{"id":49742,"date":"2011-02-01T12:12:05","date_gmt":"2011-02-01T12:12:05","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/02\/01\/um-grito-contra-a-guerra\/"},"modified":"2011-02-01T12:12:05","modified_gmt":"2011-02-01T12:12:05","slug":"um-grito-contra-a-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-grito-contra-a-guerra\/","title":{"rendered":"Um grito contra a guerra"},"content":{"rendered":"<p>Jorge Wemans, preso em Caxias na sequ\u00eancia do caso da Capela do Rato <!--more--> <\/p>\n<p>Ao princ&iacute;pio da noite de 31 de Dezembro de 1972 a pol&iacute;cia de choque bloqueou com grande aparato todos os acessos &agrave; Cal&ccedil;ada Bento da Rocha Cabral e intimou os que se encontravam no interior da Capela do Rato a abandonarem-na. N&atilde;o tendo sido obedecidas, as for&ccedil;as policiais, apoiadas por c&atilde;es, invadiram-na, arrastando para o exterior todos os que ali estavam. Mais de uma centena de pessoas foi, sob voz de pris&atilde;o, conduzida para identifica&ccedil;&atilde;o na esquadra da PSP do Rato.<\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">A maioria foi posta em liberdade, mas um grupo foi levado para as masmorras do Governo Civil. Destes, 13 seriam, ainda nessa noite, enviados para a pris&atilde;o de Caxias. Terminava, desta forma abrupta, a vig&iacute;lia de reflex&atilde;o sobre a guerra colonial que havia come&ccedil;ado 24 horas antes e em que muitas centenas de pessoas tinham participado, entrando e saindo livremente da Capela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">No dia 1 de Janeiro, apesar da proibi&ccedil;&atilde;o policial, celebraram-se na Capela do Rato as missas da manh&atilde;, tal como o Cardeal-Patriarca, D. Ant&oacute;nio Ribeiro, havia determinado. No final da &uacute;ltima missa os dois padres celebrantes foram presos pela PIDE\/DGS. Um deles s&oacute; seria solto depois de D. Ant&oacute;nio Ribeiro passar uma hora &agrave; porta da Ant&oacute;nio Maria Cardoso garantindo que dali s&oacute; sa&iacute;a levando o preso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Resumidos em curtos par&aacute;grafos, os acontecimentos daquilo que ficou para a hist&oacute;ria como &ldquo;O Caso da Capela do Rato&rdquo; parecem indicar que o afrontamento entre o Governo e a Igreja Cat&oacute;lica a prop&oacute;sito da guerra colonial era permanente e total. Nada mais enganador! Pelo contr&aacute;rio, ao fim de uma d&eacute;cada de guerra o sil&ecirc;ncio dos cat&oacute;licos e da hierarquia cat&oacute;lica era ensurdecedor! <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">&Eacute; certo que ela j&aacute; n&atilde;o colhia o apoio entusi&aacute;stico que a Igreja lhe oferecera nos primeiros anos. Mas a guerra colonial permanecia como assunto tabu, reprimindo-se, dentro da pr&oacute;pria Igreja Cat&oacute;lica, quem ousasse divulgar os casos mais violentos de massacre e tortura, ou, mais simplesmente, pretendesse reflectir no &acirc;mbito eclesial sobre a justeza da guerra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Ent&atilde;o como explicar os acontecimentos da Capela do Rato?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Desde o in&iacute;cio da guerra, na continuidade da sua oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; ditadura salazarista, que um conjunto n&atilde;o organizado de cat&oacute;licos vinha pontualmente questionando as op&ccedil;&otilde;es do regime. Algumas iniciativas, como a vig&iacute;lia de S&atilde;o Domingos, a funda&ccedil;&atilde;o da cooperativa Pragma, a carta aberta ao ditador, o apoio ao Bispo do Porto (expulso por Salazar), a cria&ccedil;&atilde;o da Comiss&atilde;o Nacional de Apoio aos Presos Pol&iacute;ticos foram pontuando os anos sessenta. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">As rela&ccedil;&otilde;es com movimentos e institui&ccedil;&otilde;es internacionais (eclesiais e multilaterais) permitiram encontrar solidariedades, textos, reflex&otilde;es e tomadas de posi&ccedil;&atilde;o que obrigavam a questionar a guerra. Toda a ac&ccedil;&atilde;o de Paulo VI, bem como as suas tomadas de posi&ccedil;&atilde;o e a cria&ccedil;&atilde;o das Comiss&otilde;es Justi&ccedil;a e Paz foram decisivas para despertar as consci&ecirc;ncias de alguns cat&oacute;licos em Portugal. Mas num pa&iacute;s controlado pela censura e pela sistem&aacute;tica apreens&atilde;o de livros, textos e correio, numa altura em que ainda n&atilde;o existiam nem fotoc&oacute;pias, nem telem&oacute;veis, nem Internet, a informa&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria aos interesses do regime circulava devagar e aos solu&ccedil;os.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">A partir do final da d&eacute;cada de sessenta o n&uacute;mero de cat&oacute;licos contra a guerra colonial come&ccedil;ou a crescer rapidamente. As elei&ccedil;&otilde;es de 1969 (com v&aacute;rios cat&oacute;licos envolvidos nas listas de oposi&ccedil;&atilde;o) representaram o canto do cisne da &ldquo;abertura marcelista&rdquo;. Cada vez era maior o n&uacute;mero de jovens regressados da guerra, testemunhando os seus horrores e sua bestialidade, dando ao mesmo tempo testemunho de uma realidade colonial que era toda ao contr&aacute;rio da &ldquo;ac&ccedil;&atilde;o evangelizadora e civilizacional&rdquo; que o discurso oficial da Igreja e do Estado proclamavam. O movimento estudantil tinha iniciado uma fase de radicaliza&ccedil;&atilde;o a que a ditadura respondia com cargas policiais, fecho de Faculdades, expuls&atilde;o de estudantes. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Neste contexto, a oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; guerra, como imperativo da f&eacute; em Jesus Cristo, foi fazendo o seu caminho na consci&ecirc;ncia de dirigentes dos movimentos juvenis da ac&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica, em algumas comunidades, em membros das comunidades religiosas, em padres seculares e em outros grupos eclesiais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Mais do que um grupo organizado, o que esteve na base do Caso da Capela do Rato foi a converg&ecirc;ncia de diversas pessoas e grupos mais ou menos informais, marcados por uma solidariedade que j&aacute; tinha sido testada em anteriores ac&ccedil;&otilde;es de distribui&ccedil;&atilde;o de panfletos denunciando a guerra colonial, de circula&ccedil;&atilde;o de livros, textos e informa&ccedil;&atilde;o anticolonial. Rede de rela&ccedil;&otilde;es e solidariedades de que a comunidade a que o Pe. Alberto Neto presidia na Capela do Rato fazia parte. E por isso a iniciativa da vig&iacute;lia pela paz s&oacute; ali foi poss&iacute;vel.<\/span><\/p>\n<p>Jorge Wemans, preso em Caxias na sequ&ecirc;ncia do Caso da Capela do Rato, Director da RTP2<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Wemans, preso em Caxias na sequ\u00eancia do caso da Capela do Rato<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[187,314],"class_list":["post-49742","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-diocese-do-porto","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49742","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49742"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49742\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49742"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49742"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49742"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}