{"id":4967,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/jesus-e-o-filho-de-deus\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"jesus-e-o-filho-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/jesus-e-o-filho-de-deus\/","title":{"rendered":"Jesus \u00e9 o filho de Deus"},"content":{"rendered":"<p>2\u00aa Catequese Quaresmal de D. Jos\u00e9 Policarpo <!--more--> S\u00e9 Patriarcal, 7 de Mar\u00e7o de 2004   1. Evangelizar \u00e9 dar testemunho acerca de Jesus Cristo. O cristianismo \u00e9 uma f\u00e9 religiosa, ou seja, uma manifesta\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do homem com Deus. N\u00e3o h\u00e1 verdadeira religi\u00e3o sem f\u00e9 em Deus. Mas o car\u00e1cter espec\u00edfico do cristianismo \u00e9 o facto de o homem viver a sua rela\u00e7\u00e3o com Deus na sua rela\u00e7\u00e3o com Jesus Cristo, um homem como n\u00f3s e Filho de Deus. Reconhecer em Jesus o Deus Vivo, porque Filho de Deus Pai, \u00e9 o elemento decisivo da f\u00e9 crist\u00e3. N\u00e3o preciso de procurar Deus por outros caminhos; Ele \u00e9 o caminho. Segu\u00ed-Lo como disc\u00edpulo \u00e9 percorrer, com Ele, o caminho que me leva a Deus; am\u00e1-Lo \u00e9 fazer a experi\u00eancia insond\u00e1vel do amor divino; comungar da Sua experi\u00eancia de Filho de Deus, \u00e9 descobrir Deus como um Pai, deixar que Ele me conduza \u00e0 intimidade da comunh\u00e3o trinit\u00e1ria; aceitar o seu desafio de amar os outros como Ele os ama, \u00e9 descobrir que o amor a Deus nos conduz \u00e0 fraternidade crist\u00e3, como comunh\u00e3o de amor. Jesus Cristo basta-nos: podemos unir-nos a Ele como nosso irm\u00e3o, e ser por Ele introduzidos no mist\u00e9rio da intimidade de Deus, de que Ele nos d\u00e1 testemunho como Filho. Jesus Cristo \u00e9 um caminho pr\u00f3prio para encontrar Deus: Ele s\u00f3 \u00e9 resposta para quem procura Deus; devemos receber o seu testemunho de intimidade com o Pai, e descobrir a Igreja como uma comunh\u00e3o de filhos de Deus, \u201cfilhos no Filho\u201d e perceber que esse dom da filia\u00e7\u00e3o divina \u00e9 o mais maravilhoso fruto da reden\u00e7\u00e3o.  Ir ao encontro de Deus com Jesus Cristo 2. Deus \u00e9 uma inquieta\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do cora\u00e7\u00e3o humano, mesmo quando n\u00e3o se lhe d\u00e1 express\u00e3o no concreto da vida ou at\u00e9 se afirma n\u00e3o acreditar n\u2019Ele. N\u00f3s sabemos a origem dessa inquieta\u00e7\u00e3o: foi Deus que nos criou, recebemos d\u2019Ele a vida, e esta clama pelo seu regresso \u00e0 fonte, \u00e0 Vida que nos deu vida. Fizeste-nos para V\u00f3s e o nosso cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 inquieto enquanto n\u00e3o repousar em V\u00f3s, escrevia Santo Agostinho. Jesus Cristo \u00e9 a resposta para aqueles que buscam saciar essa inquieta\u00e7\u00e3o. Caminho para a vida, s\u00f3 interessa a quem busca a plenitude da vida. Que poder\u00e1 este an\u00fancio significar, no nosso tempo e na nossa cidade? As inquieta\u00e7\u00f5es religiosas do nosso tempo s\u00e3o diversas das do s\u00e9culo I em que apareceu o cristianismo. Ent\u00e3o a busca de Deus era expl\u00edcita, tanto para os judeus como para os n\u00e3o judeus, profundamente religiosos na variedade dos deuses que adoravam. Os judeus buscam Deus atrav\u00e9s da Lei e dos Profetas e de uma religi\u00e3o fortemente institucionalizada; os pag\u00e3os, na proximidade dos seus \u201cdeuses\u201d, cuja concep\u00e7\u00e3o situava a divindade muito pr\u00f3xima da realidade humana. Nessa variedade de caminhos para Deus, Jesus Cristo aparece como o caminho. Aos judeus S\u00e3o Paulo diz que a Lei \u00e9 impotente para os levar \u00e0 intimidade com Deus e que s\u00f3 a f\u00e9 em Jesus Cristo realizar\u00e1 neles esse anseio. E aos n\u00e3o judeus, Paulo anuncia Jesus Cristo, como o Deus desconhecido que eles procuram na sua profunda religiosidade (cf. Act. 17,22 e ss). A todos o Ap\u00f3stolo convida a irem ao encontro de Deus, com Jesus Cristo. Mas o que significa, hoje, na nossa cidade, esta procura de Deus? A quem poder\u00e1 interessar Jesus Cristo como caminho e como resposta? Esta dimens\u00e3o antropol\u00f3gica universal adquire, hoje, contornos e manifesta\u00e7\u00f5es diferentes. Num pa\u00eds de tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, onde a maioria dos cidad\u00e3os continuam a afirmar-se cat\u00f3licos, a busca de Deus est\u00e1 ligada a essa tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Mas isso n\u00e3o significa que todos os baptizados tenham percebido que \u00e9 em Jesus Cristo, Filho de Deus, que encontrar\u00e3o Deus. Mesmo para os crist\u00e3os \u00e9 urgente um an\u00fancio de Jesus Cristo, Deus, porque Filho de Deus, \u00fanico caminho para o Pai. Para muitos crist\u00e3os a rela\u00e7\u00e3o viva com Jesus Cristo vivo, de modo a gerar intimidade e compromisso, \u00e9 d\u00e9bil ou mesmo nula. Exprimem a sua religiosidade em pr\u00e1ticas e devo\u00e7\u00f5es que n\u00e3o t\u00eam, necessariamente, a densidade de uma comunh\u00e3o de vida e de amor com o Senhor ressuscitado. Outros acreditam que encontrar\u00e3o Deus atrav\u00e9s de uma concentra\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito, esp\u00e9cie de medita\u00e7\u00e3o transcendental e s\u00e3o vulner\u00e1veis \u00e0s diversas propostas de religi\u00f5es alternativas. Mas h\u00e1 muitos que ca\u00edram numa esp\u00e9cie de ate\u00edsmo pr\u00e1tico ou indiferen\u00e7a religiosa; outros lutam por uma laicidade da cultura e fazem do agnosticismo a sua confiss\u00e3o de f\u00e9. Mas mesmo esses podem sentir, de vez em quando, \u201csaudades de Deus\u201d, expressas numa inquieta\u00e7\u00e3o interior, numa \u00e2nsia de perfei\u00e7\u00e3o, numa busca de valores exigentes ou mesmo em d\u00favidas e interroga\u00e7\u00f5es sem resposta. Para anunciar Jesus Cristo, Filho de Deus, \u00e9 preciso pressentir e saber identificar essas inquieta\u00e7\u00f5es que podem ser busca de Deus. \u00c9 que Jesus Cristo s\u00f3 \u00e9 verdadeiramente resposta para quem procura Deus, embora possa acontecer que se encontre Deus, encontrando-O a Ele. O an\u00fancio de Jesus Cristo a esses irm\u00e3os nossos tem de ter a for\u00e7a de um testemunho, isto \u00e9, eles t\u00eam de sentir a verdade de Jesus Cristo a partir do lugar que Ele tem na nossa vida de crentes enquanto peregrinos de Deus.  Jesus Cristo \u00e9 um caminho humano para chegar ao Deus transcendente 3. Jesus Cristo \u00e9 um caminho simples e acess\u00edvel para todos os que buscam Deus, porque \u00e9 um caminho humano; a Sua palavra \u00e9 uma palavra humana, o amor a que nos convida \u00e9 um amor humano, que n\u2019Ele tem a densidade do amor absoluto, que vive na intimidade do seu amor filial com Deus Pai. Amando Jesus Cristo, n\u00f3s experimentamos que o amor \u00e9 um s\u00f3, que n\u00e3o h\u00e1 uma fronteira intranspon\u00edvel entre o amor humano e o amor divino. Caminho ao nosso alcance! O evangelista S\u00e3o Jo\u00e3o exprime esta especificidade do caminho crist\u00e3o para chegar a Deus, logo no in\u00edcio do seu Evangelho: \u201cNunca ningu\u00e9m viu Deus; o Filho \u00danico que est\u00e1 no seio do Pai deu-O a conhecer\u201d (Jo. 1,18). E na primeira Carta volta a acentuar esta perspectiva fundamental do caminho crist\u00e3o: \u201cDeus nunca ningu\u00e9m O contemplou (\u2026) mas n\u00f3s contempl\u00e1mos e atestamos que o Pai enviou o Seu Filho, o Salvador do Mundo\u201d (1Jo. 4,12.14). A mensagem de S\u00e3o Jo\u00e3o \u00e9 esta: quem acredita que Jesus \u00e9 o Filho de Deus, nunca mais poder\u00e1 dizer que n\u00e3o viu a Deus, porque Deus est\u00e1 ao nosso alcance, em Jesus Cristo. E esse \u00e9 o testemunho que podemos dar a todos os que procuram Deus. \u201cO que existia desde o princ\u00edpio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contempl\u00e1mos e as nossas m\u00e3os tocaram relativamente ao Verbo da Vida (\u2026) o que n\u00f3s vimos e ouvimos, isso vos anunciamos\u201d (1Jo. 1,1-3). Esta encarna\u00e7\u00e3o do Filho eterno de Deus, o Seu Verbo, tornando Deus pr\u00f3ximo do homem, \u00e9 o grande an\u00fancio do Evangelho: \u201cE o Verbo fez-se carne e habitou entre n\u00f3s, e n\u00f3s vimos a Sua gl\u00f3ria, gl\u00f3ria que possui como Filho Unig\u00e9nito do Pai, cheio de gra\u00e7a e de verdade\u201d (Jo. 1,14). Mas S\u00e3o Jo\u00e3o foi contempor\u00e2neo de Jesus, conheceu-O pessoalmente, conviveu com Ele, tocou-O porque reclinava a cabe\u00e7a no Seu peito, acompanhou-O at\u00e9 \u00e0 Cruz e foi testemunha da ressurrei\u00e7\u00e3o. E n\u00f3s, que vivemos dois mil anos depois? Podemos continuar a dizer que O conhecemos, que O toc\u00e1mos, que sentimos no calor do Seu amor a ternura do amor de Deus Pai? Esta presen\u00e7a humana de Deus, em Jesus Cristo continua vis\u00edvel e sens\u00edvel para n\u00f3s, ou a dist\u00e2ncia do tempo tornou Jesus Cristo invis\u00edvel e intoc\u00e1vel, como Deus \u00e9 invis\u00edvel? Aqui entra a for\u00e7a existencial da f\u00e9, que proporciona a actualidade de Jesus Cristo para os que acreditam n\u2019Ele. E isso \u00e9 poss\u00edvel porque Ele ressuscitou dos mortos e tornou-se vivo, para n\u00f3s e no meio de n\u00f3s, para sempre. A ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo garante a sua actualidade como presen\u00e7a f\u00edsica de Deus, vencendo as regras da dura\u00e7\u00e3o e do tempo, porque n\u2019Ele o tempo tocou a eternidade. O pr\u00f3prio Jesus ressuscitado afirma esta perenidade da f\u00e9 como caminho que permitir\u00e1 a todos, em todos os tempos, unirem-se a Ele. A S\u00e3o Tom\u00e9, o Ap\u00f3stolo \u201cincr\u00e9dulo\u201d, Jesus responde: \u201cPorque Me viste, acreditaste. Felizes aqueles que h\u00e3o-de acreditar sem terem visto\u201d (Jo. 20,29). Acreditar em Jesus Cristo ressuscitado, o Filho do Deus eterno, \u00e9 muito mais do que aceitar uma afirma\u00e7\u00e3o; \u00e9 criar uma uni\u00e3o pessoal a esse Cristo Vivo, que o pode tornar t\u00e3o concreto e t\u00e3o vivo nas nossas vidas, como Ele o foi na vida dos ap\u00f3stolos e primeiros disc\u00edpulos, embora de outra maneira. Esta actualidade de Jesus Cristo, na nossa vida, \u00e9 garantida por via sacramental, na Igreja. N\u00e3o foi por acaso que o Senhor se identificou com a Igreja; na Igreja eu posso sempre ver, tocar, escutar, sentir Jesus Cristo. Unidos a Ele, para a eternidade, desde o baptismo, convivemos com Ele na Eucaristia, na adora\u00e7\u00e3o, na escuta da Palavra, no amor fraterno. \u00c9 nesses momentos de verdade, que n\u00f3s vivemos na humildade e no realismo da f\u00e9, que Jesus cristo continua a conduzir-nos ao Pai, no seio da comunh\u00e3o trinit\u00e1ria. Continuemos a escutar o testemunho do Ap\u00f3stolo S\u00e3o Jo\u00e3o: \u201cO que n\u00f3s vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que tamb\u00e9m v\u00f3s estejais em comunh\u00e3o connosco. E n\u00f3s estamos em comunh\u00e3o com o Pai e com o Seu Filho Jesus Cristo\u201d (1Jo. 1,3).  Escutar o cora\u00e7\u00e3o filial de Jesus Cristo 4. Nesta actualidade de Jesus Cristo, que nos \u00e9 garantida pela f\u00e9, n\u00f3s podemos escutar sempre, para participar neles, os sentimentos filiais de Jesus Cristo para com Deus Seu Pai. E como Filho, na perenidade eterna da sua rela\u00e7\u00e3o filial com Deus, Ele ensina-nos a descobrir Deus como Pai e a sentirmo-nos filhos seus. O que de mais precioso podemos aprender de Jesus Cristo, \u00e9 a profundidade dos seus sentimentos filiais para com Deus. \tNa sua vida terrena Jesus manifesta claramente esta sua intimidade com Deus: \u201cO pai e Eu somos um s\u00f3\u201d (Jo. 10,30). Jesus sabe-se enviado por Deus. Os fariseus n\u00e3o conhecem esse Deus que O enviou. Mas Ele reconhece-o: \u201cEu conhe\u00e7o-O, porque venho de junto d\u2019Ele e foi Ele que Me enviou\u201d (Jo. 7,29). Ele sabe que o Pai \u00e9 a Sua for\u00e7a, tudo o que Jesus faz, f\u00e1-lo em nome de Deus e com a for\u00e7a de Deus. Sente-se amado por Deus: \u201cO Pai ama o Filho e mostra-lhe tudo o que faz\u201d (Jo. 5,19-20). Jesus considera-se, apenas, a testemunha aut\u00eantica do amor infinito de Deus Pai pelos homens. Perante o crescimento do Reino, Jesus glorifica o Pai: \u201cBendigo-te, \u00f3 Pai, Senhor do C\u00e9u e da Terra, porque escondeste estas coisas aos s\u00e1bios e aos entendidos e as revelastes aos pequeninos. Sim, \u00f3 Pai, porque isso foi do Teu agrado. Tudo me foi entregue por Meu Pai; e ningu\u00e9m conhece o Filho sen\u00e3o o Pai, como ningu\u00e9m conhece o Pai sen\u00e3o o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar\u201d (Mt. 11,25-27). \u00c9 a n\u00f3s que o Senhor quer revelar essa intimidade do seu cora\u00e7\u00e3o filial. E essa revela\u00e7\u00e3o Ele f\u00e1-la pelos caminhos insond\u00e1veis da f\u00e9 e do amor. Nessa intimidade aprendemos com Ele quem \u00e9 Deus; \u201cser\u00e3o todos ensinados por Deus\u201d. O pr\u00f3prio Deus nos conduzir\u00e1 \u00e0 intimidade com Jesus Cristo. \u201cNingu\u00e9m vem a Mim se o Pai, que Me enviou, n\u00e3o O atrair\u201d (Jo. 6,44-45). \u00c9 na Eucaristia, celebrada e adorada, que podemos escutar, em cada momento, a fidelidade do Filho em rela\u00e7\u00e3o a Deus, Seu Pai. A obedi\u00eancia filial, manifestada dramaticamente no Jardim das Oliveiras, actualiza-se em cada Eucaristia. Em Gets\u00e9mani Jesus rezou assim: \u201cAbba (Pai)! Tudo Te \u00e9 poss\u00edvel; afasta de Mim este c\u00e1lice; no entanto fa\u00e7a-se o que Tu queres e n\u00e3o o que Eu quero\u201d (Mc. 14,36). Na Eucaristia aprendemos que toda a exig\u00eancia da nossa vida crist\u00e3 \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o de uma obedi\u00eancia fiel \u00e0 vontade de Deus, nosso Pai. \u00c9 escutando Jesus, a\u00ed, no momento radical do Seu amor filial que n\u00f3s penetraremos, a pouco e pouco, no insond\u00e1vel mist\u00e9rio de Deus e do Seu des\u00edgnio.  Aprender com Jesus Cristo a ter um cora\u00e7\u00e3o de filho 5. Jesus torna Deus mais pr\u00f3ximo e acess\u00edvel. E essa proximidade proporciona aos homens criarem intimidade com Deus, pois esse \u00e9 tamb\u00e9m o grande desejo de Deus, que levou a que o seu pr\u00f3prio Filho encarnasse e se fizesse homem. Ao revelar-nos a sua intimidade filial com Deus Pai, Cristo abre-nos as portas \u00e0 filia\u00e7\u00e3o divina, onde experimentaremos, tamb\u00e9m n\u00f3s, essa intimidade filial com Deus. Ou\u00e7amos, ainda, o testemunho do Ap\u00f3stolo S\u00e3o Jo\u00e3o: \u201cA quantos O receberam, aos que n\u2019Ele cr\u00eaem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus\u201d (Jo. 1,12). Esta \u00e9 a grande surpresa existencial da f\u00e9 crist\u00e3: ao sentirmo-nos filhos de Deus, tudo muda na nossa vida. \u00c9 como se nasc\u00eassemos de novo, como se uma vida nova nos fosse dada, participa\u00e7\u00e3o da vida nova do Ressuscitado. Esse \u00e9 o testemunho de Deus acerca de seu Filho: \u201cDeus deu-nos a vida eterna e esta vida est\u00e1 no seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida, quem n\u00e3o tem o Filho n\u00e3o tem a vida\u201d (1Jo. 5,11-12). A verdadeira f\u00e9 \u00e9 vida, fonte de vida. A express\u00e3o \u201cvida da f\u00e9\u201d ganha uma grande densidade, pois sem anular a nossa realidade humana, sobretudo a realidade corp\u00f3rea, d\u00e1-lhe uma liberdade e uma dignidade inauditas. \u00c9 o testemunho de Paulo na Carta aos G\u00e1latas: \u201cmorri para a Lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo. J\u00e1 n\u00e3o sou eu que vivo, mas \u00e9 Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na f\u00e9 do Filho de Deus que me amou e a si Mesmo se entregou por mim\u201d (Gal. 2,19-20). Ao sentirmos, no mais \u00edntimo do nosso cora\u00e7\u00e3o, que somos filhos de Deus, percebemos melhor Jesus, na Sua qualidade de Filho, sentimo-nos unidos e semelhantes a Ele nesse cora\u00e7\u00e3o filial e louvamos o Senhor por nos ter dado, na encarna\u00e7\u00e3o, a proximidade com o Seu pr\u00f3prio Filho. Ent\u00e3o sentimos o que \u00e9 ter sido redimidos, o que \u00e9 ser continuamente redimido, pois a reden\u00e7\u00e3o \u00e9 uma ac\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do Esp\u00edrito de Jesus em n\u00f3s, vencendo a for\u00e7a do pecado. Esta experi\u00eancia filial \u00e9 dom gratuito, pois a nossa natureza humana, marcada pelo pecado, nunca se abriria espontaneamente a essa novidade inaudita de nos sentirmos filhos de Deus. \u00c9 o que diz S\u00e3o Paulo aos Romanos: \u201cDe facto, coisa imposs\u00edvel \u00e0 Lei, que a carne tornara impotente, Deus, ao enviar-nos o Seu pr\u00f3prio Filho, com uma carne semelhante \u00e0 do pecado e por causa do pecado, condenou o pecado na carne, para que a justi\u00e7a da Lei se realizasse em n\u00f3s, cuja conduta n\u00e3o obedece \u00e0 carne, mas ao esp\u00edrito\u201d (Rom. 8,3-4).  6. A experi\u00eancia da filia\u00e7\u00e3o divina \u00e9 a dimens\u00e3o mais jubilosa da nossa exist\u00eancia crist\u00e3. Fonte de alegria, leva-nos \u00e0 caridade e nela encontramos a for\u00e7a para vencer todas as dificuldades que o disc\u00edpulo encontra no seu caminho. O nosso testemunho dessa experi\u00eancia \u00e9 tamb\u00e9m jubiloso e torna-se, necessariamente, um testemunho acerca de Jesus Cristo, Filho de Deus.   \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca   Na ousadia de facilitar a leitura do texto, uma refer\u00eancia aos diferentes pontos:  1. Trata-se duma Catequese centrada na pessoa de Jesus Cristo. A rela\u00e7\u00e3o do homem com Deus atrav\u00e9s de quem, sendo Deus, tamb\u00e9m \u00e9 homem, Jesus Cristo, constitui o car\u00e1cter espec\u00edfico do Cristianismo. O Cristianismo n\u00e3o \u00e9 uma religi\u00e3o que reconhece o transcendente, distante, separado da pessoa humana  2. Fazendo uma refer\u00eancia impl\u00edcita ao Congresso da Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o que se prepara para Lisboa em 2005, o texto levanta a quest\u00e3o de saber o que significa para os habitantes da grande cidade essa religi\u00e3o centrada em Jesus Cristo\u2026 Segue-se ent\u00e3o o elenco das diversas categorias de crentes que povoam Lisboa, pedindo, cada uma delas, formas adequadas de lhes ser anunciado Jesus Cristo.  3. A densidade humana da Pessoa, da Palavra e da Ac\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo credita-O como o \u201ccaminho simples e acess\u00edvel para todos os que buscam Deus, porque \u00e9 um caminho humano.\u201d  4. De forma acess\u00edvel e testemunhante, Jesus Cristo revela-se o mestre e pedagogo experimentado na rela\u00e7\u00e3o pessoal e \u00edntima com Deus: revela a sua intimidade, a mais profunda.  5\/6. A projec\u00e7\u00e3o de toda essa viv\u00eancia naqueles que seguem Jesus Cristo, torna presentes e actuantes na vida social de hoje, homens e mulheres que, testemunhando a f\u00e9, transformam a sociedade. N\u00e3o de forma subjugada, mas no j\u00fablico e na esperan\u00e7a. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>2\u00aa Catequese Quaresmal de D. 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