{"id":49740,"date":"2011-02-01T12:07:06","date_gmt":"2011-02-01T12:07:06","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/02\/01\/paulo-vi-rezar-por-todos-em-tempo-de-guerra\/"},"modified":"2011-02-01T12:07:06","modified_gmt":"2011-02-01T12:07:06","slug":"paulo-vi-rezar-por-todos-em-tempo-de-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/paulo-vi-rezar-por-todos-em-tempo-de-guerra\/","title":{"rendered":"Paulo VI: Rezar por todos em tempo de guerra"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Miguel Almeida, historiador <!--more--> <\/p>\n<p>No avi&atilde;o que levava pela primeira vez um Papa a visitar o Santu&aacute;rio de F&aacute;tima, em 1967, um jornalista do di&aacute;rio comunista <em>Paese Sera<\/em> perguntou-lhe: &laquo;Santo Padre, rezar&aacute; tamb&eacute;m pelos povos oprimidos de Angola e Mo&ccedil;ambique?&raquo; &laquo;Por todos&raquo;, respondeu Paulo VI.<\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Este di&aacute;logo, relatado pelo <em>Le Figaro <\/em>e reproduzido no jornal cat&oacute;lico clandestino <em>Direito &agrave; Informa&ccedil;&atilde;o<\/em>, passa despercebido num dos momentos mais delicados nas rela&ccedil;&otilde;es entre o Estado portugu&ecirc;s e o Vaticano, crispadas pela guerra colonial. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">As cautelas tomadas por Paulo VI na visita &#8211; aterra em  Monte Real sem passar em Lisboa, aloja-se na diocese de Leiria em vez de ser hospedado pelo Governo, reza pela paz no mundo, em especial no Vietname &#8211; n&atilde;o impedem o epis&oacute;dio de ser visto como um triunfo diplom&aacute;tico do Estado Novo. Alguns opositores cat&oacute;licos ao regime afastar-se-&atilde;o mesmo da Igreja. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">A tens&atilde;o entre o Estado portugu&ecirc;s e o Vaticano n&atilde;o provinha apenas do facto da quest&atilde;o colonial portuguesa ter levado alguns cat&oacute;licos a oporem-se ao regime, incluindo membros do clero. A inten&ccedil;&atilde;o de <em>aggiornamento<\/em> da Igreja Cat&oacute;lica levava-a a ver, al&eacute;m do nacionalismo de uma ditadura que resistia orgulhosamente s&oacute;, a esperan&ccedil;a de novas gera&ccedil;&otilde;es, africanas e europeias, e de novas din&acirc;micas da pol&iacute;tica internacional. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Em Dezembro de 1960 o padre Joaquim Pinto de Andrade foi preso e a Assembleia-Geral da ONU aprovou, apesar da oposi&ccedil;&atilde;o do Governo portugu&ecirc;s, a resolu&ccedil;&atilde;o 1542 (XV) na qual &eacute; declarado que a nega&ccedil;&atilde;o da autodetermina&ccedil;&atilde;o, tal como a ONU a define, &laquo;constitui uma amea&ccedil;a ao bem-estar da humanidade e &agrave; paz internacional&raquo;. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">A enc&iacute;clica <em>Pacem in Terris<\/em>, publicada em Abril de 1963, teve um cunho de testamento espiritual de Jo&atilde;o XXIII. Uma das frases da enc&iacute;clica era: &laquo;As pessoas de qualquer parte do mundo s&atilde;o hoje cidad&atilde;os de um Estado aut&oacute;nomo e independente ou est&atilde;o para ser&raquo;. A palavra &laquo;independente&raquo; &eacute; cortada na edi&ccedil;&atilde;o oficial do texto em Portugal, na Uni&atilde;o Gr&aacute;fica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">A 11 de Julho de 1963, o novo Papa, Paulo VI recebe o Secret&aacute;rio-Geral das Na&ccedil;&otilde;es Unidas U Thant e a 4 de Outubro desse ano discursa nas Na&ccedil;&otilde;es Unidas, apelando &agrave; paz e ao desarmamento e advertindo contra o colonialismo, para choque do Governo portugu&ecirc;s.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">A viagem de Paulo VI ao Congresso Eucar&iacute;stico de Bombaim, em 1964, foi um momento de alta tens&atilde;o entre o Governo portugu&ecirc;s e o Vaticano, com o Ministro dos Neg&oacute;cios Estrangeiros portugu&ecirc;s, Franco Nogueira, a considerar tal viagem um &laquo;agravo gratuito, in&uacute;til e injusto a Portugal&raquo; por causa da anexa&ccedil;&atilde;o de Goa pela Uni&atilde;o Indiana. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">A visita papal ser&aacute; censurada em Portugal, embora noticiada com &ecirc;xito na imprensa clandestina. O futuro cardeal patriarca D. Ant&oacute;nio Ribeiro &eacute; afastado das fun&ccedil;&otilde;es que exercia na RTP por defender o car&aacute;cter mission&aacute;rio da visita do Papa &agrave; &Iacute;ndia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">A visita de Paulo VI a F&aacute;tima em 1967, que come&ccedil;a a ser negociada em plena crise da visita papal a Bombaim, resulta num ef&eacute;mero triunfo para o governo portugu&ecirc;s. Mas as diverg&ecirc;ncias de fundo subsistiam e ser&atilde;o relatadas dramaticamente pela imprensa internacional quando Paulo VI recebe, a 1 de Julho de 1970, tr&ecirc;s l&iacute;deres de movimentos de liberta&ccedil;&atilde;o africanos: Marcelino dos Santos, de Mo&ccedil;ambique, Agostinho Neto, de Angola, e Am&iacute;lcar Cabral, da Guin&eacute;-Bissau e Cabo Verde. Paulo VI ter-lhes-&aacute; dito &laquo;A Igreja est&aacute; do lado dos pa&iacute;ses que sofrem&raquo; e oferecido a cada um exemplar, em latim e portugu&ecirc;s, da enc&iacute;clica <em>Populorum Progressio<\/em>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">O Governo portugu&ecirc;s protesta e o secret&aacute;rio de Estado da Santa S&eacute; procura minimizar o incidente sublinhando o car&aacute;cter discreto do encontro e que Paulo VI nada dissera que pudesse ofender a Portugal. Estas explica&ccedil;&otilde;es s&atilde;o adaptadas por Marcello Caetano, o qual chega a insinuar que Paulo VI n&atilde;o tivera total consci&ecirc;ncia da identidade dos seus interlocutores. E afirma na televis&atilde;o: &laquo;as rela&ccedil;&otilde;es com a Igreja n&atilde;o chegaram a toldar-se sequer.&raquo;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Tanto os respons&aacute;veis do Estado Novo como a diplomacia vaticana viveram em estado de nega&ccedil;&atilde;o e de minimiza&ccedil;&atilde;o de preju&iacute;zos de um conflito de fundo. Em Portugal subsistia penosamente um regime que se afirmara nos anos 30 sob o signo do imp&eacute;rio colonial e o colapso das democracias liberais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">A Igreja Cat&oacute;lica enveredara por um <em>aggiornamento<\/em> com aspectos contradit&oacute;rios e sujeitos a crises, mas que avan&ccedil;ava no terreno social e pol&iacute;tico. O Estado Novo renunciou, com Marcello Caetano, &agrave; justifica&ccedil;&atilde;o do colonialismo pelo cumprimento de uma miss&atilde;o providencial portuguesa, mas n&atilde;o podia ou n&atilde;o queria descolonizar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">A abertura da Igreja Cat&oacute;lica ao mundo precisava de ultrapassar uma certa vis&atilde;o euroc&ecirc;ntrica para se tornar mais presente noutros continentes. O regime via na guerra colonial uma necessidade, pois a presen&ccedil;a portuguesa em &Aacute;frica era oficialmente indiscut&iacute;vel. A Igreja Cat&oacute;lica declarava que todos os meios deviam ser discutidos e tentados para chegar &agrave; paz, pois, segundo a f&oacute;rmula do tema escolhido por Paulo VI para 1973, &laquo;A paz &eacute; poss&iacute;vel&raquo;.<\/span><\/p>\n<p>Jo&atilde;o Miguel Almeida, historiador, investigador do CEHR<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Miguel Almeida, historiador<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[106,123,272],"class_list":["post-49740","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-angola","tag-cabo-verde","tag-pacem-in-terris"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49740","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49740"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49740\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49740"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49740"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49740"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}