &agrave; Eucaristia e &agrave; comunidade, criam todas as condi&ccedil;&otilde;es para que a presid&ecirc;ncia do Bispo e dos sacerdotes se viabilize.<\/p>\n<p>A diaconia como gesto de generosidade e dedica&ccedil;&atilde;o exige uma permanente disponibilidade interior de toda a Igreja para a aventura mission&aacute;ria. A sua presen&ccedil;a alerta para a descoberta do servi&ccedil;o na miss&atilde;o pastoral da Igreja, atitude fundamental para uma nova Evangeliza&ccedil;&atilde;o. O facto de serem, normalmente, casados, e viverem na complexidade dos ambientes sociais e laborais, ajuda a Igreja a perceber os dinamismos pr&oacute;prios da hist&oacute;ria e a estar nos locais onde o testemunho da f&eacute; pode dar sentido &agrave; vida.<\/p>\n<p><strong>II &ndash; A eclesialidade do minist&eacute;rio diaconal<\/strong><\/p>\n<p>Revitalizar o diaconado permanente &eacute; uma emerg&ecirc;ncia evang&eacute;lica e pastoral, n&atilde;o em fun&ccedil;&atilde;o da diminui&ccedil;&atilde;o do clero, mas em virtude da escuta do Esp&iacute;rito Santo, que envia a Igreja em miss&atilde;o, convidando-a a ser, na totalidade dos seus membros, servidora e testemunha qualificada do amor de Deus por todos os Seus filhos e filhas. O minist&eacute;rio diaconal realiza-se na comunidade eclesial, sobretudo quando &eacute; chamado a anunciar com autoridade a Palavra de Deus, &ldquo;acreditando naquilo que proclama, ensinando aquilo que acredita, vivendo aquilo que ensina&rdquo;10.<\/p>\n<p>Esta natureza eclesial do minist&eacute;rio diaconal ajuda-nos a discernir o lugar do diaconado na Igreja. T&ecirc;m vigorado algumas concep&ccedil;&otilde;es que podem prejudicar essa vis&atilde;o teologal e eclesial. Dois modelos t&ecirc;m marcado a conceptualiza&ccedil;&atilde;o da miss&atilde;o diaconal. No primeiro modelo, o di&aacute;cono aparece subordinado ao presb&iacute;tero, &eacute; uma esp&eacute;cie de &ldquo;subpadre&rdquo;. No segundo modelo, insiste-se em demasiada na diaconia da caridade. Aqui o di&aacute;cono seria uma esp&eacute;cie de &ldquo;superleigo&rdquo; ao servi&ccedil;o exclusivo dos mais pobres. Ambas as vis&otilde;es levam a uma errada vis&atilde;o teol&oacute;gica do minist&eacute;rio porque n&atilde;o abarcam a totalidade da miss&atilde;o.<\/p>\n<p>Como afirma Alphonse Borras: &ldquo;o minist&eacute;rio ordenado n&atilde;o existe sem Igreja; ele est&aacute; com ela na &uacute;nica depend&ecirc;ncia de Deus &ndash; por Cristo e no seu Esp&iacute;rito &ndash; no qual ele significa e realiza a rela&ccedil;&atilde;o com o corpo eclesial&rdquo;11. Esta no&ccedil;&atilde;o de perten&ccedil;a, de acolhimento e reconhecimento no seio de uma comunidade concreta, determina o mandato e a miss&atilde;o dos ministros ordenados.<\/p>\n<p>Teremos de ir mais fundo do que a ing&eacute;nua ideia de restaurar os di&aacute;conos somente para &ldquo;o servi&ccedil;o do bispo ou dos p&aacute;rocos&rdquo;. A express&atilde;o &ldquo;ad ministerium episcopi&rdquo; (para o minist&eacute;rio do bispo) significa que os di&aacute;conos n&atilde;o s&atilde;o servidores do bispo mas sim destinados a servir o minist&eacute;rio episcopal, do qual o bispo &eacute; o sujeito da atribui&ccedil;&atilde;o. Os di&aacute;conos s&atilde;o portanto ordenados para o minist&eacute;rio do qual o bispo &eacute; o titular &ldquo;e o minist&eacute;rio de que o bispo tem o encargo tem por objecto a comunidade&rdquo;12.<\/p>\n<p>Assim corroboro com a posi&ccedil;&atilde;o de Borras quando afirma que &ldquo;ordenam-se di&aacute;conos para o servi&ccedil;o do Povo de Deus que, na diversidade das suas voca&ccedil;&otilde;es, carismas e minist&eacute;rios, devem testemunhar a Boa-Nova no cora&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria da nossa humanidade, no seio da qual o Reino de Deus est&aacute; j&aacute; a operar&rdquo;13. O diaconado deve ser pensado em fun&ccedil;&atilde;o da Igreja num lugar concreto para que a sua miss&atilde;o credibilize a f&eacute; no seio da humanidade.<\/p>\n<p>Por outro lado, em virtude da sua ministerialidade ordenada, os di&aacute;conos s&atilde;o enviados para os &ldquo;postos avan&ccedil;ados da miss&atilde;o&rdquo; (Thierry Jordan)14 de modo a exercerem a sua miss&atilde;o no &ldquo;cora&ccedil;&atilde;o do mundo&rdquo; para a&iacute; anunciarem a abertura do Reino a todos povos e gentes. A natureza da dimens&atilde;o diaconal da Igreja tem a sua origem na comunh&atilde;o trinit&aacute;ria que suscita o dom da gra&ccedil;a sacramental da ordena&ccedil;&atilde;o diaconal (imposi&ccedil;&atilde;o das m&atilde;os, epiclese e a ora&ccedil;&atilde;o consacrat&oacute;ria).<\/p>\n<p>Situados na diaconia de Cristo, em comunh&atilde;o eclesial, o diaconado permanente testemunha que o amor de Deus permanece na Igreja sempre que esta permanece serva, acolhedora e hospitaleira dos homens. No cora&ccedil;&atilde;o do mundo, os di&aacute;conos discernem os caminhos novos dispondo a comunidade eclesial para a miss&atilde;o e servi&ccedil;o no seguimento de Cristo. Por isso &ldquo;os di&aacute;conos est&atilde;o ao servi&ccedil;o para o qual todos os crist&atilde;os s&atilde;o chamados enquanto membros duma Igreja totalmente servidora, no seguimento do seu Esposo, mestre e Senhor, que se quis precisamente, Ele mesmo, servidor&rdquo;15.<\/p>\n<p>O diaconado permanente investido da diaconia de Cristo, quer na qualidade de homens com uma vida profissional e familiar pr&oacute;pria, quer na qualidade de casados, poder&atilde;o ser uma presen&ccedil;a luminosa e sacramental da Igreja no quotidiano e no limiar da vida humana. H&aacute; quem os apelide de &ldquo;ministros da proximidade&rdquo; porque apresentam &ldquo;rosto pr&oacute;ximo da Igreja&rdquo; naqueles meios onde o sacerdote ou o bispo dificilmente conseguiriam chegar ou tocar. Os di&aacute;conos podem ajudar a viver e a reavivar a beleza do &ldquo;cristianismo hospitaleiro e de amizade&rdquo; (G. Vattimo) na concretiza&ccedil;&atilde;o plena do Sacramento do Altar e no Sacramento do irm&atilde;o.<\/p>\n<p>Esta dimens&atilde;o &eacute; sentida na actualidade onde se pretende um cristianismo mais afectivo. Aqui os di&aacute;conos podem proporcionar as necess&aacute;rias condi&ccedil;&otilde;es para estar no mundo como mission&aacute;rios e de dar um contributo de humanidade aos sectores caracter&iacute;sticos da vida eclesial. &laquo;Os di&aacute;conos s&atilde;o capazes de tornar a vida da Igreja familiar a muita gente e, sobretudo, a experi&ecirc;ncia e o capital cultural n&atilde;o podem sen&atilde;o jorrar, com efeitos geralmente frut&iacute;feros sobre o minist&eacute;rio da Palavra, sobre a maneira de celebrar os baptismos e os casamentos, sobre os processos de decis&atilde;o no interior &ldquo;das Igrejas&rdquo;&raquo;16.<\/p>\n<p><strong>III &ndash; Algumas conclus&otilde;es<\/strong><\/p>\n<p>1. N&atilde;o podemos justificar a minist&eacute;rio do diaconado permanente em virtude da supl&ecirc;ncia do clero mas da miss&atilde;o diaconal da Igreja no mundo. Segundo D. J. L. Papin o diaconado permanentemente desapareceu &ldquo;em parte, por se ter tornado naquilo que n&atilde;o era&rdquo;. Por isso, e na esteira da teologia do Vaticano II, a centralidade deve ser colocada na comunidade onde predomina a diversidade e complementaridade de minist&eacute;rios.<\/p>\n<p>2. A comunidade eclesial &eacute; composta por uma diversidade de carismas e minist&eacute;rios. De acordo com as suas fun&ccedil;&otilde;es, podemos catalogar em tr&ecirc;s as figuras do diaconado: &ldquo;samaritanos&rdquo; (voltados mais para as necessidades do pr&oacute;ximo; &ldquo;profetas&rdquo; (mais sens&iacute;veis para as quest&otilde;es sociais e colectivas); &ldquo;pastores&rdquo; (ao servi&ccedil;o da anima&ccedil;&atilde;o pastoral e lit&uacute;rgica das comunidades). O testemunho de vida e a coer&ecirc;ncia da sua exist&ecirc;ncia ser&atilde;o importantes para a fecundidade do seu minist&eacute;rio, que exercem a partir das circunstanciais normais da vidas das pessoas. Esta diaconia de servi&ccedil;o sup&otilde;e uma pleuriministerialidade que deve ser convenientemente pensada e corajosamente decidida. Se a Igreja em Portugal se encontra em atitude de discernimento para uma pastoral nova e fiel, ela tem o dever, por coer&ecirc;ncia doutrinal, de ser capaz de visibilizar o horizonte da miss&atilde;o de um modo diferente.<\/p>\n<p>3) O instrumento de trabalho para a caminhada sinodal em curso aponta sinais de comunh&atilde;o que n&atilde;o podem ser esquecidos. Trata-se de uma &ldquo;nova maneira de ser Igreja&rdquo; que surge enquadrada em tr&ecirc;s quest&otilde;es fundamentais e priorit&aacute;rias para a ac&ccedil;&atilde;o pastoral. Numa Igreja Povo de Deus, o caminho da forma&ccedil;&atilde;o permanente &eacute; premissa para a inteligibilidade e viv&ecirc;ncia da f&eacute;. Caminho que exigir&aacute; um &ldquo;empenho criativo, com um modo crist&atilde;o e eclesial novo de estar e agir no mundo&rdquo; , que sup&otilde;e crit&eacute;rios de proximidade e incultura&ccedil;&atilde;o da f&eacute; em todos os &acirc;mbitos, sobretudo nos lugares ditos de fronteira. Para a realiza&ccedil;&atilde;o aut&ecirc;ntica desta miss&atilde;o, o caminho sinodal sugere &ldquo;a reorganiza&ccedil;&atilde;o das comunidades crist&atilde;s, que passa pela descoberta de novas formas de exerc&iacute;cio do minist&eacute;rio sacerdotal e implementa&ccedil;&atilde;o da diversidade de minist&eacute;rios eclesiais&rdquo;. Cuidar da comunidade e do an&uacute;ncio do Reino exigir&aacute; diaconia e gratuidade. A prioridade est&aacute; no acolhimento amoroso e no reconhecimento humilde de que &eacute; Deus quem conduz a hist&oacute;ria humana e nos envia a proclamar o mist&eacute;rio pascal de Jesus Cristo, Seu Filho e nosso Pai.<\/p>\n<p><strong>IV &ndash; Proposta Pastoral<\/strong><\/p>\n<p>O significado hist&oacute;rico e eclesial do diaconado permanente revela-nos a emerg&ecirc;ncia de colocarmos em funcionamento uma realidade interrompida. O novo modo de ser Igreja exige escuta da Palavra originante que chama crentes e n&atilde;o crentes a realizarem no hoje da hist&oacute;ria a narrativa amorosa de Deus com os homens. Todos estamos convocados, bispos, padre, di&aacute;cono e leigos, a assumirmos a nossa condi&ccedil;&atilde;o de seguidores de Cristo-Servo e de abrimos as portas do Reino &agrave; humanidade inteira.<\/p>\n<p>Termino esta minha reflex&atilde;o, recordando o testemunho de Santo In&aacute;cio de Antioquia na sua Carta aos Ef&eacute;sios (1,175-177). O texto &eacute; demasiado conhecido e aplicado na sua origem ao presbit&eacute;rio. Reconhe&ccedil;o-o como carta aplic&aacute;vel a toda a Igreja e demais minist&eacute;rios: &ldquo;O vosso memor&aacute;vel presbit&eacute;rio, digno de Deus, est&aacute; em harmonia com o Bispo como as cordas de c&iacute;tara. Esta vossa conc&oacute;rdia e harmonia na caridade &eacute; como um hino a Jesus Cristo.<\/p>\n<p>Procurai todos v&oacute;s tomar parte deste coro, harmonizados pela paz de Cristo, recebendo a melodia de Deus na unidade, possais cantar em un&iacute;ssono por Jesus Cristo ao Pai, a fim de que vos escute e vos reconhe&ccedil;a, pelas vossas boas obras, como membros do seu Filho, vale bem a pena viver em unidade irrepreens&iacute;vel, para poder participar sempre da vida de Deus.&rdquo;<\/p>\n<p>Penso poder dizer que o diaconado permanente ter&aacute; futuro se a Igreja n&atilde;o se esquecer da sua fonte trinit&aacute;ria e se estiver &agrave; escuta da Palavra, para servir humildemente o Homem a encontrar sentido para a vida. Ent&atilde;o o diaconado emergir&aacute; como discernimento aprofundado e renovado em atitude de miss&atilde;o nos &acirc;mbitos novos e caracter&iacute;sticos do tempo actual. Na linguagem de Santo In&aacute;cio isto exige e sup&otilde;e:<\/p>\n<p>&#8211; Fazer com que tudo parta do Bispo &ldquo;como as cordas da citara&rdquo;;<\/p>\n<p>&#8211; Receber a melodia de Deus;<\/p>\n<p>&#8211; Consci&ecirc;ncia de que fazemos parte do coro e que s&oacute; a unidade e conc&oacute;rdia geram a harmonia;<\/p>\n<p>&#8211; Tornar a caridade vivida e oferecido o verdadeiro hino a Cristo como o primeiro sentido da pastoral;<\/p>\n<p>&#8211; De modo que Cristo nos reconhe&ccedil;a pelas nossas boas obras. &Eacute; Cristo e n&atilde;o os aplausos;<\/p>\n<p>&#8211; A&iacute; o mundo reconhecer&aacute; a diferen&ccedil;a de vidas feitas diaconias e sentir-se-&aacute; interpelado a participar no &ldquo;coro&rdquo; duma sociedade imbu&iacute;da pelo esp&iacute;rito de Cristo;<\/p>\n<p>&#8211; &ldquo;Vale bem a pena viver em unidade irrepreens&iacute;vel &ndash; dentro e fora da Igreja&rdquo; para poder participar sempre na vida de Deus e fazer com que outros sintam o apelo do amor de Deus atrav&eacute;s da nossa Diaconia;<\/p>\n<p>Servir o Evangelho da Esperan&ccedil;a, a Boa Nova do Reino, &eacute; o desafio de todos crist&atilde;os e muito mais dos ministros ordenados. N&atilde;o pertence aos di&aacute;conos presidir &agrave; comunidade eclesial e &agrave; Eucaristia, mas, em comunh&atilde;o como o bispo e seu presbit&eacute;rio, &eacute; da sua responsabilidade e miss&atilde;o intr&iacute;nseca trabalhar para a reuni&atilde;o eclesial em vias de realiza&ccedil;&atilde;o, pela tripla diaconia insepar&aacute;vel da Palavra, da Liturgia e da Caridade.<\/p>\n<p>Se bem entendido, e como participante do minist&eacute;rio apost&oacute;lico pelo chamamento, pela consagra&ccedil;&atilde;o e pelo envio, o diaconado permanente permitir&aacute; aos pastores da Igreja, bispos e padres, realizarem melhor o minist&eacute;rio espec&iacute;fico da presid&ecirc;ncia e do acolhimento, e possibilitar&aacute; &agrave; Igreja ser sinal e testemunho da diaconia de Cristo-Servo.<br \/>A todos v&oacute;s o meu obrigado profundo pela paci&ecirc;ncia com que me escutaste!<\/p>\n<p><em>Universidade Cat&oacute;lica, Porto, 14-02-11,<br \/>Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz<\/em><\/p>\n<p><strong>Notas<br \/><\/strong>1 Fl 1, 1-2.<\/p>\n<p>2 1 Tim. 3,8-10. 12-13.<\/p>\n<p>3 A. BORRAS, O diaconado sob o risco da sua novidade, p. 51.<\/p>\n<p>4 J.M. TRILLARD, L&acute;Eglise local. Eclesiologie de Commununion et catholicit&eacute;, Paris, Cerf, 1995, pag.212.<\/p>\n<p>5 &Agrave; Igreja de Traelli, 2,3; Esmirna, 8, 1; Policarpo, 61-1, A Igreja de Magn&eacute;sia, 6-1; 13,1; &Agrave; Igreja de Filad&eacute;lfia, sauda&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>6 Didach&eacute; 11,44.<\/p>\n<p>7 Cf. A. BORRAS, O diaconado sob o risco da sua novidade, p. 51-52.<\/p>\n<p>8 Algumas tradu&ccedil;&otilde;es para o minist&eacute;rio, L-5.29 e 28.<\/p>\n<p>9 16 de Mar&ccedil;o de 1985, Insegmenti VIII \/ 1,69.<\/p>\n<p>10 Exorta&ccedil;&atilde;o P&oacute;s-Sinodal Verbum Domini, 81.<\/p>\n<p>11 A. BORRAS, O diaconado sob o risco da sua novidade, p. 24.<\/p>\n<p>12 A. BORRAS, O diaconado sob o risco da sua novidade, p. 64; LG 20b usa a express&atilde;o ministerium comunitatis.<\/p>\n<p>13 A. BORRAS, O diaconado sob o risco da sua novidade, p. 20.<\/p>\n<p>14 Th. Jordan, Une gr&acirc;ce pour l&rsquo; Eglise. Liminaire, in Jeunes et vocations, 119, 2005, p. 16.<\/p>\n<p>15 DOR&Eacute;, &ldquo;Les diacres dans l&acute;Eglise. Elements de reflexions, Communio, 21, 1996, p. 78.<\/p>\n<p>16 LEGRAND, &laquo;Bulletin d&acute;&eacute;clesiologie. Le diaconat: renouveau et th&eacute;ologie&rdquo;, in RSPT, 69, 1985, p. 102.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de D. 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