{"id":49722,"date":"2011-01-31T10:37:49","date_gmt":"2011-01-31T10:37:49","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2011\/01\/31\/conferencia-de-d-manuel-clemente-no-encontro-nacional-dos-referentes-da-pastoral-da-cultura\/"},"modified":"2011-01-31T10:37:49","modified_gmt":"2011-01-31T10:37:49","slug":"conferencia-de-d-manuel-clemente-no-encontro-nacional-dos-referentes-da-pastoral-da-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/conferencia-de-d-manuel-clemente-no-encontro-nacional-dos-referentes-da-pastoral-da-cultura\/","title":{"rendered":"Confer\u00eancia de D. Manuel Clemente no Encontro Nacional dos Referentes da Pastoral da Cultura"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fraternidade &ndash; O item n&atilde;o legisl&aacute;vel<\/strong><\/p>\n<p>Do ide&aacute;rio de 1789  a fraternidade ser&aacute; porventura o item mais dif&iacute;cil, porque menos legisl&aacute;vel e certamente mais an&iacute;mico. &Eacute; duma &ldquo;alma&rdquo; nova que se trata, em que nos sintamos realmente pr&oacute;ximos, com a verdade que a palavra &ldquo;irm&atilde;o\/irm&atilde;&rdquo; transporta, enquanto vincula&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima, dispon&iacute;vel e gratuita.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; espont&acirc;nea, a fraternidade, nem pela lei nem pelo esp&iacute;rito. A legisla&ccedil;&atilde;o incidir&aacute; na liberdade c&iacute;vica e na igualdade pol&iacute;tica e social, ao menos no cap&iacute;tulo das oportunidades. Mas ningu&eacute;m nos pode &ldquo;obrigar&rdquo; a sentir o outro como irm&atilde;o, ou a n&oacute;s mesmos como irm&atilde;os dos outros, de todos e de cada um dos outros&hellip;<\/p>\n<p>Em sociedades tradicionais, especialmente nas tocadas pelo cristianismo, as vizinhan&ccedil;as eram espont&acirc;neas e a vida confraternal mais activa e expressiva. A aldeia &ndash; ou a concentra&ccedil;&atilde;o de &ldquo;aldeias&rdquo; que era a cidade emergente &ndash; vivia problemas id&ecirc;nticos em ritmos comuns, com momentos simb&oacute;licos igualmente gerais. Assim se consideravam &ldquo;fregueses&rdquo; (= filhos da mesma igreja) e nalguns lugares at&eacute; &ldquo;irm&atilde;os de pia [baptismal]&rdquo;, porque irmanados num s&oacute; sacramento.<\/p>\n<p>&Eacute; verdade que esta rela&ccedil;&atilde;o essencial convivia com maiores ou menores disparidades na escala social e material. Mas &eacute; tamb&eacute;m verdade que a pr&aacute;tica religiosa habitual lembrava insistentemente a fraternidade sacramental e a universalidade dum ju&iacute;zo final e iminente para ricos e pobres, nobres e plebeus, cl&eacute;rigos e leigos. Como igualmente se exortava &agrave; concretiza&ccedil;&atilde;o orante e caridosa da fraternidade, por sufr&aacute;gios e esmolas.<\/p>\n<p>O grande movimento confraternal que se desenvolveu na Europa, da Idade M&eacute;dia para a Moderna, assinala fortemente tudo isso: confrarias, irmandades, Miseric&oacute;rdias&hellip; O tra&ccedil;o comum foi o duma fraternidade &ldquo;ideal&rdquo;, que n&atilde;o desistia de concretiza&ccedil;&otilde;es pr&aacute;ticas e mobilizadoras, inclusive no campo cultural e art&iacute;stico. A&iacute; podemos encontrar at&eacute; uma das radica&ccedil;&otilde;es mais certas das actuais democracias, que nem sempre conseguiram manter o &acirc;nimo fraternal e crist&atilde;o que lhes assegurou as origens.<\/p>\n<p>Por outro lado, a evolu&ccedil;&atilde;o comercial, industrial e citadina da Europa contempor&acirc;nea dificilmente conseguiu e consegue manter as proximidades efectivas e afectivas da sociedade antiga. Bem pelo contr&aacute;rio, verificamos que quanto mais cont&iacute;guos, habitacional ou laboralmente, tamb&eacute;m mais amb&iacute;guos nos manifestamos, na discrep&acirc;ncia flagrante entre a &ldquo;fraternidade&rdquo; ideologicamente enunciada e a pouca em que realmente (con)vivemos, por falta de motiva&ccedil;&atilde;o religiosa ou filantr&oacute;pica. &Eacute; o caso t&atilde;o verificado de a habita&ccedil;&atilde;o em pequenos &ldquo;fogos&rdquo; de grandes pr&eacute;dios proporcionar menos vizinhan&ccedil;a real do que a habita&ccedil;&atilde;o em casas apartadas da mesma rua ou bairro. A proximidade for&ccedil;ada ou for&ccedil;osa desperta mais o auto-fechamento, zeloso da sua intimidade, do que predisp&otilde;e &agrave; conversa da rua ou pra&ccedil;a comum, de quem se sente seguro de si e dos seus.<\/p>\n<p>Concomitantemente, o trabalho de cada um, em lugares sucessivos e dependente de factores mut&aacute;veis, mais ocasiona individualismo e concorr&ecirc;ncia do que solidariedades fraternas. N&atilde;o foi por acaso que a Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa, t&atilde;o fixada na auto-disponibilidade burguesa, cedo extinguiu as antigas corpora&ccedil;&otilde;es de art&iacute;fices&#8230; As associa&ccedil;&otilde;es oper&aacute;rias ou patronais que vieram depois expressam outra l&oacute;gica, de defesa de grupo e &ldquo;fraternidades&rdquo; sectoriais e contrapostas. Hoje talvez nem isso, dada a maior mobilidade social e a muito maior individualiza&ccedil;&atilde;o dos percursos, al&eacute;m da rarefac&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica pr&oacute;pria da p&oacute;s-modernidade.<\/p>\n<p>Aqui nos situamos, se &eacute; que de &ldquo;situa&ccedil;&atilde;o&rdquo; se pode falar em terreno t&atilde;o resvaladi&ccedil;o. Para quem n&atilde;o desista de inspirar crist&atilde;mente a cultura, o desafio redobra com as actuais fracturas, que s&oacute; nos abrem a &ldquo;fraternidades&rdquo; de escolha e particular&iacute;ssima escolha, parecendo insan&aacute;vel a ruptura entre as antigas solidariedades pr&eacute;vias e as actuais solidariedades de escolha, tendendo estas a serem sucessivas, discrepantes e restritas. Para &ldquo;outra margem&rdquo; passa-nos Jesus de Nazar&eacute;, come&ccedil;ando com um pequeno grupo, em que podiam coexistir publicanos (Mateus) e zelotas (Sim&atilde;o); uma fraternidade t&atilde;o universal como &uacute;nica &eacute; a origem de n&oacute;s todos, relativizando consequentemente tudo quanto a possa obnubilar: &ldquo;Quanto a v&oacute;s, n&atilde;o vos deixeis tratar por &lsquo;Mestres&rsquo;, pois um s&oacute; &eacute; o vosso Mestre, e v&oacute;s sois todos irm&atilde;os&rdquo; (Mt 23, 8).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em termos mais conclusivos e pr&aacute;ticos, poderemos insistir numa pastoral assim &ldquo;cultivada&rdquo;:<\/p>\n<p>1) Na consciencializa&ccedil;&atilde;o da raiz religiosa da fraternidade, com grande incid&ecirc;ncia ecum&eacute;nica (unidade da cria&ccedil;&atilde;o). No que ao cristianismo respeita, evidenciar a absoluta fraternidade das atitudes e palavras de Cristo: &ldquo;Ouvistes o que foi dito: &lsquo;Amar&aacute;s o teu pr&oacute;ximo e odiar&aacute;s o teu inimigo&rsquo;. Eu, por&eacute;m, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que est&aacute; no C&eacute;u, pois Ele faz com que o sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores. [&hellip;] Portanto, sede perfeitos como &eacute; perfeito o vosso Pai celeste&rdquo; (Mt 5, 43-45.48). E no reconhecimento da origem e converg&ecirc;ncia de todo o bem que se fa&ccedil;a, seja quem for, seja a quem for: &ldquo;Jo&atilde;o tomou a palavra e disse: &lsquo;Mestre, vimos algu&eacute;m expulsar dem&oacute;nios em teu nome e impedimo-lo, porque ele n&atilde;o te segue juntamente connosco&rsquo;. Jesus disse-lhe: &lsquo;N&atilde;o o impe&ccedil;ais, pois quem n&atilde;o &eacute; contra v&oacute;s &eacute; por v&oacute;s&rsquo;&rdquo; (Lc 9, 49-50).<\/p>\n<p>2) No mais l&iacute;dimo esp&iacute;rito crist&atilde;o e franciscano &ndash; da &ldquo;Galileia dos gentios&rdquo; &agrave;s bodas de prata do &ldquo;esp&iacute;rito de Assis&rdquo; (1986 ss) &ndash; participar e colaborar em tudo o que aproxime grupos, povos e cren&ccedil;as, com incid&ecirc;ncia humanista, e ultrapasse antigas e actuais manifesta&ccedil;&otilde;es de segrega&ccedil;&atilde;o, desconfian&ccedil;a e m&uacute;tuo alheamento. Podendo come&ccedil;ar pelas nossas pr&oacute;prias comunidades, na valoriza&ccedil;&atilde;o da contribui&ccedil;&atilde;o diferenciada de cada um dos seus membros e grupos, segundo os respectivos carismas, a bem do todo.<\/p>\n<p>3) No campo das &ldquo;artes e letras&rdquo;, incidir particularmente em tudo quanto manifeste a unidade de origem e destino da nossa humanidade comum, t&atilde;o expressa na bondade, verdade e beleza essenciais: &ldquo;De resto, irm&atilde;os, tudo o que &eacute; verdadeiro, tudo o que &eacute; nobre, tudo o que &eacute; justo, tudo o que &eacute; puro, tudo o que &eacute; am&aacute;vel, tudo o que &eacute; respeit&aacute;vel, tudo o que possa ser virtude e mere&ccedil;a louvor, tendo isso em mente. [&hellip;] Ent&atilde;o, o Deus da paz estar&aacute; convosco&rdquo; (Fl 4, 8-9).<\/p>\n<p>F&aacute;tima, 29 de Janeiro de 2011<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Manuel Clemente<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fraternidade &ndash; O item n&atilde;o legisl&aacute;vel Do ide&aacute;rio de 1789 a fraternidade ser&aacute; porventura o item mais dif&iacute;cil, porque menos legisl&aacute;vel e certamente mais an&iacute;mico. &Eacute; duma &ldquo;alma&rdquo; nova que se trata, em que nos sintamos realmente pr&oacute;ximos, com a verdade que a palavra &ldquo;irm&atilde;o\/irm&atilde;&rdquo; transporta, enquanto vincula&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima, dispon&iacute;vel e gratuita. 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