{"id":49863,"date":"2011-02-08T13:00:10","date_gmt":"2011-02-08T13:00:10","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/02\/08\/testamento-vital-contributo-para-um-debate-esclarecedor\/"},"modified":"2011-02-08T13:00:10","modified_gmt":"2011-02-08T13:00:10","slug":"testamento-vital-contributo-para-um-debate-esclarecedor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/testamento-vital-contributo-para-um-debate-esclarecedor\/","title":{"rendered":"Testamento Vital &#8211; contributo para um debate esclarecedor"},"content":{"rendered":"<p>Isabel Galri\u00e7a Neto, deputada do CDS-PP <!--more--> <\/p>\n<p>Desde o final da anterior legislatura que se tem falado mais intensamente da necessidade de viabilizar o testamento vital (TV) no nosso pais. Em nosso entender, esse processo deve ser distinto do que se refere ao consentimento informado, para o qual, ali&aacute;s, existe j&aacute; produ&ccedil;&atilde;o legislativa.<\/p>\n<p>Apesar de iniciativas variadas, em nosso entender ainda se mant&ecirc;m no grande p&uacute;blico alguns equ&iacute;vocos sobre esta importante mat&eacute;ria, nomeadamente pela associa&ccedil;&atilde;o que frequentemente se pretende fazer &agrave; legisla&ccedil;&atilde;o sobre eutan&aacute;sia ou a uma politiza&ccedil;&atilde;o excessiva, que ignora que este n&atilde;o &eacute; um assunto de esquerda ou de direita. Urge esclarecer de que falamos afinal.<\/p>\n<p>O TV (tradu&ccedil;&atilde;o de &ldquo;living will&rdquo;) insere-se nas chamadas directivas antecipadas de vontade, conjuntamente com a declara&ccedil;&atilde;o sobre doa&ccedil;&atilde;o de &oacute;rg&atilde;os e sobre o destino do corpo ap&oacute;s a morte. Este TV corresponde a uma manifesta&ccedil;&atilde;o escrita, feita por uma pessoa capaz, que, de forma consciente, esclarecida (o que pressup&otilde;e , portanto, que tenha ocorrido esclarecimento) e livremente, expressa as op&ccedil;&otilde;es e instru&ccedil;&otilde;es que devem respeitar-se nos cuidados de sa&uacute;de que venha a receber quando ocorram circunstancias cl&iacute;nicas que o impe&ccedil;am de comunicar pessoalmente a sua vontade. O TV pode atribuir a outras pessoas poderes de representa&ccedil;&atilde;o em mat&eacute;ria de cuidados de sa&uacute;de (nomea&ccedil;&atilde;o de um procurador).Em qualquer dos casos, a sua formula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se pode opor ao ordenamento jur&iacute;dico vigente e &agrave;s boas pr&aacute;ticas cl&iacute;nicas, ou seja, existem limites que n&atilde;o permitem que um testamento vital corresponda a um pedido de eutan&aacute;sia. Este documento n&atilde;o ter&aacute; car&aacute;cter obrigat&oacute;rio &ndash; s&oacute; o faz quem quer &#8211; e a experi&ecirc;ncia de pa&iacute;ses em que o mesmo j&aacute; existe mostra que n&atilde;o mais de 20% da popula&ccedil;&atilde;o redige um TV e desses, menos de 30% a ele recorre efectivamente no final de vida.<\/p>\n<p>Que expectativas se t&ecirc;m ao redigir um TV, far&aacute; sentido faz&ecirc;-lo? Para alguns fala-se de uma porta aberta &agrave; legaliza&ccedil;&atilde;o da eutan&aacute;sia ou numa forma de obten&ccedil;&atilde;o da mesma, e fala-se tamb&eacute;m de desconfian&ccedil;a face aos profissionais de sa&uacute;de. Para outros, existe a ideia que a solu&ccedil;&atilde;o para os problemas de sa&uacute;de associados ao fim de vida passaria exclusivamente pelo TV. Importa clarificar que a redac&ccedil;&atilde;o de um TV que respeite o actual enquadramento &eacute;tico-cl&iacute;nico e jur&iacute;dico nunca dever&aacute; constituir uma forma encapotada de se praticar eutan&aacute;sia. Al&eacute;m do mais, se o doente estiver consciente, os profissionais t&ecirc;m sempre que verificar se o mesmo mant&eacute;m as decis&otilde;es apontadas no documento, j&aacute; que em qualquer momento as referidas decis&otilde;es podem ser revogadas. Conv&eacute;m tamb&eacute;m sublinhar que a resolu&ccedil;&atilde;o dos problemas de sofrimento dos doentes e fam&iacute;lias no final de vida deve em muito ultrapassar este tipo de texto escrito, e deve sobretudo basear-se numa oferta s&oacute;lida de cuidados paliativos de qualidade.<\/p>\n<p>Um doente tem j&aacute; o direito a manifestar a sua vontade sobre o tipo de tratamentos que pode entender como razo&aacute;veis para atenuar o seu sofrimento em determinadas condi&ccedil;&otilde;es, nomeadamente quando numa condi&ccedil;&atilde;o avan&ccedil;ada e comprovadamente irrevers&iacute;vel, no final da sua vida. Um m&eacute;dico, no enquadramento jur&iacute;dico e deontol&oacute;gico actual, tem como obriga&ccedil;&atilde;o central da sua pr&aacute;tica acompanhar a pessoa doente, quer ela se cure ou n&atilde;o, e as boas pr&aacute;ticas cl&iacute;nicas, j&aacute; consagradas no c&oacute;digo deontol&oacute;gico dos M&eacute;dicos (art&ordm; 59) sublinham a import&acirc;ncia de, em qualquer contexto de doen&ccedil;a, se oferecerem tratamentos que n&atilde;o sejam f&uacute;teis (ditos proporcionados ou, numa nomenclatura mais antiga, ordin&aacute;rios, n&atilde;o agressivos) e de se poderem mesmo suspender ou n&atilde;o iniciar tratamentos que agravem o sofrimento do doente em situa&ccedil;&atilde;o terminal. A alimenta&ccedil;&atilde;o e a hidrata&ccedil;&atilde;o, nomeadamente as providenciadas de forma artificial, poder&atilde;o ser ou n&atilde;o enquadradas no pacote dos tratamentos, mas importa clarificar que nas situa&ccedil;&otilde;es terminais de doen&ccedil;as graves e irrevers&iacute;veis, os doentes n&atilde;o &ldquo;morrem &agrave; fome ou &agrave; sede&rdquo;, como tantas vezes por ignor&acirc;ncia se diz, e que for&ccedil;ar a alimenta&ccedil;&atilde;o e a hidrata&ccedil;&atilde;o nesses casos, conduz a maior sofrimento, sem resolver a condi&ccedil;&atilde;o de base que, essa sim, levar&aacute; &agrave; morte do doente.<\/p>\n<p>A redac&ccedil;&atilde;o de um TV, porque envolve complexidades e se quer esclarecida e informada, tem obrigatoriamente que ser enquadrada numa rela&ccedil;&atilde;o m&eacute;dico-doente, e nas rela&ccedil;&otilde;es com outros profissionais de sa&uacute;de (nomeadamente enfermeiros e psic&oacute;logos), e sempre atendendo a determinadas peculiaridades. A situa&ccedil;&atilde;o de doen&ccedil;a, por si s&oacute;, funciona como dizia Eric Cassel, como um &ldquo;ladr&atilde;o da autonomia&rdquo;, enviesando algumas das decis&otilde;es que o doente possa tomar e da&iacute; carecer de orienta&ccedil;&atilde;o de um profissional como um m&eacute;dico, que det&eacute;m uma pan&oacute;plia de informa&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas que um doente n&atilde;o possui. No entanto, n&atilde;o ser&aacute; esse o argumento para evitar que um doente participe nas decis&otilde;es sobre a sua vida. Quando devidamente aconselhado e esclarecido sobre as diferentes op&ccedil;&otilde;es terap&ecirc;uticas a tomar e as consequ&ecirc;ncias da mesma &ndash; embora dificilmente todas possam ser previstas&hellip;- estar&aacute;, regra geral, em condi&ccedil;&otilde;es de decidir ou apontar caminhos sobre o tipo de cuidados que pretende ou n&atilde;o receber caso tenha uma situa&ccedil;&atilde;o de doen&ccedil;a que o impe&ccedil;a de comunicar essa mesma vontade.<\/p>\n<p>No entanto, conscientes desta moldura de complexidade e assumindo tamb&eacute;m que &ldquo;n&atilde;o existe um mundo perfeito&rdquo;, em que o Homem domina e determina todos os factores, entendemos que &eacute; poss&iacute;vel&nbsp; enquadrar a redac&ccedil;&atilde;o do TV num modelo de rela&ccedil;&atilde;o em que se constitui uma &ldquo;alian&ccedil;a terap&ecirc;utica&rdquo;, em que &ldquo;o m&eacute;dico ajuda o doente a ajudar-se&rdquo; e em que a confian&ccedil;a de que o m&eacute;dico actuar&aacute; no melhor interesse do doente estar&aacute; inquestionavelmente presente. No contexto descrito, o TV n&atilde;o se torna, conv&eacute;m diz&ecirc;-lo, uma ferramenta imprescind&iacute;vel mas sim um importante aux&iacute;lio para m&eacute;dico e doente. Se assim n&atilde;o se actuar, se se banalizar a formula&ccedil;&atilde;o do documento a que aqui aludimos, corre-se o risco de ter um mero papel assinado que ser&aacute; olhado como um <em>pro forma<\/em> e pode esvaziar a rela&ccedil;&atilde;o m&eacute;dico-doente, contribuindo at&eacute; para desresponsabilizar o m&eacute;dico e a equipa de sa&uacute;de face a situa&ccedil;&otilde;es mais complexas e exigentes.<\/p>\n<p>Viabilizar a legisla&ccedil;&atilde;o sobre um TV &eacute;tica, cl&iacute;nica e jur&iacute;dicamente correcto e tornar poss&iacute;vel essa op&ccedil;&atilde;o representa uma oportunidade para os m&eacute;dicos aprofundarem a sua miss&atilde;o, para desenvolverem os seus conhecimentos e aptid&otilde;es em mat&eacute;rias como a comunica&ccedil;&atilde;o, a decis&atilde;o cl&iacute;nica e a &eacute;tica. Se os m&eacute;dicos souberem e as pessoas doentes quiserem, este ser&aacute;, n&atilde;o um avan&ccedil;o civilizacional, mas certamente um passo importante para aproximar todos os intervenientes no processo de cuidados de sa&uacute;de e para reduzir na doen&ccedil;a o sofrimento que ningu&eacute;m quer. Nesta perspectiva, e voltando a insistir, s&oacute; faz sentido discutir o TV integrado num conjunto de medidas alargadas que dignifiquem o final de vida, respeitando-a inquestionavelmente, e enfatizando a necessidade de maior desenvolvimento e acesso aos cuidados paliativos.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Isabel Galri&ccedil;a Neto,<\/em><\/p>\n<p align=\"right\"><em>m&eacute;dica de Cuidados Paliativos,<\/em><\/p>\n<p align=\"right\"><em>deputada do CDS-PP<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isabel Galri\u00e7a Neto, deputada do CDS-PP<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-49863","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49863","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49863"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49863\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49863"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49863"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49863"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}